 Querido John

Nicolas Sparks

Sinopse: Um rebelde raivoso, John deixou a escola e se alistou no exrcito, no sabendo o que mais
fazer com a sua vida--at que ele encontra a garota dos seus sonhos, Savannah. Sua atrao mtua 
cresce rapidamente e se transfoma no tipo de amor que deixa Savannah esperando que John termine 
suas obrigaoes, e John querendo se acalmar com a mulher que capturou seu corao. Mas o 11 de 
setembro muda tudo. John sente que  seu dever se realistar. E lamentavelmente, durante a longa 
separao Savannah se apaixona por outra pessoa. "Querido John," a carta dizia... e com essas duas 
palavras um corao foi quebrado e duas vidas foram mudadas para sempre. De volta pra casa, John 
deve lidar com o fato de que Savannah, agora casada, ainda  o seu amor verdadeiro-e encarar a 
deciso mais difcil da sua vida. 

 Crditos a comunidade Tradues de Livros 
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Prlogo 

Lenoir, 2006 

O que significa amar verdadeiramente outra pessoa? 

Havia um tempo na minha vida em que eu pensava que realmente sabia a resposta: significava que 
eu me importava com Savannah mais profundamente do que eu me importava comigo mesmo e que 
ns iramos passar o resto das nossas vidas juntos. No teria sido preciso muito. Uma vez ela me 
contou que a chave para a felicidade era sonhos alcanveis, e que os dela no eram nada fora do 
comum. Casamento, famlia... o bsico. Significava que eu teria um emprego fixo, a casa com a 
cerca branca, e uma minivan ou um SUV* grande o bastante para levar nossas crianas  escola, ou 
ao dentista, ou ao treino de futebol ou aos recitais de piano. Duas ou trs crianas, ela nunca foi 
clara quanto  isso, mas o meu palpite  que quando o tempo viesse, ela teria sugerido que ns 
deixssemos a natureza seguir seu curso e deixar que Deus tomasse a deciso. Ela era assim-
religiosa, eu quero dizer-e eu acho que isso foi parte da razo que eu me apaixonei por ela. Mas no 
importa o que estivesse acontecendo nas nossas vidas, eu podia me imaginar deitado ao lado dela na 
cama no fim do dia, abraando-a enquanto ns conversvamos e ramos, perdidos nos braos um do 
outro. 

No soa to irreal, certo? Quando duas pessoas se amam? Isso era o que eu pensava tambm. E 
enquanto uma parte de mim ainda quer acreditar que  possvel, eu sei que no vai acontecer. 
Quando eu for embora de novo, eu nunca vou voltar. 
*Tipo de carro grande. 


Por enquanto, no entanto, sentarei na encosta da colina espiando a fazenda dela e espararei ela 
aparecer. Ela no poder me ver,  claro. No exrcito, voc aprende a se camuflar nos seus 
arredores, e eu aprendi bem, porque eu no tinha nenhum desejo de morrer em algum depsito de 
lixo estrangeiro no meio do deserto do Iraque. Mas eu tinha que voltar para essa pequena cidade 
montanhosa da Carolina do Norte para descobrir o que aconteceu. Quando uma pessoa coloca 
alguma coisa em movimento, h um sentimento de mal-estar, quase arrependimento, at voc 
descobrir a verdade. 

Mas disso eu estou certo: Savannah nunca saber que eu estou aqui hoje. 

Uma parte de mim di s com o pensamento de ela estar to perto e ainda assim to intocvel, mas 
a histria dela e a minha so diferentes agora. No foi fcil pra mim aceitar essa simples verdade, 
porque houve um tempo em que nossas histrias eram as mesmas, mas isso foi h seis anos e duas 
vidas atrs. H lembranas para ns dois,  claro, mas eu aprendi que as memrias podem ter uma 
presena fsica, quase viva, e nisso, Savannah e eu somos diferentes tambm. Se as dela so as 
estrelas no cu da noite, as minhas so os espaos vazios entre elas. E diferente dela, eu tenho sido 
sobrecarregado com perguntas que eu tenho feito a mim mesmo mil vezes desde a ltima vez que 
ns estivemos juntos. Por que eu fiz o que fiz? E eu faria de novo? Fui eu, voc sabe, quem acabou 
tudo. 

Nas rvores ao meu redor, as folhas esto s comeando a lentamente mudar pra cor de fogo, 
reluzindo enquanto o sol espia sobre o horizonte. Os pssaros comearam seus cnticos matinais, e 

o ar est perfumado com o aroma de pinho e terra; diferente do aroma de mar e sal da minha cidade 
natal. Logo, a porta da frente se abre, e  a que eu a vejo. Apesar da distncia entre ns, eu me pego 
prendendo a respirao enquanto ela caminha em direo ao amanhecer. Ela se espreguia descendo 
os degraus da frente e segue para o outro lado. Alm dela, o pasto dos cavalos brilha como um 
oceano verde, e ela passa pelo porto que leva at ele. Um cavalo solta um cumprimento, assim 
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como outro, e meu primeiro pensamento  que Savannah parece muito pequena para estar se 
movendo to facilmente entre eles. Mas ela sempre foi confortvel com cavalos, e eles eram 
confortveis com ela. Meia dzia deles mordiscam a grama perto da estaca da cerca, e Midas, o 
Arabian whitesocked* dela dispara para um lado. Eu cavalguei com ela uma vez, felizmente sem 
danos, e eu estava me segurando como podia, lembro de pensar que ela parecia to relaxada na sela 
que poderia estar assistindo televiso. Savannah leva um tempo pra cumprimentar Midas agora. Ela 
esfrega o nariz dele enquanto murmura algo, d tapinhas nas coxas dele, e quando se vira, ele 
empina as orelhas enquanto ela segue em direo ao celeiro. 

*Raa de cavalo. 

Ela desaparece, ento emerge mais uma vez, carregando dois sacos-gros de aveia, eu acho. Ela 
segura os sacos em cima de duas estacas da cerca, e alguns dos cavalos trotam em direo a elas. 
Quando ela d um passo atrs para dar espao, eu vejo seu cabelo esvoaar na brisa antes que ela 
pegue uma sela e um freio. Enquanto Midas come, ela o prepara para a corrida, e alguns minutos 
depois ela o est guiando para fora do pasto, em direao s trilhas da floresta, com a mesma 
aparncia que ela tinha seis anos atrs. Eu sei que no  verdade-a vi de perto ano passado e notei as 
primeiras linhas finas comeando a se formar ao redor dos seus olhos-mas o prisma pelo qual eu a 
enxergo permanece pra mim inalterado. Para mim, ela sempre ter 21 anos e eu sempre terei 23. 
Minha estao fica na Alemanha; eu ainda tenho que ir  Fallujah ou a Bagd ou receber a carta 
dela, que eu li na estao da estrada de ferro de Samawah nas primeiras semanas da minha 
campanha; eu ainda tenho que voltar pra casa depois dos eventos que mudaram o curso da minha 
vida. 

Agora, com 29 anos, eu s vezes me pergunto sobre as escolhas que fiz. O exrcito se tornou a 
nica vida que eu conheo. No sei se eu deveria estar irritado ou contente com esse fato; na 
maioria do tempo, eu me encontro alternando entre os dois sentimentos, dependendo do dia. 
Quando as pessoas perguntam, digo a elas que sou um grunhido, e no estou mentindo. Ainda vivo 
em uma base na Alemanha, tenho talvez cem mil dlares em economias e no tenho um encontro h 
anos. 

Eu no surfo mais, mesmo quando estou de licena, mas nos meus dias de folga eu dirijo minha 
Harley para o norte ou para o sul, pra onde quer que o meu humor me levar. A Harley foi a nica 
coisa melhor que eu j comprei pra mim mesmo, embora tenha custado uma fortuna naquele tempo. 
Combina comigo, desde que eu me tornei um tipo de solitrio. A maioria dos meus amigos 
deixaram o servio, mas eu provavelmente vou ser mandado de volta para o Iraque nos prximos 
meses. Pelo menos, estes so os rumores que circulam na base. Na primeira vez que eu encontrei 
Savannah Lynn Curtis-para mim, ela sempre ser Savannah Lynn Crutis-eu nunca poderia prever 
que a minha vida iria terminar do jeito que est ou acreditar que faria do exrcito a minha carreira. 

Mas eu a encontrei; isso  o que faz a minha vida atual ser to estranha. Eu me apaixonei por ela 
quando ns estvamos juntos, ento me apaixonei mais profundamente por ela nos anos que ns 
ficamos separados. Nossa estria tem trs partes: um comeo, um meio e um fim. E embora esse 
seja o modo que todas as estria se desenrrolam, eu ainda no acredito que a nossa no durou para 
sempre. 

Eu reflito essas coisas, e como sempre, nosso tempo juntos volta pra mim. Eu me acho lembrando 
como comeou, por enquanto essas memrias so tudo que me restaram. 

PARTE I 

#
Um 

Wilmington, 2000 

Meu nome  John Tyree. Eu nasci em 1977, e cresci em Wilmington, Carolina do Norte, uma cidade 
que orgulhosamente ostenta o maior porto do estado assim como uma longa e vibrante histria, mas 
agora ela me parece mais uma cidade que aconteceu por acidente. 

Claro, o tempo era timo e as praias eram perfeitas, mas a cidade no estava pronta para a onda de 
de ianques* aposentados do norte que queriam algum lugar barato para passar seus anos de ouro. A 
cidade fica localizada em uma ponta de terra relativamente pequena, cercada pelo Rio Cape Fear de 
um lado e o oceano do outro. A rodovia 17-que leva a praia Myrtle e a charleston-divide a cidade e 
serve como sua estrada principal. Quando eu era criana, meu pai e eu podamos dirigir da zona 
histrica perto do Rio Cape Fear at a praia Wrightsville em dez minutos, mas tantos semforos e 
shopping centers tm sido adicionados que agora pode levar uma hora, especialmente nos finais de 
semana, quando os turistas vm de montes. A praia de Wrightsville, localizada em uma ilha logo 
alm da costa, est no ponto mais norte de Wilmington e  de longe uma das praias mais populares 
do estado. As casas ao longo das dunas so ridiculamente caras, e a maioria delas so alugadas por 
todo o vero. Os Outer Banks devem ter um apelo mais romntico por causa do isolamento deles e 
os cavalos selvagens e aquele vo pelo qual Orville e Wilbur** so famosos, mas me deixe lhe 
dizer uma coisa, a maioria das pessoas que vo  praia nas frias se sentem mais em casa quando 
podem achar um McDonald's ou um Burger King por perto, para o caso dos pequenos no gostarem 
muito da comida local, e querem mais do que duas opes quanto a atividades noturnas. 

*Americanos do norte dos EUA. 
**Os irmos Wright, oficialmente, reconhecidos pela Fdration Aronautique Internationale, pelos 
Estados Unidos da Amrica e pela maioria dos pases do mundo por projetarem e por realizarem o 
primeiro vo controlado num aparelho mais pesado que o ar. 


Como todas as cidades, Wilmington  rica em alguns lugares e pobre em outros, e desde que meu 
pai conseguiu um dos empregos mais estveis e slidos do planeta-ele dirigia uma rota de entrega 
de correspondncia para o correio-ns ficamos bem. No timos, mas bem. Ns no ramos ricos, 
mas vivamos perto o bastante da rea rica da cidade para eu frequentar uma das melhores escolas 
de l. Embora, diferente das casas dos meus amigos, a nossa casa fosse velha e pequena; parte da 
varanda tinha comeado a vergar, mas o jardim era o que salvava a casa. Havia um grande carvalho 
no quintal, e quando eu tinha oito anos de idade constru uma casa na rvore com pedaos de 
madeira que eu peguei de uma construo. Meu pai no me ajudou com o projeto (se ele martelasse 
uma unha, podia ser chamado honestamente de um acidente); foi no mesmo vero que eu ensinei a 
mim mesmo como surfar. Acho que eu deveria ter me dado conta a do quanto meu pai e eu ramos 
diferentes, mas isso s mostra o quo pouco voc sabe sobre a vida quando se  uma criana. 

Meu pai e eu ramos to diferentes um do outro quanto duas pessoas podem possivelmente ser. Ele 
era passivo e introspectivo, eu estava sempre me movimentando e odiava ficar sozinho; ele dava 
grande valor a educao, escola para mim era como um clube social com esportes inseridos. Ele 
tinha uma m postura e tendia a arrastar os ps quando andava; eu saltava aqui e ali, pedindo a ele 
pra marcar quanto tempo eu levava pra correr at o final do quarteiro e voltar. Eu era mais alto que 
ele quando estava na oitava srie e podia ganhar dele na queda de brao um ano depois. Nossas 
caractersticas fsicas eram completamente diferentes tambm. Enquanto ele tinha cabelos cor de 
areia, olhos cor de avel e sardas, eu tinha olhos e cabelos castanhos e minha pele azeitonada 
escurecia para um forte bronzeado em maio. Nossas diferenas foram tomadas pelos nossos 
vizinhos como estranhas, eu acho, considerando que ele tinha me criado sozinho. Quando fiquei 
mais velho, algumas vezes eu ouvia eles cochichando sobre o fato de que minha me tinha fugido 

#
quando eu tinha menos de um ano. Embora mais tarde eu tenha suspeitado que minha me tivesse 
encontrado outra pessoa, meu pai nunca comfirmou isso. Tudo o que ele tinha dito era que ela tinha 
se dado conta que tinha cometido um erro casando to jovem, e que ela no estava pronta para ser 
uma me. Ele nem tratava ela com desdm, nem a elogiava, mas se certificou que eu a inclusse nas 
minhas oraes, no importando onde ela estivesse ou o que ela havia feito. 

"Voc me lembra ela," ele tinha dito algumas vezes. 

At hoje, eu nunca falei uma nica palavra com ela, nem tenho nenhum desejo de falar. 

Eu acho que meu pai era feliz. Eu coloco assim porque ele raramente mostrava suas emoes. 
Abraos e beijos eram uma raridade pra mim quando eu estava crescendo, e quando aconteciam, 
eles geralmente pareciam sem vida, algo que ele tinha feito porque sentiu que tinha que fazer, no 
porque ele quisesse fazer. Eu sei que ele me amava pelo modo que ele se dedicou a cuidar de mim, 
mas ele tinha 43 anos quando me teve, e uma parte de mim acha que meu pai se daria melhor como 
um monge do que como um pai. Ele era o homem mais quieto que eu j conheci. Fazia poucas 
perguntas sobre o que estava acontecendo na minha vida, e do mesmo jeito que raramente ficava 
com raiva, ele raramente brincava. Vivia para a rotina. Fazia ovos mexidos, torradas e bacon para 
mim todas as manhs e ouvia eu falar sobre a escola, no jantar que ele tambm tinha nos preparado. 
Ele marcava visitas ao dentista com dois meses de antecedncia, pagava suas contas no sbado de 
manh, lavava a roupa no domingo  tarde e saa de casa todo dia exatamente s 7:35 da manh. Ele 
era socialmente estranho e passava longas horas sozinho todos os dias, deixando pacotes e maos de 
cartas nas caixas de correio ao longo da sua rota. Ele no namorava, nem passava noites de fim de 
semana jogando poker com seus colegas; o telefone podia ficar em silncio por semanas. Quando 
tocava, ou era engano ou telemarketing. Eu sei o quanto deve ter sido difcil pra ele me criar 
sozinho, mas ele nunca reclamava, nem mesmo quando eu o desapontava. 

Eu passava a maioria das minhas tardes sozinho. Com as obrigaes do dia finalmente finalizadas, 
meu pai ia pra sua toca ficar com as suas moedas. Essa era a maior paixo da vida dele. Ele ficava 
muito contente quando sentado na sua toca, estudando uma carta de um negociador de moedas 
apelidado de Greysheet e tentando descobrir qual era a prxima moeda que ele devia adicionar a sua 
coleo. O heri do meu av era um homem chamado Louis Eliasberg, um financiador de 
Baltimore que  a nica pessoa a ter reunido uma coleo completa das moedas dos Estados 
Unidos, incluindo vrias datas e marcas da Casa da Moeda. Sua coleo se igualava, se no 
superasse, a coleao do Smithsonian*, e depois da morte da minha av em 1951, meu av ficou 
obcecado com a idia de construir uma coleo com o filho. Durante os veres, meu av e meu pai 
viajavam de trem pra vrias Casas da Moeda para coletar moedas de primeira mo ou visitavam 
vrios eventos de moedas no sudeste. Logo, meu av e meu pai estabeleceram relaes com 
negociadores de moedas por todo o pas, e meu av gastou uma fortuna negociando e melhorando a 
coleo todos esses anos. Mas diferente de Eliasberg, contudo, meu av no era rico-ele tinha um 
armazm em Burgaw que faliu quando a Piggly Wiggly** abriu suas portas por toda a cidade-e 
nunca teve chance de alcanar a coleo do Eliasberg. Mesmo assim, todo dlar extra se 
transformava em mais moedas. Meu av vestiu a mesma jaqueta por trinta anos, dirigiu o mesmo 
carro a vida toda, e eu tenho certeza que meu pai foi trabalhar para o correio ao invs de ir para a 
faculdade porque no sobrou um centavo para pagar qualquer coisa alm do Ensino Mdio. Ele era 
um cara estranho, com certeza, assim como meu pai. Tal pai, tal filho, como diz o velho ditado. 
Quando o velho finalmente passou dessa pra melhor, ele especificou no testamento que a casa seria 
vendiada e o dinheiro seria usado para comprar mais moedas, o que provavelmente seria o que meu 
pai teria feito de qualquer forma. 

*Instituio educacional e de pesquisa associada a um complexo de museus, administrada e fundada 
pelo governo dos Estados Unidos. 

#
**Rede de supermercados. 

Quando meu pai herdou a coleo, j era bem valiosa. Quando a inflao subiu para o telhado e o 
ouro atingiu $850 a ona*, valia uma pequena fortuna, mais do que o suficiente para o meu pai 
econmico se aposentar algumas vezes e mais do que valeria 25 anos depois. Mas nem meu av 
nem meu pai tinham comeado a colecionar pelo dinheiro; eles estavam nisso pela emoo da 
caada e pelo lao que se criou entre eles. 

Tinha alguma coisa excitante em longas e duras procuras por uma moeda especfica, finalmente 
localiz-la, depois negociar para consegu-la pelo preo certo. Algumas vezes eles podiam pagar por 
uma moeda, outras vezes no, mas cada pea que eles adicionavam  coleo era um tesouro. Meu 
pai esperava partilhar a mesma paixo comigo, incluindo o sacrifcio que ela requeria. Crescendo, 
eu tive que dormir com cobertores extras no inverno, e eu s comprava um nico par de sapatos por 
ano; nunca havia dinheiro para minhas roupas, a no ser que elas viessem do Exrcito da 
Salvao**. Meu pai nem tinha uma cmera. A nica foto tirada de ns foi em um evento de 
moedas em Atlanta. Um negociador tirou nossa foto enquanto ns estvamos de p em frente a sua 
barraca e depois ns enviou a foto. Por anos ela ficou empoleirada na mesa do meu pai. Na foto, o 
brao do meu pai estava jogado sobre os meus ombros, e ns dois estvamos sorrindo alegremente. 
Na minha mo, eu segurava um nquel bfalo 1926-D em condio de pedra preciosa, uma moeda 
que meu pai tinha acabado de comprar. Estava entre os nqueis bfalos mais raros, e ns acabamos 
comendo cachorro quente e feijo por um ms, visto que a moeda custou mais do que ele esperava. 

*Medida do sistema americano que corresponde a 31g mais ou menos. 

**Uma das maiores instituies de caridade do mundo. 

Mas eu no me importava com os sacrifcios-por um tempo de qualquer forma. Quando meu pai 
comeou a falar comigo sobre moedas-eu devia estar na primeira ou segunda srie na poca-ele 
falou comigo como um igual. Ter um adulto, especialmente seu pai, tratando voc como um igual  
uma coisa importante para qualquer criana, e eu aproveitava a ateno absorvendo a informao. 
Logo eu podia lhe dizer quantas guias duplas Saint-Gaudens foram cunhadas em 1927 comparadas 
com 1924 e porque uma moeda de dez centavos Barber cunhada em Nova Orleans era dez vezes 
mais valiosa do que a mesma moeda cunhada no mesmo ano na Filadlfia. Eu ainda posso,  
proposito. Ainda que, diferente do meu pai, eu comecei a parar com a minha paixo por moedas. 

Era tudo sobre o que meu pai parecia ter a capacidade de falar, e depois de seis ou sete anos de 
finais de semana passados com ele ao invs de com amigos, eu queria sair. Como a maioria dos 
garotos, eu comecei a me importar com outras coisas: esportes, garotas, carros e msica, 
primeiramente, e quando fiz 14 anos, eu passava muito pouco tempo em casa. Meu ressentimento 
comeou a crescer tambm. Pouco a pouco, eu comecei a notar diferenas no modo que ns 
vivamos quando me comparava com a maioria dos meus amigos. Enquanto eles tinham dinheiro 
para gastar indo ao cinema ou comprando um par de culos estiloso, eu me achava procurando por 
moedas no sof pra comprar um hamburguer no McDOnald's. Mais do que alguns dos meus amigos 
receberam carros nos seus aniversrios de 16 anos; meu pai me deu um dlar prateado Morgan de 
1883 cunhado em Carson City. Os rasgos do nosso sof usado eram cobertos por um cobertor, e ns 
ramos a nica famlia que eu conheo que no tinha tv a cabo ou um forno microondas. 

Quando a nossa geladeira quebrou, ele comprou uma usada que era da cor do tom mais horroroso de 
verde do mundo, uma cor que no combinava com mais nada na cozinha. Eu ficava com vergonha 
s de pensar em chamar meus amigos para me visitar, e culpei meu pai por isso. Eu sei que era 
muito ridculo eu me sentir assim-se a falta de dinheiro me incomodava tanto, eu poderia ter 
aparado gramados ou arranjado empregos estranhos, por exemplo, mas as coisas eram assim. Eu era 

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cego como um caracol e bobo como um camelo, mas mesmo que eu lhe dissesse que eu me 
arrependo da minha imaturidade agora, eu no posso desfazer o passado. 

Meu pai sentiu que alguma coisa estava mudando, mas ele estava perdido sobre o que fazer com a 
gente. Ele tentou, no entanto, do nico modo que ele sabia, do nico modo que o pai dele sabia. Ele 
falava sobre moedas-era o nico assunto que ele podia discutir com facilidade-e continuou a fazer 
meus cafs-da-manh e jantares; mas o nosso estranhamento cresceu com o tempo. Ao mesmo 
tempo, eu me afastei dos amigos que eu sempre conheci. Eles comearam a fazer panelinhas, 
baseadas principalmente em que filmes eles iriam ver ou nas ltimas camisas que eles tinham 
comprado no shopping, eu percebi que estava olhando pra eles de fora. Que se danem, eu pensei. 
No Ensino Mdio, existe sempre um espao pra todo mundo, eu comecei a me juntar com o tipo 
errado de pessoas, pessoas que no davam a mnima pra nada, o que me deixava no dando a 
mnima tambm. Eu comecei a cabular aulas e a fumar e fui suspenso trs vezes por brigar. 

Eu desisti dos esportes tambm. Eu tinha jogado futebol americano, basquete e praticado corrida at 

o segundo ano, e embora meu pai algumas vezes perguntasse como eu tinha ido quando eu chegava 
em casa, ele parecia desconfortvel se eu entrasse em detalhes, visto que era bvio que ele no sabia 
nada de esportes. Ele nunca participou de um time na vida. Ele apareceu para um nico jogo de 
basquete durante o meu segundo ano. Sentou nas arquibancadas, um estranho cara careca vestindo 
uma jaqueta de esportes usada e meias que no combinavam. Embora ele no fosse obeso, suas 
calas apertavam na cintura, fazendo-o parecer como se estivesse grvido de trs meses, e eu sabia 
que no queria ter nada a ver com ele. Eu fiquei desconcertado com a sua aparncia e depois do 
jogo eu o evitei. No sinto orgulho de mim mesmo por isso, mas era assim que eu era. 
As coisas pioraram. No meu ltimo ano, minha rebeldia atingiu um ponto alto. Minhas notas 
vinham escorregando por dois anos, mais por preguia e falta de cuidado que por inteligncia (eu 
gosto de pensar), e mais de uma vez meu pai me pegou entrando s escondidas em casa com bafo de 
birita. Eu fui escoltado at em casa pela polcia depois de ser encontrado em uma festa onde drogas 
e bebida eram evidentes, e quando meu pai me colocou de castigo, eu fiquei na casa de um amigo 
por algumas semanas depois de esbravejar com ele para cuidar da sua prpria vida. Ele no disse 
nada quando eu voltei; ao invs disso, ovos mexidos, torradas e bacon estavam na mesa de manh 
como sempre. Eu mal passei de ano, e suspeito que a escola deixou eu me formar simplesmente 
porque me queriam fora de l. Eu sei que meu pai estava preocupado, e ele s vezes, do seu modo 
tmido, abordava o assunto da universidade, mas nesse tempo, eu j tinha decidido no ir. Eu queria 
um emprego, eu queria um carro, eu queria aquelas coisas materiais que eu tinha vivido dezoito 
anos sem. 

Eu no disse nada pra ele sobre isso de um jeito ou de outro at o vero depois da formatura, mas 
quando ele se deu conta que eu no tinha nem me inscrito em alguma universidade, ele se trancou 
em sua toca pelo resto da noite e no me disse nada durante o nosso ovos com bacon na manh 
seguinte. Mais tarde naquele dia, ele tentou me envolver em outra discusso sobre moedas, como se 
estivesse se agarrando ao companheirismo que tinha de algum modo se perdido entre ns. 

"Lembra quando ns fomos para Atlanta e foi voc que achou aquele nquel de cabea de bfalo 
que ns procuramos por anos?" ele comeou. "Aquele dia que tiraram a nossa foto? Eu nunca vou 
esquecer o quanto voc estava animado. Me lembrou do meu pai e eu." 

Eu sacudi a cabea, toda a frustrao da vida com o meu pai vindo  superfcie. 

"Eu estou de saco cheio e cansado de ouvir sobre moedas!" Eu gritei pra ele. "No quero nunca 
mais ouvir falar sobre isso! Voc devia vender essa maldita coleo e fazer outra coisa. Qualquer 
coisa!" 

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Meu pai no disse nada, mas eu nunca esquecerei a sua expresso de dor quando ele finalmente se 
virou e se arrastou de volta at sua toca. Eu tinha machucado ele, e embora tenha dito a mim mesmo 
que no queria fazer isso, l no fundo eu sabia que estava mentindo pra mim mesmo. A partir da 
meu pai raramente puxou o assunto das moedas de novo. Nem eu. Se tornou um enorme abismo 
entre ns, e nos deixou sem nada a dizer um ao outro. 

Alguns dias depois me dei conta de que a nossa nica fotografia tinha desaparecido, como se ele 
acreditasse que at mesmo a mnima lembrana de moedas me ofenderia. Naquele tempo 
provavelmente me ofenderia, e mesmo eu supondo que ele tinha jogado a foto fora, essa descoberta 
no me incomodou nem um pouco. 

Crescendo, eu nunca considerei entrar no exrcito. Apesar do fato de que o leste da Carolina do 
Norte  uma da reas mais militarmente densas do pas-voc pode ver sete bases em algumas horas 
de passeio de carro por Wilmington-eu costumava pensar que a vida militar era para perdedores. 
Quem queria passar a vida recebendo ordem de um bando de homens de uniforme com crew-cut*? 
Eu no, e tirando os caras do ROTC**, nem muitas pessoas na minha escola. Ao invs disso, muitos 
que tinham sido bons alunos iam para a Universidade da Carolina do Norte ou para a North 
Carolina State, enquanto as crianas que no tinham sido bons estudantes ficavam pra trs, 
vagabundeando de um pssimo emprego a outro, bebendo cerveja e saindo por a, e evitando a 
qualquer custo alguma coisa que requeresse uma sombra de responsabilidade. 

*Um tipo de corte de cabelo que  bem curtinho, tipo militar mesmo, sabem? Procurei uma 
traduo, mas a melhorzinha que eu achei foi "corte de cabelo  escovinha", a no d n? 
**Reserve Officer Training Corps, Subdiviso de Treinamento de Oficiais da Reserva, um tipo de 
colgio militar. 

Eu ca na ltima categoria. Nos dois primeiros anos depois da formatura, eu tive uma sucesso de 
empregos, trabalhando como garom no Outback Steakhouse, recolhendo canhotos de ingressos no 
cinema local, carregando e descarregando caixas na Staples, fazendo panquecas na Waffle House, e 
trabalhando como caixa em alguns lugares tursticos que vendiam porcarias para as pessoas de fora 
da cidade. Eu gastava cada centavo que ganhava, no tinha nenhuma iluso sobre ascender na 
escala profissional, e acabei sendo despedido de todo trabalho que eu tive. Por um tempo, eu no 
me importava. Estava vivendo minha vida. Eu era profissional em surfar e dormir at tarde, e visto 
que eu ainda estava vivendo em casa, nada do que eu ganhava era necessrio pra coisas como 
aluguel ou comida ou seguro ou preparao para o futuro. Alm disso, nenhum dos meus amigos 
estava melhor do que eu. Eu no me lembro de ser particularmente infeliz, mas depois de um tempo 
fiquei cansado da minha vida. No a parte do surf-em 1996, os furaces Bertha e Fran atingiram a 
costa, e aquelas foram algumas das melhores ondas em anos-mas ir pro bar Leroy's depois do surf. 
Eu comecei a perceber que toda noite era a mesma. Eu bebia cerveja e esbarrava com algum que 
conhecia da escola, e eles perguntavam o que eu estava fazendo e eu lhes dizia, e eles me contavam 

o que estavam fazendo, e no precisava ser um gnio pra se dar conta de que os dois estavam na 
estrada mais rpida pra lugar nenhum. Mesmo se eles tivessem suas prprias casas, o que eu no 
tinha, eu nunca acreditei neles quando me contavam que gostavam de seus trabalhos como 
cavadores de valeta ou limpadores de janela ou transportadores de Porta Potti*, porque eu sabia 
muito bem que nenhum desses trabalhos era o tipo de ocupao que eles cresceram sonhando em 
ter. Eu posso ter sido preguioso na sala de aula, mas eu no era burro. 
*Vaso sanitrio porttil. 

Eu fiquei com dzias de garotas naquele perodo. No Leroy's sempre havia mulheres. A maioria 

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eram relaes que eu esquecia com facilidade. Eu usei mulheres, me permiti ser usado e sempre 
manti meus sentimentos pra mim mesmo. Apenas a minha relao com uma menina chamada Lucy 
durou mais que alguns meses, e por um tempo antes de ns inevitavelmente nos separarmos, eu 
pensei que estava apaixonado por ela. Ela era estudante na UNC* Wilmington, um ano mais velha 
que eu, e queria trabalhar em Nova York depois de se formar. "Eu me importo com voc," ela me 
disse na nossa ltima noite juntos, "mas voc e eu queremos coisas diferentes. Voc poderia fazer 
muito mais com a sua vida, mas por alguma razo, est contente em simplesmente flutuar por ela." 
Ela hesitou antes de continuar. "Mas mais do que isso, eu nunca sei o que voc realmente sente por 
mim." Eu sabia que ela estava certa. Logo depois ela foi embora em um avio sem se importar em 
dizer adeus. Um ano mais tarde, depois de conseguir o nmero com seus pais, liguei pra ela e nos 
falamos por vinte minutos. 

Estava noiva de um advogado, ela me disse, e estaria casada em Junho prximo. 

*Universidade da Carolina do Norte. 

A ligao me afetou mais do que eu pensei que me afetaria. Veio em um dia em que eu tinha 
acabado de ser demitido-de novo-fui me consolar no Leroy's, como sempre. O mesmo grupo de 
perdedores estava l, e eu de repente me dei conta de que no queria passar outra tarde sem sentido 
fingindo que tudo na minha vida estava bem. Ao invs disso eu comprei um pacote de seis cervejas 
e fui sentar na praia. 

Era a primeira vez em anos que eu realmente pensava no que estava fazendo com a minha vida, e 
me perguntei se deveria seguir o conselho do meu pai e conseguir um diploma universitrio. Porm, 
eu tinha ficado fora da escola por tanto tempo que a idia me pareceu estranha e ridcula. Chame de 
sorte ou m sorte, mas nessa hora dois fuzileiros navais apareceram. Jovens e em forma, eles 
irradiavam fcil confiana. Se eles podiam fazer, falei pra mim mesmo, eu tambm podia. 

Refleti sobre isso alguns dias, e no final, meu pai teve alguma coisa a ver com a minha deciso. No 
que eu tenha falado com ele sobre isso, claro-ns no estvamos nos falando  essa altura. Eu estava 
indo a cozinha uma noite e o vi sentado  sua mesa, como sempre. Mas desta vez, eu realmente o 
analizei. Seus cabelos eram quase inexistentes, e o pouco que restou tinha se tornado 
completamente cinza acima das orelhas. Ele estava perto de se aposentar, e eu fui atingido pela 
noo de que eu no tinha o direito de continuar decepcionando-o depois de tudo que ele tinha feito 
por mim. 

Ento eu ingressei no exrcito. Meu primeiro pensamento foi que eu iria me juntar a Marinha, visto 
que eles eram os caras com quem eu estava mais familiarizado. A praia de Wrightsville estava 
sempre lotada com jarheads* de Camp Lejeune ou Cherry Point, mas quando a hora chegou, eu 
escolhi o exrcito. Me dei conta que seguraria um rifle de qualquer maneira, mas o que realmente 
foi decisivo foi que o recrutador da Marinha estava em horrio de almoo quando eu apareci e no 
estava disponvel imediatamente, enquanto o recrutador do exrcito-cujo escritrio era do outro 
lado da rua-estava. No final, a deciso pareceu mais espontnea do que planejada, mas eu assinei na 
linha pontilhada pra um alistamento de quatro anos, e quando o recrutador deu palminhas nas 
minhas costas enquanto eu saa porta a fora, eu me encontrei me perguntando no que eu tinha me 
metido. Isso foi no final de 1997, e eu tinha 20 anos de idade. 

*Membro da marinha americana. Quando usado por civis pode ser considerado depreciativo, mas  
usado com frequncia entre os marinheiros. 

O Boot Camp* em Fort Benning foi to horrvel como eu pensei que seria. A coisa toda parecia 
projetada para humilhar e fazer uma lavagem nos nossos crebros pra seguirmos ordens sem 

#
perguntas, no importando o quo estpidas elas fossem, mas eu me adaptei mais rapidamente do 
que muitos caras. Uma vez que eu passei por isso, escolhi a infantaria. Ns passamos os prximos 
meses fazendo muitas simulaes em lugares como Lousisiana e o bom e velho Fort Bragg, onde 
ns basicamente aprendemos a melhor maneira de matar pessoas e quebrar coisas; e depois de um 
tempo, minha unidade, como parte da Primeira Diviso de Infantaria-mais conhecida como a 
Grande Vermelha-foi mandada para a Alemanha. Eu no falava uma palavra em alemo, mas no 
importava, visto que todo mundo com quem eu lidava falava ingls. Foi fcil no comeo, ento a 
vida no exrcito se instalou. Eu passei sete meses preguiosos nos Balcs-primeiro na Macednia 
em 1999, depois em Kosovo onde eu fiquei at o final da primavera de 2000. A vida no exrciot no 
pagava muito, mas considerando que no havia aluguel, gastos com comida e realmente nada com o 
que gastar meus salrios at mesmo quando eu os recebia, eu tinha dinheiro no banco pela primeira 
vez. No muito, mas o suficiente. 

*Lugar onde os soldados so treinados. 

Eu passei a minha primeira licena em casa completamente entediado. 

A minha segunda licena eu passei em Las Vegas. Um dos meus colegas tinha crescido l, e trs de 
ns ficamos na casa dos pais dele. Eu acabei com praticamente tudo que tinha economizado. Na 
minha terceira licena, depois de voltar de Kosovo, eu estava desesperadamente necessitando de 
uma pausa e decidi voltar pra casa, esperando que o tdio da visita fosse acalmar a minha mente. 
Por causa da distncia, meu pai e eu raramente falvamos no telefone, mas ele me escrevia cartas 
que eram sempre seladas no primeiro dia de cada ms. Elas no eram como as que meus colegas 
recebiam de suas mes, irms e esposas. Nada muito pessoal, nada piegas, e nunca uma palavra que 
sugerisse que ele sentia a minha falta. E ele to pouco mencionava moedas. Ao invs disso, ele 
escrevia sobre mudanas na vizinhana e muito sobre o tempo; quando eu escrevi para contar a ele 
sobre um fogo cruzado bem cabeludo que eu tive nos Balcs, ele escreveu de volta pra dizer que 
estava feliz que eu tinha sobrevivido, mas no disse mais nada sobre isso. Eu sabia pelo modo que 
ele tinha expressado sua resposta que ele no queria ouvir sobre as coisas perigosas que eu fazia. O 
fato de eu estar em perigo o aterrorizava, ento eu comecei a omitir as coisas assustadoras. Ao invs 
disso, eu mandava cartas sobre como o dever de guarda era, sem sombra de dvida, o emprego mais 
entediante e a nica coisa excitante que acontecia comigo era tentar adivinhar quantos cigarros os 
outros guardas fumariam em uma nica tarde. Meu pai terminava cada carta com a promessa de que 
escreveria de novo logo, e mais uma vez, o homem no me decepcionou. Ele era, eu comecei a 
acreditar nisso a muito tempo, um homem muito melhor do que eu jamais serei. 

Mas eu tinha crescido nos ltimos trs anos. Sim, eu sei, sou um clich ambulante-entrar como um 
garoto, sair como um homem e tudo isso. Mas todo mundo no exrcito  forado a crescer, 
especialmentte se voc  da infataria como eu. Voc  confiado com equipamento que custa uma 
fortuna, outros pem sua confiana em voc, e se voc estragar alguma coisa, a penalidade  bem 
mais sria do que ser mandado pra cama sem o jantar. Claro, h muita papelada e tdio, e todo 
mundo fuma e no consegue completar uma frase sem xingar e tm caixas de revistas safadas 
embaixo de suas camas, e voc tem que responder aos caras da ROTC que acabaram de sair da 
universidade que acham que brutos como eu tm o QI de um Neanderthal; mas voc  forado a 
aprender a lio mais importante da vida, que  o fato de que voc tem que aprender a viver com as 
suas responsabilidades, e  melhor voc fazer isso direito. Quando recebe uma ordem voc no 
pode dizer no. No  exagero dizer que vidas esto por um fio. Uma deciso errada e o seu colegapode morrer.  esse fato que faz o exrcito funcionar.  esse o 
grande erro que as pessoas cometem 
quando se perguntam como os soldados podem colocar suas vidas em risco dia aps dia ou como 
eles podem lutar por algo em que no acreditam. Nem todo mundo desacredita. Eu trabalhei com 
soldados de todos os lados do espectro poltico; encontrei alguns que odiavam o exrcito e outros 
que queriam fazer dele uma carreira. Encontrei gnios e idiotas, mas quando tudo  dito e feito, ns 

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fazemos o que fazemos uns pelos outros. Por amizade. No pelo pas, no por patriotismo, no por 
que somos mquinas programadas para matar, mas por causa do cara ao seu lado. Voc luta pelo seu 
amigo, para manter ele vivo, e ele luta por voc e tudo no exrcito  construdo sobre essa simples 
premissa. 

Mas como eu disse, eu tinha mudado. Entrei no exrcito como um fumante e quase coloquei um 
pulmo pra fora no Boot Camp, mas diferente de praticamente todos da minha unidade, eu parei e 
no encosto nessas coisas h mais de dois anos. Moderei minha bebederia at o ponto que uma ou 
duas cervejas por semana eram suficientes, e deve fazer um ms que eu no tomo nenhuma. Meu 
recorde era sem sentido. Eu fui promovido de soldado raso  cabo e depois, seis meses mais tarde,  
sargento, e descobri que tinha uma habilidade de liderar. Eu liderava homens em fogo cruzados e 
meu esquadro estava envolvido na captura de um dos criminosos de guerra mais perigosos dos 
Balcs. Meu oficial comandante me recomendou  Escola para Candidatos a Oficial (OCS), e eu 
estava debatendo se iria me tornar um oficial ou no, mas isso s vezes significava um emprego de 
escritrio e ainda mais papelada, e eu no estava certo se queria isso. Tirando o surfe eu no tinha 
feito exerccio por anos antes de ingressar no servio; na poca que eu tirei minha terceira licena, 
ganhei 7 quilos de msculos e acabei com os pneuzinhos da minha barriga. Passava a maior parte 
do meu tempo livre correndo, praticando boxe e levantando peso com Tony, um forto de Nova 
York que sempre gritava quando falava, jurava que tequila era um afrodisaco, e era de longe o meu 
melhor amigo na unidade. Ele me convenceu a fazer tatuagens nos dois braos assim como ele, e a 
cada dia que passava, a memria de quem eu fora um dia se tornava mais e mais distante. 

Eu lia bastante tambm. No exrcito voc tem um bocado de tempo pra ler, e as pessoas negociam 
livros aqui e ali ou alugam da biblioteca at que as capas estejam desgastadas. Eu no quero que 
voc tenha a impresso de que eu me tornei um erudito, porque eu no me tornei. Eu no estava 
interessado em Chaucer, Proust, Dostoievski ou qualquer um desses caras mortos; eu lia 
principalmente mistrios, suspenses e os livros do Stephen King, criei uma ligao particular com 
Carl Hiaasen porque as palavras dele fluam facilmente e ele sempre me fazia rir. Eu no podia 
evitar de pensar que se a escola tivesse indicado esses livros nas aulas de ingls, ns teramos muito 
mais leitores no mundo. 

Diferente dos meus colegas eu evitei qualquer perspectiva de companhia feminina. Parece estranho, 
certo? No auge da vida, um trabalho cheio de testosterona-o que poderia ser mais natural do que 
procurar por uma pequena libertao com ajuda feminina? No era para mim. Embora alguns dos 
caras que eu conhecia namoravam e at casavam com algumas moradoras locais enquanto estavam 
com estao em Wiirzburg, eu tinha ouvido bastante estrias para saber que esses casamentos 
raramente davam certo. O exrcito era duro com relaes em geral-eu havia visto bastante divrcios 
para saber disso-e embora eu no tivesse achado ruim a companhia de algum especial, nunca 
aconteceu. Tony no entendia. 

"Voc tem que vir comigo," ele suplicou. "Voc nunca vem." 

"No estou a fim." 

"Como voc pode no estar a fim? Sabine jura que a amiga dela  linda. Alta e loira, e ela adora 
tequila." 

"Leve o Don. Eu tenho certeza de que ele gostaria de ir." 

"Castelow? De jeito nenhum. Sabine no o suporta." 

Eu no disse nada. 

#
"Ns s vamos nos divertir um pouco." 

Balancei minha cabea, pensando que eu preferia ficar sozinho a voltar a ser o tipo de pessoa que eu 
era, mas me peguei me perguntando se acabaria sendo to monge quanto meu pai. Sabendo que no 
poderia me fazer mudar de idia, Tony no se importou em esconder sua chateao no seu caminho 
at a porta. 

"Eu no te entendo s vezes." 

Quando meu pai me pegou no aeroporto, ele no me reconheceu a princpio e quase pulou quando 
dei umas palmadinhas no ombro dele. Ele parecia ser menor do que eu me lembrava. Ao invs de 
me oferecer um abrao, apertou minha mo e me perguntou sobre o vo, mas nenhum de ns sabia 

o que dizer depois disso, ento samos do aeroporto. Era estranho e desorientador estar de volta em 
casa, e eu me senti com os nervos  flor da pele, como da ltima vez que tinha tirado licena. No 
estacionamento, enquanto eu jogava minha bagagem na mala, vi na traseira do Ford Escort ancio 
dele um adesivo de pra-choque que dizia para as pessoas APOIAREM NOSSAS TROPAS. Eu no 
estava certo do que aquilo significava para o meu pai, mas fiquei contente em ver. 
Em casa, guardei minha bagagem no meu antigo quarto. Tudo estava onde eu me lembrava, os 
trofus empoeirados na minha estante e uma garrafa vazia de Wild Turkey no fundo da minha 
gaveta de roupas de baixo. A mesma coisa no resto da casa. O cobertor ainda cobria o sof, a 
geladeira verde parecia gritar que aquele no era o seu lugar, e a televiso pegava apenas quatro 
canais embaados. Meu pai cozinhou spaghetti; sexta era sempre spaghetti. No jantar, ns tentamos 
conversar. 

" bom estar de volta," eu disse. 

Seu sorriso foi breve. "Bom," ele respondeu. 

Tomou um gole de leite. No jantar, ns sempre bebamos leite. Ele se concentrou na sua refeio. 

"Voc se lembra do Tony?" Eu me aventurei. "Acho que eu o mencionei nas minhas cartas. De 
qualquer forma, veja s-ele acha que est apaixonado. O nome dela  Sabine, e ela tem uma filha de 
seis anos. O alertei de que essa pode no ser uma boa idia, mas ele no me ouve." 

Ele cuidadosamente salpicou queijo Parmeso na sua comida, se certificando de que todos os 
lugares tivessem a quantidade perfeita. "Oh," ele disse. "Certo." Depois disso, eu comi e nenhum de 
ns disse nada. Bebi leite. Comi mais um pouco. O relgio fez tique-taque na parede. 

"Aposto que voc est animado para se aposentar esse ano," sugeri. "Pense que voc poder 
finalmente tirar umas frias, ver o mundo." Eu quase disse que ele poderia vir me visitar na 
Alemanha, mas me segurei. Eu sabia que ele no iria e no queria coloc-lo contra a parede. 
Enrrolamos nossos macarres simultaneamente enquanto ele parecia ponderar o melhor jeito de 
responder. 

"No sei," disse finalmente. 

Desisti de tentar falar com ele, e a partir da os nicos sons eram aqueles vindos dos nossos garfos 
quando atingiam os pratos. Quando terminamos o jantar, tomamos nossos caminhos diferentes. 
Exausto por causa do vo, fui para a cama, acordando a cada hora como eu fazia quando estava na 
base. Na hora que eu me levantei pela manh, meu pai j tinha ido para o trabalho. 

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Comi e li o jornal, tentei falar com um amigo, sem sucesso, ento peguei minha prancha de surfe na 
garagem e fui  praia. As ondas no estavam timas, mas no importava. Eu no tinha estado numa 
pracha havia trs anos e estava meio enferrujado a princpio, mas at mesmo os menores dribles me 
fizeram desejar que minha estao fosse perto do oceano. Era comeo de junho de 2000, a 
temperatura j estava quente e a gua era refrescante. Do meu ponto de vantagem na minha 
prancha, eu podia ver pais levando seus pertences a algumas das casas alm das dunas. Como eu 
mencionei, a praia de Wrightsville estava sempre lotada com famlias que alugavam por uma 
semana ou mais, mas ocasionalmente estudantes universitrios de Chapel Hill ou Raleigh faziam o 
mesmo. Era o ltimo grupo que me interessava, e eu notei um grupo de estudantes de biqunis 
pegando seus lugares no deque de trs de uma das casas perto do per. Fiquei as observando por um 
momento, apreciando a vista, depois peguei outra onda e passei o resto da tarde perdido no meu 
prprio mundinho. 
Pensei em fazer uma visita ao Leroy's mas me dei conta de que nada nem ningum tinha mudado 
alm de mim. Ao invs disso, peguei uma garrafa de cerveja da loja da esquina e fui sentar no per 
para aproveitar o pr-do-sol. A maioria das pessoas pescando j tinham comeado a ir embora e os 
poucos que restavam estavam limpando sua captura e jogando os restos na gua. Com o tempo, a 
cor do oceano comeou a mudar de cinza para laranja e depois amarelo. Nas barricadas alm do per 
eu podia ver os pelicanos em cima de golfinhos enquanto esles surfavam pelas ondas. Eu sabia que 
a tarde iria trazer a primeira noite de lua cheia-meu tempo no campo fez da realizao quase 
instintiva. Eu no estava pensando em muita coisa, s deixando minha mente vaguear. Acredite em 
mim, conhecer uma garota era a ltima coisa que eu tinha em mente. 

Foi quando eu a vi subindo o per. Ou melhor, duas delas andando. Uma era alta e loira, a outra uma 
morena atraente, as duas um pouco mais novas que eu. Estudantes universitrias, pareciam. As duas 
vestiam shorts e blusas que deixavam os ombros  mostra, e a morena carregava uma daquelas 
bolsas grandes de tric que as pessoas s vezes trazem a praia quando planejam ficar por horas com 
as crianas. Eu podia ouv-las conversando e rindo, soando despreocupadas e prontas para as frias, 
quando elas se aproximaram. 

"Hey," eu chamei quando elas estavam perto. No muito suave, e eu no posso dizer que esperava 
alguma coisa como resposta. 

A loira provou que eu estava certo. Ela olhou pra minha prancha e pra garrafa de cerveja na minha 
mo e me ignorou com um rolar de olhos. A morena, no entanto, me surpreendeu. 

"Oi, estranho," ela respondeu com um sorriso. Ela gesticulou em direo a minha prancha. "Aposto 
que as ondas foram timas hoje." 

O comentrio dela me pegou de baixa guarda, e eu ouvi uma bondade inesperada em suas palavras. 
Ela e sua amiga continuaram descendo at o fim do per, e eu me peguei a observando enquanto ela 
se apoiava na grade. Eu debati se deveria ou no ir at ela e me apresentar, ento decidi que no. 
Elas no eram meu tipo, ou mais precisamente, eu no era o delas. Dei um longo gole na minha 
cerveja, tentando ignor-las. 

Tentando como pudesse, no entanto, eu no conseguia impedir meu olhar de flutuar de volta para a 
morena. Tentei no escutar o que as duas garotas falavam, mas a loira tinha uma daquelas vozes 
impossveis de ignorar. 

Ela falava sem parar sobre algum cara chamado Brad e o quanto ela o amava, e como a fraternidade 
dela era a melhor da UNC, e a festa que eles tiveram no fim do ano foi a melhor de todas, e que os 
outros deveriam se juntar a eles no prximo ano, e que muitas das amigas dela estavam se 

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agarrando com o pior tipo de caras de fraternidade, e uma delas at ficou grvida, mas a culpa era 
dela mesma visto que ela tinha sido alertada sobre o garoto. A morena no falava muito-eu no 
sabia se ela estava entretida ou entediada com a conversa-mas de vez em quando, ela ria. De novo, 
eu ouvi algo amigvel e compreensivo na sua voz, alguma coisa semelhante a voltar pra casa, o que 
eu admito, no fez nenhum sentido. Enquanto eu colocava de lado minha garrafa de cerveja, notei 
que ela colocou a bolsa na grade. 

Elas tinham ficado l por dez minutos mais ou menos antes de dois caras comearem a subir o percaras 
de fraternidade, eu adivinhei-vestindo blusas rosa e laranja da Lacoste sobre seus shorts da 
Bermuda. Meu primeiro pensamento foi que um daqueles dois devia ser o Brad sobre o qual a loira 
falava. Os dois carregavam cervejas e ficavam mais furtivos enquanto se aproximavam, como se 
pretendessem dar um susto nas garotas. Era mais que provvel que as duas garotas queriam eles ali, 
e depois de um rpido susto, completo com um grito e alguns tapas amigveis no brao, eles iriam 
voltar juntos, rindo e fazendo gozaes ou o que quer que seja que casais universitrios faam. 

Tudo devia ter acontecido desse jeito, porque os garotos fizeram exatamente o que eu pensei que 
eles fariam. Assim que eles chegaram perto, pularam nas garotas com um grito; as duas guincharam 
e fizeram o negcio das tapinhas amigveis. Os garotos piaram e o camisa rosa derramou um pouco 
da sua cerveja. Ele se apoiou na grade, perto da bolsa e cruzou as pernas, com seus braos atrs 
dele. 

"Ei, ns vamos comear a fogueira em alguns minutos," o camisa laranja disse, colocando seus 
braos em volta da loira. Ele beijou o percoo dela. "Vocs duas esto prontas para voltar?" 

"Pronta?" a loira perguntou, olhando para a amiga. 

"Claro," a morena respondeu. 

O camisa rosa se desencostou da grade, mas de algum modo sua mo deve ter batido na bolsa, 
porque ela escorregou, ento caiu por cima da borda. O splash soou como se um peixe tivesse 
pulado. 

"O que foi isso?" ele perguntou, se virando. 

"Minha bolsa!" a morena gritou. "Voc derrubou." 

"Desculpe," ele disse, no parecendo particularmente arrependido. 

"Minha carteira estava l!" 

Ele franziu o cenho. "Eu pedi desculpas." 

"Voc tem que ir pegar antes que afunde!" 

Os caras da fraternidade pareciam congelados, e eu sabia que nenhum dos dois tinha a inteno de 
pular na gua e pegar a bolsa. Pra comear, eles provavelmente nunca iriam ach-la, e depois teriam 
que nadar at a areia, algo que no era recomendado se algum tivesse bebido, o que eles 
obviamente tiham feito. Eu acho que a morena tambm leu a expresso do camisa rosa, porque eu 
vi ela colocando as duas mos e um p na grade. "No seja boba. J era," o camisa rosa declarou,
colocando a sua mo nas dela para par-la. " muito perigoso para pular. Dever ter tubares lembaixo.  s uma carteira. Eu compro uma nova pra voc." 

#
"Eu preciso daquela carteira! Todo o meu dinheiro est l!" 

No era da minha conta, eu sei. Mas tudo o que eu podia pensar enquanto me punha de p e corria 
para a beira do per era, Ah, que se dane .... 

DOIS 

Eu acho que deveria explicar porque pulei em direo as ondas para recuperar a bolsa dela. No foi 
porque pensei que ela iria me ver como algum tipo de heri, ou porque queria impression-la, ou 
nem mesmo porque eu me importava com quanto dinheiro ela iria perder. Teve a ver com a 
sinceridade do sorriso dela e pela amabilidade da sua risada. At mesmo quando eu estava me 
atirando em direo a gua, sabia o quo ridcula minha reao tinha sido, mas a era muito tarde. 
Eu mergulhei, nadei pra baixo e emergi. Quatro rostos olhavam pra mim da grade. O camisa rosa 
estava definitivamente irritado. 

"Onde est?" Eu gritei pra eles. 

"Bem ali!" a morena gritou. "Acho que ainda consigo ver. Est descendo..." 

Eu levei um minuto para localiz-la no crepsculo que escurecia e o ritmo do oceano estava fazendo 

o que podia para me jogar contra o per. Nadei para o lado, ento segurei a bolsa fora da gua do 
melhor jeito que pude, apesar do fato de que ela j estava ensopada. As ondas fizeram com que o 
nado de volta a costa fosse menos difcil do que eu temia, e de vez em quando eu olhava pra cima e 
via as quatro pessoas me seguindo. 
Finalmente senti o raso e me arrastei pra fora das ondas. Sacudi a gua do meu cabelo, comecei a 
andar na areia e encontrei com eles no meio da praia. Estendi a bolsa. 

"Aqui est." 

"Obrigada," a morena disse, e quando os seus olhos encontraram os meus eu senti um click, como 
uma chave virando em uma fechadura. Acredite em mim, no sou romntico, e enquanto ouvia tudo 
sobre amor  primeira vista, nunca acreditei, e ainda no acredito. Mas mesmo assim, havia algo ali, 
algo reconhecidamente real, e eu no consegui desviar o olhar. 

De perto ela era mais linda do que eu tinha me dado conta, mas tinha menos a ver com o que ela 
aparentava do que com o que ela era. No era s o seu sorriso com uma brecha nos dentes da frente, 
era o jeito casual com que ela mechia em uma mexa de cabelo, o modo fcil com que ela abraava a 
si mesma. 

"Voc no precisava ter feito isso," ela disse com alguma coisa maravilhada em sua voz. "Eu teria 
pego." 

#
"Eu sei." eu afirmei. "Eu te vi se preparando para pular." 

Ela inclinou a cabea. "Mas voc sentiu uma necessidade incontrolvel de ajudar uma dama em 
perigo?" 

"Algo assim." 

Ela avaliou minha resposta por um momento, ento voltou sua ateno para a bolsa. Comeou a 
remover itens-carteira, culos de sol, viseira, protetor solar-e estendeu tudo para a loira antes de 
espremer a bolsa. 

"Suas fotos molharam," a loira disse, olhando a carteira. 

A morena a ignorou, continuando a espremer de um lado e depois do outro. Quando ela finalmente 
estava satisfeita, pegou de volta os objetos e encheu a bolsa novamente. 

"Obrigada de novo," ela disse. Seu sotaque era diferente daquele do leste da Carolina do Norte, 
mais nasalado, como se ela tivesse crescido nas montanhas ou perto de Boone, ou perto da fronteira 
da Carolina do Sul a oeste. 
"No foi grande coisa," eu murmurei, mas no me mexi. 
"Ei, talvez ele queira uma recompensa," camisa rosa falou, com a voz alta. 
Ela olhou pra ele e depois pra mim. "Voc quer uma recompensa?" 
"No." Balancei uma mo. "Fico feliz em ajudar." 
"Eu sempre soube que o cavalheirismo no estava morto," ela proclamou. Tentei captar uma nota de 
provocao, mas no ouvi nada no seu tom que indicasse que ela estava zombando de mim. 
Camisa laranja me olhou de cima a baixo, notando o meu crew-cut. "Voc  da marinha?" 
perguntou. Ele apertou seus braos ao redor da loira de novo. 
Balancei a cabea. "Eu no sou um dos poucos ou o orgulho. Eu queria ser tudo que podia, ento 
me juntei ao exrcito." 
A morena riu. Diferente do meu pai, ela tinha na verdade visto os comerciais. 
"Meu nome  Savannah," disse. "Savannah Lynn Curtis. E estes so Brad, Randy e Susan." Ela 
estendeu a mo. 
"Sou John Tyree," eu disse, apertando a mo dela. Sua mo era quente, macia como veludo em 
alguns lugares, mas calejada em outros. Imediatamente tive conscincia de quanto tempo fazia que 
eu tinha tocado uma mulher. 
"Bem, eu sinto como se devesse fazer algo por voc." 
"Voc no precisa fazer nada." 
"Voc j comeu?" ela perguntou, ignorando meu comentrio. "Estamos nos preparando para um 
churrasco, e tem muita comida. Gostaria de se juntar a ns?" 
Os garotos trocaram olhares. Randy de camisa rosa parecia desapontado e eu admito que isso me 
fez sentir melhor. Ei, talvez ele queira uma recompensa. Que idiota. 


", vamos," Brad finalmente apoiou, soando menos que animado. "Vai ser divertido. Ns alugamos 
a casa perto do per." Ele apontou para uma das casas na praia onde meia dzia de pessoas 
preguiavam no deque. 

Mesmo que eu no tivesse nenhum desejo de passar mais tempo com mais irmos de fraternidade, 
Savannah sorriu pra mim com tanta amabilidade que as palavras saram antes que eu pudesse parlas. 


"Parece legal. Deixa s eu pegar minha prancha l no per e logo estarei l." 

#
"Encontramos voc l," Randy falou. Deu um passo em direo a Savannah, mas ela o ignorou. 

"Eu acompanho voc," Savannah disse, se afastando do grupo, " o mnimo que eu posso fazer." 
Ela ajeitou a bolsa no ombro. "Vejo vocs daqui a pouco, ok?" 

Comeamos a andar em direo a duna, onde as escadas nos levariam ao per. Seus amigos se 
demoraram um pouco, mas quando ela chegou ao meu lado, eles se viraram lentamente e 
comearam a andar pela praia. Do canto do olho, vi a loira virar a cabea e nos olhar por entre os 
braos de Brad. Randy tambm olhou, emburrado. Eu no estava certo que Savannah tinha notado 
at nos andarmos alguns passos. 

"Susan provavelmente pensa que eu sou louca por fazer isso," ela disse. 

"Fazer o que?" 

"Andar com voc. Ela acha que Randy  perfeito pra mim, e vem tentando fazer com que a gente 
fique junto desde que chegamos aqui essa tarde. Ele tem me seguido o dia todo." 

Balancei a cabea, sem saber como responder.  distncia, a lua, cheia e brilhante, tinha comeado 
sua subida vagarosa do mar, e eu vi Savannah olhando pra ela. Quando as ondas arrebentavam e 
transbordavam, brilhavam prateadas, como se tivessem sido pegas pelo flash de uma cmera. 
Chegamos ao per. A grade estava cheia de areia e sal e a madeira estava danificada pela maresia e 
comeava a se despedaar. Os degraus rangiram enquanto subamos. 

"Onde  a sua estao?" ela perguntou. 

"Na Alemanha. Estou em casa de licena por algumas semanas para visitar meu pai. E voc  das 
montanhas, eu presumo?" 

Ela me olhou surpresa. "Lenoir." Ela me analizou. "Deixa eu adivinhar, meu sotaque, certo? Voc 
acha que eu falo como se fosse do interior, no ?" 

"De jeito nenhum." 

"Bem, eu sou. Do interior, quero dizer. Cresci numa fazenda e tudo. E sim, eu sei que tenho um 
sotaque, mas me disseram que algumas pessoas acham charmoso." 

"Randy parecia achar que sim." 

Saiu antes que eu pudesse me segurar. No estranho silncio, ela passou uma mo sobre os cabelos. 

"Randy parece ser um jovem legal," ela comentou depois de um tempo, "mas eu no conheo ele 
to bem. No conheo realmente a maioria das pessoas da casa, tirando Tim e Susan." Ela espantou 
um mosquito. "Voc vai encontrar o Tim mais tarde. Ele  um cara timo. Voc vai gostar dele. 
Todo mundo gosta." 

"E voc realmente est aqui de frias por uma semana?" 

"Um ms, na verdade-mas no, no so realmente frias. Ns somos voluntrios. Voc ouviu falar 
do Habitat para a Humanidade, certo? Ns estamos aqui para ajudar a construir algumas casas. 
Minha famlia est envolviada nisso h anos." 

#
Por cima de seus ombros a casa parecia se tornar viva no escuro. Mais pessoas tinham se 
materializado, o volume da msica tinha aumentado, e de vez em quando eu podia ouvir uma 
risada. Brad, Susan e Randy j estavam rodeados por um grupo de jovens bebendo cerveja e 
parecendo querer mais diverso e a chance de se agarrar com algum do sexo oposto do que fazer 
uma boa ao. Ela deve ter notado a minha expresso e seguido o meu olhar. 


"Ns s comeamos segunda. Eles vo logo descobrir que no se trata s de diverso e jogos." 


"Eu no disse nada..." 


"No precisou. Mas voc est certo. Pra maioria deles  a primeira vez que trabalham com a 
Habitat, e s esto fazendo pra que tenham alguma coisa diferente para colocar no seu currculo 
quando se formarem. No tm idia de quanto trabalho est envolvido. Mas, no fim, o que importa 
 que as casas sejam construdas, e elas sero. Elas sempre so." 


"Voc j fez isso antes?" 


"Todos os veres desde que eu fiz dezesseis anos. Costumava fazer com a nossa igreja, mas quando 
fui para Chapel Hill, comeamos um grupo l. Bem, na verdade, o Tim comeou. Ele tambm  de 
Lenoir. Acabou de se formar e vai comear o mestrado esse outono. Conheo ele desde sempre. Ao 
invs de passar o vero trabalhando em empregos estranhos em casa ou fazendo estgios, achamos 
que porderamos oferecer aos estudandtes uma chance de fazer a diferena. Todo mundo racha o 
dinheiro da casa e paga as prprias despesas pelo ms, e no cobramos nada pelo trabalho que 
fazemos nas casas. Era por isso que era to importante eu pegar minha bolsa de volta. No poderia 
comer durante todo o ms." 


"Tenho certeza que eles no deixariam voc morrer de fome." 
"Eu sei, mas no seria justo. Eles j esto fazendo algo que vale a pena, e isso  mais que o 
bastante." 


Eu podia sentir meu ps escorregando na areia. 


"Por que Wilmington?" Eu perguntei. "Quero dizer, por que vir aqui construir casas ao invs de 
algum lugar como Lenoir ou Raleigh?"
"Por causa da praia. Voc sabe como as pessoas so.  muito difcil conseguir que elas cedam seu 
tempo por um ms, mas  mais fcil se for em um lugar como este. E quanto mais pessoas voc 
tiver, mais voc pode fazer. Trinta pessoas se inscreveram esse ano." 
Eu assenti, consciente de quo perto um do outro ns caminhvamos. "E voc tambm de formou?" 
"No, vou fazer o ltimo ano. E vou me especializar em educao especial, se essa era a sua 
prxima pergunta." 
"Era." 
"Eu previ. Quando se est na univesidade,  isso que todo mundo te pergunta." 
"Todo mundo me pergunta se eu gosto de estar no exrcito." 
"Voc gosta?" 
"No sei." 
Ela riu, e o som foi to musical que eu sabia que queria ouv-lo novamente. 
Alcanamos o fim do per e eu peguei minha prancha. Joguei a garrafa vazia de cerveja na lixeira, 
ouvindo-a se chocar com o fundo. As estrelas vinham  tona acima das nossas cabeas, e as luzes 
das casas alinhadas ao longo das dunas me lembraram luminosas abboras de Halloween. 


"Voc se importa se eu perguntar o que te levou a se juntar ao exrcito? Levando em conta que voc 


#
no sabe se gosta, quero dizer." 


Me levou um segundo pra descobrir como responder quilo, e eu mudei a prancha de surf pra o 
outro brao. "Acho que o mais seguro  dizer que, naquele tempo, eu precisei entrar." 
Ela esperou eu falar mais, mas quando eu no falei, simplesmente assentiu. 
"Aposto que voc est contente de estar de volta em casa por um tempo," ela disse. 
"Sem dvida." 
"Aposto que seu pai est contente tambm, no ?" 
"Acho que sim." 
"Ele est. Tenho certeza de que tem muito orgulho de voc." 
"Espero que sim." 
"Voc fala como se no tivesse certeza." 
"Voc teria que encontrar meu pai para entender. Ele no  muito falante." 
Eu podia ver a luz da lua refletida em seus olhos escuros, e sua voz era macia quando ela falou. "Ele 


no precisa falar para ter orgulho de voc. Ele deve ser o tipo de pai que demonstra isso de outras 


maneiras." 
Pensei sobre isso, esperando que fosse verdade. Enquanto considerava, ouvimos um grito alto vindo 
da casa e eu avistei algumas garotas perto do fogo. Um dos caras tinha os braos ao redor de uma 
garota e a empurrava pra frente; ela ria e lutava contra ele. Brad e Susan estavam agarrados ali 
perto, mas Randy tinha sumido. 


"Voc disse que no conhece a maioria das pessoas com as quais vai morar?" 
Ela balanou a cabea, seus cabelos varrendo seus ombros. Ajeitou outra mecha. "No to bem. Ns 
encontramos a maioria deles pela primeira vez na inscrio, e depois hoje quando chegamos aqui. 
Quero dizer, podemos ter nos visto pelo campus uma vez ou outra e eu acho que muitos deles j se 


conehcem, mas eu no. A maioria est em fraternidades. Eu ainda vivo em um dormitrio. Mas eles 
so um bom grupo." 
Enquanto ela respondia, tive a sensao de que era o tipo de pessoa que nunca diria uma coisa ruim 


sobre ningum. Sua considerao com os outros me ocorreu como refrescante e madura, e ainda, 
estranhamente, eu no estava surpreso. Era parte daquela qualidade indefinida que eu tinha sentido 
nela desde o comeo, um comportamento que a diferenciava. 


"Quantos anos voc tem?" eu perguntei enquanto nos aproximvamos da casa. 
"Vinte e um. Fiz aniversrio no ms passado. E voc?" 
"Vinte e trs. Voc tem irmos ou irms?" 
"No. Sou filha nica. S eu e meus pais. Eles ainda vivem em Lenoir, e ainda esto felizes depois 


#
de vinte e cinco anos. Sua vez." 


"O mesmo. A no ser por mim, sempre fomos s eu e meu pai." Eu sabia que minha resposta levaria 
a uma pergunta seguinte sobre o status da minha me, mas para a minha surpresa, ela no veio. Em 
vez disso, ela perguntou, "Foi ele que lhe ensinou a surfar?" 


"No, isso eu aprendi sozinho quando era criana." 


"Voc  bom. Estava te observando mais cedo. Faz parecer to fcil. Me faz querer saber como 
surfar." 


"Ficaria feliz em te ensinar se voc quiser aprender," me ofereci. "No  to difcil. Vou estar aqui 
amanh." 


Ela parou e fixou seu olhar em mim. "Agora, no faa ofertas que voc no est certo se pretende 
manter." Ela estendeu a mo para o meu brao, me deixando sem fala, ento indicou a fogueira. 
"Est pronto para conhecer algumas pessoas?" 


Eu engoli, sentindo um secura repentina na minha garganta, o que foi siplesmente a coisa mais 
estranha que j aconteceu comigo. 


A casa era um daqueles monstros de trs andares com uma garagem no trreo e provavelmente seis 
ou sete quartos. Um deque imenso circulava o andar principal; toalhas estavam estendidas nas 
grades, e eu podia ouvir o som de mltiplas conversas vindo de todas as direes. Havia uma 
churrasqueira no deque eu eu podia sentir o cheiro de cachorro-quente e frango cozinhando; o cara 
que estava debruado em cima da churrasqueira estava sem camisa e vestia uma touca, tentando 
parecer um urbano legal. No estava funcionando, mas isso me fez rir. 


Na areia em frente, a fogueira estava em um fosso, com vrias garotas vestindo bluses de moletom 
maiores que elas sentadas ao redor, todas fingindo no estarem conscientes dos garotos ao redor 
delas. Enquanto isso, os garotos estavam em p alm delas, parecendo estar tentando posar de um 
modo que acentuasse o tamanho de seus braos ou esculpisse seus abdmens e agindo como se no 
notassem as garotas nem um pouco. Eu j tinha visto isso no Leroy's; cultas ou no, crianas ainda 
eram crianas. Eles estavam no comeo dos vinte, e a luxria estava no ar. Jogados na praia e na 
cerveja, e eu podia adivinhar o que aconteceria depois; mas eu j teria ido embora h muito tempo 
at l. 


Quando Savannah e eu chegamos mais perto, ela diminuiu o passo antes de apontar. "Que tal ali, ao 
lado da duna?" ela sugeriu. 
"Claro." 
Pegamos um lugar de frente para o fogo. Algumas outras garotas olharam, checando o cara novo, 
antes de se recolherem em suas conversas. Randy finalmente andou em direo ao fogo com uma 
cerveja, viu SAvannah e eu e rapidamente nos deu as costas, seguindo o exemplo das garotas. 
"Frango ou cachorro-quente?" ela perguntou, parecendo indiferente a tudo isso. 
"Frango." 
"O que voc quer beber?" 
A luz do fogo fez do seu olhar quase misterioso. "Qualquer coisa que voc for beber est bom. 
Obrigado." 
"Volto logo." 


Ela foi em direo aos degraus, e eu me forcei a no segu-la. Ao invs disso, caminhei em direo 
ao fogo, tirei minha camisa e a coloquei em uma cadeira vazia, depois voltei para o meu lugar. 


#
Olhando pra cima, eu vi o touca paquerando Savannah, senti uma onda de tenso, ento me virei 
para ter um controle melhor das coisas. Eu sabia pouco sobre ela e sabia menos ainda dobre o que 
ela pensou de mim. Alm disso, eu no tinha nenhum desejo de comear alguma coisa que no 
poderia terminar. Iria embora em algumas semanas e nada disso ia chegar a alguma coisa; falei tudo 
isso pra mim mesmo, e acho que parcialmente me convenci de que iria pra casa assim que 
terminasse de comer, quando meus pensamentos foram interrompidos pelo som de algum se 
aproximando. Alto e magro, com cabelo escuro que j estava habilmente partido para o lado, ele me 
lembrou daqueles caras que voc conhece de tempos em tempos que parecem estar na meia-idade 
desde que nasceram. 

"Voc deve ser o John," ele disse com um sorriso, agachando na minha frente. "Meu nome  Tim 
Wheddon." Ele estendeu a mo. "Ouvi falar do que voc fez por Savannah-sei que ela estava grata 
por voc estar l." 

Apertei sua mo. "Prazer em conhec-lo." 

Apesar da minha cautela inicial, seu sorriso foi mais veradeiro do que os de Brad e Randy tinham 
sido. Ele nem mencionou minhas tatuagens, o que  incomum. Acho que devo mencionar que elas 
no eram exatamente pequenas e cobriam a maior parte dos meus braos. As pessoas j me 
disseram que vou me arrepender quando for mais velho, mas quando as fiz, eu realmente no me 
importava. E ainda no me importo. 

"Se importa se eu sentar aqui?" ele perguntou. 

" vontade." 

Ele se sentou confortavelmente, nem em cima de mim nem muito longe. "Fico feliz que voc possa 
ter vindo. Quero dizer, no  muito, mas a comida  boa. Est com fome?" 

"Na verdade, estou faminto." 

"O surf faz isso com voc." 

"Voc surfa?" 

"No, mas passar algum tempo no mar sempre me d fome. Lembro disso das minhas frias quando 
criana. Ns costumvamos ir a Pine Knoll Shores todo vero. Voc j esteve l?" 

"S uma vez. Tenho tudo de que preciso aqui." 

", acho que voc tem." Ele acenou para a minha prancha. "Voc gosta das pranchas longas, n?" 

"Gosto das duas, mas as ondas daqui so melhores com as longas. Voc precisa surfar no Pacfico 
para realmente aproveitar uma prancha pequena." 

"Voc j esteve l? Hava, Bali, Nova Zelndia, lugares assim? Eu li que eles so o ultimato." 

"Ainda no," eu disse, surpreso que ele sabia sobre eles. "Uma dia, talvez." 

Um pedao de lenha estalou, mandando pequenas fascas para o cu. Juntei minhas mos, sabendo 
que era a minha vez. "Ouvi dizer que voc est aqui para construir algumas casas para os pobres." 

#
"Foi Savannah que lhe disse? , esse  o plano, de qualquer forma. Elas so para algumas famlias 
realmente merecedoras, e com sorte, elas estaro em suas prprias casas no fim de julho." 
" uma boa coisa o que voc est fazendo." 
"No sou s eu. Mas eu queria te perguntar uma coisa." 


"Deixe-me adivinhar, voc quer que eu seja voluntrio?" 
Ele riu. "No, nada disso. Embora seja engraado-eu j ouvi isso antes. As pessoas me vem vindo e 
geralmente elas correm pro outro lado. Acho que sou muito fcil de entender. De qualquer forma, 
sei que  um chute de muito longe, mas eu estava me perguntando se voc conhece meu primo. A 
estao dele  em Fort Bragg." 


"Sinto muito," eu disse. "Meu posto  na Alemanha." 
"No Ramstein?" 
"No. Essa  a base da fora area. Mas eu estou relativamente perto. Por que?" 
"Eu estava em Frankfurt dezembro passado. Passei o natal l com a minha famlia.  de onde ns 


somos originalmente, e meus avs ainda vivem l." 
"Mundo pequeno." 
"Voc aprendeu alguma coisa em alemo?" 
"Nada." 
"Nem eu. A pior parte  que meus pais so fluentes e eu tenho ouvido alemo em casa por anos, e 


at tive aulas antes de ir. Mas no entendia, sabe? Acho que fui sortudo de passar nas aulas, e tudo o 
que eu podia fazer era balanar a cabea na mesa do jantar e fingir que entendia o que todo mundo 
dizia. A nica coisa boa era que meu irmo estava no mesmo barco, ento podamos nos sentir 
como idiotas juntos." 

Eu ri. Ele tinha um rosto aberto, honesto e sem querer, eu gostei dele. 
"Ei, posso pegar alguma coisa pra voc?" ele perguntou. 
"Savannah est tomando conta disso." 
"Eu devia ter adivinhado. Anfitri perfeita e tudo isso. Sempre foi." 
"Ela disse que vocs dois cresceram juntos." 
Ele assentiu. "A fazenda da famlia dela  logo ao lado da minha. Ns fomos as mesmas escolas e 


frequentamos a mesma igreja por anos, e depois ns estvamos na mesma universidade. Ela  tipo 


minha irm caula. Ela  especial." 
Apesar do comentrio sobre a 'irm', eu tive a impresso pelo modo como ele falou "especial" que 
seus sentimentos eram um pouco mais profundos do que ele deixava transparecer. Mas diferente de 
Randy, ele no pareceu com cimes sobre o fato de que ela tinha me convidado pra vir aqui. Antes 

#
que eu pudesse deixar minha imaginao vagar sobre isso, Savannah apareceu nas escadas e desceu 


para a areia. 
"Vejo que voc conheceu o Tim," ela disse. Em uma mo estavam dois pratos com frango, salada de 
batata e batatas fritas; na outra, duas latas de Pepsi Diet. 


", eu s quis aparecer e agradecer pelo que ele fez," Tim explicou, "ento decidi entedi-lo com 
estrias de famlia." 

"Bom. Eu estava esperando que vocs dois tivessem uma chance de se encontrar." 
Ela ergueu suas mos; como Tim, ela ignorou o fato de que eu estava sem camisa. "A comida est 
pronta. Voc quer meu prato, Tim? Eu posso ir l e pegar outro." 


"No, eu vou pegar," Tim disse, se levantando. "Mas obrigado. Vou deixar vocs dois atacarem." 
Ele sacudiu a areia dos shorts. "Ei, foi bom te conhecer, John. Se estiver na rea amanh, ou outro 
dia, voc  sempre bem-vindo." 

"Obrigado. Foi bom te conhecer tambm." 
Um tempo depois, Tim estava subindo as escadas. Ele no olhou pra trs, apenas soltou um 
amigvel ol para algum vindo na direo oposta, depois seguiu o resto do caminho. Savannah me 
estendeu o prato e alguns utenslios plsticos, trocou de mos e me ofereceu um refrigerante, ento 


sentou ao meu lado. Perto, eu notei, mas no to perto para tocar. Ela apoiou o prato no colo, 
estendeu a mo para a lata antes de hesitar. Ela segurou a lata. 
"Voc estava bebendo cerveja mais cedo, mas disse pra pegar o que eu fosse pegar pra mim 


tambm, ento eu te trouxe um desses. Eu no estava certa do que voc queria." 
"O refrigerante t bom." 
"Tem certeza? Tem muita cerveja nos freezers e eu j ouvi falar de vocs, caras do exrcito." 
Eu bufei. "Tenho certeza," disse, abrindo minha lata. "Presumo que voc no beba." 
"No," ela disse. Nada de defensivo ou presunoso em seu tom, eu notei, s a verdade. Gostei disso. 
Ela mordeu um pedao do frango. Eu fiz o mesmo, e no silncio me perguntei sobre ela e Tim e se 


ela sabia de como ele realmente se sentia em relao a ela. E me perguntei como ela se sentia em 
relao a ele. Havia algo ali, mas eu no conseguia descobrir o qu, a menos que Tim estivesse 
certo e fosse um negcio do tipo irmo. Eu de alguma forma duvidava que esse fosse o caso. 

"O que voc faz no exrcito?" ela perguntou, finalmente pousando o garfo. 
"Sou sargento na infantaria. Esquadro de armas." 
"Como ? QUero dizer, o que voc faz todo dia? Voc atira, explode coisas ou o que?" 
"s vezes. Mas, na verdade,  bem entediante na maioria do tempo, pelo menos quando estamos na 


base. Nos reunimos de manh, geralmente por volta das seis, nos certificamos que todos esto l, 
ento nos dividimos em batalhes para nos exercitarmos. Basquete, corrida, levantamento de peso,

o que for. s vezes tem aula naquele dia, qualquer coisa sobre montar e montar de novo nossas 
#
armas, ou uma aula de terreno noturno, ou ns vamos treinar tiros com fuzis, ou qualquer coisa. Se 
nada estiver planejado ns s voltamos pro quartel e jogamos videogames, lemos, malhamos de 
novo ou qualquer coisa pelo resto do dia. Depois nos reunimos de novo s quatro horas e 
resolvemos o que faremos no outro dia. Ento acabamos." 

"Videogames?" 

"Eu malho e leio. Mas meus colegas so especialistas nos jogos. E quanto mais violento o jogo for, 
mais eles gostam." 

"O que voc l?" 

Eu disse a ela, e ela levou em considerao. "E o que acontece quando voc  mandado a uma zona 
de guerra?" 

"Ento," eu disse, acabando meu frango, " diferente. H dever de guarda, e as coisas esto sempre 
quebrando e precisam ser consertadas, ento voc fica ocupado, mesmo que no esteja fora em 
patrulha. Mas a infataria so as foras que ficam no cho, ento ns passamos uma grande parte do 
nosso tempo longe do campo." 

"Voc nunca fica com medo?" 

Procurei pela resposta certa. "Sim. s vezes. No  como se voc andasse por a aterrorizado otempo todo, mesmo quando as coisas esto um inferno ao seu redor.  
s que voc est... reagindo, 
tentando ficar vivo. As coisas acontecem to rpido que voc no tem tempo para pensar em muito 
coisa a no ser fazer o seu trabalho e tentar no morrer. Geralmente te afeta mais tarde, quando vocest mais tranquilo.  a que voc se d conta o quo perto 
esteve, e s vezes voc tem tremedeiras e 
vomita ou qualquer coisa." 

"No tenho certeza se conseguiria fazer o que voc faz." 

No tenho certeza se ela esperava uma resposta pra isso, ento eu mudei de assunto. "Por que 
educao especial?" perguntei. 

" uma longa estria. Tem certeza de que quer escutar?" Quando eu assenti, ela deu um longo 
suspiro. 

"Tem esse garoto em Lenoir chamado Alan, e eu conheo ele por toda a minha vida. Ele  autista e 
por um bom tempo ningum sabia o que fazer com ele ou como chegar a ele. Isso me pegou, sabe? 
Eu me sentia to mal por ele, at mesmo quando era pequena. Quando perguntei aos meus pais 
sobre ele, eles disseram que talvez o Senhor tinha planos especiais pra ele. No fez nenhum sentido 
no comeo, mas Alan tinha um irmo mais velho que era to paciente com ele o tempo inteiro. 
Quero dizer, sempre. Ele nunca se frustrou com ele, e pouco a pouco, ele ajudou Alan. Alan no  
perfeito de maneira alguma-ele ainda vive com os pais, e nunca vai poder ficar sozinho-mas ele no 
 to perdido como era quando novo, e eu decidi que quero ser capaz de ajudar crianas como 
Alan." 

"Quantos anos voc tinha quando decidiu isso?" 

"Doze." 

"E voc quer trabalhar com eles em uma escola?" 

#
"No," ela disse. "Eu quero fazer o que o irmo do Alan fez. Ele usou cavalos." Ela pausou, 
juntando os pensamentos. "Com crianas autistas...  como se elas estivessem trancadas no seu 
prprio mundinho, ento geralmente a escola e a terapia so baseadas na rotina. Mas eu quero 
mostr-los esperincias que podem abrir novas portas a eles. Eu j vi acontecer. Quero dizer, Alan 
estava aterrorizado com os cavalos de incio, mas seu irmo continuou tentando, e depois de um 
tempo, Alan chegou ao ponto em que podia dar tapinhas neles, afagar seus fucinhos, e mais tarde 
aliment-los. Depois disso ele comeou a montar, e eu lembro de olhar para seu rosto a primeira vez 
que ele subiu... foi to incrvel, sabe? Quero dizer, ele estava sorrindo, to feliz como uma criana 
pode ser. E  isso que eu quero que essas crianas experienciem. Simplesmente... felicidade, mesmo 
que seja por um pequeno tempo. Foi a que eu soube exatamente o que queria fazer com a minha 
vida. Talvez abrir um campo de montaria para crianas autistas, onde ns podemos realmente 
trabalhar com elas. Ento talvez elas possam sentir a mesma felicidade que o Alan sentiu." 

Ela pousou seu garfo como se estivesse envergonhada, ento deixou o prato ao seu lado. 

"Isso parece maravilhoso." 

"Vamos ver se acontece," ela disse, sentando de novo. " s um sonho por enquanto." 

"Presumo que voc goste de cavalos tambm?" 

"Toda garota gosta de cavalos. Voc no sabia disso? Mas sim, eu gosto. Tenho um Arabian 
chamado Midas, e s vezes me mata que eu esteja aqui quando eu poderia estar montando ele." 

"A verdade vem  tona." 

"Como deveria. Mas ainda planejo ficar aqui. Vou montar o dia todo, todos os dias quando voltar. 
Voc monta?" 

"Montei uma vez." 

"Voc gostou?" 

"Estava dolorido no dia seguinte. Andar doa." 

Ela gargalhou e eu me dei conta que gostava de conversar com ela. Era fcil e natural, diferente detantas pessoas. Acima de mim, eu podia ver o cinturo de rion; 
logo alm do horizonte na gua, 
Vnus tinha aparecido e brilhava em um branco pesado. Garotos e garotas continuavam a correr 
escada acima e abaixo, paquerando com a coragem proporcionada pela bebida. Eu suspirei. 

"Eu acho devo ir andando pra ficar com meu pai um pouco. Ele provavelmente est se perguntando 
onde eu estou. Isso se ele ainda estiver acordado." 

"Voc quer ligar pra ele? Pode usar o telefone." 

"No, acho que vou indo.  uma longa caminhada." 

"Voc no tem carro?" 

"No. Peguei uma carona de manh." 

#
"Quer que Tim te leve em casa? Tenho certeza que ele no se importaria." 

"No, tudo bem." 

"No seja ridculo. Voc disse que era uma longa caminhada, certo? Vou pedir ao Tim para te levar. 
Vou cham-lo." 
Ela correu antes que eu pudesse imped-la, e um minuto depois Tim a seguia para fora da casa. 
"Tim fica feliz em te levar," ela disse, parecendo muito contente consigo mesma. 
Eu me virei para Tim. "Tem certeza?" 
"Nenhuma problema," ele me assegurou. "Minha caminhonete est l na frente. Voc pode colocar 
sua prancha atrs." Ele indicou a prancha com a mo. "Precisa de ajuda?" 
"No," eu disse, me levantando, "pode deixar." Eu fui at a cadeira e vesti a camisa, depois peguei a 
prancha. "Obrigada, a propsito."
"O prazer  meu," ele disse. Bateu nos bolsos. "Volto em um segundo com as chaves.  a 
caminhonete verde estacionada na grama. Te encontro l na frente." 


Quando ele se foi, eu me virei para Savannah. "Foi bom te conhecer." 


Ela sustentou meu olhar. "Voc tambm. Nunca tinha conversado com um soldado antes. Me senti 
meio que... protegida. No acho que Randy me dar nenhum problema esta noite. Suas tatuagens 
provavelmente assustaram ele." 


Achei que ela tinha notado. "Talvez te veja por a." 


"Voc sabe onde eu estarei." 


Eu no tinha certeza se isso significava que ela queria que eu viesse visit-la de novo ou no. De 
muitas formas, ela permanecia um completo mistrio para mim. Ento novamente, eu mal a 
conhecia. 


"Mas estou um pouco desapontada que voc esqueceu," ela adicionou, quase como um segundo 
pensamento. 


"Esqueci o que?" 


"Voc no disse que ia me ensinar a surfar?" 


Se Tim teve alguma suspeita do efeito que Savannah tinha em mim ou que eu estaria visitando de 
novo no dia seguinte, ele no deu nenhuma indicao. Em vez disso se concentrou em dirigir, se 
certificando de que estava indo na direo certa. Ela era o tipo de motorista que parava o carro 
mesmo que a luz estivesse amarela e ele pudesse ter passado. 


"Espero que voc tenha se divertido," ele disse. "Eu sei que  sempre estranho quando voc no 
conhece ningum." 


"Eu me diverti." 


"Voc e Savannah realmente se deram bem. Ela  uma coisa, no ? Acho que gostou de voc." 


"Tivemos uma boa conversa," eu disse. 


"Fico feliz. Estava um pouco preocupado sobre ela vir aqui. Ano passado os pais dela estavam 


#
conosco, ento essa  a primeira vez que ela est por conta prpria assim. Sei que  uma grande 
garota, mas esse no  o tipo de pessoa que ela geralmente convive, e a ltima coisa que eu queria 
era que ela ficasse se defendendo de garotos a noite toda." 

"Tenho certeza que ela aguentaria." 

"Voc provavelmente est certo. Mas eu tenho a sensao que alguns desses garotos so muito 
persistentes." 
" claro que eles so. Eles so garotos." 
Ele riu. "Acho que voc est certo." Ele indicou a janela. "Pra onde agora?" 
O direcionei atravs de uma srie de viradas, ento finalmente disse para diminuir a velocidade do 


carro. Ele parou em frente a casa, onde eu podia ver a luz da toca do meu pai, brilhando amarela. 
"Obrigada pela carona," eu disse, abrindo a porta. 
"Sem problemas." Ele se debruou sobre o assento. "E escute, como eu disse, sinta-se livre para 


aparecer na casa a qualquer hora. Ns trabalhamos durante a semana, mas finais de semana e noites 
geralmente so folgas." 

"Vou manter isso em mente," eu prometi. 
Uma vez dentro de casa, fui  toca do meu pai e abri a porta. Ele estava fitando o Greysheet e deu 
um pulo. Me dei conta de que ele no tinha me ouvido entrar. 


"Desculpe," eu disse, me sentando no nico degrau que separava a toca do resto da casa. "No quis 
assust-lo." 

"Tudo bem," foi tudo o que ele disse. Debateu se colocaria o Greysheet de lado, ento colocou. 
"As ondas estavam timas hoje," eu comentei. "Tinha quase esquecido o quanto a gua  
fantstica." 

Ele sorriu mas no disse nada. Mudei ligeiramente de posio no degrau. "Como foi o trabalho?" 
perguntei. 

"O mesmo," ele disse. 
Mergulhou novamente em seus prprios pensamentos e tudo em que eu podia pensar era que a 
mesma coisa poderia ser dita de nossas conversas. 


#
Trs 

Surf  um esporte solitrio, no qual longos perodos de tdio so alternados com atividades 
frenticas, e lhe ensina a seguir a natureza em vez de lutar com ela...  sobre entrar na rea. Isto  o 
que as revistas dizem, de qualquer modo, e eu concordo em grande parte. No h nada to excitante 
quanto pegar uma onda e ficar entre uma parede de gua enquanto ela se enrola em direo a costa. 
Mas eu no sou como muitos desses caras bronzeados e com dreads no cabelo que surfam o dia 
todo, todos os dias, porque eles acham que  a coisa mais importante da sua existncia. E no . Pra 
mim,  mais pelo fato de que o mundo  loucamente barulhento quase todo o tempo e quando voc 
est surfando, no . Voc  capaz de ouvir a si mesmo pensar. 

Era isso que eu estava dizendo a Savannah, de qualquer forma, quando estvamos indo em direo 
ao oceano no domingo de manh. Pelo menos, era o que eu pensei que estava dizendo. Na maior 
parte, eu estava meio que s falando coisas desconexas, tentando no parecer to bvio sobre o fato 
de que eu realmente gostei de como ela ficava de biquni. 

"Como andar a cavalo," ela disse. 

"H?" 

"Se ouvir pensando.  por isso que eu gosto de montar tambm." 

Eu tinha chegado l alguns minutos antes. As melhores ondas eram geralmente de manh cedo, e 
era um daqueles dias claros e com cu azul, um pressgio de calor, o que significava que a praia 
ficaria lotada novamente. Savannah estava sentada nos degraus da varanda, enrolada em uma 
toalha, com os restos da fogueira diante dela. Apesar de que no havia dvidas de que a festa tinha 
durado horas depois da minha partida, no havia uma nica lata vazia ou lixo em lugar nenhum. 
Minha impresso do grupo se elevou um pouco. 

Apesar da hora, o ar j estava quente. Ns passamos alguns minutos na areia perto da beira da gua 
repassando o bsico do surf, e explicando como subir na prancha. Quando Savannah achou que 
estava pronta, eu entrei na gua carregando a prancha, andando ao lado dela. 

Havia apenas alguns surfistas l, os mesmos que eu tinha visto no dia anterior. Estava tentando 
descobrir o melhor lugar pra levar Savannah pra que ela tivesse espao suficiente quando me dei 
conta de que no podia mais v-la. 

"Espera, espera!" ela gritou atrs de mim. "Para, para..." Eu me virei. Savannah esta na ponta dos 
ps enquanto os primeiros respingos de gua atingiam sua barriga, e a parte superior de seu corpo 
rapidamente se encheu de gooseflesh*. Ela parecia estar tentando se elevar da gua. 

*No achei uma equivalente no portugus, mas so pequenas reas um pouco inchadas que 
aparecem na pele por causa do frio, do medo, ou da excitao. 

"Deixa eu me acostumar com isso..." Deu alguns gritos rpidos e audveis e cruzou os braos. 
"Wow. Isso  muito frio. Santa me!" Santa me? No era extamente algo que meus amigos diriam. 

"Voc se acostuma," eu disse, sorrindo com afetao. 

"Eu no gosto de sentir frio. Eu odeio sentir frio." 

"Voc vive nas montanhas, onde neva." 

#
", mas ns temos essas coisas chamadas jaquetas, luvas e toucas que vestimos pra ficarmos 
aquecidos. E a primeira coisa que fazemos pela manh no  nos jogarmos em guas polares." 
"Engraado," eu disse. 


Ela continuou a pular. ", muito engraado. Quero dizer, Jesus!" 
Jesus? Eu sorri. Sua respirao comeou a se nivelar gradualmente, mas os gooseflesh ainda 
estavam l. Ela deu outro pequeno passo pra frente. "D mais certo se voc simplesmente pular e 
mergulhar em vez de ficar se torturando em estgios," eu sugeri. 


", mas ns temos essas coisas chamadas jaquetas, luvas e toucas que vestimos pra ficarmos 
aquecidos. E a primeira coisa que fazemos pela manh no  nos jogarmos em guas polares." 
"Engraado," eu disse. 


Ela continuou a pular. ", muito engraado. Quero dizer, Jesus!" 
Jesus? Eu sorri. Sua respirao comeou a se nivelar gradualmente, mas os gooseflesh ainda 
estavam l. Ela deu outro pequeno passo pra frente. "D mais certo se voc simplesmente pular e 
mergulhar em vez de ficar se torturando em estgios," eu sugeri. 


"Voc faz do seu jeito, eu fao do meu," ela disse, sem se impressionar com a minha sabedoria. 
"No acredito que voc quis vir agora. Eu tava pensando alguma hora  tarde, quando a temperatura 
estivesse acima de congelante." 


"Est fazendo quase 26 graus." 
"T, t," ela disse, finalmente se aclimatando. Descruzando os braos, ela deu outra srie de 


inspiraes, ento mergulhou talvez uma polegada. Tomando coragem, ela jogou um pouco de gua 
nos braos. "Certo, acho que t chegando l." 
"No se apresse por minha causa. Srio. Leve o tempo que precisar." 
"Eu vou, obrigada," ela disse, ignorando o tom provocador. "Certo," disse novamente, mais pra si 


mesma que pra mim. Deu um pequeno passo pra frente, depois outro. Enquanto se movia, seu rosto 
era uma mscara de concentrao, e eu gostei do jeito que ele ficava. To srio, to intenso. To 
ridculo. 

"Pare de rir de mim," ela disse, notando minha expresso. 
"Eu no estou rindo." 
"Eu posso ver no seu rosto. Voc est rindo por dentro." 
"T certo, eu vou parar." 
Eventualmente ela caminhou para se juntar a mim, e quando a gua estava nos meus ombros ela 


subiu na prancha. Segurei a prancha no lugar, tentando novamente no ficar olhando pro corpo dela, 


o que no era fcil, considerando que ela estava bem na minha frente. Me forcei a monitorar as 
ondas atrs de ns. 
#
"E agora?" 


"Voc lembra o que fazer? Remar com fora, agarrar a prancha dos dois lados perto da frente e 
depois ficar em p em cima dela?" 
"Entendi." 
" meio difcil no comeo. No fique surpresa se voc cair, mas se acontecer, s siga a onda. 


Normalmente voc s aprende depois de algumas tentativas." 
"Certo," ela disse, e eu vi uma pequena onda se aproximando. 
"Prepare-se...," eu disse, contando o tempo da onda. "Certo, comece a remar..." 
Quando a onda nos atingiu, eu empurrei a prancha, nos dando algum impulso e Savannah pegou a 


onda. Eu no sei o que estava esperando, s que no era ver ela subir na prancha direto, manter o 
equilbrio e pegar a onda todo o caminho de volta a costa, onde ela finalmente se extinguiu. Na gua 
rasa, ela pulou da prancha enquanto diminua a velocidade, e se virou num estilo dramtico pra 
mim. 

"Como foi?" ela gritou. 

Apesar da distncia entre ns, eu no podia olhar pra outro lugar. Ah cara, eu pensei de repente, 
estou realmente com problemas. 
"Eu fiz ginstica olmpica por anos," ela admitiu. "Sempre tive um bom senso de equilbrio. Acho 


que deveria ter dito algo sobre isso quando voc estava me dizendo que eu ia cair." 
Passamos mais de uma hora na gua. Ela subiu na prancha e pegou as ondas at a costa todas as 


vezes com facilidade; embora no conseguisse guiar a prancha, eu no tinha dvidas de que se ela 
quisesse, seria capaz de controlar isso em pouco tempo. 
Mais tarde, retornamos para a casa. Esperei do lado de fora enquanto ela subia as escadas. Enquanto 

algumas pessoas tinham se levantado-trs garotas estavam no deque olhando o oceano-a maioria 
ainda estava se recuperando da noite anterior e no estavam em nenhum lugar a vista. Savannah 
apareceu alguns minutos depois vestindo shorts e uma camisa, segurando duas xcaras de caf. Ela 
sentou ao meu lado nos degraus enquanto ns olhvamos a gua. 

"Eu no disse que voc ia cair," eu esclareci. "Eu s disse que se voc casse, deveria seguir a 
onda." 
"Aham," ela disse, sua expresso travessa. Ela apontou a minha xcara. "Seu caf est bom?" 
"Est timo," eu disse. 
"Tenho que comear meu dia com caf.  meu nico vcio." 
"Todo mundo tem que ter um." 
Ela me olhou. "Qual  o seu?" 


#
"Eu no tenho nenhum," eu respondi, e ela me surpreendeu me dando uma cotovelada brincalhona. 
"Sabia que a noite passada foi a primeira noite de lua cheia?" 
Eu sabia, mas pensei que seria melhor no admitir. "Srio?" eu disse. 
"Eu sempre amei luas cheias. Desde que era criana. Eu gostava de pensar que elas eram uma 


profecia de organizao. Eu queria acreditar que elas sempre precediam coisas boas. Como se, se eu 


etivesse cometendo um erro, teria a chance de comear de novo." 
Ela no dise mais nada sobre isso. Em vez disso levou a xcara aos lbios, e eu olhei enquanto o 
vapor cobria sua face. "O que tem na sua agenda hoje?" eu perguntei. 


"Temos que ter uma reunio alguma hora hoje, mas alm disso, nada. Bem, tirando a igreja. Pra 
mim, quero dizer. E, bem, quem mais quiser ir. O que me lembra-que horas so?" 
Chequei meu relgio. "Um pouco depois das nove." 


"J? Acho que isso no me d muito tempo. O culto  s dez." 
Eu assenti, sabendo que nosso tempo juntos tinha quase acabado. "Voc quer ir comigo?" eu ouvi 
ela perguntar. 


"Pra igreja?" 
"Sim. Pra igreja," ela disse. "Voc no vai?" 
Eu no tinha certeza do que dizer. Obviamente era importante pra ela, e embora eu tivesse a 


impresso de que minha resposta a desapontaria, no quis mentir. "Na verdade, no," eu admiti. "Eu 
no vou  igreja h anos. Quero dizer, eu costumva ir quando era criana, mas..." desconversei. 
"No sei o porqu," eu finalizei. 

Ela esticou as pernas, esperando pra ver se eu acrescentaria mais. Quando eu no o fiz, ela arqueou 
uma sombrancelha. "Ento?" 
"O que?" 


"Voc quer ir comigo ou no?" 
"Eu no tenho nenhuma roupa. Quer dizer, isso  tudo que eu tenho, e eu duvido que daria tempo ir 
em casa, tomar banho, e voltar a tempo. Se no, eu iria." 


Ela em olhou de cima a baixo. "Bom." Deu palmadinhas no meu joelho, a segunda vez que ela tinha 


me tocado. "Vou pegar algumas roupas pra voc." 
"Voc est timo," Tim me assegurou. "O colarinho est um pouco apertado, mas eu no acho que 
algum v notar." 


No espelho, eu vi um estranho vestindo calas cqui, uma camisa apertada e gravata. No conseguia 
lembrar da ltima vez que tinha vestido uma gravata. No tinha certeza se estava feliz sobre isso ou 
no. Tim, enquanto isso, estava muito animado com a coisa toda. 

#
"Como ela te convenceu a isso?" ele perguntou. 

"No fao idia." 

Ele riu e se inclinando para amarrar seus sapatos, piscou. "Eu disse que ela gosta de voc." 

Ns temos capeles no exrcito, e a maioria deles so caras bem legais. Na base, eu conheci alguns 
deles muito bem, e um deles-Ted Jenkins-era o tipo de cara que voc confiava. Ele no bebia, e eu 
no estou dizendo que ele era um de ns, mas era sempre bem vindo quando aparecia. Tinha uma 
esposa e dois filhos, e estava no servio h quinze anos. Ele tinha experincia prpria quando se 
tratava de brigas com a famlia e a vida militar em geral, e se voc alguma vez sentasse para 
conversar com ele, ele realmente ouvia. Voc no podia cont-lo tudo-afinal, ele era um oficial-e ele 
acabou repreendendo alguns caras do meu peloto que admitiram suas aventuras um pouco 
livremente demais, mas o negcio era que ele tinha um tipo de presena que fazia voc querer 
contar a ele mesmo assim. Eu no sei o que era, a no ser o fato de que ele era um bom homem e 
um timo capelo do exrcito. Ele falava sobre Deus to naturalmente como voc fala sobre o seu 
amigo, no daquele modo irritante e pregador que geralmente me tira a vontade. E ele no te 
pressionava a comparecer ao culto nos domingos. Ele tipo que deixava com voc, e dependendo do 
que estava acontecendo ou de quanto as coisas estavam perigosas, ele podia se achar falando com 
uma pessoa, duas ou cem. Antes de meu batalho ser mandado para os Balcs, ele provavelmente 
batizou cinquenta pessoas. 

Eu fui batizado quando criana, ento eu no fui por a, mas como disse, fazia muito tempo que eu 
tinha ido ao culto. Tinha parado de ir com meu pai muito tempo atrs, e no sabia o que esperar. 
Tambm no podia dizer que eu estava ansioso para ir, mas no fim, no foi to ruim assim. O pastor 
foi discreto, a msica foi legal, e o tempo no se arrastou do jeito que sempre fazia quando eu era 
pequeno. No estou dizendo que tirei muito proveito do culto, mas mesmo assim fiquei feliz em ir, 
s assim eu poderia falar sobre alguma coisa nova com meu pai. E tambm porque me deu mais um 
pouquinho de tempo com Savannah. Savannah terminou se sentando entre Tim e eu, e eu fiquei 
olhando pra ela de canto de olho enquanto ela cantava. Ela tinha uma voz calma, discreta mas 
estava sempre afinada e eu gostei do jeito que ela soava. Tim ficou concentrado na Sagrada 
Escritura, na sada, ele parou para falar com o pastor enquanto Savannah e eu espervamos na 
sombra de um corniso l na frente. Tim parecia animado enquanto conversava com o pastor. 

"Velhos amigos?" eu perguntei, indicando Tim com a cabea. Apesar da sombra, eu estava ficando 
com calor e podia sentir trilhas de transpirao comeando a se formar. 

"No. Acho que foi o pai dele que lhe falou desse pastor. Ele teve que usar o MapQuest* noite 
passada pra achar esse lugar." Ela se abanou com a mo; em seu vestido de vero, ela me lembrou 
uma tpica bela mulher do sul. "Fico feliz que voc tenha vindo." 

* um servio on-line que ajuda a encontrar mapas e endereos de lugares em quase todos os 
pases. 

"Eu tambm," concordei. 
"Est com fome?" 

"Chegando l." 

"Temos comida na casa, se voc quiser. E voc pode devolver ao Tim suas roupas. Posso notar que 
est com calor e desconfortvel." 

#
"No  metade do calor que fazem capacetes, botas e roupa  prova de balas, acredite." 


Ela inclinou a cabea dela pra mim. "Eu gosto de ouvir voc falar sobre roupas de soldados. No 
tem muitos caras na minha classe que falam como voc. Acho interessante." 
"Voc est caoando de mim?" 
"S tomando notas." Ela se encostou graciosamente na rvore. "Acho que o Tim est terminando." 
Segui o seu olhar, no notando nada de diferente. "Como voc sabe?" 
"V como ele juntou as mos? Significa que ele est se preparando para se despedir. Em um 


segundo, ele vai estender a mo, sorrir e assentir, ento estar no caminho pra c." 
Vi Tim fazer exatamente como ela previu e caminhar em nossa direo. Notei a expresso divertida 


dela. Ela encolheu os ombros. "Quando voc vive numa cidade pequena como a minha, no h 
muita coisa a fazer a no ser observar as pessoas. Voc comea a ver padres depois de um tempo." 
Provavelmente havia muita observao de Tim na minha humilde opinio, mas eu no ia admitir. 
"Oi..." Tim ergueu uma mo. "Prontos para voltar?" 
"Estvamos esperando por voc," ela ressaltou. 
"Desculpe," ele disse. "Comeamos a conversar." 
"Voc comea a conversar com qualquer um e todo mundo." 
"Eu sei," ele disse. "Estou tentando em ser mais formal." 
Ela riu, e enquanto o papo familiar deles tinha me colocado momentaneamente fora do crculo de 


intimidade, tudo foi esquecido quando Savannah enrolou o brao no meu em nosso caminho de 


volta ao carro. 
Todos estavam acordados na hora que ns voltamos, e a maioria j estava em seus trajes de banho e 
trabalhando em seus bronzeados. Alguns preguiavam no deque superior; a maioria se apinhava na 
praia. Msica estrondava de um aparelho de som de dentro da casa, freezers de cerveja estavam 
reabastecidos e prontos, e alguns estavam bebendo; uma cerveja cairia bem, na verdade, mas 
levando em conta que eu tiha acabado de ir a igreja, achei que deveria passar. 


Mudei as roupas, dobrando as de Tim do jeito que eu tinha aprendido no exrcito, depois voltei  


cozinha. Tim tinha feito um prato de sanduches. 
"Sirva-se," ele disse, com um gesto. "Temos toneladas de comida. Eu deveria saber-fui eu quem 
passou trs horas fazendo compras ontem." Ele enxaguou as mos e as secou numa toalha. "Certo. 
Agora  minha vez de trocar de roupa. Savannah estar aqui em um minuto." 


Ele deixou a cozinha. Sozinho, eu olhei ao redor. A casa estava decorada naquele tradicional jeito de 
praia: muita moblia colorida de madeira, lmpadas feitas de conchas, pequenas esttuas de faris 
no consolo da lareira, pinturas pastosas da costa. 


Os pais de Lucy tinham um lugar assim. No aqui, mas em Bald Head Island. Eles nunca alugaram, 


#
preferindo passar os veres l.  claro que o velho ainda tinha que trabalhar em Winston-Salem, e 
ele e a esposa voltavam alguns dias por semana, deixando a pobre Lucy completamente sozinha. 
Exceto por mim, claro. Se eles soubessem o que acontecia naqueles dias, eles provavelmente no 
nos deixariam sozinhos. 

"Ol," Savannah disse. Ela vestia o biquni de novo, embora estivesse vestindo shorts por cima da 
parte de baixo. "Vejo que voc voltou ao normal." 

"Como voc sabe?" 

"Seus olhos no esto inchados porque seu colarinho est muito apertado." 

Eu sorri. "Tim fez alguns sanduches." 

"timo. Estou morrendo de fome," ela disse, se movimentando pela cozinha. "Voc pegou um?" 

"Ainda no," eu disse. 

"Bem, v em frente. Eu odeio comer sozinha." 

Ficamos na cozinha enquanto comamos. As garotas deitadas no deque no tinham percebido que 
ns estvamos l e eu podia ouvir uma delas falando do que ela tinha feito com um dos caras na 
noite passada e nada do que ela dizia soava como se ela estivesse na cidade numa misso de boa 
vontade para com os pobres. Savannah enrugou o nariz como se dissesse, Muita informao, depois 
virou para a geladeira. "Preciso de uma bebida. Voc quer alguma coisa?" 

"gua est bom." 

Ela se inclinou para pegar duas garrafas. Eu tentei no olhar, mas olhei de qualquer jeito e, 
francamente, eu gostei. Me pergutnei se ela sabia que eu estava olhando e supus que ela sabia, 
porque quando ela se levantou e se virou pra mim, tinha aquele olhar divertido novamente. Ela 
colocou as garrafas no balco. "Depois disso, voc quer ir surfar de novo?" 

Como eu poderia resistir? 

Passamos a tarde na gua. Tanto quanto eu gostei da vista do close-de-Savannah-deitada-na-prancha 
com o qual eu estava sendo presenteado, gostei da vista dela surfando ainda mais. Pra melhorar 
ainda mais as coisas, ela pediu para me observar enquanto se esquentava na praia, e eu fui 
presenteado com a minha prpria vista privada enquanto aproveitava as ondas. 

No meio da tarde ns estvamos deitados em toalhas perto um do outro, mas no to perto, o resto 
do grupo estava atrs da casa. Alguns olhares curiosos vinham em nossa direo, mas na maioria, 
ningum parecia notar que eu estava l, a no ser Randy e Susan. Susan franziu o cenho 
intencionalmente pra Savannah; Randy, enquanto isso, estava contente de ficar com Brad e Susan 
segurando vela e chupando o dedo. Tim no estava a vista. 

Savannah estava deitada de barriga pra baixo, uma vista tentadora. Eu estava de costas ao seu lado, 
tentando cochilar no calor preguioso mas distrado demais com a presena dela para relaxar 
completamente. 

"Ei," ela murmurou. "Me fale sobre as suas tatuagens." 

#
Rolei minha cabea na areia. "O que tem elas?" 
"No sei. Porque voc as fez, o que elas significam." 
Me apoiei em um cotovelo. Apontei pra o meu brao esquerdo, que tinha uma guia e uma faixa. 


"Certo, essa  a insgnia da infantaria, e isso"-apontei pra as palavras e letras-" como somos 


indentificados: companhia, batalho, regimento. Todo mundo no meu esquadro tem uma. Ns 


fizemos logo depois do treinamento bsico no Fort Benning em Georgia quando estvamos 


comemorando." 

"Por que diz 'Partida' embaixo dela?" 
" meu apelido. Recebi durante o treinamento bsico, cortesia do nosso amado sargento de 
treinamento. Eu no estava montando a minha arma rpido o bastante e ele basicamente disse que 


iria dar partida numa certa parte do meu corpo se eu no conseguisse deixar meu equipamento no 
ponto. O apelido pegou." 
"Ele parece agradvel," ela brincou. 
"Ah, . Chamvamos ele de Lcifer pelas costas." 
Ela sorriu. "Pra que foi o arame farpado em cima dela?" 
"Nada," eu disse, sacudindo a cabea. "Fiz essa antes de me alistar." 
"E o outro brao?" 
Um caractere chins. No queria entrar em detalhes naquela, ento balancei a cabea. " do meu 


tempo de 'estou perdido e no dou a mnima'. No significa nada." 
"No  um caractere chins?" 
"." 
"Ento o que significa? Tem que significar alguma coisa. Como bravura, honra ou algo assim?" 
" uma profanao." 
"Ah," ela disse com uma piscadela. 
"Como eu disse, no significa nada pra mim agora." 
"Tirando que voc nunca deve mostr-la se um dia voc for a China." 
Eu ri. ", tirando isso," concordei. 
Ela ficou quieta por um momento. "Voc era um rebelde, ento?" 
Assenti. "H muito tempo atrs. Bem, no tanto tempo assim. Mas parece muito tempo." 
"Foi isso que voc quis dizer quando disse que o exrcito era uma coisa que voc precisava naquele 


tempo?" 


#
"Foi bom pra mim." 
Ela pensou sobre isso. "Me diga-voc teria pulado pra pegar minha bolsa naquela poca?" 
"No. Provavelmente teria rido do que aconteceu." 
Ela avaliou minha resposta, como se estivesse se perguntando se acreditava em mim ou no. 
Finalmente, ela deu um longo suspiro. "Fico feliz que tenha se alistado ento. Eu realmente 


precisava daquela bolsa." 
"Que bom." 
"O que mais?" 
"O que mais o que? 
"O que mais voc pode me contar sobre si mesmo?" 
"No sei. O que voc quer saber?" 
"Me diga alguma coisa que mais ningum sabe sobre voc." 
Considerei aquela pergunta. "Eu posso te dizer quantas notas de dez dlares indianos com bordas 


onduladas foram cunhadas em 1907." 
"Quantas?" 
"Quarenta e duas. Elas no eram para o pblico. Alguns homens da Casa da Moeda fizeram para 


eles prprios e alguns amigos." 
"Voc gosta de moedas?" 
"No tenho certeza.  uma longa estria." 
"Ns temos tempo." 
Eu hesitei enquanto Savannah se esticou para pegar sua bolsa. "Espera," ela disse, remexendo na 


bolsa. Puxou um tubo de Coppertone. "Voc pode me contar depois de colocar protetor nas minhas 
costas. Sinto que estou ficando queimada." 
"Ah, eu posso, ?" 


Ela piscou. " parte do trato." 
Eu apliquei o protetor nas costas e ombros dela e provavelmente me entusiasmei um pouco, mas me 
convenci de que ela estava ficando rosa e que uma queimadura do sol iria fazer do trabalho dela no 
dia seguinte horrvel. Depois disso, passei os prximos minutos contando a ela sobre o meu av e 
meu pai, sobre as exposies de moedas e o bom e velho Eliasberg. O que eu no fiz foi responder 
sua pergunta especificamente, pela simples razo de que eu no estava muito certo de qual era a 
minha resposta. Quando eu acabei ela se virou para mim. 


#
"E seu pai ainda coleciona moedas?" 
"O tempo todo. Pelo menos, eu acho. Ns no falamos mais de moedas." 
"Por que no?" 
Contei a ela aquela estria tambm. No me pergunte o porque. Eu sabia que deveria estar 


mostrando o melhor de mim e escondendo as coisas ruins para impression-la, mas com Savannah 
no era possvel. Por alguma razo, ela me fazia querer contar a verdade, mesmo que eu mal aconhecesse. Quando eu terminei, ela tinha uma expresso curiosa no rosto. 
", eu fui um idiota," eu 
disse, sabendo que haviam outras palavras, provavelmente mais precisas para me descrever naquela 
poca, e todas eram profanas o suficiente pra ofend-la. 

"Parece que sim," ela disse, "mas no era o que eu estava pensando. Eu estava tentando te imaginar 
naquela poca, porque voc no parece nada com aquela pessoa agora." 
O que eu poderia dizer que no soaria falso, mesmo que fosse verdade? 
Incerto, eu optei pela ttica do meu pai e no disse nada. 


"Como  o seu pai?" 
Lhe dei uma rpida descrio. Enquanto eu falava, ela cavava a areia e deixava ela cair entre seus 
dedos, como se estivesse se concentrando na minha escolha de palavras. No fim, me surpreendendo 
de novo, eu admiti que ns ramos quase estranhos. 


"Vocs so," ela disse, usando aquele tom obejtivo e sem julgamentos. "Voc tem estado fora por 


alguns anos e at mesmo admite que mudou. Como ele poderia te conhecer?" 
Eu sentei. A praia estava lotada; era a hora do dia em que todo mundo que planejou vir j estava 
aqui e ningum estava pronto para ir embora. Brad e Randy estavam jogando Frisbee na borda da 
gua, correndo e gritando. Alguns outros andavam para se juntar a eles. 


"Eu sei," eu disse. "Mas no  s isso. Sempre fomos estranhos em relao ao outro. Quer dizer,  


to difcil falar com ele." 
Assim que falei isso, me dei conta de que ela era a primeira pessoa a quem eu tinha admitido isso. 
Estranho. Mas, a maioria das coisas que eu estava dizendo a ela soavam estranhas. 


"A maioria das pessoas da nossa idade diz isso sobre os pais." 
Talvez, eu pensei. Mas isso era diferente. No era uma diferena de gerao, era o fato de que para 


o meu pai, uma conversa informal normal era praticamente impossvel, a no ser que tivesse a ver 
com moedas. Eu no disse mais nada, contudo, e Savannah alisou a areia a sua frente. Quando 
falou, sua voz era suave. "Eu gostaria de conhec-lo." 
Me virei para ela. " mesmo?" 
"Ele parece interessante. Eu sempre amei pessoas que tem essa... paixo pela vida." 
" uma paixo por moedas, no pela vida," eu a corrigi. 


#
" a mesma coisa. Paixo  paixo.  a excitao entre os espaos tediosos, e no importa para 
onde ela  dirigida." 

Ela arrastou os ps na areia. "Bem, na maioria do tempo, de qualquer forma. No estou falando de 
vcios." 

"Como voc e a cafena." 

Ela sorriu, mostrando a pequena abertura entre seus dentes da frente. "Exatamente. Pode ser 
moedas, esportes, poltica, cavalos, msica ou f... as pessoas mais tristes que eu j encontrei na 
vida so aquelas que no do a mnima para nada. Paixo e satisfao andam de mos dadas, e sem 
elas, qualquer felicidade  apenas temporria, porque no h nada que a faa durar. Eu adoraria 
ouvir o seu pai falar sobre moedas, porque  quando voc v o melhor de uma pessoa, e eu descobri 
que a felicidade alheia  geralmente contagiosa." 

Eu estava paralizado com suas palavras. Apesar de Tim ter dito que ela era ingnua, ela parecia 
muito mais madura do que a maioria das pessoas da nossa idade. E de novo, considerando o modo 
como ela ficava de biquni ela poderia estar enumerando a lista telefnica que eu teria ficado 
impressionado. 

Savannah se sentou ao meu lado e o seu olhar seguiu o meu. O jogo de Frisbee estava a todo vapor; 
enquanto Brad lanava o disco, outros dois vinham correndo pegar. Os dois mergulharam para 
peg-lo simultaneamente, cainda na gua rasa enquanto suas cabeas colidiam. O de short vermelho 
saiu sem nada, dizendo palavres e segurando a cabea, seu short coberto de areia. Os outros riram, 
e eu me peguei sorrindo e me contorcendo simultaneamente. 

"Voc viu isso?" perguntei. 

"Espera," ela disse. "Volto j." Ela foi em direo ao cara de short vermelho. Ele a viu se 
aproximando e congelou, assim como o cara ao lado dele. Savannah, como eu me dei conta, tinha o 
mesmo efeito em todos os garotos, no s em mim. Eu podia v-la falando e sorrindo, dando aquela 
olhada sria no cara, que assentia enquanto ela falava, parecendo um adolescente submisso. Ela 
voltou para o meu lado e se sentou novamente. No perguntei, sabendo que no era da minha conta, 
mas eu sabia que estava telegrafando a minha curiosidade. 

"Normalmente eu no teria dito nada, mas pedi pra ele tomar cuidado com a linguagem por causa 
de todas as famlias que tem aqui, ela explicou. "H muitas crianas pequenas por aqui. Ele disse 
que faria isso." 

Eu devia ter adivinhado. "Voc sugeriu que ele falasse 'Santa me' e 'Jesus' em vez do que ele 
disse?" 

Ela me deu um olhar travasso. "Voc gosou dessas expresses, no foi?" 

"Estou pensando em pass-las para o meu esquadro. Eles iro adicion-las ao nosso fator 
intimidador quando estivermos derrubando portas e lanando LGFs." 

Ela gargalhou. "Definitivamente mais assustador do que palavres, mesmo que eu no saiba o que  
um LGF." 

"Lana-granadas-foguete." Sem querer, eu gostava mais dela a cada minuto que passava. "O que 

#
voc vai fazer hoje  noite?" 
"No tenho planos. Bem, a no ser pelo encontro. Por que? Quer me levar pra conhecer seu pai?" 
"No. Bem, no essa noite, de qualquer forma. Depois. Hoje, eu queria lhe mostrar Wilmington." 
"Voc est me chamando pra sair?" 
"Sim," admiti. "Te trago de volta quando voc quiser. Sei que voc tem que trabalhar amanh, mas 


tem esse lugar timo que eu quero te mostrar." 
"Que tipo de lugar?" 
"Um lugar local. Especializado em frutos do mar. Mas  mais uma experincia." Ela colocou os 


braos em volta de seus joelhos. 


"Eu geralmente no saio com estranhos," ela disse finalmente, "e ns s nos encontramos ontem. 


Acha que posso confiar em voc?" 


"Eu no confiaria," eu disse. 


Ela riu. "Bem, nesse caso, acho que posso fazer uma execo." 


"?" 


"," ela disse. "Tenho uma queda por caras honestos com crew cuts. Que horas?" 


#
Quatro 

Eu estava em casa s cinco e embora no me sentisse queimado do sol, aquela pele europia do sul 
novamente-o queimado ficou bvio quando tomei banho. Meu peito e meus ombros arderam 
quando a gua ricocheteou neles, e meu rosto me fez sentir como se eu estivesse com uma febre 
baixa. Depois, me barbeei pela primeira vez desde que cheguei em casa e vesti uma bermuda limpa 
e uma das minhas poucas camisas ultrapassadas relativamente boas que eu tinha, azul clara. Lucy 
tinha comprado e jurado que a cor era perfeita pra mim. Enrolei as mangas para cima e deixei a 
camisa desabotoada, ento vasculhei meu armrio  procura de um antigo par de sandlias. 

Atravs da rachadura da porta eu podia ver meu pai na sua mesa, e me ocorreu que pela segunda 
noite seguida eu tinha feito outros planos para o jantar. E eu nem tinha passado nenhum tempo com 
ele esse fim de semana. Ele no reclamaria, eu sabia, mas ainda assim senti uma pontada de culpa. 
Depois de pararmos de falar sobre moedas, o caf da manh e o jantar eram a nica coisa que ns 
compartilhvamos e agora eu o estava privando at mesmo disso. Talvez eu no tivesse mudado 
tanto quanto pensava. Eu estava na sua casa e comenda da sua comida e estava para pergunt-lo se 
poderia pegar seu carro emprestado. Em outras palavras, levando minha prpria vida e usando-o no 
processo. Me perguntei o que Savannah diria sobre isso, mas eu achava que j sabia a resposta. 
Savannah s vezes parecia muito com a pequena voz que tinha se instalado na minha cabea mas 
nunca se importou em pagar aluguel, e nesse momento, ela sussurrava que se eu me sentisse 
culpado, talvez estivesse fazendo algo errado. Resolvi que passaria mais tempo com ele. Era uma 
sada fcil e eu admiti isso, mas no sabia o que mais fazer. 

Quando abri a porta, meu pai pareceu sobressaltado ao me ver. "Oi pai," eu disse, me sentando no 
lugar de sempre. 

"Oi, John." Assim que falou, ele olhou sua mesa e passou uma mo sobre o seu cabelo ralo. Quando 
eu no disse mais nada, ele se deu conta de que deveria me fazer uma pergunta. "Como foi o seu 
dia?" ele finalmente me perguntou. 

Mudei de posio no meu lugar. "Foi timo, na verdade. Passei a maior parte do dia com Savannah, 
a garota de que lhe falei ontem  noite." 

"Ah." Seus olhos se viraram para o lado, se recusando a encontrar os meus. "Voc no me contou 
sobre ela." 

"No?" 

"No, mas est tudo bem. Era tarde." Pela primeira vez ele pareceu se dar conta de que eu estava 
arrumado, ou pelo menos mais arrumado do que ele j tinha me visto, mas ele no conseguiu se 
obrigar a me perguntar nada. 

Eu dei um puxo na minha camisa, tirando ele do aperto. ", eu sei, tentando impression-la, certo? 
Vou levar ela pra sair hoje  noite," eu disse. "Tudo bem se eu pegar o carro emprestado?" 

"Ah... tudo bem," ele disse. 

"Quer dizer, voc vai precisar dele hoje? Posso ligar pra um amigo ou algo assim." 

"No," ele disse. Enfiou a mo no bolso para pegar as chaves. Nove entre dez pais as teria jogado; o 
meu as estendeu para mim. 

#
"Voc est bem?" perguntei. 
"S cansado," ele disse. 
Me levantei e peguei as chaves. "Pai?" Ele ergueu o olhar novamente. "Me desculpe por no jantar 


com voc nessas ltimas noites." 
"Tudo bem," ele disse. " Eu entendo." 
*** 
O sol estava comeando a sua lenta descida e quando eu arranquei com o carro, o cu era um 


redemoinho de cores suaves que contrastavam dramaticamente com o cu da noite que eu tinha 
conhecido na Alemanha. O trnsito estava horrvel, como sempre em noites de domingo e eu levei 
quase trinta minutos fumacentos para voltar  praia e estacionar. 


Empurrei a porta da casa sem bater. Dois garotos que estavam sentados no sof assistindo a um jogo 
de baseball me ouviram entrar. "Hey," eles disseram, parecendo desinteressados e indiferentes. 
"Vocs viram Savannah?" 


"Quem?" um deles perguntou, obviamente prestando pouca ateno em mim. 
"Deixa pra l. Eu encontro ela." Cruzei a sala at o deque traseiro, vi o mesmo cara da noite anterior 
na churrasqueira novamente e alguns outros, mas nenhum sinal de Savannah. Tambm no a vi na 
praia. Estava para voltar pra dentro quando senti algum dando tapinhas no meu ombro. 


"Quem voc est procurando?" ela perguntou. 


Eu me virei. "Uma garota," eu disse. "Ela tem tendncia a perder coisas em pers, mas  uma 
aprendiz rpida quando se trata de surf." 
Ela colocou as mos nos quadris e eu sorri. Estava de shorts e com uma blusa sem mangas com uma 


ala que passava pel sua nuca, deixando seu colo e a parte de cima das suas costas descobertos, com 
um indcio de cor em suas bochechas, eu notei que ela tinha colocado um pouco de rmel e batom. 
Mesmo adorando sua beleza natural-sou um garoto da praia-ela estava ainda mais chamativa do que 
eu me lembrava. Senti o sopro de alguma fragncia de limo enquanto ela se inclinava em minha 
direo. 


" tudo o que eu sou? Uma garota?" ela perguntou. Soava ao mesmo tempo brincalhona e sria, e 
por um minuto eu fantasiei envolv-la com meus braos ali mesmo, naquele momento. 
"Ah," eu disse, me fingindo de surpreso. " voc." 
Os dois caras no sof olharam rpido para ns e depois retornaram para a tela. 


"Pronta pra ir?" perguntei. 
"S tenho que pegar minha bolsa," ela disse. Ela pegou a bolsa do balco da cozinha e comeamos a 
caminhar para a porta. "E onde estamos indo,  propsito?" 


Quando a respondi, ela ergueu uma sombrancelha. 


#
"Voc est me levando para comer em um lugar com a palavra cabana no nome?" 

"Eu s sou um cara mal pago do exrcito.  tudo que eu posso bancar." 

Ela me empurrou enquanto caminhvamos. "T vendo,  por isso que eu normalmente no saio com 
estranhos." 

O Shrimp Shack* fica no centro de Wilmington, na rea histrica que faz fronteira com o rio Cape 
Fear. Em uma ponta da rea histrica esto seus tpicos destinos tursticos: lojas de souvenirs, 
alguns lugares especializados em antiguidades, alguns restaurantes elitizados, cafeterias e vrios 
escritrios do estado. Na outra ponta, contudo, Wilmington representava seu personagem como 
cidade porturia trabalhadora: grandes armazns, mais de um permaneciam abandonados, e outros 
velhos prdios de escritrios apenas ocupados pela metade. Eu duvidava que os turistas que se 
amontoavam aqui no vero alguma vez vinheram para esse lado. Essa foi a direo que eu tomei. 
Pouco a pouco a multido se dispersava at que no sobrou ningum na calada enquanto a rea 
ficava mais e mais arruinada. 

*Literalmente Cabana do Camaro. 

"Onde  este lugar?" Savannah perguntou. 

"S um pouco mais adiante," eu disse. "L em cima, no final." 

" um pouco fora do caminho, no ?" 

" meio que uma instituio local," eu disse. "O dono no se importa se os turistas vm ou no. 
Nunca se importou." 

Um minuto depois, diminu a velociade do carro e virei em um pequeno estacionamento ao lado de 
um dos armazns. Algumas dzias de carros estavam estacionados em frente ao Shrimp Shack, 
como sempre, e o lugar no havia mudado. Desde que o conheci parecia desmantelado, com uma 
ampla varanda desarrumada, pintura descascada e um teto torto que fazia parecer que o lugar estava 
prestes a desabar, apesar do fato de estar enfrentando furaces desde 1940. O exterior estava 
decorado com redes, capotas e placas de carros, uma velha ncora, remos e algumas correntes 
enferrujadas. Uma canoa quebrada estava perto da porta . 

O cu estava comeando o seu escurecimento preguioso quando caminhamos at a entrada. Me 
perguntei se deveria pegar na mo de Savannah, mas no final eu no fiz nada. Apesar de ter tido 
algum sucesso induzido por hormnios com as mulheres, eu tinha pouqussima experincia quando 
se tratava de garotas com quem eu me importava. Apesar do fato que apenas um dia tinha passado 
desde que nos conhecemos, eu j sabia que estava em territrio novo. Subimos na varanda 
envergada e Savannah apontou para a canoa. 

"Talvez seja por isso que ele tenha aberto um restaurante, porque o barco dele afundou." 

"Pode ser. Ou talvez algum deixou isso a e ele nunca se importou em remov-lo. Pronta?" 

"Como sempre estarei," ela disse e eu empurrei a porta. 

No sei o que ela esperava, mas ela tinha uma expresso satisfeita no rosto enquanto entrava. Havia 
um longo bar em um lado, janelas que davam para o rio e na rea central, bancos de piquenique de 

#
madeira. Algumas garonetes com cabelos longos-elas no pareciam ter mudado mais que a 
decorao-se moviam entre as mesas, carregando bandeijas de comida. O ar tinha o cheiro oleoso 
de comida frita e fumaa de cigarro, mas de alguma foma parecia certo. A maioria das mesas 
estavam ocupadas, mas eu indiquei uma perto do jukebox*. Estava tocando uma msica coutry do 
oeste, embora eu no soubesse dizer quem era o cantor. Sou mais um f de rock clssico. 

* uma mquina que toca msicas quando uma moeda  depositada nela. 

Fizemos nosso caminho por entre as mesas. A maioria dos clientes pareciam trabalhar duro pelo seu 
sustento: trabalhadores de construo, jardineiros, caminhoneiros e etc. Eu nunca tinha visto tantos 
bons de baseball da NASCAR desde... bem, eu nunca tinha visto tantos. Alguns caras do meu 
esquadro eram fs, mas eu nunca saquei a graa de assistir a um grupo de marmanjos dirigirem em 
crculo o dia todo ou descobri porque eles no publicavam os artigos na seo de automveis do 
jornal em vez de na seo de esportes. Nos sentamos um em frente ao outro e eu observei enquanto 
Savannah assimilava o lugar. 

"Gosto de lugares assim," ela disse. "Quando voc morava aqui era esse seu destino habitual?" 

"No, esse era mais um lugar para ocasies especiais. Normalmente eu saa para um lugar chamado 
Leroy's.  um bar perto da praia de Wrightsville." Ela pegou um menu laminado que estava entre 
um porta guardanapos de metal e garrafas de ketchup e molho picante Texas Pete. 

"Isso  muito melhor," disse. Ela abriu o menu. "Agora, pelo que esse lugar  famoso?" 

"Camaro," eu disse. 

"Nossa, srio?" ela perguntou. 

"Srio. Todo tipo de camaro que voc puder imaginar. Voc sabe aquela cena de Forrest Gump 
quando Bubba estava contando a Forrest todos as formas de se preparar camaro? Grellhado, 
salgado, em churrasco, camaro Cajun, camaro ao limo, camaro Creole, coquetel de camaro...
 esse o lugar." 

"De qual voc gosta?" 

"Eu gosto deles resfriados com molho de coquetel do lado. Ou fritos." 

Ela fechou o menu. "Voc escolhe," disse, empurrando o menu me minha direo. "Eu confio em 
voc." 

Coloquei o menu de volta nos eu lugar, encostado no porta guardanapos. 

"Ento?" 

"Resfriados. Em um balde.  a experincia consumada." 

Ela se inclinou por sobre a mesa." Ento quantas mulheres voc j trouxe aqui? Para a experincia 
consumada, quero dizer." 

"Incluindo voc? Deixe-me pensar." Bati os dedos na mesa. "Uma." 

#
"Estou honrada." 

"Este era mais um lugar pra mim e meus amigos quando queramos comer em vez de beber. No 
havia comida melhor depois de um dia de surf." 

"Como eu descobrirei em breve." 

A garonete apareceu e eu pedi o camaro. Quando ela perguntou o que queramos para beber, eu 
ergui as mos. 

"Ch, por favor," Savannah disse. 

"Traga dois," eu completei. 

Depois que a garonete saiu, nos acomodamos em uma conversa fcil, ininterrupta mesmo quando 
nossas bebidas chegaram. Falamos sobre a vida no exrcito novamente; por alguma razo, 
Savannah parecia fascinada com ela. Ela tambm perguntou sobre crescer aqui. Contei a ela mais 
do que pensei que iria sobre meus anos no Ensino Mdio e provavelmente demais sobre os trs anos 
antes do meu alistamento. 

Ela ouviu atentamente, fazendo perguntas aqui e ali, e eu me dei conta de que j fazia um bom 
tempo desde que eu havia tido um encontro como este; alguns anos, talvez mais. No desde Lucy, 
de qualquer forma. Eu no via nenhuma razo para isso, mas quando sentei diante de Savannah, tive 
que repensar minha deciso. Eu gostava de ficar sozinho com ela, e queria ver mais dela. No s 
esta noite, mas amanh e no dia seguinte. Tudo, desde a maneira fcil como ela ria, ao seu humor,  
sua bvia preocupao com os outros-me atingiam como novos e desejveis. Ento novamente, 
passar algum tempo com ela me fez perceber o quanto eu tinha sido solitrio. Eu no tinha admitido 
isso para mim mesmo, mas depois de apenas dois dias com Savannah, eu sabia que era verdade. 

"Vamos colocar alguma msica para tocar," ela disse, interrompendo meus pensamentos. 

Me levantei da minha cadeira, remexi meus bolsos  procura de alguma moeda de 25 cents, e 
depositei na mquina. Savannah colocou as duas mos no vidro e se inclinou para frente, como se 
lsse os ttulos, depois escolheu algumas msicas. Quando voltamos  mesa, a primeira j estava 
tocando. 

"Sabe, acabei de me dar conta que s eu tenho falado a noite toda," eu disse. 

"Voc  uma matraca," ela observou. 

Tirei meus talheres do guardanapo de papel que os envolvia. "E voc? Voc sabe tudo sobre mim, 
mas eu no sei nada sobre voc." 

"Claro que sabe," ela disse. "Voc sabe quantos anos eu tenho, qual faculdade eu frequento, minha 
especializao e o fato de que eu no bebo. Sabe que eu sou de Lenoir, moro em uma fazenda, amo 
cavalos, e passo meus veres construindo casas para o Habitat para a Humanidade. Voc sabe muita 
coisa." 

, de repente me dei conta, eu sabia. Incluindo coisas que ela no tinha mencionado. "No  o 
bastante," eu disse. "Sua vez." 

Ela se inclinou para frente. "Pergunte o que quiser." 

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"Me conte sobre seus pais," eu disse. 

"Certo," disse ela, pegando um guardanapo. Ela secou a condensao de seu copo. "Meu pai e 
minha me so casados h vinte e cinco anos e ainda esto muito felizes e loucamente apaixonados. 
Eles se conheceram na faculdade na Appalachian State, e minha me trabalhou em um banco alguns 
anos at eu nascer. Desde ento ela tem sido uma me caseira e ela foi o tipo de me que estava l 
pra todo mundo tambm. Ajudante de sala de aula, motorista voluntria, tcnica do nosso time de 
futebol, cabea da Associao de Pais e Mestres, todo esse tipo de coisa. Agora que eu vim embora 
ela passa o dia todo como voluntria de outras coisas-a biblioteca, escolas, a igreja, o que for. Meu 
pai  professor de histria na escola e  tcnico do time de vlei feminino desde que eu era pequena. 
Ano passado elas chegaram a final estadual, mas perderam. Ele tambm  dicono na nossa igreja e 
coordena o grupo de jovens e o coral. Quer ver uma foto?" 

"Claro," eu disse. 

Ela abriu sua bolsa e tirou a carteira. Ela a abriu e empurrou por cima da mesa, nossos dedos se 
tocando. "Esto um pouco esfarrapadas nas bordas por causa da gua do mar," ela disse, "mas d 
pra ter uma idia." 

Virei a foto. Savannah tinha mais caractersticas do pai do que da me, ou pelo menos tinha herdado 
os traos mais escuros dele. 

"Belo casal." 

"Eu os amo," ela disse, pegando a carteira de volta. "Eles so os melhores." 

"Por que voc mora em uma fazenda se seu pai  professor?" 

"Ah, no  uma fazenda de trabalho. Era quando pertencia a meu av, mas ele teve que vender 
pedaos para pagar os impostos dela. Quando meu pai a herdou estava reduzida a 4 hectares comuma casa, estbulos e um curral.  mais um grande quintal do que uma 
fazenda.  como sempre nos 
referimos a ele, mas acho que passa a imagem errada, n?" 

"Eu sei que voc disse que fez ginstica olmpica, mas voc jogou vlei no time do seu pai?" 

"No," ela disse. "Quer dizer, ele  um timo tcnico, mas sempre me encorajou a fazer o que era 
certo pra mim. E no era vlei. Eu tentei e foi legal, mas no era o que eu amava." 

"Voc amava cavalos." 

"Desde que era uma garotinha. Minha me me deu uma esttua de um cavalo quando eu era bem 
pequena, e foi isso que comeou a coisa toda. Ganhei meu primeiro cavalo no Natal quando tinha 
oito anos e ainda  o melhor presente de Natal que eu j recebi. Slocum. Ela era uma velha gua 
muito gentil e era perfeita pra mim. O acordo era que eu deveria cuidar dela-aliment-la, escov-la e 
manter sua baia limpa. Entre ela, a escola, a ginstica e tomar conta do resto dos animais, eu s 
tinha tempo pra isso." 

"O resto dos animais?" 

"Quando eu estava crescendo, minha casa era tipo uma fazenda mesmo. Cachorros, gatos, at uma 
lhama por um tempo. Eu era louca por animais perdidos. Meus pais chegaram ao ponto de nem 

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discutir mais comigo sobre eles. Geralmente tinha quatro ou cinco deles de uma vez. Algumas vezes 
um dono vinha, esperando achar seu bichinho perdido, e saa com uma de nossas adies recentesse no achasse. ramos como a libra*." 

* Desculpem, mas no consegui entender essa referncia. 
"Seus pais eram pacientes." 
"Sim," ela disse, "eles eram. Mas eram loucos por animais perdidos tambm. Mesmo que negasse, 
minha me era pior que eu." 
A observei. "Aposto que voc era uma boa aluna." 
"Invariveis A's. Fui a oradora da minha classe." 
"Por que isso no me surpreende?" 
"No sei," ela disse. "Por qu?" 
No respondi. "Voc j teve um namorado srio?" 
"Ah, agora estamos indo direto ao ponto, hein?" 
"S estava pergutando." 
"O que voc acha?" 
"Eu acho," eu disse, arrastando as palavras, "Eu no fao idia." 
Ela riu. "Ento... vamos deixar essa pergunta passar por agora. Um pouco de mistrio  bom para a 


alma. Alm disso, estou disposta a apostar que voc pode descobrir por conta prpria." 
A garonete chegou com o balde de camares e algumas garrafas de molho de coquetel, os colocou 


na mesa e reabasteceu nosso ch com a eficincia de algum que tem feito isso por muito tempo. 
Ela virou nos seus sapatos de salto sem perguntar se queramos mais alguma coisa. 
"Esse lugar  legendrio por sua hospitalidade." 
"Ela s est ocupada," Savannah disse, pegando um camaro. "E alm disso, acho que ela sabe que 


voc est me interrogando e quis me deixar com o meu inquisidor." 


Ela quebrou o camaro e o descascou, depois mergulhou-o no molho antes de morder um pedao. 
Peguei alguns da vasilha e coloquei no meu prato. 
"O que mais voc quer saber?" 
"No sei. Qualquer coisa. Qual a melhor parte de estar na faculdade?" 
Ela pensou sobre isso enquanto reabastecia seu prato. "Bons professores," disse finalmente. "Na


faculadade, s vezes voc pode escolher seus professores se voc tiver uma agenda flexvel.  isso 
que eu gosto. Antes de comear, foi esse o conselho que meu pai me deu. Ele disse para escolher 
aulas baseadas no professor sempre que possvel, e no na matria. Quer dizer, ele sabia que 

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existem algumas matrias que voc tem que escolher se quiser se graduar, mas a razo dele era que 
bons professores no tem preo. Eles te inspiram, tem entretem e voc acaba aprendendo muitas 
coisas mesmo sem saber." 

"Porque eles so apaixonados pelas suas matrias," eu disse. 

Ela piscou. "Exatamente. E ele estava certo. Peguei aulas de matrias que eu nunca pensei que fosse 
me interessar e o mais distantes da minha especializao que voc pode imaginar. Mas sabe de uma 
coisa? Eu ainda lembro dessas aulas como se ainda as estivesse tomando." 

"Estou impressionado. Pensei que voc diria que ir  jogos de basquete fosse a melhor parte de estarna faculdade.  como uma religio em Chapel Hill." 

"Gosto disso tambm. Assim como gosto dos amigos que estou fazendo e viver longe de mame e 
papai e tudo isso. Aprendi muito desde que sa de Lenoir. Quer dizer, tive uma vida maravilhosa l e 
meus pais so timos, mas eu estava... presa. Tive algumas experincias de abrir os olhos." 

"Como o que?" 

"Muitas coisas. Como sentir a presso de beber ou me agarrar com um cara toda vez que eu saa. No 
meu primeiro ano, eu odiei a UNC. No senti que fosse me enturmar, e eu no me enturmei. 
Implorei para meus pais me deixarem ir pra casa ou me transferir, mas eles no concordaram. Acho 
que eles sabiam que eu iria me arrepender a longo prazo e provavelmente estavam certos. Foi s no 
meu segundo ano que encontrei algumas garotas que se sentiam do mesmo modo que eu sobre esse 
tipo de coisa e tem sido muito melhor desde ento. Me juntei a alguns grupos de estudantes cristos, 
passo as manhs de sbado em um abrigo em Raleigh servindo os pobres, e no sinto nenhuma 
presso para ir  essa ou quela festa ou sair com esse ou aquele cara. E se eu for a uma festa, a 
presso no me atinge. Eu s aceito o fato de que eu no tenho que fazer o que todo mundo faz. 
Posso fazer o que  certo pra mim." 

O que explicava por que ela estava comigo na noite passada, eu pensei. E agora tambm. 

Ela se animou. " meio como voc, eu acho. Nos ltimos anos, eu cresci. Ento, junto ao fato de 
que somos especialistas em surf tambm temos isso em comum." 

Eu ri. ". Tirando que eu lutei muito mais do que voc." 

Ela se inclinou para a frente novamente. "Meu pai sempre dizia que quando voc est lutando com 
alguma coisa, olhe para todas as pessoas ao seu redor e perceba que cada uma delas que voc v 
est lutando com alguma coisa, e para elas,  to difcil quanto o que voc est passando." 

"Seu pai parece ser um homem esperto." 

"Minha me e meu pai so. Acho que os dois se formaram entre os cinco melhores na faculade. Foi 
como eles se conheceram. Estudando na biblioteca. Educao era muito importante para os dois e 
eles meio que fizeram de mim seu projeto. Quer dizer, eu lia antes de ir pra o jardim de infncia, 
mas eles nunca fizeram parecer com uma tarefa. E eles tm falado comigo como se eu fosse adulta 
desde que eu me lembro." 

Por um momento, me perguntei o quanto minha vida seria diferente se eles tivessem sido meus pais, 
mas sacudi o pensamento para longe. Sabia que meu pai tinha feito o melhor que podia, e eu no 
tinha nenhum arrependimento do modo como eu acabei. Arrependimentos sobre a jornada, talvez, 

#
mas no sobre o destino. Porque como quer que tivesse acontecido, de algum modo eu iria acabar 
comendo camaro em uma cabana deprimente do centro da cidade com uma garota que eu j sabia 
que nunca esqueceria. 

Depois do jantar, voltamos para a casa, que estava surpreendentemente calma. A msica ainda 
tocava, mas a maioria das pessoas estavam relaxando ao redor do fogo, como se antecipassem a 
manh. Tim estava entre eles, absorto em uma conversa sria. Me surpreendendo, Savannah pegou 
minha mo, me parando no caminho antes de alcanarmos o grupo. 

"Vamos dar uma caminhada," ela disse. "Quero deixar o jantar assentar s um pouco antes de 
sentar." 

Acima de ns, algumas nuvens finas estavam espalhadas entre as estrelas, e a lua, ainda cheia, 
pairava no horizonte. Uma briza leve soprou na minha bochecha, e eu podia ouvir o movimento 
incessante das ondas enquanto elas rolavam para a costa. A mar tinha baixado e ns nos movemos 
para a areia mais dura e compacta perto da beira da gua. Savannah colocou uma mo no meu 
ombro para manter o equilbrio enquanto ela tirava uma sandlia, e depois a outra. Quando ela 
terminou, eu fiz o mesmo, e demos alguns passos em silncio. 

" to lindo aqui fora. Quer dizer, eu amo as montanhas, mas isso  maravilhoso a sua prpriamaneira.  cheio de... paz." 

Senti que as mesmas palavras poderiam ser usadas para descrev-la, e eu no tinha certeza do que 
dizer. 

"No acredito que s te conheci ontem," ela adicionou. "Parece que eu te conheo h muito mais 
tempo." 

A mo dela estava quente e macia na minha. "Estava pensando a mesma coisa." 

Ela deu um sorriso sonhador, observando as estrelas. "Me pergunto o que Tim pensa sobre isso," ela 
murmurou. Ela me olhou. "Ele acha que sou um pouco ingnua." 

"Voc ?" 

"s vezes," ela admitiu, e eu ri. 

Ela continuou. "Quer dizer, se eu ver duas pessoas saindo para uma caminhada como essa, eu 
penso, "Ah, que fofo". No penso, "eles vo transar atrs das dunas". O fato  que s vezes eles 
transam. Eu s nunca penso nisso de ante mo e sempre me surpreendo quando ouo sobre isso 
depois. No posso evitar. Como noite passada, depois de voc ir embora. Ouvi sobre duas pessoas 
aqui que fizeram isso e no pude acreditar." 

"Eu teria ficado mais surpreso se no tivesse acontecido." 

" isso que eu no gosto na faculdade,  propsito. Muitas pessoas no acreditam que esses anos de 
atrevimento realmente contam, ento  permitido voc experimentar com... o que for. H uma viso 
informal sobre coisas como sexo, bebidas e at drogas. Eu sei que isso soa muito careta, mas eu no 
entendo. Talvez tenha sido por isso que eu no quis ir sentar ao redor da fogueira como todo mundo. 
Pra ser honesta, estou um pouco desapontada com aquelas duas pessoas de quem ouvi falar, e eu 
no quero sentar l e fingir que no estou. Sei que no devia julgar, e tenho certeza de que eles so 
boas pessoas por estarem aqui para ajudar, mas ainda assim, qual  o motivo? Voc no deveria 

#
guardar coisas como essas para algum que voc ama? Para que realmente signifique alguma 


coisa?" 
Eu sabia que ela no queria respostas, e no ofereci nenhuma. "Quem lhe contou sobre aquele 
casal?" eu perguntei, em vez disso. 


"Tim. Acho que ele estava desapontado tambm, mas o que ele iria fazer? Expuls-los?" 
Tnhamos percorrido um bom caminho pela praia, e nos viramos. 
 distncia, eu podia ver o crculo de figuras em silhueta contra o fogo. A nvoa cheirava a sal, e 


carangueijos se espalhavam para suas tocas na areia enquanto nos aproximvamos. 
"Me desculpe," ela disse. "Eu estava errada." 
"Sobre o que?" 
"Por ficar to... chateada sobre isso. Eu no deveria julgar. No  o meu lugar." 
"Todo mundo julga," eu disse. " a natureza humana." 
"Eu sei. Mas... eu tambm no sou perfeita. No fim,  apenas o julgamento de Deus que importa e 


eu aprendi o bastante para saber que ningum pode saber qual  a vontade de Deus." 
Eu sorri. 
"O que?" ela perguntou. 
"O modo como voc fala me lembra o nosso capelo. Ele diz a mesma coisa." 
Ns caminhamos pela praia e quando nos aproximamos da casa, nos distanciamos da beira da gua, 


em direo a areia fofa. Nossos ps deslizavam a cada passo e eu podia sentir Savannah colocar 
mais fora no aperto de nossas mos. Me perguntei se ela as soltaria quando chegssemos perto do 
fogo e fiquei desapontado quando ela o fez. 

"Hey," Tim nos chamou, sua voz amigvel. "Vocs esto de volta." 
Randy estava l tambm e tinha no rosto sua expresso emburrada habitual. Francamente, eu estava 
ficando um pouco cansado do ressentimento dele. Brad estava atrs de Susan, que se apoiava em 
seu peito. Susan parecia estar indecisa entre fingir estar feliz, para poder descobrir os detalhes com 

Savannah e ficar chateada em apoio a Randy. Os outros, obviamente indiferentes, voltaram para 
suas conversas. Tim se levantou e veio at ns. 
"Como foi o jantar?" 
"Foi timo," Savannah disse. "Provei um pouco da cultura local. Fomos ao Shrimp Shack." 
"Parece divertido," ele comentou. 
Me esforcei para detectar algum trao de cime mas no achei nenhum. Tim fez um movimento por 


sobre o ombro e falou. "Querem se juntar a ns? Estamos s relaxando, nos preparando para 
amanh." 

#
"Na verdade, estou com um pouco de sono. Eu s ia levar o John at o carro dele e depois ia entrar.


 que horas devemos nos acordar?" 
"Seis. Tomaremos caf e estaremos na construo amanh s sete e meia. No esquea seu protetor 
solar. Ficaremos no sol o dia todo." 


"Vou me lembrar. Voc deveria relembrar todo mundo." 


"Tenho que fazer isso," ele disse. "E lembrarei amanh de novo. Mas espere s-algumas pessoas 
no iro ouvir e vo fritar." 
"Te vejo pela manh," ela disse. 
"Certo." Ele virou sua ateno pra mim. "Fico feliz que voc tenha aparecido hoje." 
"Eu tambm," eu disse. 
"E escute, se voc ficar entediado pelas prximas semanas, podemos sempre usar uma ajuda extra." 
Eu ri. "Sabia que isso estava vindo." 
"Sou quem eu sou," ele disse, estendendo sua mo. "Mas de qualquer modo, espero v-lo 


novamente." 
Apertamos as mos. Tim voltou para o seu lugar e Savannah indicou a casa com a cabea. Andamos 
em direo a duna, paramos para colocar nossas sandlias de volta e depois seguimos o caminho de 


madeira, pela grama e ao redor da casa. Um minuto depois, estvamos no carro. No escuro, eu no 
podia enxergar a expresso dela. 
"Me diverti essa noite," ela disse. "E hoje." 
Eu engoli. "Quando eu posso te ver de novo?" 
Foi uma pergunta simples, at mesmo j esperada, mas fiquei surpreso ao ouvir o desejo no meu 


tom. Eu ainda nem a tinha beijado. 
"Eu acho," ela disse, "que isso depende de voc. Voc sabe onde eu estou." 


"Que tal amanh  noite?" Falei sem pensar. "Sei de outro lugar que tem uma banda e  muito 
divertido." 


Ela colocou uma mecha do cabelo atrs da orelha. "Que tal na noite depois dessa? Tudo bem?  s 
que o primeiro dia na construo  sempre... excitante e cansativo ao mesmo tempo. Temos um 
grande jantar em grupo que eu realmente no deveria perder." 


"Sim, tudo bem," eu disse, achando que no estava tudo bem de jeito nenhum. 


"Ela deve ter ouvido alguma coisa na minha voz. "Como Tim disse, voc  bem vindo para aparecer 
se quiser." 


#
"No, tudo bem. A tera  noite est bom." 

Continuamos l parados, num daqueles momentos estranhos que eu provavelmente nunca irei me 
acostumar, mas ela se virou antes que eu pudesse tentar um beijo. Normalmente, eu provavelmente 
teria mergulhado pra frente s pra ver o que aconteceria; eu posso no ter sido aberto sobre meus 
sentimentos, mas eu era impulsivo e rpido nas aes. Com Savannah, me senti estranhamente 
paralisado. Ela tambm no parecia estar com nenhuma pressa. 

Um carro passou, quebrando o feitio. Ela deu um passo em direo  casa, ento parou e colocou 
sua mo no meu brao. Em um gesto inocente, ela me beijou na bochecha. Foi quase um beijo de 
irmos, mas seus lbios eram macios e seu aroma me engolfou, persistindo mesmo depois que ela se 
afastou. 

"Eu realmente me diverti," ela murmurou. "No acho que irei esquecer desse dia por muito, muito 
tempo." 

Senti sua mo deixar meu brao e ento em um sussurro ela desapareceu, subindo as escadas da 
casa. 

Mais tarde naquela noite em casa, me achei me revirando na cama, revivendo os eventos do dia. 
Finalmente me sentei, desejando que tivesse contado a ela o quanto o nosso dia tinha significado 
pra mim. Fora da minha janela, vi uma estrela cadente cruzar o cu em um brilhante risco branco. 
Eu queria acreditar que era uma profecia, embora de que, eu no estava certo. Em vez disso, tudo o 
que eu podia fazer era sentir de novo o beijo gentil de Savannah na minha bochecha pela centsima 
vez e me perguntar como eu poderia estar me apaixonando por uma garota que eu s havia 
conhecido no dia anterior. 

#
Cinco 

"Bom dia, pai," eu disse, cambaleando cozinha a dentro. Semicerrei meus olhos ao sentir a luz da 
manh brilhosa e vi meu pai parado em frente ao fogo. O cheiro de bacon preenchia o ar. 

"Ah... oi, John." 
Me joguei na cadeira, ainda tentando acordar. ", eu sei que  cedo pra eu estar acordado, mas eu 
queria te alcanar antes de voc sair para o trabalho." 


"Ah," ele disse. "T certo. Deixe s eu preparar mais um pouco de comida." Ele pareceu quase 


animado, apesar dessa perturbao na rotina. 
Eram momentos como esse que me deixavam saber que eu estava feliz por estar em casa. "Tem 
caf?" eu perguntei. 


"Est na chaleira," ele disse. 
Me servi de uma xcara e caminhei at a mesa. O jornal, que j tinha chegado, estava em cima da 


mesa. Meu pai sempre o lia durante o caf e eu sabia o bastante para no tocar nele. Ele sempre foi 
engraado sobre ser o primeiro a l-lo e sempre o lia na mesma ordem exata. 
Esperei meu pai perguntar como tinha sido a noite com Savannah, mas ele no disse nada, 


preferendo se concentrar na cozinha. Olhando o relgio, eu sabia que Savannah estaria indo pra 
construo em alguns minutos e me perguntei se ela estava pensando em mim tanto quanto eu 
estava pensando nela. 

Na correria do que, sem dvida, era uma manh catica pra ela, eu duvidava que ela estivesse. Essa 
descoberta me fez doer inesperadamente. 
"O que voc fez na noite passada?" finalmente perguntei, tentando tirar Savannah da minha mente. 
Ele continuou a cozinhar como se no tivesse me ouvido. "Pai?" eu disse. 
"Sim?" ele perguntou. 
"Como foi na noite passada?" 
"Como foi o que?" 


"A sua noite. Algo excitante aconteceu?" 
"No," ele disse, "nada." Sorriu pra mim antes de colocar algumas tiras de bacon na frigideira. Eu 
podia ouvir o chiado se intensificar. 


"Eu me diverti," eu me voluntareei. "Savannah  realmente especial. Fomos juntos  igreja ontem." 
De alguma forma eu pensei que ele me perguntaria mais sobre isso e vou admitir que queria que ele 


o fizesse. Imaginei que pudssemos ter uma conversa de verdade, do tipo que outros pais devem ter 
com seus filhos, na qual ele sorri e talvez solta uma piada ou duas. Em vez disso, ele se virou pra 
outra boca do fogo. Colocou leo em uma pequena frigideira e adicionou o ovo batido. 
#
"Voc se importaria de colocar alguns pes na torradeira?" ele perguntou. 

Suspirei. "No," eu disse, j sabendo que comeramos em silncio. "Sem problemas." 

Passei o resto do dia surfando, ou em vez disso, tentando surfar. O oceano havia se acalmado 
durante a noite e as marolinhas no eram nada com o que se animar. Pra piorar, elas quebravam 
mais perto da costa do que estavam quebrando no dia anterior, ento mesmo que eu achasse 
algumas que valessem a pena pegar, a experncia no duraria muito antes da onda se acabar. No 
passado, eu teria ido a Oak Island ou at dirigido at Atlantic Beach, onde eu poderia pegar uma 
carona at Shackleford Banks na esperana de achar algo melhor. Hoje eu apenas no estava no 
humor. 

Em vez disso, surfei no mesmo lugar dos ltimos dois dias. A casa era um pouco mais pra longe da 
praia e parecia quase inabitada. 

A porta de trs estava fechada, as toalhas no estavam mais ali e ningum passava pela janela ou 
saia para o deque. Me perguntei quando todos estariam voltando. Provavelmente l pelas quatro ou 
cinco horas e eu j tinha tomado minha deciso de que j no estaria mais ali a essa hora. No havia 
razo para estar aqui, em primeiro lugar e a ltima coisa que eu queria que Savannah penssasse era 
que eu era algum tipo de perseguidor. 

Fui embora l pelas trs e fui ao Leroy's. O bar estava mais escuro e deprimente do que eu me 
lembrava e eu odiei o lugar assim que passei pela porta. Sempre pensei nele como um bar 
profissional, como um bar para alclatras profissionais e tive a prova disso quando vi homens 
solitrios erguendo copos das melhores bebidas do Tennesse, procurando por refgio contra os 
problemas da vida. Leroy estava l e ele me reconheceu quando eu entrei. Quando me sentei no bar, 
ele automaticamente trouxe um copo at a torneira de cerveja e comeou a ench-lo. 

"H quanto tempo," ele comentou. "Voc est se mantendo fora de problemas?" 

"Tentando," grunhi. Olhei o bar enquanto ele escorregava o copo na minha frente. "Gostei do que 
voc fez com o lugar," eu disse, fazendo um sinal por cima do ombro. 

"Que bom.  tudo pra voc. Vai comer alguma coisa?" 

"No. Isso est bom, obrigado." 

Ele enxugou a bancada  minha frente depois lanou a toalha em trapos por cima do ombro e saiu 
para pegar o pedido de outra pessoa. Um momento depois, senti uma mo em meu ombro. 

"Johnny! O que voc est fazendo aqui?" 

Me virei e vi um dos muitos amigos que eu tinha passado a desprezar. 

Era o jeito que era aqui. Eu odiava tudo no lugar, inclusive meus amigos e me dei conta de que 
sempre foi assim. No tinha idia de porque eu tinha ido, ou nem mesmo porque eu tinha feito dessa 
uma sada habitual, a no ser pelo fato de que tirando esse lugar eu no tinha mais nenhum aonde ir. 
"Oi, Toby," eu disse. 

Alto e raqutico, Toby se sentou ao meu lado e quando se virou para me encarar, vi que seus olhos j 
estavam injetados. Ele fedia como se no tivesse tomado banho h dias e sua camisa estava 
manchada. "Voc ainda est fazendo o papel de Rambo?" ele perguntou, pronunciando as palavras 

#
indistintamente. "Parece que voc andou malhando." 
"," eu disse, no querendo entrar no assunto. "O que voc est fazendo esses dias?" 
"Saindo, principalmente. Pelas ltimas semanas, de qualquer forma. Eu estava trabalhando no 


Quick Stop at algumas semanas atrs, mas o dono era um verdadeiro babaca." 
"Ainda morando em casa?" 
"Claro," ele disse, parecendo quase orgulhoso do fato. Ele inclinou a garrafa e deu um longo gole, 


depois se concentrou nos meus braos. "Voc parece bem. Andou malhando?" ele perguntou de 
novo. 
"Um pouco," eu disse, sabendo que ele no se lembrava de j ter perguntado aquilo. 
"Voc est grande." 
No pude pensar em nada pra dizer. Toby tomou outro gole. 


"Ei, tem uma festa hoje na casa de Mandy," ele disse. "Voc lembra da Mandy, n?" 
, eu lembrava. Uma garota do meu passado que durou menos que um final de semana. Toby ainda 
estava falando. 


"Os pais dela esto em Nova York ou algum lugar assim e vai ser um estouro. S estamos tendo 


uma pr festa pra nos colocar no humor apropriado. Quer se juntar a ns?" 
Ele indicou por cima do ombro quatro caras em uma mesa de canto aninhados com trs jarras 
vazias. Reconheci dois da minha vida passada, mas os outros eram desconhecidos. 


"No posso," eu disse, "tenho que encontrar meu pai para jantar. Obrigado, mesmo assim." 
"Ignore ele. Vai ser um estrondo. Kim vai estar l." 
Outra mulher do meu passado, outra lembrana que me fez estremecer por dentro. Eu mal podia 


suportar a pessoa que eu costumava ser. "No posso," eu disse, sacudindo a cabea. Me levantei, 
deixando o copo quase cheio na minha frente. "Eu prometi. E ele est me deixando ficar com ele. 
Voc sabe como ." 

Isso fez sentido pra ele e ele assentiu. "Ento vamos sair esse fim de semana. Alguns de ns vo 
para Ocracoke surfar." 
"Talvez," eu disse, sabendo que no havia chance. 
"Seu pai ainda tem o mesmo nmero?" 
"," eu disse. 


Eu fui embora, certo de que ele no ligaria e de que eu nunca mais retornaria ao Leroy's. 
No caminho pra casa, comprei carne, um saco de salada, tempero e algumas batatas para o jantar. 
Sem um carro no era fcil carregar a sacola e minha prancha todo o caminho de volta pra casa, mas 


#
eu relamente no me importava de caminhar. Tinha feito isso por anos e meus sapatos eram muito 
mais confortveis do que as botas que eu estava acostumado a usar. 

Assim que cheguei em casa, arrastei a churrasqueira da garagem junto com um saco de carvo e 
lcool. A churrasqueira estava empoeirada, como se no tivesse sido usada por anos. Eu a coloquei 
na varanda de trs da casa e tirei as cinzas antes de limpar as teias de aranha com uma mangueira e 
a deixei secando no sol. Dentro de casa, eu coloquei sal, pimenta e p de alho nas carnes, enrolei as 
batatas em papel alumnio e as coloquei no forno, depois coloquei a salada em uma tigela. Quando a 
churrasqueira secou, acendi os carves e servi a mesa do lado de fora. 

Meu pai entrou no momento em que eu estava colocando as carnes na churrasqueira. "Oi, pai," eu 
disse por cima do ombro. "Pensei em fazer um jantar pra ns hoje  noite." 

"Ah," ele disse. Pareceu levar um instante para compreender o fato de que ele no cozinharia pra 
mim. "Certo," ele finalmente adicionou. 

"Como voc quer sua carne?" 

"Mdia," ele disse. Continuou em p perto da porta de vidro corredia. 

"Parece que voc no tem usado a churrasqueira desde que eu fui embora," eu disse. "Mas voc 
deveria. No h nada melhor do que um bife grelhado. Minha boca estava se enchendo de gua 
durante todo o caminho pra casa." 

"Vou trocar de roupa." 

"As carnes estaro prontas em dez minutos." 

Quando ele saiu eu voltei  cozinha, peguei as batatas e a tigela de salada-junto com o tempero, a 
manteiga e o molho para carnes-e os coloquei na mesa. Ouvi a porta do terrao se abrir e meu pai 
apareceu carregando dois copos de leite, parecendo um turista de um cruzeiro. Ele vestia bermuda, 
meias pretas, tnis e uma camiseta florida havaiana. Suas pernas eram dolorosamente brancas, como 
se ele no vestisse bermuda h anos. Se  que ele j tinha vestido alguma vez. Pensando bem, acho 
que eu nunca tinha visto ele de bermuda. Dei o melhor de mim pra fingir que ele parecia normal. 

"Na hora certa," eu disse, voltando para a churrasqueira. Enchi os dois pratos com carne e coloquei 
um na frente dele. 

"Obrigado," ele disse. 

"No h de que." 

Ele colocou salada no seu prato e polvilhou o tempero, depois desenrolou sua batata. Colocou 
manteiga, depois molho de carne, fazendo uma pequena poa. Normal e esperado, a no ser pelo 
fato de que ele fez tudo isso em silncio. 

"Como foi seu dia?" eu disse, como sempre. 

"O mesmo," ele respondeu. Como sempre. Sorriu novamente, mas no disse mais nada. 

Meu pai, o anti social. Me perguntei de novo porque ele achava to difcil conversar e tentei 
imaginar como ele era na sua juventude. Como ele tinha achado algum pra casar? Eu sabia que a 

#
ltima pergunta soava mesquinha, mas no tinha vindo sem querer. Eu estava curioso de verdade. 
Comemos por um tempo, o rudo dos garfos era o nico som que nos fazia companhia. 
"Savannah disse que queria lhe conhecer," eu disse finalmente, tentando novamente. 
Ele cortou sua carne. "Sua amiga?" 
S o meu pai falaria desse jeito. "," eu disse. "Acho que voc iria gostar dela." 
Ele assentiu. 


"Ela estuda na UNC," expliquei. 
Ele sabia que era a vez dele e eu pude sentir o seu alvio quando outra pergunta veio  sua mente. 
"Como voc a conheceu?" 


Contei a ele sobre a bolsa, detalhando a histria, tentando faz-la o mais humorada possvel, mas o 
riso passou longe dele. 

"Isso foi tpico de voc," ele observou. 
Outro cortador de conversas. Cortei outro pedao de carne. "Pai? Voc se importa se eu lhe fizer 
uma pergunta?" 


"Claro que no." 
"Como voc conheceu a mame?" 
Era a primeira vez que eu perguntava por ela em anos. Porque ela nunca tinha sido parte da minha 


vida, porque eu no tinha memrias dela, eu raramente sentia a necessidade de perguntar. At 
mesmo agora, eu realmente no me importava; eu s queria que ele falasse comigo. Ele levou 
tempo colocando mais manteiga em sua batata e eu sabia que ele no queria responder. 

"Nos conhecemos em um pequeno restaurante," ele disse finalmente. "Ela era garonete." Eu 
esperei. Me pareceu que nada mais viria. 
"Ela era bonita?" 
"Sim," ele disse. 
"Como ela era?" 
Ele machucou a batata e colocou sal com cuidado. "Ela era como voc," ele concluiu. 
"Como assim?" 


"Humm..." ele hesitou. "Ela podia ser... teimosa." 
Eu no tinha certeza o que pensar e nem o que ele quis dizer. Antes que eu pudesse insistir nisso, ele 
se levantou da mesa e agarrou seu copo. 


"Voc quer mais leite?" perguntou e eu sabia que ele no diria mais nada sobre ela. 


#
Seis 

O tempo  relativo. Sei que no sou o primeiro a me dar conta disso, estou longe de ser um dos mais 
famosos e minha descoberta no teve nada a ver com energia, massa, a velocidade da luz ou 
qualquer coisa que Eisntein possa ter postulado. Em vez disso, tinha a ver com as longas e chatas 
horas que esperei por Savannah. 

Depois que meu pai e eu terminamos de jantar eu pensei nela; pensei nela novamente assim que 
acordei. Passei o dia surfando e apesar das ondas estarem melhores do que estavam no dia anterior, 
eu no conseguia me concentrar e decidi parar ao meio dia. Debati se compraria ou no um 
cheseburguer em uma pequena lanchonete na beira mar-os melhores hamburguers da cidade,  
propsito-mas mesmo estando afim, eu simplesmente fui pra casa, esperando que pudesse 
convencer Savannah a comer um hamburguer mais tarde. Li um pouco do livro mais novo do 
Stephen King, tomei banho e vesti um par de calas e uma camisa plo, depois li por mais algumas 
horas antes de olhar para o relgio e me dar conta de que s tinham se passado vinte minutos. Foi 
isso que eu quis dizer com o tempo ser relativo. 

Quando meu pai chegou em casa, ele viu como eu estava vestido e me ofereceu suas chaves. 

"Est indo ver Savannah?" ele perguntou. 

"Sim," eu disse, me levantando do sof. Peguei as chaves. "Vou voltar tarde." 

Ele coou a cabea. "Certo," ele disse. "Caf amanh?" 

"Certo." Por algum motivo que eu no pude entender, ele parecia quase assustado. 

"Certo," eu disse. "Vejo voc mais tarde, t?" 

"Eu provavelmente estarei dormindo." 

"No quis dizer literalmente." 

"Ah," ele disse. "Certo." 

Me encaminhei para a porta. Assim que a abri, ouvi ele suspirar. "Eu gostaria de conhecer Savannah 
tambm," ele disse com uma voz to suave que eu mal ouvi. 

O cu ainda estava brilhante e o sol estava se inclinando por sobre a gua quando eu cheguei  casa. 
Quando desci do carro, percebi que estava nervoso. No conseguia me lembrar da ltima vez que 
alguma garota tinha me feito ficar nervoso, mas eu no podia dispensar o pensamento de que de 
alguma forma, as coisas podiam ter mudado entre ns. Eu no sabia como ou por que eu me sentia 
daquele jeito; tudo o que sabia era que ainda no tinha certeza do que faria se meus medos se 
confirmassem. 

No me dei ao trabalho de bater e simplesmente entrei na casa. A sala estava vazia, mas eu podia 
ouvir vozes no hall e havia o grupo habitual de pessoas no deque traseiro. Sa para o deque, 
chamando por Savannah e me disseram que ela estava na praia. 

Desci para a areia e congelei quando a vi sentada perto da duna, junto a Randy, Brad e Susan. Ela 
no tinha me notado e eu ouvi ela rir de alguma coisa que Randy disse. Ela e Randy pareciam um 
casal tanto quanto Susan e Brad. Eu sabia que eles no eram, que eles provavelmente estavam s 

#
conversando sobre a casa que estavam construindo ou compartilhando experincias dos ltimos 
dias, mas eu no gostei. Nem gostei do fato que Savannah estava sentada to perto de Randy quanto 
ela esteve de mim. Enquanto estava em p ali, me perguntei se ela sequer lembrava do nosso 
encontro, mas ela sorriu quando me viu como se nada estivesse errado. 

"A est voc," ela disse. "Estava me perguntando quando voc iria aparecer." 

Randy sorriu, apesar do comentrio dela, ele tinha uma expresso quase vitoriosa. Quando os gatos 
no esto, os ratos fazem a festa, ele parecia estar dizendo. 
Savannah se levantou e caminhou na minha direo. Ela estava vestindo uma blusa branca sem 

mangas e uma saia clara e solta que balanava quando ela andava. Eu podia ver a cor adicional em 
seus ombros que me dizia que ela tinha passado horas ao sol. Quando se aproximou, ela ficou na 
ponta dos ps e plantou um beijo na minha buchecha. 

"Oi," ela disse, colocando um brao em volta da minha cintura. 
"Oi." 
Ela se inclinou para trs ligeiramente, como se analizasse minha expresso. "Voc parece ter sentido 


a minha falta," ela disse, sua voz provocando. 


Como sempre, eu no pude pensar em uma resposta e ela piscou com a minha inabilidade de admitir 
que eu tinha. "Talvez eu tenha sentido sua falta tambm," ela acrescentou. 
Toquei seu ombro nu. "Pronta pra ir?" 
"Como sempre estarei," ela disse. 
Comeamos a andar em direo ao carro e eu peguei a mo dela, seu toque me fazendo sentir como 


se tudo estivesse certo com o mundo. Bem, quase... 
Eu me endireitei. "Vi voc falando com o Randy," eu disse, tentando manter minha voz neutra. 
Ela apertou minha mo. "Voc viu, no foi?" 
Tentei de novo. "Presumo que vocs puderam se conhecer enquanto estavam trabalhando." 
"Com certeza pudemos. Eu estava certa tambm. Ele  um jovem legal. Quando acabar aqui, ele vai 


pra Nova York fazer um estgio em Morgan Stanley." 
"Hmm," eu grunhi. 
Ela riu. "No me diga que voc est com cimes." 
"No estou." 
"Que bom," ela concluiu, apertando minha mo novamente. "Porque no h razo para estar." 
Me agarrei a essas ltimas palavras. Ela no precisava t-las dito, mas eu no podia estar mais feliz 


porque ela tinha dito. Quando chegamos ao carro, abri sua porta. 


#
"Estava pensando em te levar no Oysters," eu disse. " um clube noturno perto da praia. Eles tero 
uma banda mais tarde e ns podemos danar." 
"O que iremos fazer at l?" 
"Est com fome?" perguntei, pensando no cheeseburguer que eu tinha passado mais cedo. 
"Um pouco," ela disse. "Fiz um lanche quando voltei, ento ainda no estou com muita fome." 
"Que tal caminharmos na praia?" 
"Hmm... talvez mais tarde." 
Era bvio que ela j tinha algo em mente. "Por que voc no me diz o que quer fazer?" 
Ela se iluminou. "Que tal irmos dar um oi ao seu pai?" 


Eu no tinha certeza se ouvira direito. "Srio?" 
"Sim, srio," ela disse. "S por um tempinho. Depois podemos ir comer em algum lugar e ir 
danar." 


Quando hesitei, ela colocou uma mo no meu ombro. "Por favor?" 
Eu no estava muito feliz em ir, mas o jeito que ela pediu fez com que fosse impossvel pra mim 
dizer no. Estava me acostumando a isso, eu imagino, mas eu preferiria ter ela toda s para mim 
pelo resto da tarde. Tambm no entendi porque ela queria ver meu pai esta noite, a no ser que 
significasse que ela no estava to animada quanto eu com a perspectiva de ficarmos sozinhos. Pra 
ser honesto, essa idia me deprimiu. Ainda assim, ela estava de bom humor enquanto falava do 
trabalho que eles tinham feito nos ltimos dois dias. Amanh, planejavam comear as janelas. 
Randy, ela soltou, estava trabalhando ao seu lado nos dois dias, o que explicava a "amizade recm 

descoberta" deles. Foi como ela descreveu. Eu duvidava que Randy teria descrito seus interesses da 
mesma maneira. 
Estacionamos na garagem alguns minutos depois e eu notei uma luz na toca do meu pai. Quando 

desliguei o motor, brinquei com as chaves antes de sair do carro. 
"Eu te disse que meu pai  quieto, no disse?" 
"Sim," ela disse. "Mas no importa. Eu s quero conhec-lo." 
"Por qu?" eu perguntei. Sei o que pareceu, mas eu no pude evitar. 
"Porque," ela disse, "ele  sua nica famlia. E foi ele quem te criou." 
Uma vez que meu pai tinha superado o choque do meu retorno com Savannah a reboque e as 


apresentaes tinham sido feitas, ele passou a mo rapidamente por seu cabelo ralo e encarou o 
cho. 
"Desculpa ns no termos ligado antes, mas no culpe o John," ela disse. "Foi tudo minha culpa." 
"Ah," ele disse. "Tudo bem." 


#
"Pegamos voc em uma m hora?" 

"No." Ele olhou pra cima, depois para o cho novamente. " um prazer conhec-la," ele disse. 

Por um momento, ficamos todos em p na sala, nenhum de ns dizendo nada. Savannah estava com 
um sorriso fcil, mas eu me perguntei se meu pai sequer tinha notado. 

"Voc quer beber alguma coisa?" ele perguntou, como se de repente lembrasse que era pra fazer o 
papel de anfitrio. 

"Estou bem, obrigada," ela disse. "John me disse que voc  um colecionador de moedas." 

Ele se virou para mim, como se se perguntasse se deveria responder. "Eu tento," ele disse 
finalmente. 

"Foi isso que ns interrompemos to rudemente?" ela perguntou, usando o mesmo tom provocador 
que ela usava comigo. Para minha surpresa, ouvi meu pai dar uma risada nervosa. No alta, mas 
uma risada todavia: surpreendente. 

"No, vocs no interromperam. S estava examinando uma moeda nova que eu comprei hoje." 

Enquanto ele falava, eu podia sent-lo tentar calcular como eu reagiria. Ou Savannah no notou ou 
fingiu no notar. "Srio?" ela perguntou, "De que tipo?" 

Meu pai mudou o peso de um p para o outro. Ento, para a minha perplexidade, ele olhou pre cima 
e perguntou, "Voc quer ver?" 

Passamos quarenta minutos na toca. Na maior parte do tempo eu sentei na toca e ouvi meu pai 
contar estrias que eu sabia de cor. Como os colecionadores mais srios, ele mantinha s algumas 
moedas em casa e eu no fazia a menor idia de onde o resto delas estavam guardadas. Ele 
alternava parte da coleo a cada duas semanas, novas moedas aparecendo como se por mgica. 
Geralmente no havia mais do que uma dzia por vez em seu escritrio e nunca nada de valor, mas 
eu tinha a impresso de que ele poderia estar mostrando a Savannah um centavo comum de Lincoln 
e ela teria ficado encantada. Ela fez dzias de perguntas, perguntas que eu ou qualquer livro de 
coleo de moedas poderiam ter respondido, mas enquanto os minutos passavam, suas perguntas se 
tornaram mais perspicazes. Em vez de perguntar por que uma moeda era particularmente valiosa, 
ela perguntava quando e onde ele a tinha encontrado e ela foi convidada a escutar contos de finais 
de semana tediosos da minha juventude, passados em lugares como Atlanta, Charleston, Raleigh e 
Charlotte. 

Meu pai falou muito sobre essas viajens. Bem, para ele, de qualquer forma. Ele ainda tinha a 
tendncia de se refugiar nele mesmo por longos perodos de tempo, mas provavelmente tinha falado 
mais nesses quarenta minutos do que tinha falado comigo desde que voltei pra casa. Da minha 
posio estratgica, vi a paixo a que ela tinha se referido, mas era uma paixo que eu j tinha visto 
antes milhares de vezes e no alterou minha opinio de que ele usava as moedas como um modo de 
evitar a vida ao invs de enfrent-la. Eu tinha parado de conversar com ele sobre moedas porque 
queria conversar sobre outra coisa; meu pai parou de conversar porque ele sabia como eu me sentia 
e no podia falar de mais nada. 

E ainda assim... 

#
Meu pai estava feliz e eu sabia disso. Eu podia ver o modo como seus olhos brilhavam quando ele 
indicava uma moeda, chamando ateno para a marca da Casa da Moeda, ou quo novo o selo tinha 
sido, ou como o valor de uma moeda podia variar se ela tivesse flechas ou coroas. Ele mostrou a 
Savannah provas de moedas, moedas cunhadas em West Point, um dos seus tipos favoritos pra 
colecionar. Ele pegou uma lupa para mostr-la as imperfeies na moeda e quando Savannah 
segurou a lupa, eu podia ver a animao no rosto do meu pai. Apesar dos meus sentimentos sobre 
moedas, eu no pude evitar sorrir, simplesmente por ver meu pai to feliz. 

Mas ele ainda era meu pai e no havia milagre. Uma vez que ele tinha mostrado as moedas e 
contado a ela tudo sobre elas e como elas tinham sido coletadas, seus comentrias ficaram mais e 
mais escassos. Ele comeou a se repetir e percebeu isso, se refugiando e ficando ainda mais quieto. 
Com o tempo, Savannah deve ter sentido seu desconforto crescente porque ela indicou as moedas 
em cima da mesa. "Obrigada, Sr. Tyree. Sinto como se realmente tivesse aprendido algo." Meu pai 
sorriu, obviamente esgotado e eu tomei isso como minha deixa para me levantar. 

", foi timo. Mas ns deveramos ir," eu disse. 

"Ah... certo." 

"Foi timo conhec-lo." 

Quando meu pai assentiu novamente, Savannah se inclinou e lhe deu um abrao. 

"Vamos fazer isso de novo alguma hora," ela sussurrou e embora meu pai tivesse abraado ela, me 
lembrou dos abraos sem vida que eu recebera quando criana. Me perguntei se ela se sentia to 
esquisita como ele obviamente se sentia. 

No carro, Savannah parecia perdida em pensamentos. Eu teria perguntado sobre suas impresses do 
meu pai, mas no estva certo se queria ouvir a resposta. Sei que meu pai e eu no tnhamos a melhor 
relao, mas ela estava certa quando disse que ele era a nica famlia que eu tinha e tinha me criado. 
Eu podia reclamar dele, mas a ltima coisa que eu queria ouvir era algum fazendo isso tambm. 

Ainda assim, eu no acho que ela iria dizer alguma coisa negativa, simplesmente porque no era da 
sua natureza e ento ela se virou para mim. 

"Obrigada por me trazer pra conhec-lo," ela disse. "Ele tem um corao to... caloroso." 

Eu nunca tinha ouvido ningum descrev-lo dessa forma, mas eu gostei. "Fico feliz que voc tenha 
gostado dele." 

"Eu gostei," ela disse, parecendo sincera. "Ele ... gentil." Ela me olhou. "Mas eu acho que entendo 
por que voc teve tantos problemas quando era mais jovem. Ele no me pareceu o tipo de pai que 
estabelece leis." 

"Ele no era," eu concordei. 

Ela me mostrou uma carranca brincalhona. "E o seu antigo eu maligno tirou proveito disso." 

Eu ri. ", eu suponho que sim." 

Ela balanou a cabea. "Voc deveria saber." 

#
"Eu era s uma criana." 

"Ah, a velha desculpa da juventude. Voc sabe que isso no justifica, no sabe? Eu nunca tirei 

proveito dos meus pais." 

"Sim, a criana perfeita. Acho que voc j mencionou isso." 

"Voc est zombando de mim?" 

"No,  claro que no." 

Ela continuou a me encarar. "Eu acho que est," ela finalmente decidiu. 

"Certo, talvez um pouco." 

Ela pensou na minha resposta. "Bem, talvez eu tenha merecido isso. Mas s pra voc saber; eu no 


era perfeita." 
"No?" 
"Claro que no. Eu lembro claramente, por exemplo, que na quarta srie eu tirei um B num teste." 
Eu fingi choque. "No! No me diga isso!" 
" verdade." 
"Como voc conseguiu se recuperar?" 
"Como voc acha?" Ela encollheu os ombros. "Disse a mim mesma que isso nunca mais aconteceria 


novamente." 
Eu no duvidava. "J est com fome?" 
"Pensei que voc nunca perguntaria." 
"O que voc quer comer?" 
Ela amarrou o cabelo em um rabo de cavalo descuidado, depois respondeu. "Que tal um grande e 


suculento cheeseburguer?" 
Assim que ela disse isso eu me peguei me perguntando se Savannah era boa demais pra ser verdade. 


#
Sete 

"Eu tenho que admitir que voc me leva pra comer nos lugares mais interessantes," Savannah disse,
olhando por cima do ombro.  distncia, depois da duna, podamos ver uma longa linha de clientes 
saindo do Joe's Burguer Stand no meio de um estacionamento de cascalho. 

" o melhor na cidade," eu disse, mordendo um pedao do meu enorme hamburguer. 

Savannah sentou perto de mim na areia, olhando a gua. Os hamburguers estavam fantsticos, bem 
grossos e embora as batatas fritas estivessem um pouco oleosas demais, elas eram o que 
precisvamos. Enquanto comia, Savannah encarava o mar e na luz que diminuia eu me peguei 
pensando que ela parecia mais em casa aqui do que eu. 

Pensei sobre o modo como ela tinha falado com meu pai. Sobre o modo como ela falava com todo 
mundo, qualquer pessoa, inclusive comigo. Ela tinha a rara habilidade de ser exatamente o que as 
pessoas precisavam quando estava com elas e ainda assim permanecer ela mesma. Eu no podia 
pensar em mais ningum que a lembrasse remotamente em aparncia e personalidade e me 
perguntei novamente por que ela tinha simpatizado comigo. Ns ramos to diferentes quanto duas 
pessoas podiam ser. Ela era uma garota da montanha, prendada e doce, criada por pais atentos, com 
um desejo de ajudar aqueles que precisam; eu era um cara tatuado do exrcito, difcil por fora e em 
grande parte um estranho na minha prpria casa. Lembrando como ela tinha sido com meu pai, me 
peguei desejando que eu fosse mais como ela. 

"O que voc est pensando?" 

Sua voz, ainda que gentil, me afastou dos meus pensamentos. "Estava me perguntando por que voc 
est aqui," confessei. 

"Porque eu gosto da praia. No posso fazer isso com muita frequncia. No  como se tivesse ondas 
ou barcos de camaro l de onde eu sou." 

Quando viu minha expresso, ela bateu levemente na minha mo. "Isso foi sem importncia," ela 
disse, "Me desculpe. Estou aqui porque eu quero estar aqui." Coloquei de lado os restos do meu 
hamburguer, me perguntando por que eu me importava tanto. Era um sentimento novo para mim, 
um que eu no tinha certeza se iria me acostumar com ele algum dia. Ela acariciou meu brao e 
virou para a gua novamente. "Aqui  lindo. Tudo o que precisamos  de um pr do sol sobre a gua 
e seria perfeito." 

"Teramos que ir para o outro lado do pas," eu disse. 

"Srio? Voc est querendo me dizer que o sol se pe no oeste?" Notei o brilho travesso nos olhos 
dela. 

" o que eu ouo, de qualquer forma." 

Ela tinha comido s metade do seu cheeseburguer e o colocou dentro da sacola, depois adicionou os 
restos do meu tambm. Depois de dobrar a sacola para que o vento no a levasse embora, ela 
esticou as pernas e se virou para mim, parecendo ao mesmo tempo namoradeira e inocente. "Quer 
saber no que eu estava pensando?" ela perguntou. 

Esperei, bebendo da viso que eu tinha dela. 

#
"Estava pensando que eu queria que voc tivesse estado comigo durante os dois ltimos dias. Quer 
dizer, gostei de conhecer todo mundo melhor. Almoamos juntos e o jantar da noite passada foi bem 
divertido, mas parecia que algo estava errado, como se eu estivesse sentindo falta de alguma coisa. 
S quando o vi caminhando na praia foi que me dei conta de que era voc." 

Engoli. Em outra vida, em outros tempos, eu a teria beijado, mas mesmo querendo, eu no beijei. 
Em vez disso, tudo o que eu fazia era encar-la. Ela encontrou meu olhar sem nenhum trao de 
constrangimento. 

"Quando voc me perguntou por que eu estava aqui, fiz uma piada porque pensei que fosse bvio. 
Passar meu tempo com voc parece... certo de algum modo. Fcil, do jeito que  pra ser. Como  
com os meus pais. Eles ficam confortveis juntos e eu lembro de crescer pensando que um dia eu 
queria ter isso tambm." Ela fez uma pausa. "Queria que voc os conhecesse algum dia." 

Minha garganta tinha ficado seca. "Eu tambm." 

Ela escorregou facilmente sua mo na minha, seus dedos se entrelaando nos meus prprios. 

Ficamos sentados em um silncio tranquilo. Na beira da gua, andorinhas do mar vasculhavam a 
areia em busca de comida; um grupo de gaivotas voou enquanto uma onda vinha. O cu tinha ficado 
mais escuro e as nuvens eram mais agourentas. Na praia mais acima, eu podia ver casais espalhados 
caminhando sob um cu arroxeado. 

Enquanto estvamos sentados juntos, o ar se encheu com o barulho das ondas quebrando. Me 
maravilhei com o quanto tudo parecia novo. Novo e ainda assim confortvel, como se nos 
conhecssemos desde sempre. Mas ns no ramos um casal de verdade. Nem, uma voz na minha 
cabea me lembrou, era provvel que fssemos. Em pouco mais de uma semana, eu estaria voltando 
para a Alemanha e tudo isso estaria acabado. Eu tinha passado tempo suficiente com meus amigos 
pra saber que leva mais do que alguns dias especiais para uma relao que cruza o Oceano Atlntico 
sobreviver. Ouvi caras na minha unidade jurarem que estavam apaixonados depois de voltar da 
licena-e talvez eles estivessem-mas nunca durava. 

Passar algum tempo com Savannah me fez me perguntar se era possvel desafiar a norma. Eu queria 
mais dela e no importava o que acontecesse entre ns, eu j sabia que nunca esqueceria nada sobre 
ela. Apesar de parecer loucura, ela estava se tornando parte de mim e eu j temia o fato de que ns 
no poderamos passar o dia de amanh juntos. Nem o dia depois, ou o dia depois disso. Talvez, 
falei para mim mesmo, ns pudessemos derrubar as apostas. 

"Olha ali!" A ouvi gritar. Ela apontou o dedo em direo ao oceano. "Na quebra das ondas!" 

Escaneei o oceano cinza mas no vi nada. 

Ao meu lado, Savannah de repente se levantou e comeou a correr em direo a gua. 

"Vem!" ela gritou por cima do ombro. "Rpido!" 

Me levantei e corri atrs dela, intrigado. Correndo mais rapidamente, eliminei a distncia entre ns. 
Ela parou na borda da gua e eu podia ouvir sua respirao rpida. 

"O que foi?" eu disse. 

"Bem ali!" 

#
Quando olhei, vi ao que ela estava se referindo. Trs deles estavam pegando ondas, um aps o 
outro, depois desaparecendo no raso, apenas para reaparecer de novo mais longe na praia. 
"Jovens botos," eu disse. "Eles passam pela ilha quase toda noite." 


"Eu sei," ela disse, "mas parece que eles esto surfando." 
", acho que sim. Eles esto apenas se divertindo. Agora que todos esto fora d'gua, eles se sentem 
seguros para brincar." 


"Quero entrar l com eles. Sempre quis nadar com golfinhos." 
"Eles vo parar de brincar, ou simplesmente nadar mais pro fundo onde voc no possa alcan-los. 
Eles so divertidos desse jeito. Eu j os vi enquanto surfava. Se ficam curiosos, eles se aproximam 


alguns metros e te olham de cima a baixo, mas se voc tentar segu-los, eles vo te fazer comer 
poeira." 
Continuamos assistindo os botos enquanto eles se afastavam, eventualmente desaparecendo da 


viso sob um cu que tinha ficado opaco. 
"Ns deveramos ir," eu disse. 
Voltamos ao carro, parando para pegar os restos do nosso jantar. 
"No tenho certeza se a banda j est tocando, mas no deve demorar." 
"No importa," ela disse. "Tenho certeza que podemos encontrar alguma coisa para fazer. Alm 


disso, eu devo alert-lo, no sou muito de danar." 
"No temos que ir se voc no quiser. Poderamos ir a outro lugar se voc quiser." 
"Como aonde?" 
"Voc gosta de barcos?" 
"Que tipo de barcos?" 
"Dos grandes," eu disse. "Sei de um lugar onde voc pode ver o USS North Carolina." 
Ela fez uma careta engraada e eu sabia que a resposta era no. No foi a primeira vez que eu 


desejei ter minha prpria casa. Mas novamente, eu no tinha nehuma iluso de que ela me seguiria 
at l se eu tivesse. Se eu fosse ela, no iria tambm. Sou apenas humano. 
"Espera," ela disse, "eu sei de um lugar que podemos ir. Quero lhe mostrar uma coisa." 


Intrigado, eu perguntei, "Onde?" 
Considerando que o gupo de Savannah tinha comeado seu trabalho apenas ontem, a casa estava 
surpreendentemente encaminhada. A maior parte da estrutura j estava terminada e o teto tambm j 
tinha sido construdo. Savannah olhou pra fora da janela do carro antes de se virar para mim. 


#
"Voc quer caminhar por l? Ver o que estamos fazendo?" 

"Eu adoraria," eu disse. 

A segui pra fora do carro, notando o jogo da luz da lua em seus traos. Quando pisei na terra do 
lugar da construo, me dei conta de que podia ouvir msicas de um rdio saindo de uma das 
janelas da cozinha dos vizinhos. A alguns passos da entrada, Savannah indicou a estrutura com um 
bvio orgulho. Me aproximei o bastante para passar meu brao em volta dela e ela inclinou sua 
cabea nos meus ombros enquanto relaxava. 

"Foi aqui que passei os ltimos dois dias," ela quase sussurrou na quietude da noite. "O que voc 
acha?" 

" timo," eu disse. "Aposto que a famlia est emocionada." 

"Eles esto. E eles so uma famlia to boa. Realmente merecem esse lugar, tem sido um esforo to 
grande para eles. O furaco Fran destruiu sua casa, mas como muitos outros, eles no tinham segurode inundao.  uma me solteira com trs filhos-o marido dela 
saiu de casa anos atrs-e se voc 
conhecesse a famlia, os amaria. As crianas tem boas notas e cantam no coral jovem da igreja. E 
eles so to educados e carinhosos... voc percebe que a me deles deu duro pra se certificar que 
eles se dessem bem, sabe?" 

"Voc os conheceu, eu presumo?" 

Ela acenou em direo a casa. "Eles estiveram aqui nos dois ltimos dias." Ela se endireitou. "Voc 
quer olhar por dentro?" 

Relutante, eu a soltei. "V na frente." 

No era um lugar grande-mais ou menos do mesmo tamnaho da casa do meu pai-mas o plano do 
teto era mais aberto, o que fazia com que a casa parecesse maior. Savannah me levou pela mo e me 
mostrou todos os cmodos, ressaltando caractersticas, a imaginao dela se enchendo com os 
detalhes. Ela refletiu sobre o papel de parede ideal para a cozinha e a cor dos ladrilhos da entrada, o 
tecido das cortinas da sala e como decorar a bancada em cima da lareira. Sua voz tinha a mesma 
admirao e alegria que ela tinha expressado quando viu os botos. Por um momento, eu tive uma 
viso de como ela devia ter sido quando criana. 

Ela me levou de volta para a porta da frente.  distncia, os primeiros estrondos de troves podiam 
ser ouvidos. Enquanto estvamos em p no vo da porta, me aproximei dela. 

"Vai ter uma varanda tambm," ela disse, "com espao suficiente para cadeiras de balano ou at 
um balano mesmo. Eles vo poder sentar aqui em noites de vero e se reunir depois da igreja." Elaapontou. "Aquela  a igreja deles.  por isso que esse lugar  
to perfeito pra eles." 

"Parece que voc realmente os conheceu." 

"No realmente," ela disse. "Falei com eles um pouco, mas estou s chutando tudo isso. Fiz isso 
com todas as casas que ajudei a construir-fico andando por elas e tentando imaginar como a vida 
dos donos vai ser. Fica muito mais divertido trabalhar assim." 

A lua estava escondida por nuvens, escurecendo o cu. No horizonte, um claro, e um momento 
depois uma chuva fina comeou a cair, batendo no cho. Os carvalhos alinhando a rua, pesados com 

#
folhas, farfalhavam na brisa enquanto os troves ecoavam pela casa. 

"Se voc quiser ir,  melhor irmos antes da tempestade comear." 

"Ns no temos nenhum lugar pra ir, lembra? Alm disso, eu sempre amei tempestades de troves." 

Puxei ela mais pra perto, inalando seu perfume. Seu cabelo tinha um cheiro doce, como morangos 
maduros. 

Enquanto observvamos, a chuva se intensificou em um constante tor, caindo do cu em diagonal. 
As lmpadas da rua forneciam a nica luz, deixando metade do rosto de Savannah nas sombras. 

Os troves explodiam acima de nossas cabeas e a chuva comeou a cair em chapas. Eu podia ver a 
chuva caindo no cho coberto de serragem, formando grandes poas na sujeira e eu estava 
agradecido porque apesar da chuva, a temperatura estava amena. Ao lado, eu notei alguns caixotes 
vazios. Sai do lado dela para peg-los, depois comecei a empilh-los em um assento improvisado. 
No seria to confortvel, mas era melhor do que ficar em p. 

Quando Savannah sentou ao meu lado, eu de repente soube que vir aqui tinha sido a melhor coisa a 
se fazer. Era a primeira vez que ns estvamos realmente sozinhos, mas sentados lado a lado era 
como se estivssemos juntos desde sempre. 

#
Oito 

Os caixotes, duros e impiedosos, me fizeram questionar a minha sabedoria, mas Savannah no 
pareceu se importar. Ou fingiu no se importar. Ela se inclinou pra trs, sentiu a beira do caixote 
traseiro pressionar sua pele, depois sentou direito novamente. 

"Desculpe," eu disse, "Pensei que seria mais confortvel." 

"Tudo bem. Minhas pernas esto exaustas e meus ps doem. Isso  perfeito." 

Sim, eu pensei, era. Pensei nas noites que eu estava no dever de guarda e ficava imaginando sentar 
ao lado da garota dos meus sonhos e sentindo que tudo estava certo com o mundo. Agora eu sabia 
do que tinha sentido falta todos esses anos. Quando senti Savannah descansar a cabea em meus 
ombros, me peguei desejando que no tivesse me alistado no exrcito. Queria que a minha base no 
fosse depois de um oceano, e queria ter escolhido um caminho diferente na vida, um que teria me 
deixado permanecer como uma parte do mundo dela. Ser um estudante em Chapel Hill, passar parte 
do vero construindo casas, cavalgar com ela. 

"Voc est muito quieto," a ouvi falar. 

"Desculpe," eu disse. "S estava pensando sobre hoje  noite." 

"Coisas boas, eu espero." 

", coisas boas," eu disse. 

Ela mudou de posio no assento e eu senti sua perna roar a minha. "Eu tambm. Mas eu estava 
pensando no seu pai," ela disse. "Ele sempre foi como hoje? Meio tmido e desviando o olhar 
quando fala com as pessoas?" 

"Sim," eu disse. "Por qu?" 

"S curiosidade," ela disse. 

Alguns metros mais longe, a tempestade parecia estar alcanando seu clmax enquanto outra chapa 
de chuva caa das nuvens. A gua caa de todos os lados da casa como cachoeiras. Um claro de 
novo, mais perto dessa vez e o trovo estrondou como um canho. Se tivesse janelas eu imaginei 
que elas teriam chacoalhado nas suas molduras. 

Savannah se aproximou e eu coloquei meu brao em volta dela. Ela cruzou as pernas nos tornozelos 
e se encostou em mim, e eu senti como se pudesse segur-la assim para sempre. 

"Voc  diferente da maioria dos caras que eu conheo," ela observou, sua voz baixa no meu 
ouvido. "Mais maduro, menos... irresponsvel, eu acho." 

Eu sorri, gostando do que ela disse. "E no esquea do meu crew cut e das tatuagens." 

"Crew cut, sim. Tatuagens... bem, elas meio que vem com o pacote, mas ningum  perfeito." 

Dei uma cotovelada nela e fingi estar magoado. "Bem, se eu soubesse como voc se sente, no as 
teria feito." 

#
"No acredito em voc," ela disse, se ajeitando. "Mas me desculpe-eu no devia ter dito isso. Estava 
falando mais em como eu me sentiria fazendo uma. Em voc, elas tendem a projetar uma certa... 
imagem e eu acho que encaixa." 

"Que imagem  essa?" 
Ela apontou para as tatuagens, uma por uma, comeando com o caracter chins. "Essa aqui me diz 
que voc vive a vida pelas suas prprias regras e nem sempre se importa com o que as pessoas 


pensam. A da infantaria mostra que voc tem orgulho do que faz. E o arame farpado... bem, 
combina com quem voc foi quando era mais jovem." 
"Esse  bem o perfil psicolgico. Eu pensei que era s porque eu gostava das figuras." 
"Estou pensando em conseguir um diploma secundrio em psicologia." 
"Acho que voc j tem um." 
Embora o vento tivesse comeado, a chuva comeou a diminuir. "Voc j se apaixonou?" ela 


perguntou, mudando de marcha de repente. 
Sua pergunta me surpreendeu. "Isso veio do nada." 
"Me disseram que ser imprevisvel ajuda a aumentar o mistrio feminino." 
"Ah, ajuda. Mas para responder a sua pergunta, eu no sei." 
"Como voc pode no saber?" 
Eu hesitei, tentando pensar no que dizer. "Namorei uma garota alguns anos atrs, e na poca, eu 


sabia que estava apaixonado. Pelo menos, era o que eu dizia a mim mesmo. Mas agora, quando 
penso novamente, eu s... no tenho mais certeza. Me preocupava com ela e gostava de passar o 
tempo com ela, mas quando no estvamos juntos, eu mal pensava nela. Estvamos juntos, mas no 
ramos um casal, se isso faz algum sentido." Ela considerou minha resposta mas no disse nada. 
Depois de um tempo, me virei pra ela. "E voc? J se apaixonou alguma vez?" 

O rosto dela escureceu. "No," ela disse. 
"Mas pensou que estava apaixonada. Como eu, certo?" Quando ela inspirou com fora, eu 


prossegui. "No meu esquadro, tenho que usar um pouco de psicologia tambm. E meus instintos 
me dizem que h um namorado srio no seu passado." 
Ela sorriu, mas havia algo triste em seu sorriso. "Eu sabia que voc descobriria," ela disse em uma 


voz abatida. "Mas pra responder sua pergunta, sim, h. Durante o meu primeiro ano na faculdade. E 
sim, eu pensei que o amava." 
"Tem certeza de que voc no o amava?" 
Ela levou um tempo pra responder. "No," ela murmurou. "No tenho certeza." 
A encarei. "Voc no tem que me contar-" 
"Tudo bem," ela disse, erguendo a mo para me cortar. "Mas  difcil. Tentei esquecer isso, e  uma 


#
coisa que eu nunca contei nem mesmo aos meus pais. Ou a qualquer outra pessoa.  to clich, 
sabe? Garota de cidade pequena vai embora pra faculdade e conhece um veterano, que tambm  
presidente da sua fraternidade. Ele  popular, rico e charmoso, e a pequena caloura est admirada 
que ele poderia se interessar por algum como ela. Ele a trata como se ela fosse especial e ela sabe 
que outras calouras esto com inveja, ento ela comea a se sentir especial tambm. Ela concorda 
em ir ao baile de inverno em um desses hotis luxuosos fora da cidade, com ele e alguns outros 
casais, mesmo que ela tenha sido alertada que o garoto no  to amvel ou sensvel como ele 
parece ser, e que na verdade, ele  o tipo de garoto que faz marcas no beira da cama para cada 
garota que pegou." 

Ela fechou os olhos, como se estivesse reunindo a energia para continuar. 

"Ela vai contra o melhor julgamento de seus amigos e mesmo que ela no beba e ele alegremente 
lhe traga um refrigerante, ela comea a ficar tonta e ele se oferece para lev-la de volta ao quarto do 
hotel para se deitar. E a prxima coisa que ela sabe  que eles esto na cama se beijando e ela gosta 
inicialmente, mas o quarto est mesmo girando e no ocorre a ela at mais tarde que talvez algum-
talvez ele-tenha colocado alguma coisa em sua bebida e que fazer outra marca com o nome dela 
tenha sido sua meta todo o tempo." 

Suas palavras comearam a vir rpidas, caindo umas sobre as outras. 

"E ento ele comea a apalpar seus seios e o vestido dela  arrancado e ento a calcinha dela  
arrancada tambm, mas ele est em cima dela e ele  to pesado e ela no consegue empurr-lo, e 
ela se sente muito indefesa e quer que ele pare, porque ela nunca fez isso antes, mas ento ela est 
to tonta que mal consegue falar e no pode pedir ajuda, e ele provavelmente conseguiria o que 
queria com ela se outro casal no tivesse aparecido e ela sai cambaleando do quarto, chorando e 
segurando o vestido. De alguma forma ela encontra o caminho para o banheiro do lobby e fica l 
chorando, e outras garotas com quem ela tinha viajado para o baile entram e vem o rmel 
manchado e o vestido rasgado e ao invs de ajudarem, elas riem dela, agindo como se ela devesse 
saber o que aconteceria e como se ela tivesse tido o que merecia. Finalmente ela termina ligando 
para um amigo que pula no seu carro e dirige at l para peg-la, e ele foi esperto o suficiente para 
no fazer perguntas durante todo o caminho de volta." 

Quando ela acabou, eu estava rgido de raiva. Eu no sou santo com mulheres, mas nunca na minha 
vida pensei em forar uma mulher a fazer algo que ela no queria. 

"Sinto muito," foi tudo que eu consegui juntar. 

"Voc no precisa sentir. No foi voc que fez." 

"Eu sei. Mas no sei o que mais dizer. A menos..." eu parei e depois de um momento ela se virou 
para mim. Eu podia ver lgrimas correndo por suas bochechas e o fato de que ela estivera chorando 
to silenciosamente me fez doer. 

"A menos que o que?" 

"A menos que voc queira que eu... no sei. Acabe com ele?" 

Ela me deu uma pequena risada triste. "Voc no tem idia de quantas vezes eu qui simplesmente 
fazer isso." 

"Eu farei," eu disse. "S me d um nome, mas prometo lhe deixar fora disso. Eu farei o resto." 

#
Ela apertou minha mo. "Eu sei que voc faria." 

"Estou falando srio," eu disse. 

Ela me deu um sorriso plido, parecendo ao mesmo tempo experiente e dolorosamente jovem. "por isso que eu no vou te dizer. Mas acredite, estou tocada.  muito 
doce da sua parte." 

Gostei do jeito que ela disse isso e sentamos juntos, com as mos abraadas apertado. A chuva havia 
finalmente parado e no seu lugar eu podia ouvir os sons do rdio do vizinho de novo. Eu no 
conhecia a msica, mas reconheci como sendo alguma coisa da antiga era do jazz. Um dos caras no 
minha unidade era fantico por jazz. 

"Mas de qualquer forma," ela comeou, "era isso que eu quis dizer quando disse que meu ano de 
caloura no foi sempre fcil. E foi por isso que eu quis desistir. Meus pais pensaram que eu estava 
s com saudade de casa, ento eles me fizeram ficar. Mas... mesmo tendo sido ruim, aprendi algo 
sobre mim mesma. Que eu podia passar por uma coisa assim e sobreviver. Quer dizer, sei que 
poderia ter sido pior-muito pior-mas pra mim, era tudo o que eu podia aguentar na poca. E aprendi 
com isso." 

Quando ela terminou, me peguei lembrando uma coisa que ela disse. "Foi Tim que trouxe voc de 
volta do hotel aquela noite?" 

Ela olhou pra cima, assombrada. 

"Quem mais voc chamaria?" eu disse como forma de explicar. 

Ela assentiu. ", eu acho que voc est certo. E ele foi timo. At hoje, ele no perguntou nada de 
especfico e eu no contei a ele. Mas desde ento, ele tem sido um pouco protetor e eu no posso 
dizer que me importo." 

No silncio, eu pensei na coragem que ela tinha mostrado, no apenas aquela noite, mas depois 
tambm. Se ela no tivesse me contado, eu nunca teria suspeitado que alguma coisa de ruim tinha 
acontecido a ela. Me maravilhei que, apesar do que tinha acontecido, ela tinha conseguido se 
segurar  sua viso otimista do mundo. 

"Prometo ser um perfeito cavalheiro," eu disse. Ela se virou pra mim. 

"Do que voc est falando?" 

"Hoje  noite. Amanh  noite. Quando for. Eu no sou como aquele cara." 

Ela passou um dedo pela minha mandbula e eu senti minha pele formigar embaixo do seu toque. 
"Eu sei," ela disse, parecendo se divertir. "Por que voc acha que eu estou aqui com voc agora?" 

Sua voz foi to carinhosa e de novo eu reprimi a vontade de beij-la. No era o que ela precisava, 
no agora, mesmo que fosse difcil pensar em outra coisa. 

"Voc sabe o que Susan disse depois daquela primeira noite? Quando voc foi embora e eu voltei 
para o grupo?" 

Eu esperei. 

#
"Ela disse que voc parecia assustador. Como se voc fosse a ltima pessoa na Terra com quem ela 
iria querer ficar sozinha." 

Eu sorri. "J me disseram coisas piores," a assegurei. 

"No, voc no est entendendo. Estou dizendo que eu lembro de ter pensado que ela no sabia do 
que estava falando, porque quando voc me entregou minha bolsa na praia, eu vi honestidade e 
confiana e at algum carinho, mas nada aterrorizante de jeito nenhum. Sei que parece assustador, 
mas eu senti como se j te conhecesse." Desviei o olhar sem responder. Abaixo do poste, a nvoa 
estava subindo do cho, um resqucio do calor do dia. Os grilos tinham comeado seu barulho, 
cantando uns para os outros. Eu engoli, tentando amenizar a sbita secura na minha garganta. Olhei 
pra Savannah, depois para o teto, depois para os meus ps e finalmente de volta para Savannah 
novamente. Ela apertou minha mo e eu dei um trmulo suspiro, me maravilhando com o fato de 
que enquanto estava em uma licena comum, em um lugar comum, eu tinha de alguma forma me 
apaixonado por uma garota extraordinria chamada Savannah Lynn Curtis. 

Ela viu minha expresso, mas a interpretou mal. "Me desculpe se te fiz ficar desconfortvel," ela 
sussurrou. "Eu fao isso s vezes. Vou muito alm, quero dizer. Eu s solto o que estou pensando 
sem levar em conta como isso vai atingir outras pessoas." 

"Voc no me deixou desconfortvel," eu disse, virando seu rosto pra o meu. " s que eu nunca 
tive ningum pra me dizer algo assim antes." 

Eu quase parei a, consciente de que se eu deixasse as palavras dentro de mim, o momento passaria 
e eu escaparia sem colocar meus sentimentos na linha. 

"Voc no tem idia do quanto os ltimos dias tm significado pra mim," eu comecei. "Conhecer 
voc foi a melhor coisa que j me aconteceu." Eu hesitei, sabendo que se parasse agora, nunca seria 
capaz de dizer a ningum. "Eu te amo," sussurrei. 

Sempre imaginei que as palavras seriam difceis de dizer, mas no foram. Em toda a minha vida, 
nunca tive tanta certeza de nada e por mais que eu esperasse um dia ouvir Savannah dizendo essas 
palavras para mim, o que mais importou foi saber que o amor era meu para dar, sem restries ou 
expectativas. 

L fora o ar estava comeando a esquentar e eu podia ver piscinas de gua brilhando  luz da lua. 
As nuvens tinham comeado a desaparecer e, entre elas, uma espordica estrela piscou, como se 
para me lembrar do que eu tinha acabado de admitir. 

"Voc alguma vez j imaginou algo assim?" ela se perguntou em voz alta. "Voc e eu, quero dizer?" 

"No," eu disse. 

"Me assusta um pouco." 

Meu estmago pulou e imediatamente, eu tinha certeza que ela no se sentia da mesma forma. 

"Voc no precisa me dizer de volta," eu comecei. "No foi por isso que eu disse-" 

"Eu sei," ela interrompeu. "Voc no entende. Eu no estava assustada por que voc me contou. 
Fiquei assustada porque eu tambm queria dizer: eu te amo, John." 

#
Mesmo agora, ainda no tenho certeza de como aconteceu. Em um instante estvamos conversando 
e no seguinte ela se inclinou em minha direo. Por um segundo, me perguntei se beij-la iria 
quebrar o feitio sob o qual ns dois estvamos, mas era tarde demais para parar. E quando os seus 
lbios encontraram os meus, eu sabia que poderia viver at os cem anos e visitar todos os pases do 
mundo, mas nada iria se comparar quele momento que eu beijei pela primeira vez a garota dos 
meus sonhos e soube que meu amor duraria para sempre. 

#
Nove 

Acabamos ficando fora at tarde. Depois que deixamos a casa, levei Savannah de volta  praia e ns 
andamos o grande pedao de areia at ela comear a bocejar. Levei-a at a porta e nos beijamos 
novamente enquanto mariposas zumbiam na luz da varanda. Embora parecesse que eu tinha 
pensado muito em Savannah no dia anterior, no se comparava ao quo obcecado eu estava no dia 
seguinte, embora o sentimento fosse diferente. Me peguei sorrindo sem razo aparente, algo que at 
meu pai notou quando chegou em casa do trabalho. Ele no comentou-eu no esperava que ele 
comentasse,  claro-mas ele no se surpreendeu quando eu dei tapinhas nas suas costas quando 
descobri que ele planejava fazer lasanha. Falei inssessantemente sobre Savannah e depois de umas 
duas horas ele voltou  sua toca. Mesmo que tivesse falado pouco, acho que ele estava feliz por 
mim e mais feliz ainda por eu querer compratilhar isso. Tive certeza disso quando voltei pra casa 
mais tarde naquela noite e encontrei um prato de recm cozinhados biscoitos de manteiga de 
amendoim na bancada, junto com um bilhete que me informava que leite podia ser encontrado na 
geladeira. 

Levei Savannah pra tomar sorvete, depois a levei para a parte turstica de Wilmington. Passeamos 
pelas lojas, onde eu descobri que ela tinha um interesse por antiguidades. Mais tarde a levei pra ver 

o encouraado, mas no ficamos muito tempo. Ela estava certa; era chato. Depois a levei pra casa, 
onde nos sentamos ao redor da fogueira com seus amigos. 
Nas duas noites seguintes, Savannah foi  minha casa. Meu pai cozinhou nas duas noites. Na 
primeira Savannah no perguntou nada sobre moedas ao meu pai e a conversa foi um esforo. Meu 
pai escutou na maior parte e embora Savannah continou com um tom agradvel e tentou inclu-lo, a 
fora do hbito levou ns dois a falarmos um com o outro enquanto o meu pai se focava no seu 
prato. Quando ela foi embora, sua sombrancelha estava levantada e embora eu no quisesse 
acreditar que a primeira impresso dela a respeito dele havia mudado, eu sabia que isso tinha 
acontecido. Surpreendentemente, ela pediu pra voltar na noite seguinte, onde mais uma vez ela e 
meu pai ficaram na toca, discutindo moedas. Enquanto os observava, me perguntei o que Savannah 
achava dessa situao a qual eu crescera acostumado. Ao mesmo tempo, eu rezei para que ela fosse 
mais compreensiva do que eu tinha sido. Assim que fomos embora, eu sabia que no tinha nada 
com o que me preocupar. Enquanto voltvamos de carro para a praia, ela falou sobre o meu pai em 
termos brilhantes, particularmente elogiando o trabalho que ele tinha feito me criando. Enquanto eu 
no estava certo do que achava disso, suspirei de alvio ao perceber que ela parecia ter aceitado meu 
pai pelo que ele era. 

Quando chegou o fim de semana, minha apario na casa da praia estava se tornando um 
acontecimento regular. A maioria das pessoas na casa tinham aprendido meu nome, embora eles 
ainda demonstrassem pouco interesse em mim, to exaustos que estavam pelo dia de trabalho duro. 
A maioria deles estava apinhada ao redor da televiso l pelas sete ou oito, ao invs de bebendo e 
paquerando na praia. Todos pareciam queimados do sol e tinham Band-Aids nos dedos para cobrir 
suas bolhas. 

No sbado  noite as pessoas tinham achado reservas adicionais de energia e eu apareci na hora em 
que um grupo de garotos estavam descarregando caixas e mais caixas de cerveja da mala de uma 
van. Eu os ajudei a carreg-las e me dei conta de que desde a primeira noite que eu tinha visto 
Savannah, eu no tinha bebido nem um gole de lcool. Como no final de semana anterior, a 
churrasqueira estava acesa e ns comemos perto da fogueira; depois samos para uma caminhada na 
praia. Eu tinha levado um cobertor e uma cesta de picnic cheia de lanches e enquanto estvamos 
deitados, assistimos a um show de estrelas cadentes, maravilhados com os fios brancos que 
cruzavam o cu. Foi uma daquelas noites perfeitas com briza suficiente pra no nos deixar com frio 
ou com calor e ns conversamos e nos beijamos por horas antes de adormecer nos braos um do 

#
outro. 

Quando o sol comeou sua ascenso do mar no domingo de manh, me sentei ao lado de Savannah. 
Seu rosto estava iluminado com o brilho do amanhecer e seu cabelo caa no cobertor. Ela tinha um 
brao sobre a barriga e o outro acima da cabea e tudo que eu pude pensar foi que eu gostaria de 
passar todas as manhs pro resto da minha vida acordando ao lado dela. 

Fomos  igreja novamente e Tim estava do seu jeito alegre de sempre, apesar do fato de que ns mal 
falamos com ele durante toda a semana. Ele me perguntou novamente se eu queria ajudar na casa. 
Contei  ele que eu estaria partindo na sexta-feira seguinte e portanto, no sabia de quanta ajuda eu 
poderia ser. 

"Acho que voc est cansando ele," Savannah disse, sorrindo pra Tim. 

Ele levantou as mos. "Pelo menos voc no pode dizer que eu no tentei." 

Foi, talvez, a semana mais idlica que eu j passei. Meus sentimentos por Savannah tinham apenas 
ficado mais fortes, mas a medida que os dias passavam eu comecei a sentir uma ansiedade 
atormentadora com o quo cedo tudo isso estaria acabado. Sempre que esses sentimentos surgiam, 
eu tentava afast-los, mas na noite de domingo, eu mal podia dormir. Em vez disso, eu me remexi 
na cama, e pensei em Savannah e tentei imaginar como eu poderia ser feliz sabendo que ela estava 
do outro lado do oceano rodeada de homens, um dos quais parece se sentir exatamente como eu me 
sinto em relao  ela. 

*** 

Quando cheguei na casa na manh de segunda-feira, no consegui encontrar Savannah. Pedi pra 
algum olhar no quarto dela e enfiei minha cabea em cada banheiro. Ela no estava no deque 
traseiro ou na praia com os outros. 

Desci at a praia e perguntei, recebendo, na maior parte das vezes, dar de ombros indiferentes. 
Algumas pessoas no tinham nem se dado conta de que ela havia ido embora, mas finalmente uma 
das garotas-Sandy ou Cindy, eu no tinha certeza-apontou para a praia e disse que tinha visto a 
cabea dela naquela direo mais ou menos uma hora antes. 

Eu levei um bom tempo para ach-la. Caminhei pela praia nas duas direes, finalmente vendo o 
per perto da praia. Em um palpite, subi as escadas, ouvindo as ondas quebrarem abaixo de mim. 
Quando vi Savannah, achei que ela tinha vindo ao per para procurar botos ou observar os surfistas. 
Ela estava sentada com seu joelhos pra cima, encostada em um pedao de madeira e foi s quando 
me aproximei que percebi que ela estava chorando. 

Eu nunca sabia o que fazer quando vejo uma garota chorando. Honestamente, eu nunca sabia o que 
fazer quando via qualquer um chorando. Meu pai nunca chorou, ou se chorou, nunca foi na minha 
presena. E a ltima vez que eu chorara tinha sido na terceira srie, quando ca da casa da rvore e 
torci meu pulso. Na minha unidade, tinha visto alguns caras chorando e eu geralmente dava 
tapinhas nas suas costas e depois saia andando, deixando os 'por ques' e 'o que posso fazer' para 
algum com mais experincia. 

Antes que eu pudesse decidir o que fazer, Savannah me viu. Ela rapidamente enxugou seus olhos 
vermelhos e inchados e eu a ouvi dar algumas fungadas. Sua bolsa, a que eu resgatei do oceano, 
estava espremida entre suas pernas. 

#
"Voc est bem?" eu perguntei. 
"No," ela respondeu e meu corao se apertou. 
"Voc quer ficar sozinha?" 
Ela considerou. "No sei," ela disse finalmente. 
No sabendo o que mais fazer, fiquei onde estava. Savannah suspirou. "Eu vou ficar bem." 
Coloquei minhas mos nos bolsos e assenti. "Voc prefere ficar sozinha?" perguntei novamente. 
"Eu realmente tenho que lhe dizer?" 
Eu hesitei. "Sim." 
Ela deu uma risada melanclica. "Voc pode ficar," ela disse. "Na verdade, vai ser legal se voc 


chegar mais perto e sentar ao meu lado." 
Me sentei e ento, depois de um breve momento de indeciso, coloquei meu brao ao redor dela. 


Por um momento, sentamos juntos sem dizer nada. Savannah inspirava lentamente e a sua 
respirao se tornou constante. Ela limpou as lgrimas que continuavam a cair por suas bochechas. 
"Comprei uma coisa pra voc," ela disse depois de um tempo. "Espero que voc concorde com 

isso." 
"Tenho certeza que est tudo bem," eu murmurei. 
Ela fungou. "Voc sabe no que eu estava pensando quando vim aqui?" Ela no esperou por uma 


resposta. "Estava pensando em ns," disse. "O modo como nos conhecemos e como nos falams 
naquela primeira noite, como voc mostrou suas tatuagens e deu o olhar maligno para o Randy. E a 
sua expresso boba quando fomos surfar pela primeira vez, depois que eu peguei a onda at a 
costa..." 


Quando ela parou de falar eu apertei sua cintura. "Tenho certeza que h um elogio a em algum 


lugar." 
Ela tentou se recuperar com um sorriso trmulo mas no teve muito sucesso. "Eu lembro de tudo 
sobre aqueles primeiros dias," ela disse. "E o mesmo acontece com o resto da semana. Passar algum 
tempo com o seu pai, sair pra tomar sorvete, at mesmo olhar para aquele barco idiota." 


"Ns no vamos voltar," prometi, mas ela ergueu as mos para me parar. 
"Voc no est me deixando terminar," ela disse. "E voc no est entendendo. Eu estou dizendo 


que eu amei cada momento e eu no esperava isso. Eu no vim aqui para isso, assim como no vim 
aqui para me apaixonar por voc. Ou, de uma maneira diferente, pelo seu pai." 
Submisso, eu no disse nada. 
Ela colocou uma mecha de cabelo atrs da orelha. "Eu acho seu pai fantstico. Acho que ele fez um 


timo trabalho criando voc e eu sei que voc no acha, e..." 


#
Quando ela pareceu ficar sem palavras, eu balancei a cabea, perplexo. "E  por isso que voc 
estava chorando? Por causa de como eu me sinto em relao ao meu pai?" 

"No," ela disse. "Voc no estava ouvindo?" 

Ela pausou, como se estivesse tentando organizar seus pensamentos caticos. "Eu no queria me 
apaixonar por ningum," ela disse. " Eu no estava pronta para isso. J passei por isso uma vez e 
depois eu estava acabada. Eu sei que  diferente, mas voc vai partir dentro de poucos dias e tudo 
isso vai terminar... e eu vou estar acabada novamente." 

"No precisa terminar," eu protestei. 

"Mas vai," ela disse. "Eu sei que a gente pode escrever e falar ao telefone de vez em quando e 
podemos nos ver quando voc vier para casa de licena. Mas no ser a mesma coisa. Eu no vou 
poder ver suas expresses bobas. Ns no poderemos deitar na praia e observar as estrelas. No 
poderemos sentar um em frente ao outro e conversar e dividir segredos. E eu no vou sentir seu 
brao ao meu redor, como sinto agora." 

Desviei o olhar, sentindo um senso crescente de frustrao e pnico. Tudo o que ela estava dizendo 
era verdade. 

"Me ocorreu hoje," ela continuou, "enquanto eu estava olhando as prateleiras na livraria. Fui l para 
lhe comprar um livro e quando o encontrei, comecei a imaginar como voc reagiria quando eu o 
entregasse. O negcio era que eu sabia que te veria em poucas horas e ento eu saberia e iria ficar 
tudo bem. Porque mesmo que voc estivesse chateado, eu sabia que ns superaramos porque 
poderamos resolver cara a cara. Foi disso que eu me dei conta enquanto estava sentada aqui. Que 
quando estamos juntos, tudo  possvel." Ela hesitou, ento continuou. "Muito cedo isso no vai 
mais ser possvel. Eu soube desde que nos conhecemos que voc no ficaria mais de algumas 
semanas aqui, mas eu no achava que fosse ser to difcil assim dizer adeus." 

"Eu no quero dizer adeus," eu disse, gentilmente virando seu rosto em direo ao meu. 

Abaixo de ns eu podia ouvir as ondas quebrando na madeira. 

Um bando de gaivotas passou no cu e eu me inclinei para beij-la, meus lbios mal roando os 
dela. Seu hlito cheirava a canela e menta e eu pensei de novo em voltar pra casa. 

Esperando tirar a mente dela de pensamentos to deprimentes, lhe dei um aperto enrgico e apontei 
para a bolsa. "Ento, que livro voc comprou pra mim?" 

Ela pareceu confusa  princpio, mas depois se lembrou de que tinha mencionado o livro mais cedo. 
"Ah, sim, acho que  a hora pra isso, n?" 

Pelo modo como ela disse, eu de repente percebi que ela no tinha me comprado o ltimo Hiaasen*. 
Esperei, mas quando tentei encontrar seus olhos ela virou. 

*Escritor de estrias de mistrio. 

"Se eu der a voc," ela disse, sua voz sria, "voc tem que me prometer que vai ler." 

Eu no estava muito certo sobre o que achar disso. "Claro," eu disse, esticando a palavra. "Eu 
prometo." 

#
Ainda assim, ela hesitou. Depois estendeu a mo para a bolsa e puxou o livro. Quando ela oestendeu para mim, li o ttulo.  princpio, eu no sabia o que pensar. 
Era um livro-mais como um 
livro didtico, na verdade sobre autismo e Asperger. Eu tinha ouvido sobre os dois distrbios esupus que eu sabia o que a maioria das pessoas sabiam, o que no era 
muito. " de uma das minhas 
professoras," ela explicou. "Ela  a melhor professora que eu tive na faculdade. Suas aulas esto 
sempre cheias e estudantes que no esto matriculados algumas vezes entram pra falar com ela. Ela 
 uma das mais importantes especialistas em todas as formas de distrbios de desenvolvimento e  
uma dos poucos que focalizou sua pesquisa em adultos." 

"Fascinante," eu disse, no me incomodando em esconder a minha falta de entusiasmo. 
"Acho que voc pode aprender alguma coisa," ela pressionou. 
"Tenho certeza," eu disse. "Parece que tem um bocado de informao aqui." 
"Tem mais do que s isso," ela disse. Sua voz era quieta. "Eu quero que voc leia por causa do seu 


pai. E o modo como vocs dois se do." 
Pela primeira vez, me senti rgido. "O que isso tem a ver?" 
"Eu no sou uma especialista," ela disse, "mas esse livro foi indicado nos dois semestres que eu fiz 


com ela e eu o devo ter estudado toda noite. Como eu disse, ela entrevistou mais de trezentos 
adultos com distrbios." 
Eu retirei meu brao. "E?" 


Eu sabia que ela tinha ouvido a tenso na minha voz e ela me estudou com um trao de apreenso. 
"Eu sei que sou s uma estudante, mas eu passo muitas das minhas horas no laboratria com 
crianas que tm Asperger... eu j vi de perto e eu tambm tive a oportunidade de encontrar alguns 
dos adultos que a minha professora entrevistou." Ela se ajoelhou  minha frente, estendendo a mo 
para tocar meu brao. "Seu pai  muito parecido com alguns deles." 


Acho que eu j sabia pra onde ela estava indo, mas por alguma razo eu queria que ela dissesse 
diretamente. "O que isso quer dizer?" eu exigi, me forando a no sair. 
Sua resposta demorou para vir. "Eu acho que o seu pai pode ter Asperger." 
"Meu pai no  retardado..." 


"Eu no disse isso," ela disse. "Asperger  um distrbio de desenvolvimento." 
"No importa o que ," eu disse, minha voz se elevando. "Meu pai no tem. Ele me criou, ele 
trabalha, ele paga suas contas. Ele j foi casado." 


"Voc pode ter Asperger e ainda funcionar..." 
Enquanto ela falava, me lembrei de uma coisa que ela tinha dito mais cedo. 
"Espera," eu disse, tentando lembrar de como ela tinha se expressado e sentindo minha boca ficar 


seca. "Mais cedo, voc disse que achava que meu pai tinha feito um trabalho maravilhoso me 


#
criando." 
"Sim," ela disse, "e eu estava falando srio..." 
Minha mandbula se apertou quando eu me dei conta do que ela estava realmente dizendo e eu a 


encarei como se a estivesse vendo pela primeira vez. "Mas  porque voc pensa que ele  como o 
Rain Man*. Que considerando o problema dele, ele fez um bom trabalho." 
* um filme que tem um personagem autista. 


"No... voc no entende. H um espectro de Asperger, de ameno a severo-" 
Eu mal a ouvi. "E voc o respeita pela mesma razo. Mas no  como se voc realmente gostasse 
dele." 


"No, espera-" 


Eu me afastei e levantei. Subitamente precisando de espao, caminhei para a grade oposta  ela. 


Pensei nos seus costantes pedidos para visit-lo... no porque ela querira passar algum tempo com 
ele. Porque ela queria estud-lo. 
Meu estmago deu um n e eu olhei pra ela. "Foi por isso que voc apareceu, no foi?" 
"O que-" 
"No porque gostava dele, mas porque voc queria saber se estava certa." 
"No-" 
"Pare de mentir!" eu gritei. 
"Eu nao estou mentindo!" 
"Voc estava sentada l com ele, fingindo estar interessada em suas moedas, mas na verdade estava 


avaliando ele como um macaco na gaiola." 
"No foi assim!" ela disse, se levantando. "Eu respeito seu pai-" 
"Porque voc acha que ele tem problemas e os superou," eu rosnei, terminando a frase para ela. 


"Sim, eu entendi." 
"No, voc est errado. Eu gosto do seu pai..." 
"Por isso voc administrou seu pequeno experimento, no foi?" Minha expresso era dura. ", eu


devo ter esquecido de que quando voc gosta de algum, faz coisas assim.  isso que voc est 


tentando dizer?" 
Ela balanou a cabea. "No!" Pela primeira vez, ela parecia questionar o que tinha feito e seu lbio 
comeou a tremer. Quando falou novamente, sua voz tremeu. "Voc est certo. Eu no devia ter 
feito isso. Mas eu s queria que voc o entendesse." 


"Por qu?" eu disse, dando um passo na direo dela. Eu podia sentir meus msculos tensos. "Eu o 


#
entendo bem. Cresci com ele, lembra? Eu vivi com ele." 

"Eu estava tentando ajudar," ela disse, os olhos abatidos. "Eu s queria que voc fosse capaz de se 
relacionar com ele." 

"Eu no pedi a sua ajuda. Eu no quero a sua ajuda. E desde quando isso  da sua conta, de qualquer 
forma?" 

Ela se virou e limpou uma lgrima. "No ," ela disse. Sua voz estava quase inaudvel. "Eu achei 
que voc iria querer saber." 

"Saber o que?" eu exigi. "Que voc acha que tem alguma coisa de errado com ele? Que eu no 
deveria esperar ter uma relao normal com ele? Que eu tenho que falar sobre moedas se quiser 
falar com ele??" 

Eu no escondi a raiva na minha voz e do canto dos meu olhos, vi alguns pescadores se virarem em 
nossa direo. Meu olhar os inpediu de chegarem mais perto, o que provavelmente foi uma boa 
coisa. Enquanto nos encarvamos, eu no esperava que Savannah respondesse e francamente, eu 
no queria que ela respondesse. Eu ainda estava tentando tirar minha mente do fato de que as horas 
que ela tinha passado com meu pai no eram nada mais que uma farsa. 

"Talvez," ela sussurrou. 

Eu pisquei, incerto de que ela tinha dito o que eu pensei que ela tinha dito. "O que?" 

"Voc me ouviu." Ela me deu um pequeno encolher de ombros. "Talvez essa seja a nica coisa 
sobre a qual voc ir conversar com seu pai. Pode ser tudo o que ele possa fazer." 

Senti minhas mos se fecharem em punhos. "Ento voc est dizendo que tudo depende de mim?" 

Eu no esperava que ela fosse responder, mas ela respondeu. 

"Eu no sei," ela disse, encontrando meus olhos. Eu ainda podia ver sua lgrimas, mas sua voz 
estava surpreendentemente firme. "Foi por isso que eu comprei o livro. Pra que voc possa ler. 
Como voc disse, voc conhece ele melhor do que eu. E eu nunca disse que ele  incapaz de 
fucnionar, porque obviamente ele funciona. Mas pense nisso. Suas rotinas imutveis, o fato de ele 
no olhar para as pessoas quando fala com elas, a inexistncia da sua vida social..." 

Eu girei, querendo atingir alguma coisa. Qualquer coisa. "Por que voc est fazendo isso?" 
perguntei, minha voz baixa. 

"Porque se fosse comigo, eu iria querer saber. Eu no estou dizendo isso porque eu queria machucar 
voc ou insultar seu pai. Eu lhe disse porque queria que voc o entendesse." 

Sua honestidade fez com que ficasse dolorosamente claro que ela acreditava no que estava dizendo. 
Mesmo assim, no me importei. Me virei e fui em direo ao per. Eu s queria ir embora. Daqui, 
dela. 

"Onde voc vai?" eu a ouvi gritar. "John! Espera!" 

Eu a ignorei. Acelerei o passo e um minuto depois eu tinha alcanado as escadas. Corri escada 
abaixo, cheguei na areia e segui em direo  casa. No fazia idia se Savannah estava atrs de mim 

#
e enquanto me aproximava do grupo, rostos viravam em minha direo. Eu parecia zangado, e sabia 
disso. Randy estava segurando uma cerveja e deve ter visto Savannah se aproximando porque ele se 
moveu para bloquear meu caminho. Alguns dos seus irmos de fraternidade fizeram o mesmo. 

"O que est acontecendo?" ele falou. "O que h de errado com Savannah?" o ignorei e senti ele 
agarrando meu pulso. "Ei, eu estou falando com voc." 

Nenhum movimento. Eu podia sentir seu hlito de cerveja e sabia que o lcool tinha lhe dado 
coragem. 

"Me solta," eu disse. 

"Ela est bem?" ele exigiu. 

"Me solta," eu disse novamente, "ou eu quebro seu pulso." 

"Ei, o que est acontecendo?" eu ouvi Tim gritar de algum lugar atrs de mim. 

"O que voc fez com ela?" Randy exigiu. "Por que ela est chorando? Voc machucou ela?" 

Eu podia sentir a adrenalina surgir na minha corrente sangunea. "ltima chance," eu alertei. 

"No h motivo pra isso!" Tim gritou, mais perto dessa vez. "Se acalmem, pessoal! Deixem pra l!" 

Senti algum tentando me agarrar pelas costas. O que aconteceu em seguida foi instintivo, dentro de 
uma questo de segundos. Bati meu cotovelo com fora na sua barriga e ouvi uma sbita expirao 
gemida; ento agarrei a mo de Randy e rapidamente a torci at seu ponto de estalo. Ele gritou e 
caiu de joelhos e naquele instante senti mais algum correndo em minha direo. Balancei um 
cotovelo cegamente e o senti conectar; senti cartilagem se esmigalhar enquanto me virei, pronto 
para o prximo que viesse. 

"O que voc fez?" ouvi Savannah gritar. Ela deve ter vindo correndo assim que viu o que estava 
acontecendo. 

Na areia, Randy estava se contraindo enquanto apertava o pulso; o cara que tinha me agarrado por 
trs estava arfando de quatro. "Voc o machucou!" ela choramingou enquanto passava correndo por 
mim. "Ele s estava tentando parar a briga!" 

Eu me virei. Tim estava esparramado no cho, segurando o rosto, o sangue jorrando por entre seus 
dedos. A viso pareceu paralisar todos menos Savannah, que se ajoelhou ao seu lado. Tim gemeu e 
apesar das marteladas no meu peito, senti um caroo no meu estmago. Por que tinha que ter sido 
ele? Eu queria perguntar se ele estava bem; eu queria dizer a ele que no tinha tido a inteno de 
machuc-lo e que no era minha culpa. Eu no tinha comeado isso. 

Mas no iria importar. No agora. Eu no podia fingir que eles devessem perdoar e esquecer, no 
importava o quanto eu quisesse que no tivesse acontecido. 

Eu mal podia ouvir Savannah se preocupar quando eu comecei a me afastar. Olhei para os outros 
cautelosamente, me certificando de que eles me deixariam partir, no querendo machucar mais 
ningum. 

"Ah, Jesus... ah, no. Voc est realmente sangrando... temos que te levar ao mdico..." 

#
Continuei a andar para trs, ento me virei e subi as escadas. 

Me movi rapidamente pela casa, depois de volta para o meu carro. Antes de me dar conta, eu estava 
na rua, amaldioando a mim e a toda a noite. 

#
Dez 

Eu no sabia aonde ir, ento dirigi sem rumo por um tempo, os acontecimentos da noite passada se 
repetindo na minha cabea. Ainda estava com raiva de mim mesmo e do que eu tinha feito com 
Tim-no tanto com o que eu fiz com os outros, admito-e com raiva de Savannah pelo que tinha 
acontecido no per. 
Eu mal podia me lembrar de como tinha comeado. Em um minuto eu estava pensando em como eu 
a amava mais do que alguma vez j tinha imaginado possvel, e no outro estvamos brigando. Eu 
estava revoltado com seu subterfgio, mas ainda assim no conseguia entender porque estava com 
tanta raiva. No era como se meu pai e eu fssemos prximos; no era como se eu pensasse que o 
conhecesse. Ento porque eu tinha ficado com tanta raiva? E porque ainda estava com raiva? 
Porque, a voz dentro de mim perguntou, h uma chance de ela estar certa? 

No importava. Se ele fosse ou no, e da? Como isso iria mudar alguma coisa? E por que isso era 
da conta dela? 

Enquanto dirigia, continuava mudando de raiva para aceitao e de volta pra raiva de novo. Me 
peguei revivendo a sensao do meu cotovelo esmagando o nariz do Tim, o que s fez piorar as 
coisas. Por que ele tinha vindo at mim? Por que no eles? No tinha sido eu quem tinha comeado. 

E Savannah... , eu posso passar l amanh pra me desculpar. Eu sei que ela sinceramente 
acreditava no que dizia e que do jeito dela, estava tentando ajudar. E talvez, se ela estivesse certa, eu 
quisesse saber. Explicaria algumas coisas... 

Mas depois do que eu fiz com Tim? Como ela reagiria a isso? Ele era seu melhor amigo e mesmo 
que eu jurasse que tinha sido um acidente, importaria para ela? E o que eu tinha feito com os 
outros? Ela sabia que eu era um soldado, mas agora que ela tinha visto uma pequena parte do que 
isso significava, ela ainda iria sentir o mesmo sobre mim? 

Quando cheguei em casa, era mais de meia-noite. Entrei na casa escurecida, me esgueirei para a 
toca do meu pai, depois para o quarto. Ele no estava acordado,  claro; ele ia para a cama na 
mesma hora todas as noites. Um homem de rotina, como eu sabia e Savannah tinha destacado. 

Engatinhei para a cama, sabendo que no dormiria e desejando que pudesse comear a noite 
novamente. Desde a hora que ela tinha me entregado o livro, de qualquer forma. Eu no queria mais 
pensar sobre nada disso. Eu no queria pensar sobre meu pai, Savannah, ou sobre o que eu tinha 
feito com nariz de Tim. Mas durante toda a noite eu encarei o teto, incapaz de escapar dos meus 
pensamentos. 

Me levantei quando ouvi meu pai na cozinha. Eu estava vestindo as mesmas roupas da noite 
anterior, mas duvidei que ele tivesse se dado conta disso. 

"Bom dia, pai," murmurei. 

"Oi, John," ele disse. "Quer tomar caf-da-manh?" 

"Claro," eu disse. "O caf est pronto?" 

"No bule." 

Me servi de uma xcara. Enquanto meu pai cozinhava, notei as manchetes no jornal, sabendo que 
ele iria ler a seo de capa primeiro, depois a metropolitana. Ele ignoraria a seo de esportes e da 

#
vida. Um homem de rotina. 

"Como foi sua noite?" eu perguntei. 

"Como sempre," ele disse. No me surpreendi quando ele no me perguntou nada de volta. Ao invs 
disso, ele correu a esptula pelos ovos mexidos. O bacon j estava chiando. Depois de um tempo, 
ele retornou para mim e eu j sabia o que ele perguntaria. 

"Se importa de colocar algum po na torradeira?" 

Meu pai saiu para trabalhar exatamente s 7:35h. 

Assim que ele saiu eu escaneei o jornal, desinteressado nas notcias, perdido sobre o que fazer 
depois. Eu no tinha vontade de surfar, ou at mesmo deixar a casa, e estava me perguntado se 
deveria voltar pra cama pra tentar descansar um pouco quando ouvi um carro estacionar na entrada 
da garagem. Imaginei que fosse algum que viesse deixar um panfleto oferecendo um servio de 
limpar calhas ou de lavar o molde do telhado; me surpreendi quando ouvi uma batida. 

Abrindo a porta, eu congelei, pego completamente fora de guarda. Tim mudou seu peso de um p 
para o outro. "Oi, John," ele disse. "Eu sei que  cedo, mas posso entrar?" 

Um grande esparadrapo estava no seu nariz e a pele ao redor dos dois olhos estava machucada e 
inchada. 

"Sim... claro," eu disse, dando um passo para o lado, ainda tentando processar o fato de que ele 
estava aqui. Tim passou por mim e entrou na sala. "Eu quase no achei sua casa," ele disse. 
"Quando te deixei antes era tarde e eu no estava prestando muita ateno. Passei direto algumas 
vezes antes de finalmente registrar." 

Ele sorriu de novo e me dei conta de que ele carregava um pequeno saco de papel. 

"Quer caf?" perguntei, saindo do meu estado de choque. "Acho que o que est no bule ainda d 
para uma xcara." 

"No, tudo bem. Estava acordado a maior parte da noite e prefiro no beber cafena. Quero me 
deitar quando voltar  casa." 

Assenti. "Ei, escuta... sobre o que aconteceu ontem  noite," eu comecei. "Me desculpe. Eu no 
queria..." 

Ele ergueu a mo para me parar. "Tudo bem. Eu sei que voc no queria. E eu deveria saber. Eu 
deveria ter tentado agarrar um dos outros." 

O analizei. "Di?" 

"Tudo bem," ele disse. "S foi uma daquelas noites na sala da emergncia. Levou algum tempo pra 
ver um mdico, e ele queria chamar algum pra ajeitar meu nariz. Mas eles juraram que vai ficar 
bom como novo. Eu posso ficar com um pequeno inchao, mas estou esperando que me d uma 
aparncia mais marcada." 

Eu sorri, depois me senti mal por faz-lo. "Como eu disse, me desculpe." 

#
"Eu aceito suas desculpas," ele disse. "E agradeo. Mas no foi por isso que eu vim aqui." Ele 
gesticulou para o sof. "Se importa se sentarmos? Me sinto um pouco tonto." 

Sentei na ponta da cadeira reclinvel, me inclinando pra frente com os cotovelos nos joelhos. Tim 
sentou no sof, se contraindo enquanto tentava ficar confortvel. Ele deixou a sacola de papel ao 
lado. 

"Quero falar com voc sobre Savannah," ele disse. "E sobre o que aconteceu noite passada." 

O som do nome dela trouxe tudo de volta e eu desviei o olhar. "Voc sabe que somos bons amigos, 
n?" Ele no esperou por uma resposta. "Noite passada no hospital, conversamos por horas e eu s 
queria vir aqui para pedir a voc pra no ficar com raiva dela pelo que ela fez. Ele sabe que cometeu 
um erro e que no era tarefa dela diagnosticar seu pai. Voc estava certo sobre isso." 

"Ento por que ela no est aqui?" 

"Neste momento, ela est na construo. Algum tem que ficar responsvel enquanto eu me 
recupero. E ela tambm no sabe que eu estou aqui." 

Sacudi a cabea. "No sei por que fiquei to maluco, pra comear." 

"Porque voc no queria ouvir," ele disse, sua voz quieta. "Eu costumava me sentir do mesmo jeito 
quando ouvia algum falar do meu irmo, Alan. Ele  autista." 

Olhei pra cim. "Alan  seu irmo?" 

"Sim, por qu?" ele perguntou. "Savannah te contou sobre ele?" 

"Um pouco," eu disse, lembrando que at mais do que sobre Alan, ela falou do irmo que tinha sido 
to paciente com ele, que a tinha inspirado a se especializar em educao especial. 

No sof, Tim se contorceu quando tocou no machucado embaixo do olho. "E s pra voc saber," ele 
continuou, "eu concordo com voc. No era tarefa dela, eu disse isso a ela. Lembra quando eu disse 
que ela era ingnua s vezes? Foi isso que eu quis dizer. Ela quer ajudar as pessoas, mas s vezes 
no acaba desse jeito." 

"No foi s ela," eu disse. "Fui eu tambm. Como eu disse, eu exagerei." 

O olhar dele era firme. "Voc acha que ela pode estar certa?" 

Juntei minhas mos. "No sei. Acho que no, mas..." 

"Mas voc no sabe. E se for verdade, o que importa, certo?" Ele no esperou por resposta. "Eu j 
estive l e fiz isso," ele disse. "Lembro do que eu e meu pai passamos com Alan. Por um tempo no 
sabamos o que, ou se alguma coisa, estava errada com ele. E voc sabe o que eu decidi depois de 
todo esse tempo? No importa. Eu ainda o amo, e cuido dele e sempre irei. Mas... aprender sobre a 
situao dele ajudou a facilitar as coisas entre ns. Depois que eu soube... acho que s parei de ficar 
esperando que ele se comportasse de uma certa maneira. E sem expectativas, achei mais fcil 
aceit-lo." 

Digeri isso. "E se ele no tiver Asperger?" perguntei. 

#
"Ele pode no ter." 

"E se eu achar que ele tem?" 

Ele suspirou. "No  assim to simples, especialmente em casos amenos," ele disse. "No  como se 
voc pudesse tirar sangue e fazer um teste. Voc tem que chegar ao ponto em que acha que  
possvel e isso  o mais longe que voc chegar. Mas voc nunca saber de certeza. E do que 
Savannah disse sobre ele, eu realmente no acho que muita coisa ir mudar. E porque iria? Ele 
trabalha, ele criou voc... o que mais voc poderia esperar de um pai?" 

Considerei isso enquanto imagens do meu pai passaram na minha cabea. 

"Savannah te comprou um livro," ele disse. 

"No sei onde est," admiti. 

"Est comigo," ele disse. "Trouxe da casa." Ele me estendeu a bolsa de papel. De alguma forma o 
livro parecia mais pesado do que estava na noite anterior. 

"Obrigado." 

Ele se levantou e eu sabia que nossa conversa estava chegando ao fim. Ele se moveu para a porta 
mas se virou com a mo na maaneta. 

"Sabe que no tem que ler," ele disse. 

"Eu sei." 

Ele abriu a porta, ento parou. Eu sabia que ele queria acrescentar mais alguma coisa, mas, me 
surpreendendo, ele no se virou. "Se importa se eu pedir um favor?" 

"V em frente." 

"No parta o corao de Savannah, certo? Eu sei que ela te ama e s quero que ela seja feliz." 

A eu soube que estava certo sobre os sentimentos dele por ela. Enquanto ele caminhava para o 
carro, o observei da janela, certo de que ele estava apaixonado por ela tambm. 

Coloquei o livro ao lado e sa para uma caminhada; quando voltei para a casa, o evitei novamente. 
No posso lhe dizer por que fiz isso, alm de que ele me assustava de alguma forma. 

Depois de algumas horas contudo, forcei a sensao a ir embora e passei o resto da tarde 
absorvendo o seu contedo e revivendo memrias do meu pai. 

Tim estava certo. No havia nenhum diagnstico bem definido, nenhuma regra clara e no havia 
como eu saber ao certo. Algumas pessoas com Asperger tinham QIs baixos, enquanto outras, at 
pessoas com um autismo mais intenso-como o personagem de Dustin Hoffman em Rain Man-eram 
considerados gnios em assuntos especficos. Alguns podiam funcionar to bem em sociedade que 
ningum nem mesmo sabia; outros tinham que ser internados. Li perfis de pessoas com Asperger 
que eram prodgios em msica ou matemtica, mas eu aprendi que eles eram to raros como 
prodgios entre a populao geral. Mas, mais importante, eu aprendi que quando meu pai era jovem, 
haviam poucos mdicos que entendiam as caractersticas ou os sintomas e que se algo tivesse dado 

#
errado, seus pais podiam nunca ter sabido. Crianas com Asperger ou autismo era geralmente tidas 
como retardadas ou tmidas, e se eles no fossem internados, os pais se confortavam com a 
esperana de que algum dia seus filhos iriam sair dessa situao. A diferena entre autismo e 
Asperger podia algumas vezes ser resumida pelo seguinte: Uma pessoa com autismo vive em seu 
prprio mundo, enquanto uma pessoa com Asperger vive em nosso mundo de uma maneira que ela 
prpria escolhe. 

Por esse padro, poderia ser dito que a maioria das pessoas tem Asperger. Mas havia algumas 
indicaes de que Savannah estava certa sobre meu pai. Suas rotinas imutveis, sua estranheza 
social, sua falta de interesse em assuntos que no fossem moedas, seu desejo de estar sozinho-tudo 
parecia caprichos que qualquer um poderia ter, mas com meu pai era diferente. Enquanto outros 
poderiam livremente fazer estas mesmas escolhas, meu pai-como algumas pessoas com Aspergerparecia 
ter sido forado a viver uma vida com essas escolhas j predeterminadas. No mnimo, eu 
aprendi que isso pode explicar o comportamento do meu pai, e sendo assim, no era que ele no 
queria mudar, mas que ele no podia. Mesmo com toda a incerteza implicada, achei a descoberta 
confortante. E, me dei conta, explicava duas questes que sempre tinha me atormentado a respeito 
da minha me: O que ela tinha visto nele? E por que ela foi embora? 

Eu sabia que nunca saberia e no tinha inteno de ir mais longe. 

Mas com uma imaginao saltitante em uma casa silenciosa, eu podia imaginar um homem quieto 
que comeou uma conversa sobre sua coleo rara de moedas com uma pobre jovem garonete em 
uma lanchonete, uma mulher que passava suas noites deitada na cama e sonhando com uma vida 
melhor. Talvez ela tenha flertado, talvez no, mas ele estava atrado por ela e continuou a aparecer 
na lanchonete. Com o tempo, ela deve ter sentido a bondade e pacincia nele, que ele usaria mais 
tarde ao me criar. 

Pode ser possvel que ela tenha interpretado sua natureza quieta precisamente tambm e sabia que 
ele demorava para se enraivecer e nunca era violento. Mesmo sem amor, deve ter sido o bastante, 
ento ela concordou em casar com ele, pensando que eles venderiam as moedas e viveriam, se no 
felizes para sempre, pelo menos confortveis para sempre. Ela engravidou e mais tarede, quando 
aprendeu que ele no poderia nem mesmo entender a idia de vender as moedas, ela se deu conta de 
que tinha ficado presa a um marido que mostrava pequeno interesse por qualquer coisa que ela 
fizesse. Talvez a sua solido sugou o melhor dela, ou talvez ela fosse s egosta, mas de qualquer 
forma ela queria sair, e depois que o beb nasceu, ela abraou a primeira oportunidade de ir embora. 

Ou, eu pensei, talvez no. 

Eu duvidava de que algum dia fosse saber a verdade, mas eu realmente no me importava. Eu me 
importava, no entanto, com o meu pai e se ele estava angustiado com algumas redes defeituosas em 
seu crebro, subitamente entendi que ele de alguma forma tinha formado uma lista de regras para a 
vida, regras que o haviam ajudado a se encaixar no mundo. Talvez elas no fossem muito normais, 
mas ele tinha, todavia, encontrado um modo de me ajudar a me tornar o homem que eu era. E para 
mim, isso era mais do que suficiente. 

Ele era meu pai e fez o que pde. Eu sabia disso agora. E quando finalmente fechei o livro e o 
coloquei de lado, me encontrei encarando a janela, pensando em como eu estava orgulhoso dele 
enquanto tentava engolir o caroo na minha garganta. 

Quando ele voltou do trabalho, trocou de roupa e foi para a cozinha comear o spaghetti. O analizei 
enquanto ele se movimentava, sabendo que estava fazendo exatamente o que me fez ficar com raivade Savannah quando ela tambm fez.  estranho como conhecimento muda 
a percepo. 

#
Notei a preciso de seus movimentos-o modo como ele habilmente abriu a caixa de spaghetti antes 
de coloc-la de lado e o modo como ele trabalhava com a esptula em ngulos cuidadosamente 
certos enquanto assava a carne. Eu sabia que ele adicionaria sal e pimenta, e um momento depois, 
ele o fez. Eu sabia que ele abriria a lata de molho de tomate logo depois, e novamente, eu no 
estava errado. Como sempre, ele no perguntou sobre o meu dia, preferindo trabalhar em silncio. 
Ontem eu atribuiria isso ao fato de sermos estranhos um ao outro; hoje eu entendia que havia uma 
possibilidade de que ns sempre seramos. Mas pela primeira vez na minha vida, isso no me 
incomodou. 

Durante o jantar eu no perguntei sobre seu dia, sabendo que ele no responderia. Em vez disso, 
contei a ele sobre Savannah e como tinha sido o nosso tempo juntos. Mais tarde, o ajudei com os 
pratos, continuando a nossa conversa de uma s via. Assim que acabamos, ele pegou o pano 
novamente. Limpou a bancada uma segunda vez, ento girou os trituradores de sal e pimenta at 
eles ficarem na mesma posio que estavam quando ele chegou em casa. Eu tinha a sensao de que 
ele queria acrescentar alguma coisa a conversa mas no sabia como, mas eu supus que estava 
querendo fazer com que eu mesmo me sentisse melhor. No importava. Eu sabia que ele estava 
pronto para se recolher para a toca. 

"Ei, pai," eu disse. "Que tal voc me mostrar algumas das moedas que comprou recentemente? Eu 
quero ouvir tudo sobre elas." 

Ele me encarou como se no tivesse certeza de que tinha me ouvido corretamente, ento olhou para 

o cho. Tocou seu cabelo ralo e eu vi a careca crescente no topo da sua cabea. Quando ele olhou 
para mim novamente, parecia quase assustado. 
"Certo," ele disse finalmente. 

Caminhamos at a toca juntos, e quando senti ele colocar uma mo gentil na minhas costas, tudo o 
que eu podia pensar era que no tinha me sentido prximo dele assim h anos. 

#
Onze 

Na noite seguinte, enquanto eu estava de p no per admirando a lua prateada no oceano, me 
perguntei se Savannah apareceria. Na noite anterior, depois de passar horas examinando moedas 
com meu pai e aproveitando a animao na sua voz enquanto ele as descrevia, dirigi at a praia. No 
assento ao meu lado estava o bilhete que eu escrevera pra Savannah, pedindo  ela para me 
encontrar aqui. Deixei o bilhete em um envelope que coloquei no carro de Tim. Eu sabia que ele 
passaria o envelope adiante sem abrir, no importava o quanto ele pudesse no querer. Pelo pequeno 
tempo em que eu o conhecia, acreditei que Tim, como meu pai, era uma pessoa muito melhor do 
que eu. 

Foi a nica coisa que eu pude pensar em fazer. Por causa da briga, eu sabia que no era mais bem 
vindo na casa da praia; tambm sabia que no queria ver Randy ou Susan ou qualquer um dos 
outros, o que tornou impossvel me comunicar com Savannah. Ela no tinha celular, nem eu sabia o 
nmero da casa da praia, o que deixou o bilhete como minha nica opo. 

Eu estava errado. Tinha exagerado, e sabia disso. No s com ela, mas com os outros na praia. Eu 
tinha simplesmente ido embora. Randy e seus amigos, mesmo que eles levantassem peso e se 
considerassem atletas, no tinham nenhuma chance contra algum treinado para incapacitar pessoas 
rapidamente e eficientemente. Se fosse na Alemanha, eu teria sido trancado pelo que eu fiz. O 
governo no era muito carinhoso com aqueles que usavam habilidades adiquiridas atravs dele de 
maneiras que o governo no aprovava. 

Ento eu deixei o bilhete, ento olhei o relgio durante todo o dia seguinte, me perguntando se ela 
apareceria. Quando a hora que eu sugerira veio e passou, me achei olhando compulsivamente por 
cima do ombro, dando um suspiro de alvio quando uma figura apareceu  distncia. Pelo modo que 
ela se movia, eu sabia que tinha que ser Savannah. Me inclinei contra a cerca enquanto esperava por 
ela. 

Ela diminuiu o passo quando me viu, ento parou. Nenhum abrao, nenhum beijo-a sbita 
formalidade me fez doer. 

"Recebi seu bilhete," ela disse. 

"Fico feliz que tenha vindo." 

"Tive que sair de fininho para ningum saber que voc estava aqui," ela disse. "Escutei algumas 
pessoas falando sobre o que elas fariam se voc aparecesse novamente." 

"Desculpe," comecei subitamente. "Sei que voc s estava tentando ajudar e eu interpretei de 
maneira errada." 

"E?" 

"E desculpe pelo que eu fiz com Tim. Ele  um cara timo e eu deveria ter sido mais cuidadoso." 

Ela no piscava. "E?" 

Arrastei meus ps, sabendo que no era realmente sincero no que estava prestes a dizer, mas 
sabendo que ela queria ouvir de qualquer forma. Suspirei. "E Randy e o outro cara tambm." 

Ainda assim, ela continuou a me encarar. "E?" 

#
Fiquei sem resposta. Vasculhei na minha mente antes de encontrar seus olhos. "E..." parei aos 
poucos. 

"E o qu?" 
"E..." eu tentei mas no consegui pensar em nada. "No sei," confessei. "Mas seja o que for, me 
desculpe por isso tambm." 


Ela estava com uma expresso curiosa no rosto. " isso?" 
Eu pensei. "No sei mais o que dizer," admiti. 
Meio segundo depois eu notei o mnimo trao de um sorriso. Ela se moveu em minha direo. " 


isso?" ela repetiu, sua voz mais suave. Eu no disse nada. Ela chegou mais perto, me 


surpreendendo, escorregando seus braos em volta do meu pescoo. 
"Voc no precisa se desculpar," ela murmurou. "No h razo para estar arrependido. Eu 
provavelmente teria reagido da mesma forma." 


"Ento por que o interrogatrio?" 


"Porque," ela disse, "me mostra que eu estava certa a seu respeito em primeiro lugar. Eu sabia que 
voc tinha um bom corao." 
"Do que voc est falando?" 
"S o que eu disse," ela respondeu. "Mais tarde-depois daquela noite, quer dizer-Tim me convenceu 


que eu no tinha o direito de dizer o que eu disse. Voc estava certo. Eu no tenho a capacidade de 
fazer nenhum tipo de avaliao profissional, mas eu fui arrogante o suficiente para pensar que eu 
tinha. Em realao ao que aconteceu na praia, eu vi tudo. No foi sua culpa. At mesmo o que 
aconteceu com Tim no foi sua culpa, mas foi bom ouvir suas desculpas de qualquer forma. Mesmo 
que s pra saber que voc pode fazer isso no futuro." 

"Ela se inclinou em minha direo e quando eu fechei os olhos, eu sabia que no queria nada mais a 

no ser segur-la assim para sempre. 
Mais tarde, depois de passarmos uma grande parte da noite conversando e nos beijando na praia, 
corri meu dedo sobre sua mandbula e murmurei, "Obrigado." 


"Pelo que?" 
"Pelo livro. Acho que entendo meu pai um pouco melhor agora. Ns nos divertimos noite passada." 
"Fico feliz." 
"E obrigado por ser quem voc ." 
Quando ela franziu o cenho, eu beijei sua testa. "Se no fosse voc," eu acrescentei, "eu no seria 


capaz de dizer isso ao meu pai. Voc no sabe o quanto isso significa pra mim." 
*** 


#
Embora ela devesse trabalhar na construo no dia seguinte, Tim tinha sido compreensivo quando 
ela explicou que seria a ltima chance de nos vermos antes de eu voltar para a Alemanha. Quando 
eu peguei ela, ele desceu os degraus da casa e se abaixou ao lado do carro, seus olhos ficando no 
nvel da janela. Os machucados tinham ficado pretos. Ele prendeu a mo na janela. 

"Foi um prazer conhecer voc, John." 

"Voc tambm," eu disse, sendo sincero. 

"Tome cuidado, certo?" 

"Vou tentar," respondi enquanto apertvamos as mos, atingido pela sensao de que havia uma 
ligao entre ns. 

Savannah e eu passamos a manh no Fort Fisher Aquarium, enfeitiados pelas estranhas criaturas 
expostas l. Vimos peixes-agulha com seus longos narizes e cavalos marinhos em miniatura; no 
tanque maior estavam tubares e dourados. Rimos enquanto segurvamos os carangueijos eremitas 
e Savannah me comprou um chaveiro como souvenir da loja de presentes. Por alguma estranha 
razo havia um penguim nele, o que a divertiu sem fim. 

Mais tarde, eu a levei para um restaurante ensolarado perto da gua e ns seguramos as mos por 
cima da mesa enquanto observvamos os barcos  vela se balanando gentilmente nas ondas. 
Perdidos um no outro, mal reparamos no garom, que teve que vir  mesa trs vezes antes de ns 
termos aberto nossos cardpios. 

Me maravilhei com a forma fcil com que Savannah mostrava suas emoes e a ternura de suas 
expresses enquanto eu contava a ela sobre meu pai. Quando ela me beijou depois, eu provei da 
doura do seu hlito. Peguei a sua mo. 

"Eu vou casar com voc, voc sabe." 

" uma promessa?" 

"Se voc quiser que seja." 

"Bem, ento voc tem que prometer que voltar pra mim quando sair do exrcito. No posso casar 
com voc se voc no estiver por perto." 

" um acordo." 

Mais tarde, passeamos pelos terrenos da Oswald Plantation, uma lindamente restaurada casa 
anterior a Guerra Civil que ostentava alguns dos mais belos jardins do estado. Conversamos pelos 
caminhos de cascalho, contornando grupos de flores silvestres que floresciam milhares de cores 
diferentes no calor preguioso do sul. 

"Que horas seu vo sai amanh?" ela perguntou. O sol comeava sua desceida gradual no cu sem 
nuvens. 

"Cedo," eu disse. "Provavelmente estarei no aeroporto antes de voc acordar." 

Ela assentiu. "E voc vai passar a noite de hoje com seu pai, n?" 

#
"Foi o que eu estava planejando. Eu provavelmente no tenho passado tanto tempo com ele como 


eu deveria, mas tenho certeza que ele entenderia-" 
Ela balanou a cabea para me parar. "No, no mude seus planos. Eu quero que voc passe um
tempo com o seu pai. Esperava que voc passasse.  por isso que estou com voc hoje." 


Caminhamos pela extenso de um elaborado caminho alinhado por sebes. "Ento o que voc quer 
fazer?" perguntei. "Sobre ns, eu quero dizer." 

"No vai ser fcil," ela disse. 
"Eu sei que no," eu disse. "Mas no quero que tudo isso acabe." Parei, sabendo que palavras no 
seriam suficientes. Em vez disso, por trs, escorreguei meus braos em volta dela e apertei seu 
corpo contra o meu. Beijei sei pescoo e sua orelha, saboreando sua pele aveludada. "Eu vou ligar 
pra voc o mximo que puder, escreverei quando no puder ligar e vou pedir outra licena no 
prximo ano. Onde quer que voc esteja,  pra l que eu vou." 

Ela se inclinou pra trs, tentando pegar um vislumbre do meu rosto. "Voc vai?" 
Apertei ela. " claro. Quer dizer, no estou feliz em te deixar e queria mais que tudo que minha 


base fosse perto daqui, mas isso  tudo o que eu posso prometer nesse momento. Posso pedir uma 
transferncia assim que voltar, e eu irei, mas voc nunca sabe como essas coisas so." 
"Eu sei," ela murmurou. Por alguma razo, sua expresso sria me fez ficar nervoso. 
"Voc vai me escrever?" perguntei. 
"Doh," ela brincou, e meu nervosismo desapareceu. " claro que sim," ela disse sorrindo. "Como 


voc pode ao menos se importa em perguntar? Eu vou escrever o tempo todo. E s pra voc saber, 
eu escrevo as melhores cartas." 


"Eu no duvido." 
"T falando srio," ela disse. "Na minha famlia,  isso que ns fazemos todas as frias. Escrevemos 
cartas para as pessoas que gostamos muito. Contamos a eles o que significam pra ns e o quanto 
estamos ansiosos para v-los novamente." 


Beijei seu pescoo novamente. "Ento, o que eu significo pra voc? E quanto voc est ansiosa pra 
me ver novamente?" 
Ela se inclinou pra trs. "Voc vai ter que ler minhas cartas." 
Eu ri, mas senti meu corao se partir. "Vou sentir sua falta," eu disse. 
"Eu tambm." 


"Voc no parece to triste em relao  isso." 
" por que eu j chorei, lembra? Alm do mais, no  como se ns nunca fssemos nos ver
novamente. Foi isso que eu finalmente me dei conta. , vai ser difcil, mas a vida passa rpido-nos 
veremos de novo. Eu sei disso. Posso sentir. Do mesmo modo que posso sentir o quanto voc se 


#
importa comigo e o quanto eu amo voc. Meu corao sabe que isto no acabou e que ns vamos 
superar isso. Muitos casais superam. Tambm, muitos casais no superam, mas eles no tm o que 
ns temos." 

Eu queria acreditar nela. Queria mais que tudo, mas me perguntei se era assim to simples. 

Quando o sol desapareceu abaixo do horizonte, caminhamos de volta ao carro e eu a levei  casa da 
praia. Parei um pouco abaixo na rua para que ningum na casa pudesse nos ver e quando samos do 
carro, pus meus abraos em volta dela. Nos beijamos e eu a segurei perto de mim, sabendo de 
certeza que o prximo ano seria o mais longo da minha vida. Desejei fervorosamente que nunca 
tivesse me alistado, que eu fosse um homem livre. Mas eu no era. 

"Eu provavelmente devo ir agora." 

Ela assentiu, comeando a chorar. Senti um n se formar em meu peito. "Vou escrever," prometi. 

"Certo," ela disse. Limpou suas lgrimas e pegou sua bolsa. Tirou de l uma caneta e um pequeno 
pedao de papel. Comeou a rabiscar. "Esse  meu telefone e meu endereo de casa, certo? E meu 
e-mail tambm." 

Eu assenti. 

"Lembre-se que eu vou mudar de dormitrio no prximo ano, mas eu lhe digo o endereo assim que 
souber. Mas voc sempre pode me alcanar pelos meus pais. Eles vo passar adiante qualquer coisa 
que voc mandar." 

"Eu sei," eu disse. "Voc ainda tem minhas informaes, certo? Mesmo que eu v pra um misso 
em algum lugar, as cartas chegam at mim. E-mail tambm. O exrcito  muito bom em arrumar 
computadores, mesmo que seja no meio do nada." 

Ela abraou os braos como uma criana triste. "Me assusta," ela disse. "Voc ser um soldado, quer 
dizer." 

"Eu vou ficar bem," assegurei. 

Abri a porta do carro, ento peguei minha carteira. Coloquei o bilhete que ela rabiscou dentro, ento 
abri meus braos novamente. Ela veio at mim e eu a segurei por um longo tempo, marcando a 
sensao do corpo dela contra o meu. 

Dessa vez foi ela que se afastou. Eenfiou a mo na bolsa novamente e puxou um envelope. 

"Escrevi isso pra voc ontem  noite. Pra voc ter algo para ler no avio. No leia at l, certo?" 

Assenti e a beijei mais uma vez, ento escorreguei para atrs do volante do carro. Liguei o carro e 
enquanto eu comeava a andar ela gritou, "Mande um ol ao seu pai por mim. Diga a ele que eu 
posso aparecer algum dia nas prximas semanas, est bem?" 

Ela deu um passo para trs quando o carro comeou a balanar. Eu ainda podia v-la pelo espelho 
retrovisor. Pensei em parar. Meu pai entenderia. Ele sabia o quanto Savannah significava pra mim e 
ele iria querer que ns tivssemos uma ltima noite juntos. Mas continuei, vendo sua imagem no 
espelho ficar mais e mais pequena, sentindo meu sonho ir embora. 

#
O jantar com meu pai foi mais quieto do que o normal. No tive energia para tentar uma conversa e 
at meu pai se deu conta disso. Sentei na mesa enquanto ele cozinhava, mas ao invs de se focar na 
preparao, ele olhava em minha direo aqui e ali com uma preocupao muda em seus olhos. Me 
sobressaltei quando ele desligou o fogo e se aproximou de mim. 

QUando estava perto, ele colocou uma mo na minhas costas. No disse nada, mas no precisava. 
Eu sabia que ele entendia que eu estava sofrendo e ficou l em p sem se mexer, como se tentasse 
absorver minha dor na esperana de tir-la de mim e faz-la dele prprio. 

De manh, meu pai me levou at o aeroporto e ficou ao meu lado no porto enquanto eu eperacva 
meu vo ser chamado. Quando cheou a hora eu levantei. Meu pai estendeu a mo; o abracei ao 
invs disso. Seu corpo estava rgido, mas no me importei. "Te amo, pai." 

"Tambm te amo, John." 

"Encontre algumas moedas boas, certo?" acrescentei, me separando dele. "Quero ouvir tudo sobre 
elas." 

Ele olhou para o cho. "Eu gosto de Savannah," ele disse. "Ela  uma boa garota." 

Veio do nada, mas era exatamente o que eu queria ouvir. 

No avio, eu sentei com a carta que Savannah tinha escrito para mim, segurando ela no meu colo. 
Embora eu quisesse abrir imediatamente, esperei at que tivssemos decolado. Da janela eu podia 
ver a linha da costa e procurei primeiro pelo per, depois pela casa. Me perguntei se ela ainda estaria 
dormindo, mas eu queria pensar que ela estava na praia esperando o avio passar. Quando estava 
pronto, abri o envelope. Nele ela tinha colocado uma fotografia dela mesma, e eu subitamente 
desejei que eu tivesse deixado uma de mim com ela tambm. Encarei seu rosto por um longo 
tempo, depois a coloquei de lado. Dei um longo suspiro e comecei a ler. 

Querido John, 
H tanto que eu quero dizer a voc, mas eu no tenho certeza por onde devo comear. Eu deveria 
comear lhe dizendo que te amo? Ou que os dias que passei com voc foram os melhores da minha 
vida? Ou que no pequeno tempo que eu conheo voc, comecei a acreditar que ns fomos feitos 
para ficar juntos? Eu poderia dizer todas essas coisas, e seriam todas verdade, mas enquanto eu as 
releio, tudo o que eu posso pensar  que eu queria estar com voc, segurando sua mo e 
observando seu sorriso indescritvel. 
No futuro, eu sei que vou reviver nosso tempo juntos mil vezes. Ouvirei sua risada e verei seu rosto 
e sentirei seus braos ao meu redor. Vou sentir falta de tudo isso, mais do que voc possa imaginar. 
Voc  um raro cavalheiro, John, e eu dou grande valor a isso em voc. Em todo o tempo que 
ficamos juntos, voc nunca me pressionou para dormir com voc e eu no posso lhe falar o quanto 
isso significou para mim. Fez o que ns tivemos parecer ainda mais especial e  assim que eu 
sempre quero me lembrar de meu tempo com voc. Como uma pura luz branca, um suspiro em que 
eu possa me segurar. 

Pensarei em voc todos os dias. Parte de mim est com medo de que chegue um tempo em que voc 
no se sinta da mesma forma em relao a mim, que voc de alguma forma esquea o que vivemos, 
ento  isso que eu quero fazer. Onde quer que voc esteja, no importa o que esteja acontecendo 
na sua vida, quando for a primeira noite de lua cheia-como era na primeira vez que nos 
encontramos-quero que voc a encontre no cu noturno. Quero que voc pense em mim e na 
semana que compartilhamos, porque onde quer que eu esteja, no importa o que esteja 
acontecendo na minha vida,  exatamente isso o que eu farei. Se no podemos ficar juntos, pelo 

#
menos podemos compartilhar isso e, talvez entre ns dois, podemos fazer isso durar pra sempre. 
Eu te amo, John Tyree e irei me segurar  promessa que voc um dia me fez. Se voc voltar, eu caso 
com voc. Se voc quebrar sua promessa, quebrar meu corao. 
Com amor, Savannah. 


Alm da janela e atravs das lgrimas nos meus olhos, eu podia ver uma camada de nuvens se 
espalhar abaixo de mim. No tinha idia de onde estvamos. Tudo o que eu sabia era que queria 
fazer a volta e voltar pra casa, estar no lugar onde eu deveria estar. 

#
Doze 

Horas depois, naquela primeira noite sozinho de volta na Alemanha, li a carta novamente, revivendo 

o nosso tempo juntos. Foi fcil; aquelas memrias j tinham comeado a me assombrar e algumas 
vezes pareciam mais reais do que a minha vida como soldado. Eu podia sentir a mo de Savannah 
na minha e a via sacudir a gua do mar do seu cabelo. Ri alto ao relembrar minha surpresa quando 
ela pegou a primeira onda at a praia. Meu tempo com Savannah me mudou e os homens no meu 
esquadro observaram a diferena. Durante as prximas semanas, meu amigo Tony me atormentou 
infinitamente, convencido de que ele finalmente tinha se provado certo sobre a importncia da 
companhia feminina. Foi minha culpa por ter contado  ele sobre Savannah. Tony, no entanto, 
queria saber mais do que eu queria dizer. Enquanto eu lia, ele sentou na cadeira  minha frente, 
sorrindo como um idiota. 
"Me conte de novo sobre o seu romance selvagem das frias," ele disse. 

Me forcei a manter os olhos na pgina, fazendo o meu melhor para ignor-lo. 

"Savannah, certo? Sa-Va-nnah. Droga, eu amo esse nome. Parece to... delicado, mas eu aposto que 
ela era uma tigresa na cama, certo?" 

"Cala a boca, Tony." 

"No me venha com essa. No fui eu que ficou cuidando de voc todo esse tempo? Lhe dizendo que 
voc tinha que sair? Voc finalmente escutou e agora  a hora do pagamento. Quero os detalhes." 

"No  da sua conta." 

"Mas voc bebeu tequila, certo? Eu te disse que funciona toda vez." 

Eu no disse nada. Tony jogou suas mos para o alto. "Ah, vai-isso voc pode me falar, no pode?" 

"Eu no quero falar sobre isso." 

"Porque voc est apaixonado? , foi isso que voc disse, mas eu estou comeanco a pensar que 
voc est inventando tudo isso." 

" isso mesmo. Eu inventei. Acabamos com isso?" 

Ele balanou a cabea e se levantou da cadeira. "Voc  um cachorrinho doente de amor." 

Eu no disse nada, mas enquanto ele ia embora, eu sabia que ele estava certo. Eu estava louco por 
Savannah. Teria feito qualquer coisa pra estar com ela e pedi transferncia para os Estados Unidos. 

Meu oficial comandante linha dura apareceu para dar srias consideraes. Quando ele perguntou o 
porqu, eu lhe falei sobre meu pai ao invs de Savannah. Ele ouviu por um tempo, depois se 
encostou na cadeira e disse, "As probabilidades no so boas ao menos que a sade do seu pai seja 
um problema." Saindo do seu escritrio, eu sabia que no iria a nenhum lugar pelo menos pelos 
prximos seis meses. No me importei em esconder minha decepo e na prxima vez que a lua 
estava cheia, deixei o quartel e caminhei at um dos gramados que ns usvamos para jogos de 
futebol. Me deitei de costas e encarei a lua, lembrando de tudo e odiando o fato de que eu estava to 
distante. 

#
Desde o comeo, as ligaes e cartas entre ns eram regulares. Ns tambm envivamos e-mails, 
mas eu logo descobri que Savannah preferia escrever e ela queria que eu fizesse o mesmo. "Eu sei 
que no  to rpido quanto e-mail, mas  disso que eu gosto," ela me escreveu. "Eu gosto da 
surpresa de achar uma carta na caixa do correio e da antecipao ansiosa que eu sinto quanto me 
preparo para abri-la. Gosto do fato de que eu posso lev-la comigo para ler no meu tempo livre e 
que eu posso me encostar numa rvore e sentir a briza em meu rosto quando vejo suas palavras no 
papel. Gosto de imaginar como voc estava enquanto escrevia: o que voc estava usando, as coisas 
ao seu redor, o modo como voc segurava a caneta. Eu sei que  clich e est provavelmente errado, 
mas eu continuo pensando em voc sentado em uma tenda numa mesa improvisada, com umalmpada  leo queimando ao seu lado enquanto o vento sopra do lado de fora. 
 muito mais 
romntico do que ler algo na mesma mquina que voc usa para baixar msicas ou fazer uma 
pesquisa." 

Eu sorri com isso. Ela estava, afinal, errada sobre a tenda e a mesa improvisada ou a lmpada  
leo, mas eu tinha que admitir que era uma viso mais interessante do que a realidade da lmpada 
fluorescente e a mesa feita pelo governo dentro do meu quartel de madeira. 

Enquanto os dias e semanas passavam, o meu amor por Savannah parecia crescer mais e mais. 
Algumas vezes eu escapava dos caras para ficar sozinho. Levava a foto de Savannah e a segurava 
perto, estudando cada caracterstica. Era estranho, mas tanto quanto eu a amava e lembrava do 
nosso tempo juntos, descobri que enquanto o vero se tornava outono e depois mudava para o 
inverno, eu estava mais e mais agradecido pela fotografia. Sim, me convenci de que podia lembrar 
dela exatamente, mas quando era honesto comigo mesmo, sabia que estava perdendo os detalhes. 
Ou talvez, me dei conta, eu nunca os tivesse notado. Na foto, por exemplo, descobri que Savannah 
tinha uma pequena pinta abaixo de seu olho esquerdo, algo que eu, de alguma forma, no tinha 
notado. Ou que, de perto, seu sorriso era ligeiramente torto. Essas eram imperfeies que de alguma 
forma a faziam perfeita aos meus olhos, mas odiei o fato de que eu tinha que usar a foto para os 
descobrir. 

De algum modo, segui com a minha vida. Tanto quanto eu pensava em Savannah, tanto quanto eu 
sentia falta dela, tinha um trabalho a fazer. Comeando em setembro-devido a uma srie de 
circunstncias que at o exrcito tinha problemas em explicar-meu batalho e eu fomos enviados a 
Kosovo pela segunda vez para nos juntarmos  Primeira Diviso Blindada em outra misso de paz 
enquanto todos os outros da infantaria estavam sendo mandados de volta pra Alemanha. Estava 
relativamente calmo e eu no disparei minha arma, mas isso no significa que eu passei meus dias 
colhendo flores e sentindo falta de Savannah. Limpei minha arma, fiquei de guarda procurando por 
algum louco e quando voc  forado a ficar alerta por horas, fica cansado quando a notie cai. Eu 
posso dizer honestamente que poderia passar dois ou trs dias sem me perguntar o que Savannah 
estava fazendo ou at mesmo pensar nela. Isso fazia do meu amor menos real? Me fiz essa pergunta 
dzias de vezes durante a viagem, mas sempre decidia que no, pela simples razo de que sua 
imagem me emboscava quando eu menos esperava, me derrotava com a mesma dor que eu tinha 
sentido no dia em que parti. Qualquer coisa podia despert-la: uma conversa com um amigo, a viso 
de duas mos se segurando, ou at mesmo o modo que alguns moradores da aldeia sorriam quando 
passavam. 

As cartas de Savannah chegavam a cada dez dias mais ou menos e formavam uma pilha quando eu 
voltei pra Alemanha. Nenhuma era como a que eu li no avio; a maioria era casual e informal e ela 
guardou a verdade sobre seus sentimentos at o final. Nesse meio tempo, eu conheci os detalhes de 
sua vida diria: que eles tinham acabado a casa um pouco depois do previsto, o que tinha feito as 
coisas mais difceis na construo da segunda casa. Pra essa, eles tiveram que trabalhar durante 
longas horas, mesmo que todos envolvidos tivessem se aperfeioado mais em suas tarefas. Soube 

#
que depois de completar a primeira casa, tinham dado uma grande festa pra toda a vizinhana e que 
tinham brindado e brindado noite  dentro. Soube que os trabalhadores tinham celebrado indo ao 
Shrimp Shack e que Tim tinha dito que tinha uma atmosfera melhor do que qualquer restaurante 
que ele j tivesse ido. Soube que ela tinha pegado a maioria das aulas de outono com os professores 
que tinha requerido e que estava animada para ter aulas de psicologia adolescente com um Dr. 
Barnes, que tinha um grande artigo publicado em algum extico jornal psicolgico. Eu no 
precisava acreditar que Savannah pensava em mim toda vez que ela martelava um dedo ou ajudava 
a colocar uma janela no lugar, ou que no meio de uma conversa com Tim, ela iria sempre desejar 
que fosse comigo que estivesse conversando. Eu gostava de pensar que o que tnhamos era mais 
fundo do que isso, e com o tempo, essa crena fez meu amor por ela ficar ainda mais forte. 

Claro, eu queria saber que ela ainda se importava comigo, e nisso, Savannah nunca me 
deceocionou. Acho que foi essa a razo pela qual guardei cada carta que ela mandou. No fim de 
cada carta sempre havia algumas frases, talvez at um pargrafo, que ela escrevia algo que me fazia 
parar, palavras que me faziam lembrar e eu me pegava relendo passagens e tentando imaginar sua 
voz enquanto as lia. Como isso, da segunda carta que recebi: 

Quando penso em voc e eu e no que ns compartilhamos, sei que seria fcil para outros 
desconsiderar nosso tempo juntos como um simples produto dos dias e noites passados  beira mar,
uma "aventura amorosa" que, a longo prazo, no iria significar absolutamente nada.  por isso 
que eu no conto s pessoas sobre ns. Elas no entenderiam e eu no sinto necessidade de 
explicar, simplesmente porque meu corao sabe o quanto foi real. Quando penso em voc, no 
posso evitar um sorriso, sabendo que voc me completou de alguma forma. Eu te amo, no s por 
agora, e eu sonho com o dia em que voc me pegar nos braos novamente. 

Ou isso, da carta que ela enviou depois de eu ter mandado uma foto minha: 

E finalmente, quero te agradecer pela foto. J coloquei na minha carteira. Voc parece saudvel e 
feliz, mas eu tenho que lhe dizer que chorei quando a vi. No porque eu fiquei triste, embora tenha 
ficado, sabendo que no o verei-mas porque me fez feliz. Me lembrou de que voc  a melhor coisa 
que j aconteceu comigo. 

E isso, de uma carta que ela tinha escrito enquanto eu estava em Kosovo: 

Tenho que dizer que a sua ltima carta me preocupou. Quero saber, eu preciso saber, mas prendo a 
respirao e fico assustada por voc quando voc me conta como  realmente a sua vida. Aqui 
estou, me preparando para ir pra casa pra Ao de Graas e me preocupando com provas, e voc 
est em algum lugar perigoso, rodeado de pessoas que querem te machucar. Eu s queria que essas 
pessoas pudessem te conhecer como eu te conheo, porque a voc estaria seguro. Exatamente 
como eu me sinto segura quando estou em seus braos. 

O Natal naquele ano foi um assunto triste, mas  sempre triste quando se est longe de casa. No foi 

o meu primeiro Natal sozinho durante meus anos em servio. Todo feriado era passado na 
Alemanha e alguns rapazes no nosso quartel tinham armado uma rvore improvisada-uma lona 
verde enrolada em uma vara e decorada com pisca-piscas. Mais da metade dos meus colegas tinham 
ido pra casa-eu era um dos desafortunados que tinham que ficar para o caso dos nossos amigos, os 
russos, colocassem na cabea que ns ainda ramos inimigos e a maioria dos outros foram at a 
cidade celebrar a vspera de natal ficando bbados com cerveja alem de qualidade. Eu j tinha 
aberto o pacote que Savannah me mandou-um suter que me lembrava alguma coisa que Tim 
vestiria e um punhado de cookies feitos em casa-e sabia que ela j tinha recebido o perfume que eu 
a enviara. Mas eu estava sozinho e como um presente a mim mesmo, embarquei em uma cara 
ligao com Savannah. Ela no esperava a ligao e eu relembrei a excitao em sua voz por 
#
semanas depois disso. Acabamos falando por mais de uma hora. Tinha sentido falta do som da voz 
dela. Tinha esquecido seu sotaque instvel e a nasalizao que se tornava mais pronunciada quando 
ela comeava a falar rpido. Me encostei em minha cadeira, imaginando que ela estava comigo e 
ouvindo enquanto ela descrevia a neve que caa. Ao mesmo tempo, me dei conta de que tambm 
nevava do lado de fora da minha janela, o que, mesmo que s por um instante, fez sentir como se 
estivssemos juntos. 

Em janeiro de 2001, eu j tinha comelado a contar os dias pra quando eu a veria novamente. Minha 
licena de vero seria em junho, e eu estaria fora do exrcito em menos de um ano. Tinha acordado 
de manh e literalmente dito a mim mesmo que faltavam 360 dias, depois 359 e 358 at eu sair fora, 
mas eu veria Savannah em 178, depois 177, 176 e assim por diante. Era tangvel e real, perto o 
bastante para me permitir sonhar em me mudar para a Carolinda do Norte; por outro lado, 
infelizmente fez o tempo ir mais devagar. No  sempre assim quando voc realmente quer alguma 
coisa? Me lembrou de quando eu era garoto e os longos dias enquanto eu esperava que chegassem 
as frias de vero. Se no fossem as cartas de Savannah, eu no tenho dvida de que a espera teria 
sido muito maior. 

Meu pai tambm escreveu. No com a frequncia de Savannah, mas na sua prpria agenda mensal. 
Para minha surpresa, suas cartas eram duas ou trs vezes mais longas do que a nica pgina a que 
eu estava acostumado. As pginas adicionais eram eclusivamente sobre moedas. No meu tempo 
livre, eu visitava o centro de informtica e fazia uma pequena pesquisa por conta prpria. Procurava 
por certas moedas, coletava a histria e mandava a informao de volta em uma carta minha. Juro, 
da primeira vez que fiz isso, acho que vi lgrimas na prxima carta que ele me mandou. No, no 
realmente-sei que era s minha imaginao porque ele nunca nem mencionou o que eu tinha feito-
mas eu queria acreditar que ele tinha estudado as informaes com a mesma intensidade que 
costumava estudar o Greysheet. 

Em fevereiro, fui mandado em manobras com outras tropas da NATO*: um daqueles "exerccios de 
finja que ns estamos em uma batalha em 1944," onde ns estvamos supostamente enfrentando 
uma investida violenta de tanques pelo interior da Alemanha. Meio intil, se voc me perguntar. 
Esses tipos de guerra acabaram h muito tempo, acabaram o modo como os gales espahis 
explodiam seus canhes de curto alcance e a cavalaria dos E.U.A. voltando pra o resgate. Nos dias 
de hoje, eles nunca dizem quem so os inimigos, mas todos sabem que so os russos, o que faz 
ainda menos sentido, visto que eles devem ser os aliados agora. Mas mesmo que eles no fossem, o 
simples fato  que eles no tm mais todos aqueles tanques funcionando e mesmo se eles estivessem 
secretamente construindo milhares em alguma fbrica na Sibria com a inteno de dominar a 
Europa, qualquer onda antecipada de tanques seria mais provavelmente confrontada com ataques 
areos e nossas prprias divises mecanizadas ao invs de com a infantaria. Mas o que eu sei, 
certo? 

*Sigla para Organizao do Tratado do Atlntico Norte. 

O tempo estava muito ruim tambm, com um frio estranhamente raivoso vindo do rtico assim que 
as manobras comearam. Foi pico, com a neve, chuva com neve, granizo e ventos atingindo 80km/ 
h, me fazendo pensar nas tropas de Napoleo na retirada de Moscou. Estava to frio que formou 
gelo nas minhas sombrancelhas, doa respirar e meus dedos se grudariam ao cano da arma se eu a 
tocasse acidentalmente. Deu muito trabalho descol-las e eu perdi um pedao de pele na ponta dos 
dedos no preocesso. Mas eu mantive meu rosto coberto e minha mo de reserva depois disso e 
marchei pela lama congelada trazida pela chuva de neve sem fim, dando o meu melhor pra no me 
tornar uma esttua de gelo enquanto fingia lutar com o inimigo. 

Passamos dez dias fazendo isso. Metade dos meus homens se machucaram por causa do frio, a outra 

#
metade sofreu de hiportemia e quando ns terminamos, meu batalho estava reduzido a apenas trs 
ou quatro homens, os quais acabaram na enfermaria quando voltamos  base. Inclusive eu. Toda a 
experincia foi a coisa mais ridcula e idiota que o exrcito j me fez fazer. E isso  alguma coisa, 
porque eu j tinha feito muita coisa idiota pelo bom e velho Tio Sam e pelo Grande Vermelho. No 
fim, nosso comandante caminhou pelas alas da enfermaria, parabenizando meu batalho por um 
trabalho bem feito. Eu queria dizer a ele que talvez nosso tempo fosse melhor gasto aprendendo 
tticas de guerra modernas ou, pelo menos, dando uma olhada no canal do tempo. Mas em vez disso 
ofereci uma saudao e um reconhecimento, sendo o bom cara do exrcito que eu era. 

Depois disso, passei os prximos meses montonos na base. 

Claro, fizemos as aulas ocasionais de armas e navegao e de vez em quando eu ia at a cidade 
beber uma cerveja com os caras, mas pela maior parte do tempo eu levantei toneladas de peso, corri 
centenas de quilmetros e acabei com Tony todas as vezes que ns estrvamos no ringue de boxe. A 
primavera na Alemanha no foi to ruim quanto eu pensei que seria depois do desastre que ns 
passamos nas manobras. A neve derreteu, as flores saram e o ar comeou a esquentar. Bem, no 
muito esquentar, mas subiu acima de congelante e isso era o bastante para a maioria dos meus 
colegas e eu vestirmos shorts e jogar Frisbee ou softball do lado de fora. Quando junho finalmente 
chegou, me peguei ficando nervoso pra voltar pra Carolina do Norte. Savannah j tinha se formado 
e j estava na escola de vero tendo aulas pra sua especializao, ento eu planejei viajar at Chapel 
Hill. Teramos duas semanas gloriosas juntos, at mesmo quando eu fosse ver meu pai em 
Wilmington, ela planejava vir comigo-e eu me peguei me sentindo alternadamente nervoso, 
animado e assustado com esse pensamento. 

Sim, tinhamos nos correspondido pelo correio e conversado pelo telefone. Sim, eu tinha sado pra 
olhar a lua na primeira noite da lua cheia e em suas cartas ela me disse que tambm tinha olhado. 
Mas eu no a tinha visto durante quase um ano e no tinha idia de como ela reagiria quando 
estivssemos cara-a-cara novamente. Ela correria para os meus braos quando eu sasse do avio, 
ou sua reao seria mais contida, talvez um beijo gentil na bochecha? Cairamos em uma conversa 
fcil imediatamente ou ficaramos conversando sobre o tempo e nos sentindo estranhos perto um do 
outro? Eu no sabia e ficava deitado acordado  noite imaginando milhares de cenrios diferentes. 
Tony sabia pelo que eu estava passando, embora fosse esperto o bastante para no chamar muita 
ateno para isso. Ao invs disso, enquanto a data se aproximava, ele dava palmadinhas nas minhas 
costas. 

"Voc vai v-la logo," ele disse. "Est pronto pra isso?" 

"Sim." 

Ele sorriu com afetao. "No se esquea de comprar tequila no caminho pra casa." 

Fiz uma careta e Tony riu. 

"Vai ficar tudo bem," ele disse. "Ela te ama, cara. Ela tem que amar, considerando o quanto voc a 
ama." 

#
Treze 

Em junho de 2001, me deram licena e eu fui para casa imediatamente, voando de Frankfurt  Nova 
York, e depois para Raleigh. Era uma noite de sexta e Savannah havia prometido que me pegaria no 
aeroporto antes de me levar para Lenoir para conhecer seus pais. Ela me lanou essa surpresinha um 
dia antes do meu vo. Veja, eu no tinha nada contra cochecer seus pais. Tinha certeza que eles 
eram pessoas maravilhosas e tudo, mas se fosse por mim, preferiria ter Savannah toda para mimpelo menos pelos primeiros dias.  meio que difcil compensar o tempo 
perdido com pais por perto. 
Mesmo que ns no fssemos alm-e conhecendo Savannah, eu tinha certeza que ns no iramos, 
embora eu mantesse meus dedos cruzados-como os pais dela me tratariam se eu ficasse com a filha 
deles at altas horas, mesmo que tudo o que fizssemos fosse nos deitar embaixo das estrelas? 
Certamente ela era um adulta, mas pais eram engraados quando se tratava de seus prprios filhos, e 
eu no tinha iluses de que eles seriam compreensivos sobre a coisa toda. Ela sempre seria a 
garotinha deles, se voc entende o que quero dizer. 

Mas Savannah tinha uma razo quando me explicou. Eu tinha dois finais de semana livres e se eu 
planejava ver meu pai no segundo fim de semana, eu tinha que ver os dela no primeiro fim de 
semana. Alm disso, ela estava to animada com isso que tudo o que eu pude dizer foi que estava 
ansioso para conhec-los. Ainda assim, me perguntei se eu seria capaz de at mesmo segurar sua 
mo, e especulei se poderia convenc-la a fazer um pequeno desvio no caminho at Lenoir. 

Assim que o avio pousou, minha expectativa cresceu e pude sentir meu corao estrondando. Mas 
eu no sabia como agir. Eu deveria correr para ela assim que a visse ou andar casualmente, calmo e 
sob controle? Eu ainda no tinha certeza, mas antes que eu pudesse insistir nisso, estava na esteira, 
subindo o corredor. Lancei minha bolsa-sacola sobre os ombros enquanto saa na rampa que dava 
acesso ao terminal. Eu no a vi a princpio-muitas pessoas circulando. Quando escaneei a rea uma 
segunda vez, a vi  esquerda e me dei conta instantaneamente que todas as minhas preocupaes 
eram sem sentido, ela me viu e veio correndo a toda. Mal tive tempo de soltar minha bolsa sacola 
antes que ela pulasse nos meus braos, e o beijo que se seguiu foi como nosso prprio reino mgico, 
completo com sua lngua e geografia especiais, mitos fabulosos e maravilhas pelos tempos. E 
quando ela se afastou e murmurou, "Senti tanto a sua falta," eu senti como se tivesse sido colado 
novamente depois de passar um ano cortado em dois. 

No sei quanto tempo ficamos em p abraados, mas quando finalmente comeamos a nos mover 
em direo a esteira de bagagens, deslizei minha mo dentro da dela sabendo que a amava no 
apenas mais do que a ltima vez que a tinha visto, mas mais do que eu algum dia poderia amar 
algum. 

No caminho falamos facilmente, mas fizemos um pequeno desvio. Depois de parar no acostamento, 
nos agarramos como adolescentes. Foi timo-vamos deixar assim-e algumas horas depois, 
chegamos  casa dela. Seus pais estavam esperando na varanda de uma elegante casa Vitoriana. Me 
surpreendendo, a me dela me abraou assim que eu cheguei perto, depois me ofereceu uma 
cerveja. Recusei, principalmente porqu sabia que seria o nico bebendo, mas gostei do esforo. A 
me de Savannah, Jill, era muito parecida com Savannah: amigvel, aberta e muito mais esperta do 
que parecia. O pai dela era exatamente o mesmo e me diverti os visitando. No doeu que Savannah 
tenha segurado minha mo todo o tempo e parecia completamente  vontade. No fim da noite, 
fomos caminhar  luz da lua. Quando voltamos  casa, parecia quase como se nunca tivssemos nos 
separado. 

No preciso nem dizer que dormi no quarto de hspedes. No esperava que fosse de outra forma, e 

o quarto era muito melhor que a maioria dos lugares que eu havia ficado, com moblia clssica e um 
colcho confortvel. O ar estava abafado porm, e eu abri a janela, esperando que o ar da montanha 
#
trouxesse um frescor. Tinha sido um longo dia-eu ainda estava com o horrio da Alemanha-e peguei 
no sono imediatamente, s pra acordar uma hora depois quando ouvi minha porta abrir rangendo. 
Savannah, vestindo confortveis pijamas de cotton e meias, fechou a porta atrs de si e andou em 
direo a cama, na ponta dos ps. 

Ela colocou um dedo na frente dos lbios pra me manter calado. "Meus pais me matariam se 
soubessem que eu estou fazendo isso," ela murmurou. Se arrastou para a cama ao meu lado e ajeitou 
as cobertas, as puxando at o pescoo como se estivesse acampando no rtico. Coloquei meus 
braos ao redor dela, amando a sensao do seu corpo contra o meu. 

Nos beijamos e rimos por quase toda a noite, ento ela se esgueirou de volta ao seu quarto. 
Adormeci novamente, provavelmente antes que ela alcanasse seu quarto e acordei com a viso da 
luz do sol jorrando da janela. O cheiro do caf da manh entrando no quarto e eu vesti rapidamente 
uma camisa e uma cala jeans e desci at a cozinha. Savannah estava na mesa, falando com sua me 
enquanto seu pai lia o jornal e eu senti o peso da presena deles quando entrei. 

Me sentei na mesa, e a me de Savannah me serviu uma xcara de caf antes de colocar um prato de 
ovos com bacon na minha frente. Savannah, que estava sentada  minha frente j tomada banho e 
vestida, estava muito feliz e impossivelmente bonita na luz macia da manh. 

"Dormiu bem?" ela perguntou, seus olhando brilhando travessos. Eu assenti. 

"Na verdade, eu tive o sonho mais maravilhoso," eu disse. 

"Oh?" a me dela perguntou. "Sobre o que foi?" 

Senti Savannah me chutar embaixo da mesa. Ela sacudiu a cabea quase imperceptivelmente. Tenho 
que admitir que adorei a viso de Savannah se envergonhando, mas era o bastante. Fingi me 
concentrar. "No consigo me lembrar agora," eu disse. 

"Odeio quando isso acontece," sua mo disse. "O caf est bom?" 

"Est timo," eu disse. "Obrigada." Olhei para Savannah. "Qual  a agenda de hoje?" 

Ela se inclinou por cima da mesa. "Pensei que ns podamos ir cavalgar. Acha que voc gostaria?" 

Quando eu hesitei, ela riu. "Voc vai ficar bem," ela acrescentou. "Prometo." 

" fcil pra voc falar." 

Ela montou Midas; pra mim ela sugeriu um cavalo chamado Pepper, que seu pai montava 
geralmente. Passamos a maior parte do dia subindo por trilhas, galopando por campos abertos e 
explorando essa parte do mundo dela. Ela preparou um almoo de picnic e comemos em um lugar 
que tinha vista de toda Lenoir. Ela apontou escolas que frequentou e casas de pessoas que ela 
conhecia. Me ocorreu que ela no apenas amava o lugar como nunca iria querer viver em outro 
lugar. 

Passamos seis ou sete horas nas selas e fiz o meu melhor para acompanhar Savannah, embora isso 
fosse perto de impossvel. No acabei com minha cara na terra, mas houveram alguns momentos 
perigosos aqui e ali quando Pepper se comportou mal e levei tudo o que eu tinha pra me segurar. 
No foi at Savannah e eu nos aprontarmos para o jantar que eu me dei conta no que tinha me 
metido, contudo. Pouco a pouco, comecei a me dar conta que a minha caminhada lembrava o andar 

#
de um animal de quatro patas. Os msculos anteriores das minhas pernas estavam como se Tony 


tivesse batido neles por horas. 
No sbado  noite, Savannah eu eu fomos jantar num aconchegante restaurante italiano. Depois 
disso, ela sugeriu que fssemos danar, mas a eu mal podia me mover. Enquanto eu mancava em 
direo ao carro, ela adotou uma expresso preocupada e esticou o brao para me parar. 


Se inclinando ela agarrou minha perna. "Di quando eu aperto aqui?" 
Eu pulei e gritei. Por alguma razo, ela achou divertido. 
"Por que voc fez isso? Doeu!" 
Ela sorriu. "Estava s checando?" 
"Checando o que? Eu j lhe disse-estou inflamado." 
"Eu s queria ver se a pequena eu podia fazer um cara do exrcito grande e duro como voc gritar." 
Esfreguei minha perna. ", bem, no vamos mais testar isso, certo?" 
"Certo," ela disse. "Eu sinto muito." 
"Voc no parece sentir." 
"Bem, eu sinto," ela disse. "Mas  meio que engraado, no acha? Quer dizer, eu montei o mesmo 


tempo que voc e eu estou bem." 
"Voc monta o tempo todo." 
"Eu no montava a mais de um ms." 
", bem." 
"Vamos l. Admita. Fou engraado, no foi?" 
"Nem um pouco." 
No domingo, fomos  igreja com a famlia dela. Eu estava muito inflamado pra fazer mais alguma 


coisa pelo resto do dia, ento eu fiquei no sof e assisti a uma partida de baseball com o pai dela. A 
me de Savannah trouxe sanduches e eu passei a tarde estremecendo toda vez que tentava ficar 
confortvel enquanto o jogo tinha entradas extras. O pai dela era fcil de conversar e a conversa 
flutuou da vida no exrcito para ensinar algumas das crianas que ele treinava e suas esperanas 
para o futuro delas. Gostei dele. Do meu lugar, eu podia ouvir Savannah e sua me conversando na 
cozinha, e de vez em quando Savannah vinha at a sala com uma cesta de roupas para dobrar 
enquanto sua me colocava outra carga na mquina de lavar. Embora tecnicamente fosse uma 
universitria formada e adulta, ela ainda trazia suas roupas sujas para a me lavar. 

Naquela noite, dirijimos de volta  Chapel Hill e Savannah me mostrou seu apartamento. Era 
escasso no departamento de mveis, mas era relativamente novo e tinha uma lareira a gs e uma 
varanda que tinha vista para o campus. Apesar do clima ameno, ela acendeu a lareira e lanchamos 
queijo e bolachas, o que, tirando cereal, era tudo que ela tinha para oferecer. Pareceu 

#
indescritivelmente romntico para mim. Conversamos at quase meia-noite, mas Savannah estava 
mais quieta do que o normal. Algum tempo depois, ela caminhou at o quarto. Quando ela no 
voltou, fui encontr-la. Estava sentada na cama, e eu parei na porta. 

Ela apertou as duas mos e deu um longo suspiro. "Ento...," ela comeou. 

"Ento...," eu respondi quando ela permaneceu em silncio. 

Ela deu outro longo suspiro. "Est ficando tarde. E eu tenho aula cedo amanh." 

Assenti. "Voc deveria ir dormir." 

"," ela disse. Assentiu como se no tivesse considerado isso e se virou para a janela. Pelas 

persianas eu podia ver raios de luz jorrando do estacionamento. Ela ficava fofa quando estava 

nervosa. 

"Ento...," ela disse novamente, como se falasse com a parede. 

Levantei minhas mos. "Por que eu no durmo no sof?" 

"Voc no se importa?" 

"Nem um pouco," eu disse. Na verdade, no era o que eu preferia, mas eu entendi. 

Ainda olhando pela janela, ela no se moveu para levantar. 
"Eu s no estou pronta," ela disse, sua voz suave. "Quer dizer, eu pensei que estava e uma parte de 
mim realmente quer isso. Tenho pensado sobre isso pelas ltimas semanas e me decidi, e parecia 
certo, sabe? Eu te amo e voc me ama, e  isso que as pessoas fazem quando esto apaixonadas. Era 
fcil dizer isso a mim mesma quando voc no estava aqui, mas agora..." ela parou de falar. 

"Tudo bem," eu disse. 

Finalmente ela se virou pra mim. "Voc estava com medo? Na sua primeira vez?" 

Me perguntei qual a melhor maneira de responder isso. "Acho que  diferente para homens e 


mulheres," eu disse. 
". Acho que sim." Ela fingiu ajeitar os cobertores. "Voc est com raiva?" 
"Nem um pouco." 
"Mas est decepcionado." 
"Bem..." eu admiti e ela riu. 
"Desculpe," ela disse. 
"No h razo para se desculpar." 
Ela pensou nisso. "Ento por que eu sinto como se tivesse que me desculpar?" 


#
"Bem, eu sou um soldado solitrio," afirmei e ela riu novamente. Eu ainda podia ouvir o 


nervosismo nela. 
"O sof no  muito confortvel," ela se preocupou. "E  pequeno. Voc no vai poder se esticar. E 
eu no tenho cobertores extras. Eu devia ter trazido alguns de casa, mas esqueci." 


"Isso  um problema." 


"," ela disse. Eu esperei. 


"Acho que voc poderia dormir comigo," ela arriscou. 


Eperei um momento que ela continuasse seu prprio debate interno. Finalmente ela deu de ombros. 


"Quer tentar? S dormir, eu quero dizer?" 
"O que voc quiser." 
Pela primeira vez, seus ombros relaxaram. "Certo, ento. Decidimos. S me d um minuto para me 


trocar." 
Ela se levantou da cama, cruzou o quarto e abriu uma gaveta. O pijama que ela escolheu era 
parecido com o que ela tinha escolhido na casa dos pais e eu a deixei para voltar  sala, onde eu 
vesti um dos meus shorts de malhar e uma camisa. Quando retornei, ela j estava embaixo dos 


cobertores. Fui para o outro lado e me arrastei para o seu lado. Ela ajeitou os cobertores antes de 
desligar a luz, depois deitou de volta, encarando o teto. 
Deitei de lado, a olhando. "Boa noite," ela murmurou. 
"Boa noite." 
Eu sabia que no dormiria. No por um tempo de qualquer forma. Eu estava muito... incitado pra 


isso. Mas eu no queria ficar me remexendo, caso ela pudesse. 
"Ei," ela finalmente sussurrou de novo. 
"Sim?" 
Ela se virou para me encarar. "Eu s quero que voc saiba que essa  a primeira vez que eu dormi


com um homem. A noite toda, eu quero dizer.  um passo adiante, certo?" 
"," eu disse. " um passo adiante." 
Ela acariciou meu brao. "E agora se algum perguntar, voc vai poder dizer que ns dormimos 


juntos." 
"Verdade," eu disse. 
"Mas voc no vai dizer a ningum, vai? Quer dizer, eu no quero ficar com uma reputao, voc 


sabe." 
Eu sufoquei uma risada. "Vai ser nosso segredinho." 


#
Os prximos dias caram para um padro relaxado e fcil. Savannah tinha aulas pela manh e 
geralmente acabava um pouco antes do almoo. Teoricamente, acho que me deu a oportunidade de 
dormir at tarde-algo que todo soldado sonha quando falam em sair de licena-mas anos de acordar 
antes do amanhecer era um hbito impossvel de quebrar. Ao invs disso, eu acordava antes dela e 
fazia um bule de caf antes de ir at  esquina pegar o jornal. Ocasionalmente, comprava alguns 
bagels ou croissants; outras vezes, ns simplesmente comamos cereal em casa, e era fcil visualizar 
a nossa pequena rotina como uma prvia dos primeiros anos da nossa futura vida juntos, Um xtase 
sem esforo que era quase bom demais pra ser verdade. 

Ou, pelo menos, eu tentei me convencer disso. Quando ficamos com seus pais, Savannah era 
exatamente a garota de quem eu lembrava. A mesma coisa na nossa primeira noite sozinhos. Mas 
depois disso... comecei a notar diferenas. Acho que eu no tinha me dado conta de que ela estava 
vivendo uma vida que parecia completa e realizada, mesmo sem mim. O calendrio que ela 
mantinha na porta da geladeira listava algo para fazer todo dia: shows, palestras, meia dzia de 
festas de vrios amigos. Tim, eu notei, estava marcado para o almoo ocasional tambm. Ela estava 
pagando quatro cadeiras e ensinava outra como monitora e nas tardes de quinta, ela trabalhava com 
um professor no estudo de um caso que ela tinha certeza que seria publicado. Sua vida era 
exatamente do modo como ela descreveu nas cartas e quando retornava ao apartamento, ela me 
contava sobre o seu dia enquanto fazia algo para comer na cozinha. Ela amava o trabalho que estava 
fazendo e o orgulho no seu tom era evidente. Falava animadamente enquanto eu escutava e fazia 
perguntas suficientes para manter o fluxo da conversa. 

Nada anormal nisso, eu admiti. Eu sabia o bastante para me dar conta de que seria um problema 
maior se ela no dissesse nada sobre o seu dia. Mas a cada nova estria eu tinha essa sensao 
engolfante que me fazia pensar que no importava que ns mantivssemos contato, no importava 
que nos importssemos um com o outro, ela e eu tomamos caminhos contrrios. Desde a ltima vez 
que eu a tinha visto, ela havia completado sua graduao, lanado seu chapu de formanda no ar, 
encontrado trabalho como assistente graduada, se mudado e mobiliado seu prprio apartamento. 
Sua vida havia entrado em uma nova fase, e enquanto eu achava possvel dizer a mesma coisa sobre 
mim, um fato simples era que nada tinha mudado muito na minha vida, a menos que voc conte o 
fato que agora eu sei como montar e desmontar oito tipos de armas ao invs de seis e aumentei meu 
levantamento de peso em mais 13 quilos. E,  claro, eu havia feito minha parte dando aos russos 
algo para pensar se eles estivessem debatendo se deveriam ou no invadir a Alemanha com dzias 
de divises mecanizadas. 

No me entenda mal. Eu ainda estava louco por Savannah e havia momentos em que eu ainda sentia 
a fora dos seus sentimentos por mim. Muitos momentos, de fato. Na maior parte, foi uma semana 
maravilhosa. Enquanto ela estava fora, eu caminhava pelo campus ou corria pela pista perto da casa 
de campo, aproveitando meu merecido tempo relaxado. Dentro de um dia eu achei uma academia 
que me permitia malhar pelo tempo que eu estivesse l e porque eu estava de licena eles nem me 
cobraram nada. Eu geralmente tinha acabado de malhar e tomar banho na hora que Savannah 
voltava e ns passvamos o resto da tarde juntos. Na tera  noite nos juntamos a um grupo de 
colegas de classe dela para jantar no centro de Chapel Hill. Foi mais divertido do que eu pensei que 
seria, especialmente considerando que eu estava saindo com um grupo de caras da aeronutica de 
escola de veraneio e a maior parte da conversa foi centrada em psicologia de adolescentes. Na 
quarta  tarde, Savannah me deu um tour das suas aulas e me apresentou aos professores. Mais tarde 
naquela tarde, nos encontramos com algumas pessoas as quais eu havia sido apresentado na noite 
anterior. Naquela noite, compramos comida chinesa e comemos na mesa do apartamento dela. Ela 
estava vestindo uma daquelas blusas de alas, que acentuavam seu bronzeado e tudo o que eu podia 
pensar era que ela era a mulher mais sexy que eu j havia visto. 

Na quinta, eu queria passar algum tempo sozinho com ela e decidi surpreend-la com uma noite 

#
fora especial. Enquanto ela estava em aula e trabalhando no estudo do caso, eu fui ao shopping e 
gastei uma pequena fortuna em um terno e outra pequena fortuna em um par de sapatos. Eu queria 
v-la vestida formalmente e fiz reservas nesse restaurante que o vendedor de sapatos tinha me dito 
que era o melhor da cidade. Cinco estrelas, menu extico, garos vestidos impecavelmente, a coisa 
toda. Certamente eu no contei a Savannah sobre isso de antemo-deveria ser uma surpresa afinal 
de contas-mas assim que ela passou pela porta, eu descobri que ela j havia feito planos para passar 
outra noite com os mesmo amigos que ns havamos visto nos ltimos dias. Ela parecia to animada 
que eu nunca me incomodei em cont-la o que eu havia planejado. 

Ainda assim, eu no estava apenas decepcionado, estava com raiva. Ao meu ver, eu estava mais do 
que feliz em passar uma noite com seus amigos, at mesmo uma noite adicional. Mas quase todo 
dia? Depois de um ano separados, onde ns tivemos to pouco tempo juntos? Me incomodava que 
ela no parecia compartilhar do mesmo desejo. Pelos ltimos meses eu havia imaginado que ns 
passaramos o mximo de tempo juntos que pudssemos, compensando o ano que passamos 
separados. Mas eu estava chegando  concluso de que estava errado. O que significava... o que? 

Que eu no era to importante para ela como ela era pra mim? Eu no sabia, mas dado o meu 
humor, eu provavelmente deveria ter ficado no apartamento e a deixado ir sozinha. Em vez disso, 
sentei afastado, me recusei a tomar parte na conversa e praticamente desviei o olhar de todos que 
olhavam na minha direo. Tinha ficado bom em intimidao com o passar dos anos e eu estava em 
uma forma rara naquela noite. Savannah sabia que eu estava com raiva, mas toda vez que ela 
perguntava se alguma coisa estava me incomodando, eu estava no meu melhor modo passivo-
agressivo de negar que alguma coisa estava errada. 

"S estou cansado," eu disse. 

Ela tentou melhorar as coisas, admito. Ela segurava minha mo aqui e ali e me dava um rpido 
sorriso quando achava que eu o veria, e me encheu de refrigerante e batatas fritas. Depois de um 
tempo contudo, ela se cansou da minha atitude e desistiu. 

No que eu a culpe. Eu tinha merecido e de alguma forma o fato de que ela tinha comeado a ficar 
com raiva de mim me deixou enrubescer com isso, ao invs de sentir satisfao. Ns mal nos 
falamos no caminha pra casa e quando fomos pra cama, dormimos em lados opostos do colcho. 
Pela manh eu j tinha deixado pra l, pronto para seguir em frente. Infelizmente, ela no. 

Enquanto eu estava fora pegando o jornal, ela deixou o apartamento sem tocar no caf e eu acabei 
bebendo meu caf sozinho. 

Eu sabia que tinha ido longe demais e planejei compens-la assim que ela voltasse pra casa. Queria 
deixar claras as minhas preocupaes, cont-la sobre o jantar que eu havia preparado e me 
desculpar pelo meu comportamento. Presumi que ela entenderia. Colocaramos tudo para trs com 
um romntico jantar fora. Era o que eu achava que precisvamos, visto que amos para Wilmington 
no dia seguinte para passar o fim de semana com o meu pai. 

Acredite ou no, eu queria v-lo e assumi que ele estava ansioso para a minha visita tambm, do seu 
prprio modo. Diferente de Savannah, meu pai se superava em se tratando de expectativas. Pode 
no ter sido justo, mas Savannah tinha um papel diferente na minha vida naquela poca. Balancei a 
cabea. Savannah. Sempre Savannah. Tudo nessa viagem, tudo na minha vida, me dei conta, sempre 
tinha a ver com ela. 

 uma hora, eu tinha acabado de malhar, tomado banho, arrumado a maioria das minhas coisas e 
ligado para o restaurante para renovar minha reserva. Eu sabia da agenda de Savannah quela altura 

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e presumi que ela estaria chegando a qualquer minuto. Sem mais nada pra fazer, sentei no sof e 
liguei a televiso. Programas de jogos, sries, programas de vendas e entrevistas eram entremeados 
com comerciais de advogados oportunistas. O tempo se arrastou enquanto eu esperava. Eu 
continuava andando at o ptio para olhar a vaga dela no estacionamento e chequei meu 
equipamento trs ou quatro vezes. Savannah, eu pensei, estava certamente no caminho de casa, e eu 
me ocupei limpando a lava-louas. Alguns minutos depois, escovei meus dentes pela segunda vez, 
ento olhei pela janela mais uma vez. Ainda sem Savannah. Liguei o rdio, ouvi algumas msicas e 
mudei de estao seis ou sete vezes antes de deslig-lo. Caminhei at o ptio novamente. Nada. 
Nessa hora, j eram quase duas. 

Me perguntei onde ela estaria, senti os resqucios da raiva crescendo novamente, mas os forcei a se 
afastar. Disse a mim mesmo que ela provavelmente teria uma explicao vlida e repeti de novo 
quando esse argumento no se segurou. Abri minha bolsa e tirei de l o ltimo livro de Stephen 
King. Enchi um copo com gua gelada, me acomodei no sof, mas quando me dei conta de que 
estava lendo a mesma frase de novo, e de novo, coloquei o livro de lado. 

Outros quinze minutos se passaram. Depois trinta. Na hora que eu ouvi o carro de Savannahestacionando, minha mandbula estava apertada e eu estava rangendo os dentes. 
s trs e quinze, 
ela empurrou a porta. Estava toda sorrisos, como se nada estivesse errado. 

"Oi, John," ela falou. Foi at a mesa e comeou a desfazer sua bolsa. "Desculpe o atraso, mas 
depois da minha aula, uma estudante apareceu para me contar que ela tinha amado a minha aula e 
que por causa de mim ela queria se especializar em educao especial. D pra acreditar nisso? Ela 
queria dicas sobre o que fazer, que cadeiras pagar, quais professores eram os melhores... e o modo 
como ela ouviu minhas respostas..." Savannah sacudiu a cabea. "Foi to... recompensador. O modo 
como essa garota estava se segurando a tudo que eu dizia... bem, me faz sentir como se eu 
realmente estivesse fazendo a diferena para algum. Voc ouve professores falando sobre 
experincias como essa, mas eu nunca imaginei que aconteceria comigo." 

Forcei um sorriso e ela o tomou como um sinal para continuar. 

"De qualquer forma, ela perguntou se eu tinha algum tempo pra discutir isso e mesmo eu dizendo a 
ela que s tinha alguns minutos, uma coisa levou  outra e ns acabamos indo almoar. Ela  
mesmo especial, tem s dezessete anos mas se formou um ano mais cedo no ensino mdio. Ela 
passou em algumas provas especiais, ento ela j est no segundo ano da faculdade e vai pra escolade vero pra ir ainda mais longe.  impossvel no admir-la." 

Ela queria coro pra seu entusiasmo, mas eu no pude reun-lo. "Ela parece tima," eu disse. 

Com a minha resposta, Savannah parecia realmente olhar pra mim pela primeira vez e eu no fiz 
nenhum esforo para esconder meus sentimentos. 

"O que h de errado?" ela perguntou. 

"Nada," eu menti. 

Ela colocou a bolsa de lado com um suspiro desgostoso. "Voc no quer falar sobre isso? timo. 
Mas voc deveria saber que isso est ficando um pouco cansativo." 

"O que isso quer dizer?" 

Ela virou em minha direo. "Isso! O modo como voc est agindo," ela disse. "Voc no  to 

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difcil de interpretar, John. Voc est com raiva mas no quer me dizer o porqu." 


Hesitei, ficando na defensiva. Quando finalmente falei, me forcei a manter a voz firme. "Certo," eu 
disse, "Eu achei que voc estaria em casa horas atrs..." 
Ela ergueu os braos. " por causa disso? Eu j te expliquei. Acredite ou no, eu tenho 


responsabilidades agora. E se eu no estou errada, eu me desculpei pelo atraso assim que passei pela 
porta." 
"Eu sei, mas..." 
"Mas o que? Minhas desculpas no foram boas o bastante?" 
"Eu no disse isso." 


"Ento o que ?" 
Quando eu no pude achar as palavras, ela colocou as mos nos quadris. "Voc quer saber o que eu 
acho? Voc ainda est zangado por causa de ontem  noite. Mas me deixe adivinhar-voc tambm 
no quer falar sobre isso, certo?" 


Fechei meus olhos. "Ontem  noite voc-" 
"Eu?" ela me interrompei e comeou a sacudir a cabea. "Ah, no, no me culpe por isso! Eu no 


fiz nada de errado. No fui eu quem comeou isso! Ontem  noite poderia ter sido divertido-teria 
sido divertido-mas voc tinha que ficar l sentado como se quisesse atirar em algum." 
Ela estava exagerando. Ou, novamente, talvez no. De qualquer forma, permaneci calado. 
Ela continuou. "Sabia que eu tive que inventar desculpas pra voc hoje? E como isso me fez sentir? 


Ali estava eu, soltando elogios pra voc durante todo o ano, contando aos meus amigos que cara 
legal voc era, o quo maturo voc era, o quanto eu estou orgulhosa do trabalho que voc est 
fazendo. E eles acabaram vendo um lado seu que nem mesmo eu tinha visto antes. Voc foi... 
grosseiro." 

"Voc j pensou que eu podia estar agindo daquela maneira porque no queria estar l?" 

Isso a fez parar, mas s por um instante. Ela cruzou os braos. "Talvez o modo como voc agiu 
ontem  noite foi a razo para eu me atrasar hoje." 
Sua afirmao me pegou de guarda baixa. Eu no tinha considerado isso, mas no era essa a 

questo. 
"Sinto muito pela noite passada-" 
"Voc deve sentir!" ela gritoou, me interrompendo novamente. "Eram meus amigos!" 
"Eu sei que eram seus amigos!" falei bruscamente, me levantando do sof. "Estivemos com eles a 


semana toda!" 
"O que isso quer dizer?" 


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"O que eu disse. Talvez eu quisesse ficar sozinho com voc. J pensou nisso?" 
"Voc queria ficar sozinho comigo?" ela exigiu. "Bem, deixa eu te dizer, voc no est agindo como 
se quisesse. Estvamos sozinhos essa manh. Estvamos sozinhos quando eu entrei ainda agora. 


Estvamos sozinhos quando eu tentei ser legal e deixei tudo isso pra trs, mas tudo o que voc quer 
fazer  brigar." 
"Eu no quero brigar!" eu disse, dando o melhor de mim pra no gritar mas sabendo que tinha 


falhado. Me virei, tentando manter minha raiva sob controle, mas quando falei novamente podia 
ouvir o agouro implcito em minha voz. "S quero que as coisas voltem a ser o que eram. Como no 
vero passado." 

"O que tem o vero passado?" 

Odiei isso. No queria contar a ela que j no me sentia importante. O que eu queria era como pedir 
a algum para amar voc e isso nunca funcionava. Ao invs disso, tentei usar o assunto. 
"No vero passado, parecia que tnhamos mais tempo juntos." 
"No, no tnhamos," ela replicou. "Eu trabalhava nas casas o dia todo. Lembra?" 
Ela estava certa,  claro. Pelo menos parcialmente. Tentei novamente. "No estou dizendo que faz 


sentido, mas parece que tnhamos mais tempo para conversar ano passado." 
"E isso est incomodando voc? Que eu estou ocupada? Que eu tenho uma vida? O que voc quer 


que eu faa? Abandonar as aulas a semana toda? Dizer que estou doente quando tenho que dar 
aulas? Pular as tarefas de casa?" 
"No..." 
"Ento o que voc quer?" 
"Eu no sei." 
"Mas voc quer me humilhar na frente dos meus amigos?" 
"Eu no humilhei voc," protestei. 
"No? Ento por que Tricia me colocou de lado hoje? Por que ela sentiu a necessidade de me dizer 


que ns no tnhamos nada em comum e que eu podia fazer muito melhor?" 
Essa doeu, mas no tenho certeza se ela se deu conta de como isso soou. 
A raiva s vezes torna isso impossvel, como eu bem sabia. "Eu s queria ficar sozinho com voc na


noite passada.  tudo o que eu estou tentando dizer." 
Minhas palavras no tiveram efeito nela. 
"Ento por que voc no me disse isso?" ela exigiu. "Disse algo como 'Tudo bem se fizermos outra 


coisa? No estou a fim de sair com outras pessoas.' Era tudo o que voc tinha que dizer. Eu no leio 
mentes, John." 

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Abri minha boca para responder mas no disse nada. Ao invs disso, me virei e andei at o outro 
lado da sala. Olhei para a porta do ptio, no estava com raiva pelo que ela disse, s... triste. Me 
veio a mente que eu tinha de alguma forma, perdido ela, e eu no sabia se era porque eu estava 
fazendo uma tempestade em um copo d'gua ou se porque eu entendia muito bem o que estava 
realmente acontecendo entre ns. 

Eu no queria mais falar sobre isso. Nunca fui bom em conversas e me dei conta de que o que eu 
realmente queria era que ela atravessasse a sala e colocasse seus braos ao meu redor, dissesse que 
ela entendia o que estava me incomodando e que eu no tinha nada com o que me preocupar. 

Mas nada disso aconteceu. Ao invs disso eu falei com a janela, me sentindo estranhamente 
sozinho. "Voc est certa," eu disse. "Deveria ter lhe contado. E me desculpe por isso. E me 
desculpe pelo modo que eu agi na noite passada e me desculpe por ficar chateado com o seu atraso.
 s que eu realmente queria te ver o mximo que pudesse nessa viagem." 

"Voc diz isso como se no achasse que eu quero o mesmo." 

Me virei. "Pra ser honesto," eu disse, "no tenho certeza se voc quer." Com isso, caminhei at a 
porta. 

Fiquei fora at a noite. 

No sabia pra onde ir nem porque tinha sado, mas eu precisava ficar sozinho. Caminhei para o 
campus debaixo de um sol escaldante e me peguei me mudando de uma sombra de rvore para 
outra. No chequei para ver se ela estava me seguindo; sabia que ela no estaria. 

Depois de um tempo, parei e comprei uma gua gelada no centro dos estudantes, mas embora 
estivesse relativamente vazio e o ar fosse refrescante, eu no fiquei. Senti a necessidade de suar, 
como se para me purificar da raiva, tristeza e decepo que eu no podia, das quais eu no 
conseguia me livrar. 

Uma coisa era certa: Savannah tinha entrado pela porta pronta para uma discusso. Suas respostas 
tinham vindo muito rpidas e me dei conta de que elas pareciam menos espontneas do que 
ensaiadas, como se sua prpria raiva estivesse cozinhando pela maior parte do dia. Ela sabia 
exatamente como eu agiria e embora eu merecesse sua raiva baseado na forma como eu agi na noite 
anterior, o fato de que ela no parecia se importar com a sua prpria culpa ou meus sentimentos me 
atormentaram pela maior parte da tarde. 

As sombras ficaram maiores quando o sol comeou a abaixar, mas eu ainda no estava pronto para 
voltar. Ao invs disso, comprei alguns pedaos de pizza e uma cerveja de uma daquelas barracas 
que dependiam dos estudantes para sobreviver. Acabei de comer, caminhei mais um pouco e 
finalmente comecei o caminho de volta pra o apartamento dela. A essa altura eram quase nove e a 
montanha-russa emocional na qual eu estivera me deixou acabado. Me aproximando da rua, notei 
que o carro de Savannah estava no mesmo lugar. Podia ver uma lmpada ardendo dentro do quarto. 
O resto do apartamento estava escuro. 

Me perguntei se a porta estaria trancada, mas o trinco virou livremente quando eu tentei. A porta do 
quarto estava entreaberta, a luz escorria no corredor e eu debati se deveria me aproximar ou ficar na 
sala. Eu no queria encarar sua raiva, mas dei um longo suspiro e caminhei at o curto corredor. 
Enfiei minha cabea pela porta. Ela estava sentada na cama vestindo uma camisa muitos nmeros 
maior que ela. Ela desviou o olhar da revista que segurava e eu ofereci um sorriso cauteloso. 

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"Oi," eu disse. 
"Oi." 
"Desculpe," eu disse. "Por tudo. Voc estava certa. Fui um idiota noite passada e no deveria ter 


envergonhado voc na frente de seus amigos. E no deveria ter ficado to zangado por que voc 
estava atrasada. No acontecer novamente." 

Ela me surpreendeu dando tapinhas no colcho. "Vem aqui," ela sussurrou. 
Subi pela cama, me encostei no espelho da cama e deslizei meu brao em volta dela. Ela se inclinou 
contra mim e eu podia sentir o firme subir e descer de seu peito. 


"Eu no quero mais brigar," ela disse. 
"Eu tambm no." 
Quando afaguei seu brao, ela suspirou. "Onde voc foi?" 
"Lugar nenhum, na verdade," eu disse. "S andei pelo campus. Comi pizza. Pensei muito." 
"Sobre mim?" 
"Sobre voc. Sobre mim. Sobre ns." 
Ela assentiu. "Eu tambm," ela disse. "Voc ainda est com raiva?" 
"No," eu disse. "Eu estava, mas estou muito cansado pra ainda estar com raiva." 
"Eu tambm," ela repetiu. Levantou a cabea para me encarar. "QUero lhe contar uma coisa sobre o 


que eu estava pensando quando voc no estava aqui," ela disse. "Posso fazer isso?" 
"Claro," eu disse. 
"Me dei conta de que sou eu quem deveria estar se desculpando. Sobre passar muito tempo com os 


amigos, quer dizer. Acho que foi por isso que fiquei com tanta raiva mais cedo. Eu sabia o que voc 
estava tentando dizer, mas no queria ouvir porque sabia que voc estava certo. Em parte, de 
qualquer forma. Mas sua argumentao estava errada." 

Olhei para ela incerto. Ela continuou. 
"Voc acha que eu fiz voc passar tanto tempo com meus amigos porque voc no era to 
importante pra mim quanto costumava ser, certo?" Ela no esperou por uma resposta. "Mas no 
essa a razo.  exatamente o oposto. Eu estava fazendo isso porque voc  muito importante pra 


mim. No tanto porque eu queria que voc conhecesse meus amigos, ou pra que eles pudessem lhe 
conhecer, mas por causa de mim." 
Ela parou insegura. 
"No sei o que voc est tentando dizer." 
"Voc lembra quando eu disse que tirava foras dos momentos em que estou com voc?" 


#
Quando assenti, ela passou os dedos pelo meu peito. "Eu no estava brincando a respeito disso. O 
vero passado significou tanto pra mim. Mais do que voc pode imaginar, e quando voc foi 
embora, eu fiquei em runas. Pergunte ao Tim. Eu mal trabalhava nas casas. Sei que te mandei 
cartas que fizeram voc pensar que tudo estava bem, mas no estava. Eu chorava toda noite, e todo 
dia eu sentava na casa e ficava imaginando, esperando e desejando que voc viesse correndo da 
praia. Toda vez que eu via algum com um crew cut, sentia meu corao comear a bater mais 
rpido, mesmo que eu soubesse que no era voc. Mas era isso. Eu queria que fosse voc. Toda vez. 
Eu sei que o que voc faz  importante e eu entendo que a sua base est a um mar de distncia, mas 
no acho que entendia o quanto iria ser duro quando voc no estivesse por perto. Parecia que 
estava quase me matando e levou um longo tempo pra at mesmo comear a me sentir normal 
novamente. E nessa viagem, tanto quanto eu queria te ver, tanto quanto eu te amo, h essa parte de 
mim que est aterrorizada que eu v ficar em pedaos novamente quando nosso tempo acabar. Estou 
sendo puxada em duas direes e a minha resposta foi fazer tudo que eu pudesse para que no 
tivesse que passar por tudo o que passei no ltimo ano. Ento tentei nos manter ocupados, sabe? 
Para impedir meu corao de ser partido novamente." 
Senti minha garganta apertada mas no disse nada. Depois de um tempo; ela continuou. "Hoje eu 
me dei conta de que estava te machucando durante esse processo. QUe no era justo com voc, mas 
ao mesmo tempo, estou tentando ser justa comigo tambm. Em uma semana voc ir embora 
novamente e sou eu que vou ter que descobrir como funcionar depois de tudo. Algumas pessoas 
podem fazer isso. Voc pode fazer isso. Mas pra mim..." 

Ela encarou suas mos, e por um longo tempo tudo estava quieto. "No sei o que dizer," eu 
finalmente admiti. 

Sem querer, ela riu. "Eu no quero uma resposta," ela disse, "porque eu no acho que exista uma.
Mas eu sei que no quero te machucar.  tudo o que eu sei. S espero que eu consiga achar um 
modo de ficar mais forte esse vero." 

"Podemos sempre malhar juntos," eu brinquei sem entusiasmo e fui gratificado ao ouvir o som da 
sua risada. 

", isso vai funcionar. Dez abdominais e eu estarei boa como nova, certo? Queria que fosse to 
fcil. Mas eu vou conseguir. Pode no ser fcil, mas pelo menos no vai ser um ano todo dessa vez. 
Foi isso que eu continuei me lembrando hoje. QUe voc vai estar de volta para o Natal. Mais alguns 
meses e tudo isso estar acabado." 

Abracei ela, sentindo o calor do corpo dela contra o meu. Podia sentir seus dedos por cima do fino 
tecido da minha camisa e senti ela a puxar gentilmente, expondo a pele do meu abdome. A sensao 
foi eltrica. Saboreei seu toque e me inclinei para beij-la. 

Havia um tipo diferente de paixo em seu beijo, algo vibrante e vivo. Senti sua lngua contra a 
minha, consciente da forma que o corpo dela estava respondendo e respirei fundo enquanto seus 
dedos deslizavam em direo ao fecho do meu jeans. Quando escorreguei minhas mos mais 
devagar, me dei conta de que ela estava nua por debaixo da camisa. Ela abriu o fecho e embora eu 
no quisesse nada mais que continuar, me forcei a retroceder, a me parar antes que isso fosse longe 
demais, para prevenir alguma coisa que eu ainda no estava certo que ela estava pronta. 

Senti minha prpria hesitao, mas antes que eu pudesse insistir nela, ela abruptamente se sentou e 
tirou sua camisa. Minha respirao ficou mais forte enquanto eu a encarava, e tudo de uma vez, ela 
se inclinou pra frente e levantou minha camisa. Beijou meu umbigo e minhas costelas, depois meu 
peito e eu pude sentir suas mos comeando a abaixar meus jeans. 

#
Me levantei da cama e tirei minha camisa, depois deixei os jeans carem no cho. Beijei seu 
pescoo e ombros e senti o calor do seu hlito na minha orelha. A sensao de sua pele sobre a 
minha foi como fogo, e comeamos a fazer amor. 

Foi tudo que eu sonhei que seria, e quando acabamos, coloquei meus braos ao redor de Savannah, 
tentando gravar a memria de cada sensao. No escuro, murmurei o quanto a amava. 

Fizemos amor uma segunda vez e quando Savannah finalmente adormeceu, me peguei encarando-a. 
Tudo nela era refinadamente em paz, mas por alguma razo, no pude evitar uma persistente 
sensao de temor. To carinhoso e excitante como tinha sido, eu no podia evitar me perguntar se 
havia tido um trao de desespero em nossas aes, como se estivssemos nos agarrando a esperana 
de que isso sustentaria nossa relao por qualquer coisa que o futuro trouxesse. 

#
Quatorze 

Nosso tempo restante na minha licena foi como eu tinha originalmente esperado. Tirando o fim de 
semana com meu pai-no qual ele cozinhou pra ns e falou sem descanso sobre moedas-ficvamos 
sozinhos o mximo possvel. De volta a Chapel Hill, quando Savannah terminava suas aulas do dia, 
nossas tardes e noites eram passadas juntos. Caminhamos pelas lojas da rua Franklin, fomos ao 
Museu de Histria da Carolina do Norte em Raleigh e at passamos algumas horas no zoolgico da 
Carolina do Norte. Na minha antepenltima noite na cidade, fomos jantar no restaurante chique que 

o vendedor de sapatos havia me falado. Ela no me deixou espiar enquanto ela estava se arrumando, 
mas quando ela finalmente surgiu do banheiro, estava positivamente glamurosa. Fiquei encarando-
a, pensando no quanto eu era sortudo de estar com ela. 
No fizemos amor de novo. Depois da nossa noite juntos, acordei na manh seguinte para encontrar 
Savannah me estudando, as lgrimas rolando por suas bochechas. Antes que eu pudesse perguntar o 
que havia de errado, ela colocou um dedo nos meus lbios e balanou a cabea, me pedindo pra no 
falar. "Noite passada foi maravilhoso," ela disse, "mas no quero falar sobre isso." Ao invs disso, 
ela se enroscou ao meu redor e eu a segurei por um longo momento, escutando o som da sua 
respirao. Eu sabia ento que algo havia mudado entre ns, mas naquela poca, eu no tive a 
coragem de descobrir o que. 

Na manh em que parti, Savannah me levou at o aeroporto. Sentamos no porto juntos, esperando 
pela chamada do vo, seu polegar descrevendo pequenos crculos nas costas da minha mo. Quando 
chegou a hora de eu embarcar, ela caiu em meus braos e comeou a chorar. Quando viu minha 
expresso, ela forou uma risada, mas eu podia ouvir o pesar nela. 

"Sei que prometi," ela disse, "mas no posso evitar." 

"Vai ficar tudo bem," eu disse. "So apenas seis meses. Com tudo que est acontecendo na sua vida, 
voc vai se espantar com o quo rpido vai passar." 

" fcil falar," ela disse, fungando. "Mas voc est certo. Eu vou ser mais forte dessa vez. Vou ficar 
bem." 

Examinei seu rosto procurando sinais de negao mas no achei nenhum. "Srio," ela disse. "Eu 
vou ficar bem." 

Assenti e por um longo momento ns simplesmente nos encaramos. 

"Voc vai lembrar de olhar a lua cheia?" ela perguntou. 

"Todas as vezes," prometi. 

Compartilhamos um ltimo beijo. A abracei com fora e murmurei que a amava, depois me forcei a 
solt-la. Joguei minha mochila sobre os ombros e subi a rampa. Espiando por cima do meu ombro 
me dei conta de que Savannah j havia ido embora, escondida em algum lugar na multido. 

No avio, me deitei na poltrona, rezando para que Savannah estivesse dizendo a verdade. Embora 
eu soubesse que ela me amava e se importava comigo, subtamente entendi que mesmo amor e 
cuidado nem sempre eram suficientes. Eles eram os tijolos concretos da nossa relao, mas instveis 
sem a argamassa do tempo passado juntos, tempo sem a ameaa da separao iminente sobre nossas 
cabeas. Embora eu no quisesse admitir, havia mais sobre ela que eu no sabia. Eu no tinha me 
dado conta de como a minha licena no ano anterior a havia afetado e apesar de horas ansiosas 

#
pensando nisso, eu no tinha certeza de como isso iria afet-la agora. Nossa relao, senti com um 
peso em meu peito, estava comeando a parecer o movimento rotatrio de um pio de criana. 
Quando estvamos juntos, tnhamos o poder de mant-lo girando e o resultado era beleza, magia e 
um senso de maravilha quase infantil; quando separados, a rotao comeava inevitavelmente a 
ficar mais lenta. Nos tornamos cambaleantes e instveis e eu sabia que tinha que encontrar um 
modo de impedir que cassemos. 

Tinha aprendido minha lio do ano anterior. No s escrevi mais cartas da Alemanha durante julho 
e agosto, mas tambm telefonei pra Savannah mais frequentemente. Ouvia cuidadosamente durante 
as ligaes, tentando reconhecer quaisquer sinais de depresso e ansiando por ouvir palavras de 
afeto e desejo. No comeo, eu ficava nervoso antes de fazer aquelas ligaes; no fim do vero, eu 
esperava por elas. Suas aulas iam bem. Ela passou algumas semanas com os pais, depois comeou o 
semestre de outono. Na primeira semana de setembro, comeamos a contagem regressiva dos dias 
que faltavam para minha dispensa. Faltavam cem dias. Era mais fcil de falar de dias do que de 
semanas ou meses; de alguma forma fazia a distncia entre ns diminuir para algo mais ntimo, algo 
que ns dois sabamos que podamos aguentar. A pior parte j tinha passado, lembrvamos um ao 
outro, e descobri que enquanto eu cortava os dias no calendrio, as preocupaes que eu tive sobre 
nosso relacionamento comearam a diminuir. Eu estava certo de que no havia nada no mundo que 
pudesse nos impedir de ficar juntos. 

Ento o 11 de setembro veio. 

#
Quinze 

De uma coisa tenho certeza: as imagens do 11 de Setembro ficaro comigo para sempre. Assisti  
fumaa saindo das Torres Gmeas e do Pentgono e vi o rosto sombrio dos homes  minha volta 
observando pessoas saltarem para a morte. Testemunhei o desabamento dos edifcios e a enorme 
nuvem de poeira e detritos que se formou em seu lugar. Me enfureci enquanto a Casa Branca era 
evacuada. 

Poucas horas depois, soube que os Estados Unidos iriam reagir ao ataque e que as foras armadas 
liderariam a reao. A base entrou em alerta mximo, e duvido que alguma vez tenha ficado to 
orgulhoso dos meus homens. Nos dias que se seguiram, foi como se todas as diferenas pessoais e 
afiliaes polticas de qualquer tipo derretessem. Por um curto perodo de tempo, todos ns fomos 
simplesmente americanos. 

Escritrios de recrutamento em todo o pas comearam a encher com homens querendo se alistar. 
Entre ns j alistados, o desejo de servir era mais forte do que nunca. Tony foi o primeiro homem 
em meu esquadro a se alistar por mais dois anos, e um a um, todos seguiram seu exemplo. Mesmo 
eu, que esperava a minha dispensa honrosa em dezembro e contava com os dias para voltar para 
Savannah, peguei a febre e acabei me alistando. 

Seria fcil dizer que fui influenciado pelo que acontecia  minha volta e por isso tomei a deciso. 
Mas isso seria apenas uma desculpa. Certo, eu fui de fato pego pela onda de patriotismo, mas, alm 
disso, sentia-me obrigado pelos laos de amizade e da responsabilidade. Conhecia meus homens, 
me preocupava com eles, e o pensamento de abandon-los em um momento como aquele me 
parecia incrivelmente covarde. Tnhamos passado por coisas demais juntos para eu sequer deixar o 
exrcito naqueles ltimos dias de 2001. 

Liguei para Savannah com a notcia. Inicialmente, ela foi solidria. Como todo mundo, ela estava 
horrorizada com o que havia acontecido e entedia o senso de dever que pesava sobre mim, mesmo 
antes de eu tentar explicar. Ela disse que estava orgulhosa de mim. 

Mas a realidade logo apareceu. Ao escolher servir ao meu pas, eu tinha feito um sacrifcio. Embora 
a investigao sobre os autores do antetado tenha sido concluda rapidamente, 2001 terminou sem 
maiores sobressaltos para ns. Nossa diviso da infantaria no desempenhou qualquer papel na 
derrubada do governo Talib no Afeganisto, uma decepo para todos no meu peloto. Em vez 
disso, passamos a maior parte do inverno e da primavera treinando e nos perparando para a futura 
invaso ao Iraque. Foi por volta dessa poca, acredito, que as cartas de Savannah comearam a 
mudar. Se antes elas chegavam todas semanas, passaram a vir de dez em dez dias, e com o passar 
dos dias, tornaram-se quinzenais. Tentei consolar-me com o fato de que o tom das cartas no havia 
mudado, mas com o tempo isso tambm aconteceu. No havia mais as longas passagens em que ela 
descrevia como imaginava nossa vida juntos, as passagens que, no passado, sempre me encheram 
de expectativa. Escrever sobre um futuro to distante a fazia lembrar quanto tempo faltava, algo 
doloroso de pensar para ns dois. 

No final de Maio, consolei-me que pelo menos nos veramos na minha prxima licena. O destino, 
porm, conspirou novamente contra ns poucos dias antes de eu voltar para casa. Meu comandante 
convocou uma reunio e, quando me apresentei em seu escritrio, ele mandou eu me sentar. Meu 
pai, ele disse, tinha acabado de sofrer um ataque cardaco, e ele j se antecipara e me concedera a 
licena adicional de emergncia. Em vez de ir para Chapel Hill e passar duas semanas gloriosas 
com Savannah, viajei para Wilmington e fiquei ao lado da cama do meu pai, respirando o odor 
antisptico que sempre me fez pensar mais na morte do que na cura. Quando cheguei, meu pai 
estava na unidade de terapia intensiva, e l ele permaneceu durante a maior parte da minha licena. 

#
Sua pele tinha uma palidez acinzentada, e sua respirao era rpida e fraca. Na primeira semana, ele 
recuperava e perdia a conscincia, mas quando ele estava acordado, vi emoes em meu pai que 
afloravam raramente, e nunca combinadas: o medo desesperado, a confuso momentnea, e uma 
gratido de cortar o corao por eu estar ao lado dele. Mais de uma vez, peguei sua mo, outra coisa 
indita em minha vida. Por causa de um tubo introduzido em sua garganta, ele no podia falar, ento 
eu conversei pelos dois. Embora eu contasse um pouco do que acontecia na base, falei 
principalmente sobre as moedas. Li o Greysheet quando saiu, e fui  casa dele pegar cpias antigas 
que ele mantinha arquivadas em sua gaveta e tambm as li. Pesquisei por moedas na internet-em 
sites como David Hall Rare Coins e Legend Numismatics-e contava para ele as que estavam em 
oferta, bem como quais eram os preos mais recentes. Os preos me espantaram. Com base nas 
moedas do meu pai que eu conhecia, comecei a suspeitar que a coleo dele, apesar da queda dos 
preos do ouro desde seu apogeu, valia provavelmente dez vezes mais do que a casa que ele tinha 
h anos. Meu pai, incapaz de dominar a arte da conversa mais simples, havia se transformado no 
homem mais rico que eu conhecia. 

Ele no se interessava pelo valor das moedas. Desviava os olhos sempre que eu os mencionava, e 
logo me lembrei do que por algum motivo eu havia esquecido: para meu pai, a busca pelas moedas 
sempre foi muito mais interessante do que as moedas em si e, para ele, cada moeda representava 
uma histria com final feliz. Com isso em mente, fiz um grande esforo para lembrar todas as 
moedas que tnhamos encontrados juntos. Como meu pai mantinha registros impecveis, eu os 
examinava antes de dormir e, pouco a pouco,, essas lembranas voltaram. No dia seguinte, eu 
relembrava ao lado dele as histrias de nossas viagens para Releigh, Charlotte ou Savannah. 
Embora nem mesmo os mdicos soubessem ao certo se ele ira escapar, meu pai sorriu mais 
naquelas semanas do que em toda sua vida comigo. Ele foi para casa um dia antes da data da minha 
partida e o hospital tomou medidas para que algum cuidasse dele enquanto ele continuava a se 
recuperar. 

Porm, se a estada no hospital reforou minha relao com meu pai, ela no ajudou em nada meu 
relacionamento com Savannah. No enteda mal, ela foi me encontrar sempre que pde, e 
demonstrou apoio e simpatia. Mas, como passei tanto tempo no hospital, no foi o suficiente para 
cicatrizar as fissuras que comeavam a aparecer no nosso relacionamento. Para ser honesto, eu nem 
sabia ao certo o que queria dela: quando ela estava l, tinha vontade de ficar a ss com meu pai, 
quando ela no estava, sentia falta dela ao meu lado. De algum modo, Savannah atravessou esse 
campo minado sem reagir a nenhum estresse que eu descontasse nela. Parecia entender meus 
pensamentos melhor do que eu e antecipar minhas necessidades. 

Ainda assim, precisvamos de um tempo para ns. Um tempo a ss. Se nosso relacionamento fosse 
uma bateria, o tempo que eu passava no exterior significava descarregamento contnuo, e ns 
precisvamos de tempo para a recarga. Uma vez, sentado ao lado de meu pai ouvindo o bip 
constante do monitor cardaco , percebi que eu e Savannah passramos menos de 4 dias das ltimas 
104 semanas juntos. Menos de 5 por cento. Mesmo com cartas e telefonemas, s vezes eu me 
pegava olhando para o nada e pensando em como resistamos por tanto tempo. 

Samos para caminhar ocasionalmente e jantamos juntos duas vezes. Como Savannah estava dando 
e tendo aulas novamente, era impossvel para ela para ficar. Tentei no culp-la por isso, salvo 
quando o fiz, e acabamos discutindo. Eu odiava aquilo, e ela tambm, mas nenhum de ns era capaz 
de evitar. Embora ela no dissesse nada, e ainda negasse quando confrontada, eu sabia que o 
problema subjacente era o fato de que eu deveria estar de volta de vez, quando no estava. Foi a 
primeira e nica vez que Savanna mentiu para mim. 

Passamos por cima da briga o mximo que podamos, e nossa despedida foi outro momento triste, 
embora menos do que da ltima vez. Seria reconfortante pensar que tnhamos nos habituado ou 

#
estvamos mais maduros. Porm, quando entrei no avio, sabia que algo irrevogvel havia mudado 
entre n 

Foi uma constatao dolorosa. Porm, na noite seguinte de lua cheia, vaguei pelo campo de futebol 
abandonado. Como eu tinha prometido, lembrei dos momentos que passei com Savannah na minha 
primeira folga. Tambm recordei minha segunda licena, mas curiosamente, no quis pensar na 
terceira, pois acho que sentia o que estava por vir. 

Conforme o vero avanava, meu pai continuou a se recuperar, embora lentamente. Em suas cartas, 
ele contava que saia para passear no quarteiro trs vezes por dia, todos os dias, exatamente por 
vinte minutos, mas at isso era difcil para ele. Se havia um lado positivo nisso tudo, foi 
proporcionar a ele algo em torno do qual organizar seu dia agora que ele estava aposentado, algo 
alm de moedas. Alm de mandar cartas, mesmo com mais frequencia, passei a telefonar para ele s 
teras e sextas-feiras, exatamente  uma hora, horrio dos Estados Unidos, s para ter certeza que 
ele estava bem. Procurava sinais de cansao em sua voz, e lembrava-lhe constantemente sobre 
comer bem, dormir bastante e tomar a medicao. Sempre fui o responsvel pela maior parte da 
conversa. Papai achava as conversas telefnicas ainda mais dolorosas do que a comunicao cara a 
cara, e sempre soou como se quisesse desligar o telefone o mais rpido possvel. Com o tempo, 
comecei a provoc-lo por causa disso, mas nunca tive certeza se entendia que eu estava brincando. 
Isso me divertia, e s vezes eu ria; embora ele nunca risse comgo, o tom de sua voz ficava mais 
alegre, ainda que temporariamente, antes de ele cair em total silncio. No tinha problema. Sabia 
que ele esperava os telefonemas com ansiedade. Ele sempre antendia ao primeiro toque, e foi fcil 
para mim imagin-lo olhando o relgio,  espera da ligao. 

Agosto virou setembro e depois outubro. Savannah terminou suas aulas em Chapel Hill e voltou 
para casa para procurar um emprego. Nos jornais, eu lia sobre as Naes Unidas e como os 
europeus queriam encontrar um modo de nos impedir de entrar em guerra com o Iraque. AS coisas 
estavam tensas nas capitais dos nossos aliados na OTAN; no noticirio, sempre havia manifestaes 
da populao e declarao vigorosas dos governos, afirmando que os Estados Unidos estavam 
prestes a cometer um erro terrvel. Enquanto isso, nossos lderes tentavam faz-los mudar de idia. 
Eu e todos no meu peloto continuvamos a levar nossas vidas, treinando para o inevitvel com 
sinistra determinao. Ento, em novembro, eu e meu peloto retornamos a Kosovo. No ficamos 
muito tempo por l, mas era mais do que suficiente. Eu j estava cansado dos Balcs, estive l 
quatro vezes, e j estava cansado das foras de paz. Mais do que isso, eu e todos no exrcito 
sabamos que a guerra no Oriente Mdio se aproximava, quisesse ou no a Europa. 

Nesse perodo, as cartas de Savannah ainda chegavam com alguma regularidade, assim como meus 
telefonemas para ela. Normalmente eu ligava antes do amanhecer, como sempre por volta de meia-
noite no horrio dela. Porm, se no passado eu sempre consegui falar com ela, agora mais de uma 
vez ela no estava em casa. Embora tentasse me convencer de que ela tinha sado com os amigos ou 
com seus pais, era difcil evitar que meus pensamentos desembestassem. Depois de desligar otelefone, s vezes eu imaginava que ela conhecera outro homem e se apaixonara. 
s vezes ligava 
mais de duas ou trs vezes na hora seguinte, ficando com mais raiva a cada toque sem resposta. 

Quando ela finalemnte atendia, eu pensava em perguntar onde ela estava, mas nunca o fiz. Nem 
sempre ela me contava vonluntariamente. Sei que cometi um erro em manter o silncio, 
simplesmente porque era imposssvel para mim esquecer o assunto, mesmo tentando me concentrar 
na conversa. Muito frequentemente, eu estava tenso no telefone e as respostas dela eram igualmente 
tensas. Cada vez mais, nossas conversas deixaram de ser alegres demostraes de afeto e viraram 
uma rudimentar troca de informaes. Aps desligar, eu sempre me odiava pelo cime que sentia e 
me castigava nos dias seguintes, prometendo no deixar que acontecesse novamente. 

#
Outras vezes, porm, Savannah parecia exatamente a mesma pessoa de quem eu me lembrava e 
demostrava o quanto ainda gostava de mim. Durante tudo isso, continuei a am-la com sempre e 
desejava ardentemente os momentos simples do passado. Eu sabia o que estava acontecendo, claro. 
Enquanto nos afastvamos, eu ficava cada vez mais desesperado para salvar o que antes havia entre 
ns; no entanto, como em um crculo vicioso, meu desespero fez com que nos distancissemos 
ainda mais. 

Comeamos a discutir. Como na briga que tivemos no apartamento dela durante minha segunda 
licena, eu no conseguia dizer o que estava sentindo. E, no importava o que ela dissesse, no 
conseguia deixar de pensar que ela estava me enganando ou nem mesmo tentava diminuir minhas 
preocupaes. Eu odiava esses telefonemas ainda mais do que meu cime, mesmo sabendo que 
ambos estavam interligados. 

Apesar de nossas dificuldades, nunca duvidei de que conseguiramos superar tudo. Eu queria uma 
vida com Savannah mais do que tudo. 

Em dezembro, comecei a ligar com mais frequncia e fiz de tudo para controlar o cime. Forcei-me 
a ser animado ao telefone, na esperana de que ela gostasse de me ouvir. Pensei que as coisas 
estivssem melhorando, e aparentemente estavam mesmo. Porm, quatro dias antes do Natal, 
lembrei a ela que voltaria para casa em pouco menos de um ano. Em vez da resposta animada que 
eu esperava, ela ficou em silncio. Ouvia apenas o som de sua respirao. 

"Voc me ouviu?", perguntei. 

"Sim", disse ela, com voz suave. " s que j ouvi isso antes." 

Era verdade, ambos sabamos disso, mas eu no dormi direito por quase uma semana. 

A lua cheia apareceu na noite de Ano Novo, e embora eu tenha sado para admir-la e recordar da 
semana em que nos apaixonamos, essas imagens estavam nebulosas, como se turvas pela tristeza 
imensa que sentia dentro de mim. No caminho de volta, vi dezenas de homens reunidos em crculos 
ou apoiados nas paredes dos prdios fumando cigarros, como se no tivessem qualquer 
preocupao. Gostaria de saber o que pensavam quando me viram passar. Ser que perceberam que 
eu estava perdendo tudo o que importava para mim? Ou que eu desejava mais uma vez poder mudar 

o passado? 
No sei, e eles no perguntaram. O mundo estava mudando rapidamente. As ordens que 
espervamos chegaram na manh seguinte, e alguns dias depois meu peloto estava na Turquia 
onde comeamos a nos preparar para invadir o norte do Iraque. Participamos de reunies em que 
nos informaram nossas atribuies, estudamos a topografia, e repassamos planos de batalha. Havia 
pouco tempo livre, mas quando samos da base, era difcil ignorar os olhares hostis da populao. 
Ouvimos rumores de que a Turquia planejava negar o acesso s nossas tropas para a invaso e que 
estavam em andamento as negociaes para garantir tal permisso. H muito tnhamos aprendido a 
ouvir boatos com desconfiana, mas desta vez os rumores eram preciosos, e meu peloto e outros 
foram enviados para o Kuwait para comear tudo de novo. Desembarcamos no meio da tarde, sob 
um cu sem nuvens, rodeados de areia por todos os lados. Quase imediatamente fomos para um 
nibus e viajamos por horas, acabando no que, essencialmente, era a maior cidade de tendas que j 

vi. O exrcito fez o mximo para torn-la confortvel. A comida era boa e o posto de trocas tinha 
tudo o que precisvamos, mas era chato. O correio era ruim, no recebi nenhuma carta e as filas 
para usar o telefone tinham um quilmetro. Entre treinamentos, meus homens e eu nos sentvamos 
para conversar, tentando adivinhar quando comearia a invaso, ou praticvamos como colocar 
nossas roupas qumicas o mais rpido possvel. O plano era que meu peloto reforasse outra 
#
unidades de diferentes divises em uma grande ofensiva sobre Bagd. Em fevereiro, depois do que 
aprecia um zilho de anos no deserto, meu esquadro e eu estvamosa to prontos com sempre 
estivemos. 

Naquele ponto, muitos soldados estavam no Kuwait desde a metade de novembro e o crculo de 
rumores estava com toda fora. Ningum sabia o que estava por vir. Eu ouvi sobre armas qumicas e 
biolgicas; ouvi que Saddam tinha aprendido sua lio na tempestade do deserto e estava 
fortificando Guarda Replubicana em Bagd, na esperana de um ltimo ato de resistncia 
sangrento. Em 17 de maro, soube que haveria guerra. Na ltima noite no Kuwait, escrevi cartas 
para aqueles que eu amava, para o caso de no sobreviver: uma para meu pai e uma para Savannah. 
Naquela noite, embarquei em um comboio que se estendia por uma sentena de quilmetros at o 
Iraque. 

O combate era espordico, ao menos inicialmente. Como nossa fora area dominava os cus, 
tnhamos pouco a temer enquanto percorriamos, sobre tudo, estradas desertas. O exrcito iraquiano, 
em sua maior parte, no estava em lugar algum, o que s aumentava a minha tenso enquanto eu 
tentava antecipar o que meu peloto enfrentaria mais tarde durante a campanha. Aqui e ali, 
ouvamos falar sobre fogo inimigo, desparados de morteiros, e ns enfivamos em nossas roupas 
protetoras apenas para descobrir que era alarme falso. Os soltados estavam tensos. No dormi por 
trs dias. Adentrando o Iraque, os conflitos comearam a aparecer,e foi ento que aprendi a primeira 
lei associada a operao Iraque livre: civis e inimigos muitas vezes tinham exatamente a mesma 
aparncia. Ouviamos tiros l de fora, atacvamos, e havia momentos em que no tnhamos certeza 
nem em que atirvamos. Quando chegamos ao tringulo sunita, a guerra comeou a se intensificar. 
Ouvimos falar de batalhas em Fallujah, Ramadi e Tikrit, todas travadas por outras unidades de 
outras divises. Meu peloto se juntou a Airborne Oitenta e dois em um ataque  Samawah, e foi l 
que tivemos a primeira experincia real de combate. 

A fora area tinha aberto caminho. Bombas, msseis e morteiros explodiam desde o dia anterior. 
Quando atravessamos a ponte que levava  cidade, o meu primeiro pensamento foi de 
maravilhamento com a quietude. Meu batalho foi designado para um bairro nos arredores da 
cidade onde deveramos vasculhar casa a casa para eliminar os inimigos. 

Enquanto nos movamos, as imagens vieram rpidas: os restos carbonizados de um caminho, o 
corpo sem vida do motorista jogado ao lado, um prdio parcialmente demolido, runas de carros 
fumegantes aqui e ali. Tiros espordicos de fuzil nos mantinham alertas. Enquanto patrulhvamos, 
ocasionalmente, os civis saam correndo das casas com armas nas mos, e faziamos o mximo para 
salvar os feridos. 

No incio da tarde, quando nos preparvamos para voltar, fomos atacados por um fogo pesado que 
tinha vindo de um prdio no final da rua. E stvamos em posio precria. Encostados nas paredes 
dois homens eram cobertura enquanto liderei o resto do peloto atravs do corredor de balas para o 
local mais seguro do outro lado da rua; parecia quase um milagre quase ningum ter sido morto. De 
l, disparvamos milhares de rajadas contra a posio do inimigo, provocando a destruio total. 
Qunado achei que era seguro, iniciamos a abordagem ao prdio, movendo-nos cautelosamente. Usei 
uma granada para destruir a porta da frente liderei meus homens at a entrada e coloquei a cabea 
para dentro. A fumaa era espessa e o cheiro de enxofre empestiava o ar. O interior estava destruido, 
mas ao menos um soldado iraquiano tinha sobrevivido. Assim que nos aproximamos, ele comeou a 
atirar do poro sob o piso. Tony foi atingido na mo, e todos ns atiramos centenas de vezes. O 
barulho era to alto que no dava pra ouvir o som da prpria voz, mas continuei apertando o gatilho, 
mirando em todos os lugares, no cho, nas paredes e no teto. Pedaos de gesso, tijolo e madeira 
voaram enquanto o local era dizimado. Quando finalmente paramos de atirar, tive certeza de que 
ningum poderia ter sobrevivido, mas joguei outra granada em outra abertura que levava ao poro 

#
s para garantir e corremos para fora por causa da exploso. 

Aps vinte minutos da experincia mais intensa da minha vida, a rua estava silenciosa, exceto pelo 
zumbido no meu ouvido e pelo som dos meus homens vomitando, praguejando e falando sobre o 
que acontecera. Enrolei a mo de Tony, e quando achei que todos estvam prontos, comeamos a 
recuada do mesmo modo como chegramos. Em tempo, fizemos o caminho de volta  estao 
ferroviria, que estava sob a guarda de nossas tropas, e despencamos. naquela noite, recebemos o 
nosso primeiro lote do correio em quase seis semanas. 

Na correspondncia, havia seis cartas de meu pai. Mas apenas uma de Savannah, e sob a luz fraca 
eu comecei a ler. 

Querido John, 
Estou escrevendo esta carta na mesa da cozinha, e eu estou sofrendo porque no sei como dizer o 
que estou prestes a dizer. Parte de mim gostaria que voc estivesse aqui para que eu pudesse fazer 
isso em pessoa, mas ns dois sabemos que  impossvel. Ento aqui estou, escolhendo as palavras, 
com lgrimas no rosto e com esperanas de que voc, de alguma maneira me perdoe pelo que vou 
escrever. 


Sei que este  um momento terrvel para voc. Tento no pensar na guerra, mas no consigo evitar 
as imagens, e sinto medo o tempo todo. Assito ao noticirio e leio os jornais, sabendo que voc est 
no meio disso tudo, tentando descobrir onde voc est e o que est passando. Rezo todas as noites 
para que voc volte para casa em segurana e continuarei a rezar. Ns vivemos algo maravilhoso, 
e quero que voc nunca se esquea disso. Nem quero que voc pense no ter significado tanto para 
mim quanto eu signifiquei para voc. Voc  raro e lindo, John. Eu me apaixonei por voc, mas, 
acima de tudo, conhecer voc me fez perceber o que realmente significa o amor verdadeiro. 
Durante os ltimos dois anos e meio, olhei para o cu a cada lua cheia e lembrei de tudo que 
passamos juntos. Lembrei como me senti confortvel conversando com voc naquela primeira 
noite. Lembrei a noite que fizemos amor. Sempre ficarei feliz por termos nos entregado um ao outro 
daquele jeito. Para mim, significa que nossas almas esto ligadas para sempre. 


H tantas outras coisas. Quando fecho os olhos, vejo seu rosto; quando caminho,  quase como se 
conseguisse sentir sua mo na minha. Estas coisas ainda so reais para mim, mas onde uma vez 
elas me trouxeram conforto, hoje provocam dor. Entendi seus motivos para permanecer no exrcito, 
e respeito sua deciso. Ainda respeito, mas ns dois sabemos que nosso relacionamento mudou 
depois disso. Ns mudamos, e no fundo do seu corao, acho que voc tambm percebeu isso. 
Talvez tenhamos passado tempo demais separados, talvez fssemos de mundos diferentes. Eu no 
sei. Toda vez que brigvamos, eu me odiava por isso. De algum modo, mesmo amando um ao outro, 
perdemos a ligao mgica que nos manteve juntos. 


Sei que parece uma desculpa, mas por favor, acredite em mim quando digo que no queria me 
apaixonar por outra pessoa. Se eu no entendo exatamente como isso aconteceu, como voc 
poderia? No espero que voc entenda, mas por tudo que passamos, no posso continuar mentindo 
para voc. Mentir diminuiria tudo o que vivemos, e no quero fazer isso, embora saiba que voc 
vai se sentir trado. 


Vou entender se voc nunca mais quiser falar comigo, assim como vou entender se voc disser que 
me odeia. Parte de mim tambm me odeia. Escrever esta carta me obriga a reconhecer isso. 
Quando olho no espelho, sei que vejo algum que no tem certeza de merecer ser amada. Estou 
falando srio. 


Mesmo que voc no queria ouvir, quero que voc saiba que sempre ser parte de mim. No tempo 


#
que passamos juntos, voc conquistou um lugar especial no meu corao, que eu vou levar comigo 
para sempre e ningum pode substituir. Voc  um heri e um cavalheiro, voc  gentil e honesto, 
mas, acima de tudo, voc  o primeiro homem que amei verdadeiramente. E no importa o que o 
futuro traga, voc sempre ser, e sei que minha vida  melhor por causa disso. 
Sinto muito, 
Savannah. 


#
Dezesseis 

Ela estava apaixonada por outra pessoa. 

Soube antes mesmo de terminar de ler a carta, e de uma hora para outra o mundo pareceu parar. 
Meu primeiro instinto foi dar um soco na parede, mas em vez disso amassei a carta e joguei-a fora. 
Fiquei com muita raiva na hora; mais do que me sentir trado, foi como se ela tivesse esmagado 
tudo que significava alguma coisa no mundo. Eu a odiava e odiava o homem sem nome e sem rosto 
que a roubara de mim. Fantasiava o que faria com ele se alguma vez cruzasse meu caminho, e a 
imagem no era bonita. 

Ao mesmo tempo, desejava falar com ela. Queria tomar um avio para casa imediatamente, ou pelo 
menos ligar para ela. Parte de mim no queria acreditar, no podia acreditar. No agora, no depois 
de tudo o que havamos passado. Faltavam apenas 9 meses. Depois de quase trs anos, ser que era 
assim to impossvel? 

Mas no fui para casa, nem telefonei. No escrevi, nem tive qualquer outro contato com ela. Minha 
nica ao foi recuperar a carta que eu jogara fora. Alisei-a o melhor que pude, coloquei-a de volta 
no envelope, e decidi carreg-la comigo como uma ferida de batalha. Ao longo das semanas 
seguintes, fui o perfeito soldado, refugiando-me no nico mundo que ainda parecia real para mim. 
Eu me ofereci para todas as misses consideradas perigosas, mal falei com as pessoas da minha 
unidade, e por um tempo tive que fazer um grande esforo para no ser muito rpido no gatilho 
durante as patrulhas. Eu no confiava em ningum e, embora no tenha sido responsvel por 
incidentes infelizes, como o exercito gosta de chamar a morte de civis, estaria mentindo se 
alegasse ter sido paciente e compreensvel ao lidar com os iraquianos de qualquer tipo. Apesar de 
quase no dormir, meus sentidos se aguavam  medida que continuvamos a ofensiva sobre Bagd. 
Ironicamente, apenas arriscando a vida eu encontrava alvio para a imagem de Savannah e o fato de 
nosso relacionamento ter terminado. 

Minha vida acompanhava as oscilaes da sorte na guerra. Menos de um ms depois de eu receber a 
carta, Bagd caiu e, apesar de um breve perodo auspicioso no inicio, as coisas ficaram piores e 
mais complicadas com o passar da semana e meses. Afinal, percebi que essa guerra no era 
diferente de qualquer outra. Guerras sempre se resumem  disputa de poder entre interesses 
conflitantes, mas esse entendimento no tornava mais fcil a vida no campo de batalha. No rescaldo 
da queda de Bagd, cada soldado do meu peloto foi obrigado a assumir os papis de policiais e 
juzes. Como soldados, no fomos treinados para isso. 

Olhando de fora e em retrospecto, era fcil questionar nossas aes, mas no mundo real, em tempo 
real, as decises nem sempre eram fceis. Mais de uma vez fui abordado por civis iraquianos 
dizendo que um determinado individuo havia roubado este ou aquele item, ou cometido este ou 
aquele crime, e instado a tomar alguma atitude a respeito. Fomos enviados para manter alguma 
aparncia de ordem- o basicamente significava matar insurgentes que tentavam nos matar, ou aos 
civis-, at os locais serem capazes de assumir o comando e lidar sozinhos com o problema. Esse 
processo em especial no foi fcil nem rpido, mesmo em lugares onde a calma era mais freqente 
do que o caos. Nesse meio tempo, outras cidades se desintegram em meio ao caos, e ramos 
enviados para restaurar a ordem. Eliminvamos os insurgentes, mas como no havia tropas 
suficientes para ocupar e manter a cidade segura, eles voltavam assim que nos retirvamos. Havia 
dias em que meus homens percebiam a futilidade desse exerccio em particular, mesmo sem 
question-lo abertamente. 

A questo , no sei como descrever o estresse, o tdio e a confuso daqueles nove meses, exceto 
dizer que havia muita areia. Sim, sei que  um deserto, e sim passei muito tempo na praia, portanto 

#
deveria estar acostumado, mas a areia dali era diferente. Entrava nas roupas, nas armas, no nariz e 
entre os dentes. Quando cuspia sempre sentia areia na minha boca. As pessoas ao menos conseguem 
entender isso, e aprendi que eles no querem ouvir a verdade de fato, ou seja, que na maior parte do 
tempo o Iraque no era to ruim, mas as vezes era pior do que o inferno.Ser que as pessoas 
realmente querem saber que vi um cara do meu peloto atirar acidentalmente em uma criana que 
s estava no lugar errado na hora errada? Ou que vi soldados explodindo quando atingiam um IED-
dispositivo explosivo improvisado  nas estradas prximas a Bagd? Ou ainda que vi sangue 
empoado nas ruas como gua da chuva, com partes de corpos boiando? No, as pessoas preferem 
ouvir sobre areia, porque isso mantm a guerra a uma distncia segura. 

Cumpri meu dever do melhor modo possvel, me alistei novamente e permaneci no Iraque at 
fevereiro de 2004, quando finalmente fui mandado de volta para a Alemanha. Logo que cheguei, 
comprei uma Harley e tentei fingir que sara da guerra sem cicatrizes; mas os pesadelos eram 
interminveis, e quase todas as manhs eu acordava encharcado de suor. Durante o dia eu ficava o 
tempo todo no limite, e me enraivecia por qualquer coisa. Quando caminhava pelas ruas da 
Alemanha, achava impossvel no observar cuidadosamente grupo de pessoas perambulando junto a 
edifcios e examinar atentamente as janelas do distrito empresarial procurando por atiradores. O 
psiclogo- todo mundo tinha que consultar um- disse que aquilo era normal e iria passar com o 
tempo, ms s vezes eu me perguntava se isso realmente aconteceria. 

Depois que deixei o Iraque, o tempo que fiquei na Alemanha pareceu-me quase sem sentido. Claro, 
eu malhava de manha e tinha aulas sobre armas e navegao, mas as coisas haviam mudado. Devido 
ao ferimento na mo, Tony foi condecorado e dispensado aps a queda de Bagd, enviado 
diretamente de volta ao Brooklyn. Mais quatro de meus homens foram dispensados ao final de 
2003, quando seu perodo de alistamento acabou; na cabea deles- e na minha tambm-, haviam 
cumprido seu dever e era hora de cuidar de suas vidas. Eu, por outro lado, havia me alistado 
novamente. No sabia se era a deciso certa, mas no sabia mais o que fazer. 

Porm, olhando meu peloto, percebi de repente que estava deslocado. Meu grupo estava cheio de 
novatos, e apesar de consider-los timos rapazes, no era a mesma coisa. Eles no eram os amigos 
com quem convivi no campo de treinamento e nos Balcns, eu no tinha ido para a guerra com eles 
e, no fundo, sabia que nunca seria to prximo deles quanto da minha antiga equipe. Eu era um 
estranho para a maior parte, e mantive-me assim. Eu malhava sozinho e evitava contato pessoal 
tanto quanto possvel, e sabia o que pensavam de mim ao me ver passar: eu era o velho sargento 
rabugento, aquele que no queria nada alm de garantir que eles voltariam a salvo para suas mes. 
Dizia isso ao meu peloto o tempo todo enquanto treinvamos, e falava srio. Faria o que fosse 
preciso para mant-los a salvo. Porm, como eu disse, no era a mesma coisa. 

Sem meus amigos, dediquei-me o mximo que pude ao meu pai. Depois do perodo em combate, 
passei uma licena prolongada com ele na primavera de 2004, e mais outra licena durante o vero. 
Ficamos mais tempo juntos nessas quatro semanas do que nos dez anos anteriores. Como ele estava 
aposentado, estvamos livres para passar o dia como desejssemos. Encaixei-me facilmente na 
rotina dele. Tomvamos caf da manha, fazamos trs caminhadas e jantvamos juntos. No meio do 
tempo, conversvamos sobre moedas e at mesmo comprvamos algumas. A internet tornou tudo 
muito mais fcil do que antes. Embora q pesquisa no tenha sido to emocionante, no sei se fez 
alguma diferena para o meu pai. Acabei conversando com vendedores com quem no falava havia 
mais de quinze anos, mas eles foram amistosos e prestativos como sempre e se lembraram de mim 
com prazer. O mundo da moeda era pequeno, percebi, e quando nossos pedidos chegavam- sempre 
eram expedidos via delivery noturno-, meu pai e eu revezvamos no exame das moedas, apontando 
eventuais falhas existentes e geralmente concordando com a nota atribuda pelo Professional Coin 
Grading Service(Servio Profissional de Avaliao de Moedas), uma empresa que avalia a 
qualidade de qualquer moeda. Embora minha mente s vezes vagasse para outras coisas, meu pai 

#
era capaz de examinar uma nica moeda durante horas, como se ela escondesse o segredo da vida. 

No conversvamos sobre muitas outras coisas, porm, na verdade, no precisvamos conversar. 
Ele no tinha vontade de falar sobre o Iraque, eu tambm no. Nenhum de ns tinha uma vida social 
sobre a qual discutir- o Iraque no tinha me levado isso- e meu pai... bem, ele era meu pai, e no me 
incomodei em perguntar. 

No entanto, eu estava preocupado com ele. Nas caminhadas, ele respirava com dificuldade. Quando 
sugeri que vinte minutos talvez fosse muito tempo, mesmo em ritmo lento, ele respondeu que, 
segundo o mdico, vinte minutos eram tudo de que ele precisava, e sabia que no poderia fazer nada 
para convenc-lo do contrario. Depois da caminhada, ele ficava muito mais cansado do que deveria 
e levava cerca de uma hora para que a cor de suas bochechas voltasse ao normal. Conversei com o 
mdico, e as notcias no eram o que eu esperava. O corao do meu pai, ele me disse, sofrera um 
grande dano, e, na opinio dele, era um grande milagre ele estar de p. Falta de exerccio seria ainda 
pior. 

Pode ter sido essa conversa com o mdico, ou talvez eu s quisesse melhorar meu relacionamento 
com meu pai, mas o fato  que, nessas duas visitas, nos demos muito melhor do que antes. Em vez 
de pression-lo constantemente para conversar, simplesmente me sentava com ele em seu escritrio 
lendo um livro ou fazendo palavras cruzadas, enquanto ele examinava moedas. Havia algo pacfico 
e honesto nessa falta de expectativas, e acho que meu pai lentamente estava aprendendo a lidar coma nova situao entre ns. s vezes, eu o pegava a me espreitar 
como se fssemos estranhos. 
Passvamos horas juntos, a maioria em silncio, e foi assim, de um jeito quieto e despretensioso, 
que finalmente nos tornamos amigos. Muitas vezes desejei que meu pai no tivesse jogado fora 
nossa fotografia, e quando chegou a hora de voltar  Alemanha, percebi que sentiria mais saudades 
do que nunca. 

O outono de 2004 passou lentamente, assim como o inverno e a primavera de 2005. A vida se 
arrastou sem grandes acontecimentos. Ocasionalmente, os boatos do meu eventual regresso ao 
Iraque interrompiam a monotonia dos dias, a idia de voltar pouco me afetava. Iraque, tudo bem 
tambm. Mantinha-me informado sobre o que acontecia no Oriente Mdio como todo mundo, mas 
assim que desligava a televiso ou colocava o jornal de lado, minha mente vagava para outros 
assuntos. 

Eu tinha vinte e oito anos ento, e no conseguia evitar a sensao de que, embora tivesse 
experimentado mais coisas do que a maioria das pessoas da minha idade, minha vida ainda estava 
em suspenso. Entrei no exercito para amadurecer, embora fosse possvel argumentar que sim, s 
vezes me perguntava de isso de fato ocorrera. Eu no tinha casa nem carro; alm de meu pai, estava 
completamente sozinho no mundo. Enquanto meus colegas recheavam suas carteiras com 
fotografias de filhos e esposas, na minha havia um nico instantneo desbotado de uma mulher que 
eu amara e perdera. Ouvia os soldados falarem de suas esperanas para o futuro, enquanto eu notinha qualquer plano. s vezes me perguntava o que meus homens pensariam 
sobre a minha vida, 
pois, em certos momentos, notava que eles me olhavam com curiosidade. Nunca contei a eles sobre 
meu passado ou abri informaes pessoais. Eles no sabiam sobre Savannah, meu pai ou minha 
amizade com Tony. Essas lembranas eram minhas e s minhas, pois aprendi que PE melhor manter 
algumas coisas em segredo. 

******************** 

#
Em maro de 2005, meu pai teve um segundo ataque cardaco, que levou a uma pneumonia e a 
outra temporada na UTI. Depois que Le foi liberado, comeou a tomar um medicamento que o 
impedia de dirigir, mas a assistente social do hospital ma ajudou a encontrar algum para comprar 
os mantimentos de que ele necessitava. Em abril, ele voltou para o hospital, onde foi informado que 
teria que desistir de suas caminhadas dirias. Em maio, ele estava tomando uma dzia de 
comprimidos diferentes por dia e passava a maior parte do tempo na cama. Suas cartas tornaram-se 
praticamente ilegveis, no s porque ele estava fraco, mas tambm porque suas mos comearam a 
tremer. Depois de insistir e implorar ao telefone, convenci uma vizinha- uma enfermeira que 
trabalhava no hospital local- a cuidar dele regularmente, e suspirei aliviado contando os dias at 
minha licena em junho. 

Mas a doena do meu pai continuou a se agravar nas semanas seguintes, e pelo telefone percebia 
um cansao que parecia aumentara cada vez que falava com ele. Pela segunda vez na vida, pedi 
uma transferncia para casa. Meu comandante foi mais simptico do que antes. Ns chegamos a 
procurar- eu at preenchi os documentos para ser enviado a Fort Bragg para treinamento areo-, 
mas quando conversei novamente com o mdico, fui informado que minha proximidade no 
ajudaria muito meu pai e que eu deveria considerar a hiptese de intern-lo em uma clnica. Meu 
precisava de mais cuidados do que poderia receber em casa, ele me assegurou. Ele estava tentando 
convenc-lo havia algum tempo-, mas ele se recusava at eu voltar de licena. Por alguma razo, o 
medico explicou, meu pai estava determinado a me receber em sua casa uma ultima vez. 

Essa constatao foi esmagadora e, no taxi do aeroporto, tentei me convencer de que o mdico 
estava exagerando. Mas no estava. Meu pai no conseguiu levantar do sof quando abri a porta, e 
fiquei perplexo ao perceber que ele parecia ter envelhecido trinta anos durante o ano que ficamos 
sem nos ver. Sua pele estava acinzentada, e fiquei chocado com o quanto ele imagrecera. Com um 
n na garganta, coloquei a mala para dentro. 

Oi papai, disse. 

De inicio, no tive certeza de que ele me reconhecera, mas por fim ouvi um sussurro spero. Oi 
John. 

Fui at o sof e sentei-me ao lado dele. Voc esta bem? 

Bem, foi tudo o que ele disse, e ficamos um longo tempo assim, em silncio. 

Finalmente levantei-me para inspecionar a cozinha, mas me assustei com o que vi. Havia latas de 
sopa vazias empilhadas por todos os lados, manchas no fogo e pratos embolorados amontoados na 
pia. O lixo estava superlotado. Obviamente a casa no era limpa h dias. Pilhas de correspondncia 
fechadas inundavam a pequena mesa da cozinha. Meu primeiro impulso foi sair imediatamente para 
confrontar a vizinha que prometera cuidar dele. Mas isso teria que esperar. 

Primeiro, achei uma lata de sopa de frango e macarro e esquentei-a no fogo imundo. Enchi uma 
tigela e levei para meu pai em uma bandeja. Ele sorriu fracamente, e notei sua gratido. Ele comeu 
tudo, raspando o prato. Enchi outra tigela, cada vez mais irritado, imaginado a quanto tempo ele 
estava sem comer. Quando ele terminou o segundo prato, ajudei-o a deitar novamente no sof, onde 
ele adormeceu em poucos minutos. 

A vizinha no estava, ento passei a maior parte da tarde limpando a casa, comeando pela cozinha 
e o banheiro. Fui trocar os lenis da cama e descobri que estavam sujos. Fechei os olhos abafando 
a vontade de torcer o pescoo da vizinha. 

#
Quando a casa ficou razoavelmente limpa, sentei-me na sala de estar observando meu pai dormir. 
Ele aprecia to pequeno debaixo do cobertor, e quando comecei acariciar seus cabelos, alguns fios 
saram na minha mo. Comecei a chorar, com a certeza de que meu pai estava morrendo. Foi a 
primeira vez que chorei naquele ano, e a nica vez na minha vida que chorei por mau pai, mas por 
muito tempo as lgrimas no cessariam. 

Sabia que ele era um homem bom, um homem amvel, e apesar da vida difcil que levara, havia 
dado o seu melhor para me criar. Nunca levantou a mo com raiva, e comecei a me atormentar 
pensando em todos os anos que havia desperdiado culpando-o. Lembrei-me de minhas duas 
ultimas visitas, e doeu pensar que nunca mais dividiramos momentos como aqueles. 

Mais tarde, carreguei meu pai at a cama. Ele estava leve, muito leve. Ajeitei os cobertores sobre 
ele e fiz minha cama no cho ao lado, ouvindo sua dificuldade para respirar e seus chiados. Ele 
acordou com tosse no meio da noite e no conseguia parar de tossir. Quando estava pronto para 
lev-lo ao hospital, a tosse finalmente cedeu. 

Ele ficou aterrorizado quando percebeu aonde eu pretendia lev-lo. Ficar... aqui, confessou, com a 
voz fraca. No quero ir. 

Eu estava dividido, mas ao final decidi no lev-lo. Para um homem de rotina, percebi, o hospital 
no era apenas um lugar estranho, era tambm uma zona perigosa de demandava mais energia do 
que ele dispunha. Foi ento que percebi que ele novamente havia sujado os lenis. 

Quando a vizinha apareceu no dia seguinte, suas primeiras palavras foram um pedido de desculpas. 
Ela explicou q no limpava a cozinha havia vrios dias porque uma de suas filhas ficou doente, mas 
trocou os lenis diariamente e se certificou que havia vrias latas de sopa. Frente a frente com ela 
na varanda, notei a exausto em seu rosto, e todas as palavras de reprovao que estavam na minha 
garganta desapareceram. Disse que estava muito grato por tudo que ela fez, mais do que podia 
expressar. 

Eu sorri. Incentivada, ela prosseguiu. 

mas preciso dizer que no p sempre que ele me deixa entrar. Ele disse que no gosta de onde 
coloco as coisas. Ou do jeito que limpo. E de ter mudado uma pilha de papis de lugar em cima da 
mesa dele. Normalmente eu ignoro, mas as vezes, quando ele esta se sentindo bem,  bastante 
inflexvel sobre no me deixar entrar, e at ameaou chamar a policia quando tentei passar. Eu 
no... 

Ela parou de falar, e eu terminei a frase para ela. 

Voc no sabe o que fazer. 

A culpa estava escrita claramente no rosto dela. 

Est tudo bem, eu disse. Sem voc, no sei o que ele faria. 

Ela acenou com alvio antes de desviar o olhar. Estou feliz que voc esteja em casa, ela comeou 
hesitante, queria falar com voc sobre essa situao. Ela escovou um fiapo invisvel em sua 
roupa. Conheo um lugar timo em que poderiam cuidar dele. Os funcionrios so excelentes. As 
vagas so raras, mas conheo o diretor, e ele sabe quem  o medico do seu pai. Sei como  difcil 
ouvir isso, mas acho que  o melhor para ele, espero... 

#
Quando ela terminou, sem terminar a frase, percebi que se preocupava genuinamente com meu pai, 
e abri a boca pare responder. Mas no disse nada. No era uma deciso to simples como parecia. A 
casa dele era o nico lugar que meu pai conhecia, o nico lugar em que ele se sentia confortvel. O 
nico lugar em que sua rotina fazia sentido. Se ir para o hospital o apavorava, ser obrigado a viver 
em lugar novo provavelmente o mataria. A questo resumia-se no a onde Lee morreria, mas como 
morreria. Sozinho em casa, onde dormia em lenis sujos, e possivelmente pereceria de fome? Ou 
entre pessoas que o limpariam e o alimentariam, em um lugar que o aterrorizava? 

Com um tremor na voz que eu no conseguia controlar, perguntei: Onde fica? 

************** 

Passei as duas semanas seguintes cuidando do meu pai. Fiz o melhor que pude, lia a Greysheet 
quando ele estava acordado e dormia no cho ao lado de sua cama. Ele se sujava todas as noites, e 
tive de comprar fraldas geritricas para sua vergonha. Ele passava a tarde toda dormindo. 

Enquanto ele repousava no sof, visitei vrias clnicas. No apenas a que a vizinha tinha 
recomendado, ma todas as outras em um raio de duas horas. No final, a vizinha tinha razo. O lugar 
que ela mencionara era limpo, os funcionrios pareciam profissionais e, o mais importante, o diretor 
parecia ter um interesse pessoal em cuidar do meu pai, no sei se por causa da vizinha ou do mdico 
que o atendia. 

O preo no foi um problema. A clinica era notoriamente cara, mas como meu pai tinha 
aposentadoria, Previdncia Social, Medicare e seguro sade privado (era fcil imagin-lo assinando 
na linha pontilhada indicada pelos vendedores de seguros sem saber ao certo o que estava pagando), 
tive certeza que o nico custo seria emocional. O diretor quarento de cabelos castanhos, cujos 
modos gentis me lembraram TIM, foi compreensivo e no pressionou por uma deciso rpida. 
Entregou-me uma pilha de brochuras e formulrios, desejando melhoras para meu pai. 

********** 

Naquela noite, toquei no assunto da mudana com o meu pai. Eu iria embora dali a poucos dias e 
no tinha escolha, no importa o quanto eu quisesse evitar. 

Ele no disse nada enquanto eu falava, Expliquei minhas razes, minha preocupaes, na esperana 
de me entender. Ele no fez perguntas, mas arregalou os olhos em coque, como se acabasse de ouvir 
uma sentena de morte. 

Quando terminei, precisava desesperadamente de um momento sozinho. Acariciei a perna dele e fui 
at a cozinha buscar um copo de gua. Quando voltei para sala meu pai estava debruado sobre o 
sof, abatido e trmulo, com o rosto entre as mos. Foi a primeira vez que o vi chorar. 

************** 

Na manha seguinte, comecei a embalar as coisas do meu pai. Esvaziei gavetas e arquivos, armrios 
e guarda-roupas. Na gaveta de meias, achei meias; na gaveta de camisas, s camisas. No arquivo, 
tudo tabulado e ordenado. No deveria ser surpresa para mim, porm, de certo modo, foi 

#
surpreendente. Ao contrario da maioria da humanidade, meu pai no tinha nenhum segredo. No 
tinha vcios ocultos, dirios, interesses ocultos, nenhuma caixa de coisas particulares que ele 
mantinha s para si mesmo. No encontrei nada que jogasse luz sobre sua vida interior, nada que 
pudesse me ajudar a compreend-lo melhor depois que ele partisse. Meu pai, soube ento, era 
exatamente o que parecia ser, e de repente percebi o quanto o admirava por isso. 
***************** 

Quando terminei de recolher as coisas dele, encontrei meu pai acordado no sof. Aps comer 
regularmente por alguns dias, ele recuperara um pouco de fora. No havia qualquer brilho em seus 
olhos, e notei uma p encostada na mesa. Ele me estendeu um pedao de papel. Era uma espcie de 
mapa rabiscado s pressas por uma mo trmula, intitulado Quintal. 

O que  isso? 

 seu, ele disse e apontou para p. 

Peguei a p, segui as indicaes no mapa at o carvalho no quintal, contei os passos e comecei a 
cavar. Minutos depois, a p bateu no metal e eu encontrei uma caixa. E mais uma, embaixo dela. E 
outra do lado. No total dezesseis caixas pesadas. Sentei-me na varanda e enxuguei o suor do rosto 
antes de abrir a primeira. 

J sabia o que iria encontrar, e fechei um pouco os olhos por causas das moedas de ouro brilhando 
ao sol forte do vero sulista. No fundo da caixa, encontrei o nquel bfalo 1926-D que tnhamos 
procurado e encontrado juntos, sabendo que era a nica moeda que realmente significava algo para 
mim. 

******************* 

No dia seguinte, o ultimo da minha licena, resolvi as pendncias da casa: cancelei os servios, 
transferi a correspondncia, consegui algum para aparar a grama. Guardei as moedas desenterradas 
em um cofre no banco. Cuidar desses detalhes tomou a maior parte do dia. Mais tarde, dividimos 
uma ultima tigela de sopa de frango com macarro e legumes cozidos para o jantar, antes que eu o 
levasse a clinica. Desfiz as malas dele, decorei o quaro com coisas de que ele gostava, e coloquei 
doze anos de edies da Greysheet no cho de baixo da escrivaninha. Mas no foi o suficiente, 
depois de explicar a situao para o diretor, voltei a casa para pegar outros badulaques, desejando o 
tempo todo conhecer meu pai o bastante para saber o que realmente importava para ele. 

Por mais que eu o tranqilizasse, meu pai permaneceu paralisado de medo e seus olhos me 
dilaceravam. Mais de uma vez, fui golpeado pela constatao de que eu estava matando-o. Sentei ao 
lado dele na cama, consciente das poucas horas restantes antes de partir para o aeroporto. 

Vai ficar tudo bem, disse. Eles vo cuidar de voc. 

As mos dele continuavam tremer. Tudo bem, ele disso com a voz praticamente inaudvel. 

Senti as lagrimas comeando a se formar. Quero dizer uma coisa para voc ok?, respirei fundo, 
concentrando meus pensamentos. S quero que voc saiba que acho voc o melhor pai do mundo. 
Voc teve de ser timo para aturar algum como eu. 

Meu pai no respondeu. No silncio, senti tudo o que eu sempre quis dizer a ele aflorar  superfcie, 

#
palavras que se formaram durante toda uma vida. 

 verdade, pai. Desculpe por todas as coisas horrveis que fiz voc passar, e desculpe por no ter 
estado presente o suficiente. Voc  a melhor pessoa que j conheci. Voc  o nico que nunca teve 
raiva de mim, voc nunca me julgou e, ao seu modo, me ensinou mais sobre a vida do que qualquer 
filho poderia querer. Sinto muito no poder estar presente agora, e me odeio por fazer isso com 
voc. Mas estou com medo, pai. Eu no sei o que fazer. 

Minha voz soou rouca e irregular aos meus prprios ouvidos, e no queria outra coisa alm de um 
abrao.. 

Ok, ele disse finalmente. 

Sorri para sua resposta. No pude evitar. 

Eu te amo, papai. 

A isso, ele sabia exatamente o que responder, pois sempre fizera parte da rotina. 

Tambm te amo, Jonh. 

Abracei-o e em seguida me levantei para dar a ele a edio mais recente da Greysheet. Quando 
cheguei a porta, parei mais uma vez e olhei para ele. 

Pela primeira vez desde que ele chegou, o medo tinha quase desaparecido. Ele segurava o papel 
bem perto do rosto, e notei a pgina tremer ligeiramente. Seus lbios se moviam enquanto ele se 
concentrava nas palavras e detive-me a observ-lo, na esperana de memorizar aquele rosto para 
sempre. 

Foi  ltima vez que o vi vivo. 

#
Dezessete 

Meu pai morreu sete semanas depois e eu recebi uma licena de emergncia para ir ao funeral. O 
vo de volta para os Estados Unidos foi um borro. Tudo o que eu pude fazer foi olhar pela janela 
pra o cinza sem forma do oceano centenas de metros abaixo de mim, desejando que eu pudesse ter 
estado com ele em seus momentos finais. Eu no tinha feito a barba, tomado banho ou at mesmo 
mudado minhas roupas desde que ouvi as notcias, como se seguir com minha vida diria 
significasse que eu teria aceitado completamente que ele tinha partido. 

No terminal e na volta pra casa, me peguei ficando com raiva das cenas cotidianas ao meu redor. Vi 
pessoas dirigindo ou caminhando, entrando e saindo de lojas, agindo normalmente, mas para mim 
nada parecia normal de forma alguma. 

Foi s quando voltei  casa que lembrei de ter desativado os servios quase dois meses antes. Sem 
luzes a casa parecia estranhamente isolada na rua, como se no pertencesse ali. Como meu pai, eu 
pensei. Ou eu, me dei conta. De alguma forma aquele pensamento possibilitou que eu me 
aproximasse da porta. 

Pendurado na moldura da porta havia um carto de negcios de um advogado chamado William 
Benjamin; no verso, ele dizia representar meu pai. Com o servio telefnico desconectado, eu liguei 
da casa da vizinha e fiquei surpreso quando ele apareceu na casa cedo na manh seguinte, maleta 
em mos. 

O levei pra dentro da casa suja e ele se sentou no sof. Seu terno devia ter custado mais do que eu 
ganho em dois meses. Depois de se apresentar e lamentar minha perda, ele se inclinou pra frente. 
"Estou aqui porque gostava do seu pai," ele disse. "Ele foi um dos meus primeiros clientes, e nada 
paga isso, a propsito. Ele veio at mim logo depois que voc nasceu para fazer um testamento, e 
todo ano, no mesmo dia, eu recebia uma carta dele certificada que listava todas as moedas que ele 
tinha comprado. Expliquei a ele sobre impostos da propriedade, ento ele os tm quitado pra voc 
desde que voc era criana." 

Eu estava muito chocado para falar. 

"De qualquer forma, seis semanas atrs ele me escreveu uma carta me informando que voc 
finalmente estava de posse das moedas, e ele queria se certificar que tudo o mais estava em ordem, 
ento eu atualizei seu testamento uma ltima vez. Quando ele me contou onde estava vivendo, 
percebi que ele no estava bem, ento liguei pra ele.Ele no disse muito, mas me deu permisso pra 
falar com o diretor. O diretor me prometeu que iria me deixar saber quando ou se seu pai viesse a 
falecer para eu poder encontrar voc. Ento aqui estou." 

Ele comeou a mexer em sua maleta. "Eu sei que voc est lidando com os acordos do funeral e que 
essa no  uma boa hora. Mas seu pai me disse que voc no deve permanecer aqui por muito 
tempo e que eu deveria cuidar dos assuntos dele. Foram palavras dele, a propsito, no minhas. 
Certo, aqui est." Ele me estendeu um envelope, cheio de papis. "O testamento dele, uma lista de 
cada moeda da coleo, incluindo qualidade e o dia em que foi cunhada, e todos os acordos para o 
funeral-que  pr-pago, a propsito. Prometi a ele que veria os impostos durante todo o tempo at 
que o testamento fosse aprovado tambm, mas isso no ser um problema, visto que o imposto  
pequeno e voc  seu nico filho. E se voc quiser, posso achar algum para vender quaquer coisa 
que voc no quiser mais e preparar a casa pra venda tambm. Seu pai disse que voc no deve ter 
tempo pra isso tambm." Ele fechou a maleta. "Como eu disse, gostava do seu pai. Geralmente voc 
tem que convencer as pessoas da importncia dessas coisas, mas no seu pai. Ele era um homem 
metdico." 

#
"." Assenti. "Ele era." 

Como o advogado disse, tudo tinha sido arrumado. Meu pai tinha escolhido o tipo de sepultura que 
ele queria, arrumado suas roupas e tinha at comprado o prprio caixo. 

Conhecendo ele, acho que deveria ter esperado, mas isso s reforou minha crena de que eu nunca 
tinha realmente entendido ele. 

O funeral, em um dia quente e chuvoso de agosto, foi esparsamente presenciado. Dois colegas de 
trabalho, o diretor do asilo, o advogado e a vizinha que ajudou a cuidar dele foram os nicos ao meu 
lado no enterro. Partiu meu corao-o partiu em um milho de pedaos-que em todo o mundo, 
apenas essas pessoas haviam visto o valor do meu pai. Depois que o pastor terminou as oraes, ele 
sussurrou pra mim para ver se eu queria adicionar alguma coisa. Nessa hora, minha garganta estava 
muito apertada e me custou tudo que eu tinha para simplesmente sacudir a cabea e negar. 

De volta em casa, sentei cauteloso na beira da cama do meu pai. A essa altura a chuva havia parado 
e os raios de sol cinza pendiam atravs da janela. A casa tinha um odor mofado, mas eu ainda podia 
sentir o cheiro do meu pai em seu travessseiro. Ao meu lado estava o envelope que o advogado 
tinha trazido. Tirei o seu contedo de dentro. O testamento estava em cima, como outros 
documentos. Entre eles, contudo, estava a fotografia emoldurada que meu pai havia removido de 
sua mesa h muito tempo atrs, a nica foto existente de ns dois. 

Levei-a at meu rosto e a encarei at que as lgrimas encheram meus olhos. 

Mais tarde naquela tarde, Lucy, minha antiga ex, chegou. Quando ela estava na minha porta, eu no 
sabia o que dizer. A mulher estonteante dos meus anos selvagens tinha sumido; em seu lugar estava 
uma mulher vestindo um caro terno preto e uma blusa de seda. 

"Sinto muito, John," ela murmurou, vindo em minha direo. Nos abraamos, apertando um ao 
outro e a sensao do seu corpo contra o meu foi como um copo de gua gelada em um dia de 
vero. Ela estava com o mais suave cheiro de perfume, um que eu no podia adivinhar, mas me 
fazia pensar em Paris, mesmo que eu nunca tivesse ido l. 

"Acabei de ler o obiturio," ela disse depois de me soltar. "Me desculpe no poder ter ido ao 
funeral." 

"Tudo bem," eu disse. Indiquei o sof. "Quer entrar?" 

Ela sentou ao meu lado e quando vi que ela no estava usando sua aliana, ela incoscientemente 
moveu a mo. 

"No deu certo," ela disse. "Me divorciei no ano passado." 

"Sinto muito." 

"Eu tambm," ela disse, pegando minha mo. "Voc est bem?" 

"Sim," eu menti. "Estou bem." 

Conversamos um pouco sobre o tempo que passou; ela no acreditava na minha afirmao de que 
sua ltima ligao tinha me feito entrar no exrcito. Contei a ela que foi exatamente o que eu 
precisei no momento. Ela falou de sua profisso-ela ajudava a criar e montar espaos de varejo em 

#
lojas de departamento-e perguntou como era o Iraque. Contei a ela sobre a areia. Ela riu e no 
perguntou mais sobre isso. Algum tempo depois, nossa conversa diminuiu para um gotejar enquanto 
nos dvamos conta do quanto ns dois tnhamos mudado. Talvez fosse porque ns j tinhamos sido 
ntimos, ou talvez porque ela fosse uma mulher, mas eu podia senti-la me examinando e j sabia 
qual seria sua prxima pergunta. 

"Voc est apaixonado, no est?" ela murmurou. 

Cruzei minhas mos no meu colo e olhei a janela. L fora o cu estava novamente escuro e nublado, 
prevendo ainda mais chuva. "Sim," admiti. 

"Qual o nome dela?" 

"Savannah," eu disse. 

"Ela est aqui?" 

Eu hesitei. "No." 

"Quer falar sobre isso?" 

No, eu queria dizer. No quero falar sobre isso. Aprendi no exrcito que estrias como a nosssa 
eram entediantes e previsveis, e embora todos perguntassem, ningum realmente as queria ouvir. 
Mas contei a ela a estria do comeo ao fim, com mais detalhes do que deveria, e mais de uma vez 
ela pegou minha mo. Eu no tinha me dado conta o quanto era difcil manter isso dentro de mim e 
na hora que parei, acho que ela sabia que eu precisava ficar sozinho. 

Ela beijou minha bochecha enquanto saa, e quando j tinha ido, andei pela casa por horas. Passei 
de cmodo a cmodo, pensando no meu pai e pensando em Savannah, me sentindo como um 
estrangeiro e gradualmente me dando conta que havia mais um lugar que pra onde eu tinha que ir. 

#
Dezoito 

Naquela noite, dormi na cama do meu pai, a nica vez que fiz isso na vida. A tempestade passou, e a 
temperatura subiu a nveis absurdos. Abrir as janelas no foi suficiente para refrescar, e rolei na 
cama durante horas. Quando me arrastei para fora da cama na manha seguinte, encontrei as chaves 
do carro do meu pai penduradas em um gancho na cozinha. Joguei minhas malas na traseira e 
peguei algumas coisas da casa que queria guardar. Pouca coisa alem da fotografia. Depois liguei 
para o advogado e aceitei a oferta de encontrar algum que desse um fim no resto das coisas e 
tambm de vender a casa. Joguei a chave na caixa do correio. 

Na garagem o motor levou alguns segundos para pegar. Tirei o carro e tranquei a porta da garagem. 
Do quintal, olhei a casa, pensando em meu pai e sabendo que nunca mais veria aquele lugar. 

*** 

Dirigi at a clnica, peguei os pertences de meu pai e ento sa de Wilmington pela interestadual em 
direo ao oeste, no piloto automtico. Havia anos que eu no passava naquele trecho da estrada, e 
tinha apenas vaga idia do trnsito, mas a sensao de familiaridade voltou em ondas. Passei pelas 
cidades de minha juventude e atravessei Raleigh em direo a Chapel Hill. Onde as memrias 
voltaram com dolorosa intensidade. Pisei no acelerador, tentando deix-las para trs. 

Atravessei Burlington, Greensboro e Winston-Salem. Fiz uma nica parada para abastecer no inicio 
do dia, quando comprei uma garrafa de gua. Segui direto, s bebericando gua, sem estomago para 
pensar em comer. Deixei a nossa fotografia no assento do carona, e vez ou outra tentava evocar o 
menino da foto. Por fim, fiz a converso para o norte, seguindo pela estradinha que corta as 
montanhas de picos azuis ao sul e ao norte, suaves ondulaes na crosta terrestre. 

J era fim de tarde quando estacionei o carro e me registrei em um velho motel de beira de estrada. 
Meu corpo estava rgido e, aps alongar alguns minutos, tomei banho e fiz a barba. Coloquei jeans 
limpos e uma camiseta. Cogitei pegar algo para comer, porem ainda estava sem fome. Com o sol 
baixo, o ar no tinha o mormao mido do litoral, e senti o cheiro das conferas descendo das 
montanhas. Foi ali que Savannah nasceu, e de algum modo eu sabia que ela ainda estava l. 

Embora pudesse ter ido  casa dos pais dela perguntar, descartei a idia, sem saber como eles 
reagiram  minha presena. Decidi dirigir pelas ruas de Lenoir, passando pelo distrito comercial 
onde havia uma variada coleo de restaurantes fast-food, mas s desacelerei quando cheguei  
parte menos genrica da cidade. Nessa rea Lenoir parecia no ter mudado nada-turistas e recm-
chegados eram bem vindos em visita, mas nunca seriam considerados gente do lugar. Estacionei em 
um velho salo de bilhar que me fez lembrar os lugares que freqentava na juventude. Luminosos 
de neon faziam publicidade da cerveja nas janelas, e o estacionamento estava cheio. Era em um 
local como aquele que encontraria a resposta de que precisava. 

Entrei, Hank Willians tocava na jukebox, e rolos de fumaa de cigarro pairavam no ar. Quatro 
mesas de sinuca estavam agrupadas: todos os jogadores usavam bons de baseball, e dois 
evidentemente tinham tabaco de mascar acumulado nas bochechas. Peixes gigantes empalhados 
decoravam as paredes, ao lado de memorabilia da NASCAR. Havia fotos tiradas em Talladega, 
Martinsville, North Wilkesboro e Rockinghan. Embora a minha opinio sobre o esporte no tivesse 
mudado, tal viso me deixou estranhamente avontade. No canto do bar, abaixo do rosto sorridente 
do falecido Dale Earnhardt *, havia uma jarra cheia de dinheiro, pedindo doaes para ajudar uma 
vtima local do cncer. Sentindo um inesperado arroubo de simpatia, contribu com alguns dlares. 

Sentei no bar e puxei conversa com o barman. Ele tinha mais ou menos minha idade e seu sotaque 

#
da montanha me lembrou Savannah. Depois de vinte minutos de conversa fiada, tirei a foto da 
Savannah da carteira e expliquei que era amigo da famlia. Citei os nomes dos pais dela e fiz 
perguntas demonstrando que eu estivera l antes. 


Ele foi cauteloso, e com razo. Cidades pequenas protegem os seus. Mas acontece que ele passara 
alguns anos na marinha, e isso ajudou. Aps um tempo, ele concordou em falar. 


Sim, eu conheo ela, disse. Ela mora em Old Mill Road, perto da casa dos pais. 


J passava das oito horas, e o cu estava escurecendo com a chegada da noite. Dez 
minutos depois, deixei uma gorjeta gorda no balco e tomei o rumo da sada. 
*** 


Curiosamente, no passava nada na minha cabea enquanto dirigia at a regio dos cavalos. Pelo 
menos, era assim que eu me lembrava da rea na ultima vez que estive ali. Peguei uma estrada de 
constante subida, e comecei a reconhecer os pontos de referncia da regio; sabia que em poucos 
minutos passaria pela casa dos pais de Savannah. Quando o fiz, inclinei-me, sobre o volante, 
procurando pela prxima abertura na cerca at virar uma longa estrada de cascalho. Assim que fiz a 
converso, notei uma placa pintada a mo indicando um lugar chamado Hope and Horses **. 


*Piloto de automobilismo que morreu em um acidente nas 500 milhas de Daytona em 2001 
**Em traduo literak,Esperana e Cavalos. 


O crepitar dos pneus sobre o cascalho era estranhamente reconfortante, e estacionei debaixo de um 
salgueiro, ao lado de uma pequena caminhonete velha. Observei a casa. Quadrada, de telhado 
pontudo, pintada de branco a e com uma chamin que subia em direo ao cu, a casa parecia 
erguer-se da terra como uma imagem fantasmagrica de centenas de anos. Uma nica lmpada 
brilhava em cima da antiga porta de entrada, e um pequeno vaso de planta estava pendurado perto 
da bandeira americana, ambos balanando suavemente com a brisa. Do lado da casa havia um velho 
celeiro e um pequeno curral; para alm uma pastagem verde esmeralda delimitada por uma cerca 
branca, que se estendia at uma fileira de macios carvalhos. Havia outra construo semelhante a 
uma cabana perto do celeiro, e nas sombras eu avistava os contornos de equipamentos agrcolas. 
Questionei novamente o que estava fazendo aqui. 


No era tarde de mais para ir embora, mas no conseguia me obrigar a manobrar o carro. O cu 
ardia em vermelho e amarelo antes de o sol mergulhar para alm do horizonte, lanando as 
montanhas na escurido total. Sa do carro e comecei a me aproximar da casa. O orvalho na grama 
umedeceu as pontas dos meus sapatos, e senti o cheiro das conferas mais uma vez. Ouvi o chilreio 
dos grilos e o canto constante de um rouxinol. Os sons davam-me fora enquanto eu me aproximava 
do alpendre. Tentei descobrir o que diria se ela atendesse a porta. Ou o que eu diria se ele atendesse. 
Enquanto tentava decidir o que fazer, um retriever abanando a cauda se aproximou de mim. 


Estendi a mo, e ele me deu uma lambida amigvel antes de fazer a volta e descer as escadas. Sua 
calda continuava abanando enquanto ele rodeava a casa. Ouvindo o mesmo chamado que me 
trouxera para Lenoir, deixei o alpendre e o segui. Ele mergulhou, arrastando a barriga no cho e 
rastejando por debaixo do ltimo obstculo da cerca, e ento entrou no celeiro. 
Assim que o co desapareceu, vi Savannah surgir do celeiro carregando retngulos de feno sob os 
braos. Os cavalos do pasto comearam a galopar naquela direo, enquanto ela distribua o feno 
em vrios comedouros. Eu continuava a avanar. Ela estava sacudindo o feno da roupa e se 
preparando para voltar ao celeiro quando, inadvertidamente, olhou na minha direo. Ela deu um 
passo, olhou novamente e congelou no lugar. 


#
Por um longo momento, nenhum de ns se moveu. Com seu olhar fixo no meu, percebi que fora um 
erro ter vindo, ter aparecido assim sem avisar. Sabia que deveria dizer algo, qualquer coisa, mas 
nada me veio  mente. S conseguia olhar para ela. 

As memrias voltaram como uma avalanche, todas elas, e notei quo pouco ela mudara desde a 
ltima vez que nos vimos. Como eu, ela vestia jeans e uma camiseta manchada de terra, e suas 
botas de cowboy estavam desgastadas e arranhadas. De algum modo, aquele visual campestre lhe 
dava um charme rstico. Seu cabelo estava mais comprido, mas ela ainda tinha a pequena fenda 
entre os dentes da frente que eu sempre adorara. 

Savannah, eu disse finalmente. 

S depois de falar, percebi que ela ficara to enfeitiada quanto eu. De repente, ela abriu um sorriso 
largo e cheio de um prazer inocente. 

John ela gritou. 

 bom ver voc de novo. 

Ela balanou a cabea, como tentando aclarar a mente, ento apertou os olhos novamente. Quando 
finalmente se convenceu que eu no era uma miragem, partiu em minha direo e atravessou a 
porteira. Momentos depois, senti os braos dela em volta de mim, seu corpo quente e acolhedor. Por 
u segundo, era como se nada tivesse mudado entre ns. Quis que aquele abrao no terminasse 
nunca. Mas quando ela se afastou, quebrou a iluso e nos tornamos estranhos outra vez. O rosto 
dela fazia a pergunta que eu tinha sido incapaz de responder durante a longa viagem at ali. 

O que voc esta fazendo aqui? 

Desviei o olhar. No sei, disse. S precisava vir. 

Embora ela no tenha perguntado mais nada, havia uma mistura de curiosidade e hesitao em sua 
expresso, como se ela no tivesse certeza de que queria uma explicao. Dei um pequeno passo 
para trs, abrindo espao para ela. Identifiquei os contornos sombrios dos cavalos na escurido e 
senti que os acontecimentos dos ltimos dias aos poucos voltavam para mim. 

Meu pai morreu, sussurrei, as palavras surgiram do nada. Acabo de vir do funeral. 

Ela ficou quieta. Sua expresso adquiriu a compaixo espontnea que tanto me atraiu no passado. 

Oh, John... Sinto muito, murmurou. 

Ela se aproximou novamente, e desta vez havia urgncia em seu abrao. Quando se afastou, metade 
do seu rosto ficou na sombra. 

Como aconteceu?, ela perguntou, ainda segurando a minha mo. 

Percebi uma tristeza genuna em sua voz, e fiz uma pausa incapaz de resumir os ltimos dois anosem uma nica frase.  uma longa histria, disse. Sob as luzes do 
celeiro, julguei detectar em seu 
olhar traos das memrias que ela queria manter enterradas, de uma vida muito antiga. Quando ela 
soltou minha mo, vi a aliana brilhando no dedo esquerdo. Essa viso foi como uma ducha de gua 
fria, um choque de realidade. 

#
Ela compreendeu minha expresso. Sim, ela disse, estou casada. 
Desculpe, disse, balanando a cabea. No deveria ter vindo. 
Surpreendendo-me, ela gesticulou ligeiramente. Tudo bem, disse, inclinando a cabea. Como 


voc me encontrou? 
 uma cidade pequena. Dei de ombros. Perguntei pra algum. 
E simplesmente... te contaram? 
Fui convincente. 
Foi esquisito, e nenhum de ns sabia o que dizer. Parte de mim esperava continuar ali, enquanto 


conversvamos como velhos amigos sobre tudo o que havia acontecido conosco desde nosso ltimo 
encontro. Outra parte de mim esperava que o marido dela aparecesse do nada a qualquer momento 
e, ou me estendesse a mo ou me desafiasse para uma briga. Em meio ao silncio, um cavalo 
relinchou. Atrs dela havia quatro cavalos com as cabeas enfiadas no comedouro, metade nas 
sombras, metade iluminados pela luz do celeiro. Trs outros cavalos, incluindo Midas, olhavam 
para Savannah como que perguntando se ela havia se esquecido deles. Savannah por fim fez um 
sinal por cima do ombro. 

Tenho de cuidar deles tambm, disse ela.  a hora da comida, e eles esto ficando impacientes. 

Quando assenti, Savannah deu um passo para trs e virou-se. Assim que chegou ao porto, ela 
acenou. Voc quer me dar uma mo? 
Hesitei, olhando em direo a casa. Ela seguiu meu olhar. 
No se preocupe disse. Ele no est, e sua ajuda seria muito bem vinda. A voz dela estava 


surpreendentemente tranqila. 
Embora no soubesse como interpretar aquela resposta, concordei. Fico feliz em ajudar. 
Resmunguei: vou tentar. 
No celeiro, ela separou um pedao de feno e, em seguida, mais dois e entregou-os a mim. 
Basta jogar nos comedouros perto dos outros. Eu estou indo pegar a aveia. 


Fiz o que ela mandou, e os cavalos se aproximaram. Savannah saiu carregando dois baldes. 
 melhor voc dar um pouco de espao para eles, Eles podem derrubar voc por acidente. 
Eu me afastei, e Savannah pendurou os baldes na cerca. O primeiro grupo de cavalos trotando em 


direo a eles. Savannah os observou com evidente orgulho. 
Quantas vezes voc tem que aliment-los? 
Duas vezes por dia, todos os dias. Mas h mais alm da alimentao. Voc ficaria surpreso em 


como eles so estabanados s vezes. O telefone do veterinrio est na discagem rpida. 
Eu sorri. Parece muito trabalho. 


#
 mesmo. Dizem que ser dono de um cavalo  como viver como uma ncora. A menos que voc 
tenha algum para ajudar,  difcil ficar longe, mesmo por um fim de semana. 

Seus pais ajudam? 

s vezes. Quando realmente preciso deles. Eles moram atrs do morro, do outro lado da cerca. 
Mas o meu pai est ficando velho, e h uma grande diferena entre cuidar de um cavalo e cuidar de 
sete. 

Vou acreditar na sua palavra. 

No doce abrao da noite, ouvindo o zumbido constante das cigarras, eu respirava a paz daquele 
refugio, tentando aquietar meus pensamentos acelerados. 

Este  exatamente o tipo de lugar que imaginei como sua casa, finalmente disse. 

Eu tambm, ela afirmou. Mas  muito mais difcil do que eu imaginava. H sempre algo para 
consertar. Voc no imagina quantos vazamentos havia no celeiro, e um bom pedao da cerca 
desabou no ltimo inverno. Foi nisso que trabalhamos durante toda a primavera. 

Embora tenha ouvido ela usar ns e assumindo que se tratava de seu marido, eu ainda no estava 
pronto para falar sobre ele. Nem ela, ao que parece. 

Mas  bonito aqui, mesmo com tanto trabalho. Em noites como esta, gosto de sentar no alpendre e 
apenas ouvir o mundo. Raramente se ouve barulho de carros e isso  to... pacfico. Ajuda a clarear 
a mente, especialmente depois de um longo dia. 

Enquanto ela falava, observei como media as palavras, percebi seu desejo de manter a conversa em 
territrio seguro. 

Aposto que sim. 

Preciso limpar alguns cascos, ela anunciou. Voc quer ajudar? 

No sei o que fazer, admiti. 

 fcil, disse. Vou te mostrar. Desapareceu no celeiro e saiu carregando o que parecia ser um par 
de pequenos pregos curvados. Ela me entregou um. Enquanto os cavalos comiam, ela se aproximou 
de um deles. 

Voc s tem agarrar perto do casco e levantar, enquanto segura a parte de trs da pata dele aqui, 
disse, demonstrando. Ocupado com o feno, o cavalo levantou a pata obediente. Ela apoiou o cascoentre as pernas. Ento, basta tirar a terra do casco.  s isso. 

Fui at o cavalo ao lado dela e tentei replicar suas aes, mas nada aconteceu. O cavalo era 
excessivamente grande e teimoso. Eu puxei a pata e segurei no lugar certo. Depois puxei e segurei 
mais um pouco. O cavalo continuou a comer, ignorando meus esforos. 

Ele no vai levantar a pata, reclamei. Ela terminou o casco que estava limpando, ento se inclinou 
para o lado do meu cavalo. Um puxo e um aperto mais tarde, o casco estava no lugar, entre as 
pernas dela. Claro que vai. S que ele sabe que voc no tem idia do que esta fazendo e esta 

#
desconfortvel perto dele. Voc tem que ser confiante. Ela deixou cair o casco e tomei o seu lugar 
para tentar novamente. O cavalo ignorou-me mais uma vez. 
Veja como eu fao, disse ela com cuidado. 
Eu estava observando, protestei. 
Ela repetiu o procedimento, o cavalo levantou a pata. Um momento depois imitei o passo a passo e 


o cavalo me ignorou. Embora eu no possa alegar que consiga ler a mente de um cavalo, tive a 
estranha sensao de que ele se divertia com o meu sofrimento. Frustrado, bati e puxei 
incansavelmente at que, finalmente, como por magia, o cavalo levantou a pata. Apesar da 
precariedade do meu desempenho, senti uma onda de orgulho. Pela primeira vez desde que cheguei, 
Savannah riu. 
Bom trabalho. Agora  s raspar fora a lama e partir para o prximo casco. 
Savannah tinha limpado os outros seis cavalos quando terminei meu primeiro. Quando terminamos, 


ela abriu a porteira e os cavalos trotaram para a pastagem escura. Eu no sabia o que esperar, mas 
Savannah foi para o galpo. Ela trazia duas ps nas mos. 
Agora  hora de limpar, disse ela, entregando-me uma p. 
Limpar? 
O chorume, disse. Caso contrrio pode ficar muito espesso aqui. 
Peguei a p. Voc faz isso todo dia? 
A vida  doce, no ?, ela provocou. Ela saiu novamente e voltou com um carrinho de mo. 
Quando comeamos a cavar o estrume, um pedao de uma lua surgiu sobre as copas das arvores. 


Trabalhamos em silncio, o tilintar das ps em ritmo constante enchia o ar. Quando acabamos, 
inclinei-me sobre minha p e a observei. No escuro do celeiro ela parecia linda e fugaz como uma 
apario. Ela no disse nada, mas pude sentir que me analisava. 

Voc esta bem?, finamente perguntei. 
Por que voc veio, John? 
Voc j me perguntou isso. 
Sei que j perguntei, ela disse. Mas voc ainda no respondeu. 
Estudei-a. No, eu no tinha respondido. No tinha certeza se podia me explicar, e transferi o peso 


de um p para o outro. No sabia para onde mais poderia ir. 
Surpreendendo-me, ela concordou. Uh-huh, admitiu. 
Foi a aceitao sem reservas em sua voz que me fez continuar. 
estou falando srio, disse. De certo modo, voc foi a melhor amiga que j tive. 


#
Notei a expresso dela amolecer. Tudo bem, ela disse. Essa resposta lembrou-me do meu pai e, 
depois de falar, talvez ela tenha percebido isso. Obriguei-me a examinar a propriedade. 

Esta  a fazenda que voc sonhava construir, no ? perguntei. Hope and Horses  para crianas 
altistas, no? 

Ela passou a mo pelos cabelos, colocando uma mecha atrs da orelha. Parecia feliz de eu terlembrado. Sim, disse ela. . 

 tudo o que voc pensou que seria? 

Ela riu e ergueu as mos. s vezes, disse. Mas  muito mais difcil do que eu imaginava, e no 
pense que rende o suficiente para pagar as contas. Ns dois trabalhamos em outros empregos, e 
todos os dias percebo que no aprendi tanto na faculdade quanto imaginava. 

No? 

Ela balanou a cabea. Algumas das crianas que aparecem aqui, ou no centro, so muito difceis 
de tratar. Ela hesitou, tentando encontrar as palavras certas. Finalmente, balanou a cabea. Acho 
que pensei que todas seriam como Alan, sabe? Ela olhou para cima. Voc se lembra quando falei 
dele? 

Assenti com a cabea e ela prosseguiu. Acontece que a situao de Alan era especial. No sei, 
talvez por ele ter crescido em um rancho, mas ele se adaptou muito mais facilmente do que a 
maioria das crianas. 

Ela parou de falar, e olhei-a de modo inquisitivo. Lembro que no foi assim que voc me contou a 
histria. Pelo que me lembro, Alan ficou apavorado no incio. 

Sim, eu sei, mas enfim... ele se acostumou. E esse  o ponto. No sei quantas crianas temos aqui 
que no se adaptaram em nada, no importa quanto tempo trabalhamos com elas. Isto no  s uma 
coisa de final semana, algumas crianas freqentaram regularmente por mais de um ano. 
Trabalhamos em um centro de avaliao do desenvolvimento, portanto passamos muito tempo com 
a maioria das crianas. Quando criamos o rancho, insisti em abri-lo para todas as crianas, 
independentemente da gravidade do transtorno. Sentimos que seria algo importante, mas comalgumas crianas... Eu s queria saber como me comunicar com elas. s vezes 
parece que estamos 
apenas andando em crculos. 

Percebi que Savannah repassava suas lembranas. No quero dizer que estamos perdendo nosso 
tempo, ela prosseguiu. Algumas crianas realmente se beneficiaram com o que estamos fazendo. 
Elas vm aqui, passam alguns fins de semana e  como... um boto de flor lentamentedesabrochando em algo belo. Assim como foi com Alan.  como se voc pudesse sentir 
a mente 
deles se abrindo para novas idias e possibilidades. E quando esto cavalgando com um grandesorriso nos rostos, nada mais importa no mundo.  um sentimento inebriante, 
e voc quer que 
acontea mais e mais, com cada criana que chega. Eu costumava achar que era questo de 
persistncia, que podamos ajudar a todos, mas no podemos. Algumas das crianas no querem 
nem mesmo chegar perto do cavalo, quanto mais, montar. 

Voc sabe que no  sua culpa. Eu tambm no ficava muito entusiasmado com a idia de montar, 
lembra? 

Ela riu, parecendo extremamente feminina. Sim, eu lembro. Na primeira vez que voc subiu em 

#
um cavalo, estava mais assustado do que boa parte das crianas. 
No, no estava, protestei. E, alem disso, Pepper era arisco, insisti. 
Falou como um verdadeiro novato, ela provocou. Mas mesmo que voc esteja errado, fico 


tocada por ainda se lembrar. 
Sua jovialidade evocou uma onda de lembranas. 
Claro que lembro, disse. Aquele foram os melhores dias da minha vida. Nunca vou esquec-los. 


Atrs dela, avistei o co errante no pasto. Talvez por isso eu ainda no esteja casado. 
Ao ouvir essas palavras, o olhar dela vacilou. Eu tambm me lembro. 
Voc? 
Claro, ela disse. Voc pode no acreditar, mas  verdade. 
O peso das palavras dela encheu o ar. 
Voc  feliz Savannah?, finalmente perguntei. 
Ela abriu um sorriso irnico. A maior parte do tempo. Voc no? 
No sei, disse, e ela riu novamente. 
Essa  a sua resposta padro, sabia? Quando  convidado a olhar para dentro de si e responder.  


como um reflexo seu. Sempre foi. Por que voc no pergunta o que realmente quer perguntar? 
O que eu realmente quero perguntar? 
Se amo o meu marido. No  isso que voc quer saber? 
Por um estante fiquei mudo, mas percebi que os instintos dela estavam corretos. Esse era o motivo 


real que me levara at ali. 
Sim, ela disse afinal, novamente lendo minha mente. Eu o amo. 
A sinceridade inquestionvel em sua voz me feriu, mas antes que eu pudesse refletir, ela se virou 


para mim novamente. A ansiedade cintilava em seu rosto, como se ela lembrasse algo doloroso. Mas 


logo passou. 

Voc j comeu?, ela perguntou. 
Eu ainda estava tentando entender o que acabar de acontecer. No, eu disse. Na verdade, no 
tomei caf da manha, nem almocei. 


Ela balanou a cabea. Tenho umas sobras de cozido de carne em casa. Voc tem tempo para 
jantar? 
Apesar de pensar mais uma vez no marido dela, assenti. Quero sim, disse. 


#
Partimos em direo a casa e paramos no alpendre onde se enfileiravam velhas botas de caubi 
cobertas de lama. Savannah segurou em meu brao de modo extraordinariamente fcil e natural, 
apoiando-se em mim para tirar as botas Talvez tenha sido esse toque que me deu coragem para olhar 
verdadeiramente para ela. Apesar do ar de mistrio e maturidade que sempre me atraiu, tambm 
notei uma ponta de tristeza e hesitao. Para meu corao dolorido, essa combinao a tornava 
ainda mais bonita. 

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Dezenove 

Sua pequena cozinha era exatamente o que eu esperava de uma casa antiga provavelmente 
reformada meia dzia de vezes durante o ltimo sculo: cho de linleo ligeiramente descascado 
perto das paredes; armrios brancos funcionais e sem adornos  com a superfcie grossa por causa 
das inmeras camadas de tinta ao longo anos  e uma pia de ao inoxidvel instalada abaixo de 
uma janela de madeira que deveria ter sido substituda anos antes. A bancada estava rachando, e 
encostado na parede, havia um fogo a lenha to antigo quanto a prpria casa. Em alguns pontos, 
notava-se a intromisso do mundo moderno: uma grande geladeira e uma lava-louas perto da pia; 
um microondas pendurado em canto, perto de meia garrafa de vinho tinto. Em alguns aspectos, 
lembrava a casa do meu pai. 

Savannah abriu um armrio e pegou uma taa. Voc quer uma taa de vinho? 

Eu balancei minha cabea. Nunca fui muito de beber vinho. 

Fiquei surpreso por ela no guardar a taa diante da minha negativa. Em vez disso, ela pegou a 
garrafa de vinho e serviu; colocou a taa na mesa e se sentou diante dela. 

Sentamos  mesa e Savannah tomou um gole. 

Voc mudou, observei. 

Ela deu de ombros. Muitas coisas mudaram desde a ltima vez que vi voc. 

Ela no disse mais nada e colocou a taa de volta na mesa. Quando falou novamente, tinha a voz 
suave. Nunca pensei que seria o tipo de pessoa que anseia por tomar uma taa de vinho  noite, 
mas eu sou. 

Ela comeou a girar a taa na mesa, e eu me perguntava o que havia acontecido com ela. 

Sabe o engraado?, ela disse. Eu realmente me importo com o sabor. Quando bebi minha 
primeira taa, no sabia o que era bom ou ruim. Agora sou bastante seletiva na hora de comprar. 

Eu no reconhecia plenamente a mulher sentada diante de mim e no sabia como reagir. 

No me entenda errado, ela prosseguiu. Ainda me lembro de tudo que meus pais me ensinaram, 
e quase nunca tomo mais de uma taa por noite. Mas como o prprio Jesus transformou gua em 
vinho, acho que no deve ser um grande pecado. 

Sorri diante desse raciocnio, reconhecendo como era injusto esperar uma verso dela congelada no 
passado. Eu no perguntei nada. 

Eu sei, ela disse. Mas voc estava pensando. 

Por um momento, o nico som na cozinha era o zumbido baixo da geladeira. Sinto muito por seu 
pai, ela disse, alisando uma rachadura no tampo da mesa. Realmente sinto. No sei dizer quantas 
vezes pensei nele nos ltimos anos. 

Obrigado, disse eu. 

#
Savannah comeou a girar a taa de novo, aparentemente perdida no redemoinho lquido. Voc 

quer falar sobre isso?, ela perguntou. 
Eu no tinha certeza, mas ao recostar-me na cadeira, as palavras surpreendentemente vieram. Contei 
sobre o primeiro ataque cardaco, e depois o segundo, sobre as visitas que fiz a ele nos dois anos 
anteriores. Contei sobre nossa crescente amizade, e o conforto que sentia ao lado dele. Falei das 
caminhadas que ele fazia que por fim teve de interromper. Contei sobre meus ltimos dias com ele e 
a agonia de intern-lo em uma clnica. Quando descrevi o enterro e a fotografia que encontrei no 
envelope, ela tomou minha mo. 

Estou feliz que ele tenha guardado para voc, ela disse, mas no fiquei surpresa. 
Eu fiquei, disse, e ela riu. Era um som reconfortante. 
Ela apertou minha mo. Gostaria de ler ficado sabendo. Teria ido ao enterro. 
No foi nada demais. 
No tinha que ser. Ele era seu pai, e isso  tudo que importa. Ela hesitou antes de soltar minha 


mo e tomou outro gole de vinho. 
Voc est pronto para comer?, ela perguntou. 
No sei, disse, ruborizando ao lembrar o comentrio que ela fizera antes. 
Ela se inclinou para frente com um sorriso. Que tal eu esquentar um prato de cozido e vamos ver o 


que acontece? 


Est gostoso?, perguntei. Quer dizer... quando nos conhecemos, antes, voc nunca mencionou 
que soubesse cozinhar. 
 a receita especial da famlia, disse ela, fingindo estar ofendida. Mas tenho de ser honesta: foi 

minha me quem fez. Ela trouxe ontem. 
A verdade vem  tona, disse eu. 
Essa  a coisa engraada sobre a verdade, disse ela. Ela geralmente aparece. Ela se levantou, 


abriu a geladeira e inclinou-se para examinar as prateleiras. Pensava na aliana em seu dedo e em 
onde estaria seu marido quando ela ergue-se com o Tupperware nas mos. Ela colocou algumas 
conchas de cozido em uma tigela e colocou-a no forno de microondas. 

Voc quer mais alguma coisa? Que tal po e manteiga? 
Seria timo, eu concordei. 
Poucos minutos depois, a refeio foi posta  minha frente e o aroma me fez ter conscincia pela 


primeira vez, do quanto eu estava com fome. Surpreendendo-me, Savannah sentou em seu lugar 
novamente, segurando a taa de vinho. 
Voc no vai comer? 


#
No estou com fome, disse. Na verdade, no tenho comido muito recentemente. Ela tomou um 
gole enquanto eu dava minha primeira garfada e deixei o comentrio passar. 

Voc estava certa, disse. Est delicioso. 

Ela sorriu. Mame  uma tima cozinheira. Seria de imaginar que eu tivesse aprendido tambm, 
mas no. Estava sempre muito ocupada. Muito estudo quando era jovem e, ultimamente, muitareforma. Ela apontou para a sala.  uma casa velha. Sei que no parece, 
mas trabalhamos muito 
aqui nos ltimos dois anos. 

Est tima. 

Voc est apenas sendo educado, mas eu agradeo. Ela sorriu. Voc devia ter visto o lugar 
quando me mudei. Estava parecido com o celeiro, sabe? Precisava de um telhado novo, mas engraado, ningum pensa no telhado quando est imaginando reformar.  uma 
daquelas coisas que 
todo mundo espera ter na casa, mas nunca pensa que um dia ter de trocar. Quase tudo que fizemos 
entra nessa categoria. As bombas do aquecedor, janelas trmicas, os danos causados por cupins... 
foram muitos e longos dias. Ela tinha uma expresso sonhadora no rosto. Fizemos a maior parte 
do trabalho ns mesmos. Como esta coza. Sei que precisamos de armrios e piso novos, mas, 
quando nos mudamos, havia poas dgua na sala de estar e nos quartos sempre que chovia. O que 
podamos fazer? Tivemos de priorizar, e uma das primeiras coisas foi trocar todas as telhas do 
telhado. Devia estar quase 40 graus e eu l em cima com uma p, arrancando telhas, criando bolhas 
nas mos. Mas... parecia o certo, sabe? Dois jovens comeando a vida, trabalhando juntos para 
reformar sua casa? Havia uma sensao de... unio. Foi a mesma coisa quando fizemos o piso da 
sala de estar. Deve ter levado duas semanas para lixar e nivelar de novo. Pintamos e envernizamos 
e, quando finalmente pudemos andar sobre ele, parecia o alicerce para o resto de nossas vidas. 

Voc faz parecer quase romntico. 

Foi, de certa forma, ela concordou, colocando uma mecha de cabelo atrs da orelha. Mas 
ultimamente no  to romntico. Agora, s est ficando velho. 

Eu ri inesperadamente, em seguida tossi e procurei um copo que no estava l. 

Ela empurrou a cadeira para trs. Deixa eu pega um pouco de gua para voc, ela disse. Ela 
encheu um copo da torneira e colocou-o diante de mim. Enquanto bebia, sentia que ela me 
observava. 

O que foi?, perguntei. 

No acredito no quanto voc est diferente. 

Eu?, achei difcil de acreditar. 

Sim, voc, ela insistiu. Voc est... mais velho. 

Sim, eu sou mais velho. 

Eu sei, mas no  isso. So seus olhos. Eles esto... mais srios do que antes. Como se tivessem 
visto o que no deveriam. Exaustos, por algum motivo. 

No disse nada em resposta, mas quando notou minha expresso, ela abanou a cabea, 

#
envergonhada. No deveria ter dito isso. No imagino o que voc passou nos ltimos anos. 
Dei outra garfada no cozido, pensando em seu comentrio. Deixei o Iraque no incio de 2004, 
disse. Estou na Alemanha desde ento. S uma parte do exrcito fica l de cada vez, e nos 


revezamos. Provavelmente vou acabar voltando, mas no sei quando. Esperamos que as coisas se 
acalmem um pouco ate l. 
Voc j no deveria ter sado do exrcito? 
Eu me alistei de novo, disse. No havia motivo para no fazer isso. 
Ambos sabamos a razo, e ela concordou. Quanto tempo agora? 
At 2007. 
E depois? 
No tenho certeza. Posso ficar por mais alguns anos. Ou talvez v para a faculdade. Quem sabe. 


Posso at me graduar em educao especial. J ouvi maravilhas sobre a rea. 


Seu sorriso era estranhamente triste e, por instantes, nenhum de ns disse nada. H quanto tempo 
voc est casada?, perguntei. 
Ela ajeitou-se na cadeira. Vai fazer dois anos em novembro. 
Voc se casou aqui? 
Como se eu tivesse escolha. Ela revirou os olhos. A minha me realmente estava a fim dessa 


coisa de casamento perfeito. Sei que sou filha nica, mas, em retrospecto, teria ficado mais feliz 
com algo muito menor. Cem convidados teria sido perfeito. 

Voc considera isso menor? 
Comparado com o que foi? Sim. No havia assentos suficientes para todos na igreja, e meu pai fala 
at hoje que vai passar anos pagando as contas. Ele est s me provocando,  claro. Metade dos 
convidados eram amigos dos meus pais, mas acho que  isso que acontece quando voc se casa em 
sua cidade natal. Todo mundo, do carteiro ao barbeiro,  convidado. 

Mas voc est feliz por estar de volta? 
 confortvel aqui. Meus pais esto perto, e preciso disso, especialmente agora. 
Ela no entrou em detalhes, debando o comentrio no ar. Eu pensava nisso  e em uma centena de 


outras coisas  quando me levantei da mesa e coloquei meu prato na pia. Depois de passar uma 


gua no prato, ouvi-a dizer s minhas costas: 
Pode deixar a. Ainda no tirei a loua da mquina. Vou fazer isso mais tarde. Voc quer mais 
alguma coisa? Minha me deixou duas tortas no balco. 


Que tal um copo de leite?, disse. Quando ela fez meno de se levantar, acrescentei: Eu posso 
pegar. S me diga onde esto os copos. 

#
No armrio da pia. 
Peguei um copo do armrio e fui at a geladeira. O leite estava na prateleira de cima, e nas 


prateleiras inferiores havia pelo menos uma dzia de recipientes Tupperware cheios de comida. 
Enchi o copo e voltei para a mesa. 
O que est acontecendo, Savannah? 
Aps essas palavras, ela virou-se para mim. O que voc quer dizer? 
Seu marido, disse. 
O que tem ele? 
Quando vou conhec-lo? 
Em vez de responder, Savannah levantou da mesa levando a taa de vinho. Despejou o contedo na 


pia e em seguida pegou uma xcara e uma caixa de ch. 
Voc j conheceu, disse ela, virando-se. Ela endireitou os ombros.  Tim. 
*** 
Eu ouvia a colher batendo contra a xcara quando Savannah sentou novamente  minha frente. 
O quanto voc quer saber?, ela murmurou, olhando a xcara de ch. 
Tudo, disse eu. Eu me recostei na cadeira. Ou nada. Ainda no tenho certeza. 
Ela bufou. Acho que faz sentido. 
Eu uni as mos. Quando comeou? 
No tenho certeza, ela disse. Sei que parece loucura, mas no aconteceu como voc 


provavelmente imagina. No  que um de ns tenha planejado. Ela colocou a colher na mesa. 


Mas, para dar alguma resposta, acho que comeou no incio de 2002. 
Poucos meses depois que eu me realistei, percebi. Seis meses antes do primeiro ataque cardaco do 
meu pai e exatamente na poca em que notei que as cartas dela comearam a mudar. 


Voc sabe que ramos amigos. Mesmo ele estando na ps-graduao, acabamos fazendo algumas 
aulas no mesmo prdio durante meu ltimo ano na faculdade. No fim das aulas, amos tomar caf 
ou acabvamos estudando juntos. No eram encontros, nem ficvamos de mos dadas. Tim sabia 
que eu estava apaixonada por voc... mas ele estava presente, sabe? Ele ouvia quando eu falava o 
quanto sentia sua falta e como a distncia era difcil. E foi difcil. Eu achava que voc j estaria em 
casa nessa poca. 

Quando ela ergueu o olhar, seus olhos estavam cheios do qu? Arrependimento? No dava para 

saber. 
De qualquer forma, passamos muito tempo juntos, e ele me consolava sempre que eu estava para 
baixo. Sempre me lembrava que voc estaria aqui de licena antes do que eu esperava, e voc no 

#
imagina o quanto eu queria ver voc novamente. Ento, seu pai ficou doente. Sei que voc tinha de 
ficar com ele, eu nunca teria lhe perdoado se voc no ficasse ao lado dele, mas no era o que 
precisvamos. Sei como isso parece egosta, e me odeio por ter pensado assim. Mas parecia que o 
destino estava conspirando contra ns. 

Ela ps a colher no ch e mexeu de novo, recolhendo seus pensamentos. 

Naquele outono, aps terminar todas as minhas aulas e voltar para casa para trabalhar no centro de 
aviao de desenvolvimento da cidade, os pais de Tim se envolveram em um acidente horrvel. Eles 
estavam voltando de carro de Asheville, quando perderam a direo e foram parar do outro lado da 
pista, na contramo da rodovia. Uma carreta acabou batendo neles. O motorista do caminho no 
ficou ferido, mas os pais de Tim morreram na batida. Tim teve de abandonar a escola  ele estava 
tentando entrar no doutorado , para voltar e cuidar de Alan. Ela fez uma pausa. Foi terrvel para 
Tim. No s ele tinha de lidar com a perda - ele adorava os pais , mas Alan tambm estava 
inconsolvel. Ele gritava o tempo todo, arrancava os cabelos. O nico que conseguia fazer com que 
ele parasse de se ferir foi Tim, mas isso drenou toda sua energia. Acho que foi quando comecei a vir 
para c. Voc sabe, para ajudar. 

Quando franzi a testa, ela acrescentou: esta era a casa dos pais de Tim. Onde Tim e Alan 
cresceram. 

To logo ela disse isso, a lembrana voltou. Claro que era a casa de Tim  uma vez ela me contou 
que ele morava no rancho ao lado dos pais dela. 

Acabamos consolando um ao outro. Tentei ajud-lo, ele tentou me ajudar e ns dois tentamos 
ajudar Alan. E, pouco a pouco, eu acho, comeamos a nos apaixonar. 

Pela primeira vez, ela olhou nos meus olhos. 

Sei que voc deve estar irritado com Tim ou comigo. Provavelmente com os dois. E acho que 
merecemos. Mas voc no sabe como foi aquela poca. Tanta coisa acontecendo, tantas emoes o 
tempo todo. Eu me senti culpada com o que estava acontecendo, Tim se sentiu culpado. Mas, depois 
de um tempo, comeamos a nos sentir como se j fssemos um casal. Tim comeou a trabalhar no 
mesmo centro de avaliao de desenvolvimento que eu, e decidiu que queria montar um programa 
de fim de semana no rancho para crianas autistas. Seus pais sempre quiseram que ele fizesse isso, 
ento me voluntariei para trabalhar aqui tambm. Depois disso, passvamos quase todo o tempo 
juntos. Montar o rancho nos fez concentrar em algo, e tambm ajudou Alan. Ele ama cavalos e 
havia tanto para fazer que gradativamente ele se acostumou ao fato de seus pais no estarem por 
perto. Foi como se ns todos estivssemos nos apoiando uns nos outros... De qualquer modo, ele me 
pediu em casamento no fim daquele ano. 

Quando ela parou, eu virei, tentando digerir suas palavras. Ficamos em silncio por um tempo, 
ambos lutando com os prprios pensamentos. 

Ento,  essa histria, concluiu. No sei o quanto mais voc quer saber. 

Eu tambm no tinha certeza. 

Alan ainda mora aqui?, perguntei. 

Ele tem um quarto no andar de cima. Na verdade, o mesmo quarto de sempre. No entanto, no  
to difcil quanto parece. Depois que ele termina de se alimentar e escovar os cavalos, geralmente 

#
passa a maior parte do tempo sozinho. Ele adora videogames.  capaz de jogar por horas. 
Ultimamente, no consigo faz-lo parar. Ele jogaria a noite toda se eu deixasse. 

Ele est aqui agora? 

Ela balanou a cabea. No, disse. Agora ele est com Tim. 

Onde? 

Antes que ela pudesse responder, o co comeou a arranhar insistentemente a porta, e Savannah 
levantou-se para abri-la. O co entrou com a lngua para fora e abanando o rabo. Veio na minha 
direo e cheirou minha mo. 

Ele gosta de mim, disse. 

Savannah ainda estava perto da porta. Ela gosta de todos. O nome dela  Molly. Intil como co deguarda, mas doce como uma flor.  s tentar evitar a baba. Ela 
vai babar em voc todo, se voc 
deixar. 

Olhei para o meu jeans. Deu pra notar. 

Savannah fez sinal por cima do ombro. Olha, lembrei que ainda tenho que guardar algumas coisas. 
Deve chover  noite. No demoro muito. 

Notei que ela no tinha respondido a pergunta sobre Tim. Nem pretendia responder. 

Voc precisa de uma mo? 

Na verdade no. Mas voc  bem-vindo. A noite est bonita. 

Eu a segui, com Molly andando  nossa frente, tendo esquecido completamente que acabara de 
pedir para entrar na casa. Quando uma coruja apareceu entre as rvores, Molly correu na escurido 
e desapareceu. 

Savannah colocou as botas novamente. 

Caminhamos em direo ao celeiro. Pensei em tudo o que ela disse e me questionei de novo porque 
tinha vindo. No sabia se estava feliz por ela ter casado com Tim - j que eles pareciam perfeitos 
um para o outro - ou chateado pela mesma razo. Nem estava contente por finalmente saber a 
verdade. De algum modo, percebi, era mais fcil no saber. De repente, simplesmente me senti 
cansado. 

E, no entanto... sabia que ela estava escondendo algo. Ouvi em sua voz, na ponta de tristeza que nodesaparecia.  medida que a escurido nos envolvia, aguava-se 
a percepo de como estvamos 
prximos, e me perguntei se ela sentia o mesmo. Mas ela no deu nenhum sinal disso. 

Os cavalos eram meras sombras na distncia, manchas sem uma forma reconhecvel. Savannah 
recolheu um par de rdeas, levou-as ao celeiro e pendurou-as em dois pinos. Enquanto isso, peguei 
as ps que havamos usado e arrumei-as junto ao resto das ferramentas. Na volta, ela checou bem se 
havia trancado o porto. 

Olhando para o relgio, vi que eram quase dez horas. Era tarde, e ns dois estvamos conscientes 

#
do horrio. 


Acho que devo ir andando, disse.  uma cidade pequena. No quero ser a causa de qualquer 
fofoca. 
Voc provavelmente est certo. Molly apareceu do nada, perambulando, e sentou-se entre ns. 


Ela se enrolou nas pernas de Savannah, indo para o lado. Onde voc est hospedado?, ela 
perguntou. 
Em um hotelzinho de beira de estrada. Na sada da cidade. 
Ela franziu o nariz, mesmo que por um instante. Conheo o lugar. 


 uma espelunca, admiti. 
Ela sorriu. No posso dizer que esteja surpresa. Voc sempre teve faro para encontrar os lugares 
mais peculiares. 


Como a Cabana do Camaro? 


Exatamente. 


Enfiei as mos nos bolsos, imaginando se seria a ltima vez que nos veramos. Se fosse o caso, teria 


sido um absurdo anticlmax; eu no podia deixar tudo acabar em conversa afiada, mas no 


conseguia pensar em nada para falar. 
Na estrada em frente, os faris de um carro em movimento iluminaram a propriedade quando 
passaram em velocidade pela casa. 


Ento acho que  isso, perplexo. Foi bom ver voc de novo. 


Voc tambm, John. Estou contente que tenha vindo. 


Concordei novamente. Quando ela desviou o olhar, tomei como um sinal para partir. 


Adeus, disse eu. 


Adeus. 


Virei e comecei a andar para o carro, tonto ao pensar que tudo estava realmente acabado. No sabia 


se esperava qualquer coisa diferente, mas o fim trouxe  tona todos os sentimentos represados desde 
que eu lera aquela ltima carta. 
Eu estava abrindo a porta do carro quando a ouvi gritar. 
Ei, John? 
Sim? 
Ela desceu da varanda e veio na minha direo. Voc vai estar por aqui amanh? 
Enquanto ela se aproximava, seu rosto parcialmente na sombra, tive certeza de que ainda estava 


#
apaixonado. Apesar da carta, apesar do seu marido. Apesar do fato de que nunca mais poderamos 
ficar juntos. 

Por qu?, perguntei. 

Estava imaginando se voc gostaria de aparecer. Por volta das dez. Tenho certeza que Tim gostaria 
de encontrar voc... 

Eu estava balanando a cabea antes mesmo de ela ter terminar. No tenho tanta certeza de que 
seja uma boa ideia. 

Voc faria isso por mim? 

Sabia que ela queria que eu visse que Tim ainda era o mesmo homem de sempre e, de certo modo, 
sabia que ela estava me convidando porque queria meu perdo. Ainda assim... 

Ela pegou minha mo. Por favor. Significaria muito para mim. 

Apesar do calor da mo dela, eu no queria voltar. No queria ver Tim, no queria ver os dois juntos 
ou sentar-me  mesa fingindo que tudo parecia bem. Mas havia algo melanclico naquele pedido, 
que tornou impossvel declinar. 

Ok, eu disse. Dez horas. 

Obrigada. 

Um momento depois, ela se virou para voltar. Permaneci no local, observando-a subir no alpendre 
antes de entrar no carro. Virei a chave e esperei. Savannah estava no alpendre, acenando uma ltima 
vez. Acenei de volta e peguei a estrada, a imagem dela cada vez menor no espelho retrovisor. Ao 
observ-la, senti uma sbita secura na garganta. No porque ela estava casada com Tim, e no 
porque iria v-los juntos no dia seguinte. Mas porque, enquanto eu me afastava, vi Savannah em p 
no alpendre, chorando. 

*********** 

#
Vinte 

Na manha seguinte encontrei Savannah em p no alpendre,e ela acenou quando entrei no rancho. 
Ela se aproximou enquanto eu estacionava. Eu meio que esperava ver Tim na porta atrs dela, mas 
ele nao apareceu. 
"Oi", disse ela, tocando meu brao. "Obrigada por ter vindo." 
"Imagina", eu disse, encolhendo os ombros relutante. 
Vislumbrei um lampejo de compreenso em seus olhos quando ela perguntou: "Voc dormiu bem?" 
"No muito." 
Ela deu um sorriso irnico. "Voc est pronto?" 
"Como sempre." 
"Tudo bem", ela disse. "Deixe-me apenas pegar as chaves. A menos que voc queira dirigir." 
No entendi de primeira o que isso queria dizer. "Vamos sair?" Indiquei a casa. "Pensei que iramos 
ver Tim." 
"Ns vamos", ela disse. "Ele no est aqui." 
"Onde ele est?" 
Foi como se ela no tivesse ouvido. " Voc quer dirigir?" 
"Sim, acho que sim", disse, sem esconder a minha confusomas sabendo que ela de alguma forma 
esclareceria as coisasquando estivesse pronta. Abri a porta para ela e contornei o carro at o banco 
do motorista para sentar-me ao volante. Savannah passou a mo sobre o painel, como se estivesse 
tentando provar para si mesma que era real. 
"Eu me lembro deste carro." Tinha uma expresso de nostalgia. "Era do seu pai, certo?Uau, no 
acredito que ainda esteja andando." 
"Ele no dirigia tanto assim", disse. "S ia trabalhar e faszer compras." 
"Ainda assim." 
Ela colocou o cinto de segurana, e me perguntava se ela passara a noite sozinha. 
"Para que lado?", perguntei. 
"Na estrada, vire  esquerda", disse ela. "Direto para a cidade." 
Nenhum de ns falou. Ela passou o tempo todo olhando pela janela do passageiro com os braos 
cruzados. Eu podia ter ficado ofendido, mas nada em sua expresso denunciava que aquela 
preocupao tinha a ver comigo, e deixei-a sozinha com seus pensamentos. 


Nos arredores da cidade, ela balanou a cabea, como se repentinamente tomasse conscincia do 
silncio em que estvamos."Sinto muito," disse. "Acho que minha companhia deixa muito a 
desejar." 
"Tudo bem", disse, tentando mascarar a minha crescente curiosidade. 
Ela apontou em direo ao parabrisa. "Na prxima esquina, vire  direita." 
"Aonde estamos indo?" 
Ela no respondeu de imediato. Em vez disso, olhou pela janela do passageiro. 
"O hispital", disse finalmente 
*** 
Segui-a atravs de corredores aparentemente interminveis, at finalmente chegar  recepo dos 
visitantes. Atrs do balco, um voluntrio idoso estendeu uma prancheta. Savannah pegou a caneta 
e assinou seu nome automaticamente. 
"Voc est firme, Savannah?" 
"Tentando", Savannah murmurou. 
"Vai ficar tudo bem. A cidade inteira est rezando por ele" 
"Obrigada", disse Savannah. Ela devolveu a prancheta e olhou para mim. " Ele est no terceiro 
andar", explicou. " Os elevadores ficam ali no corredor." 
Eu a segui com um nervoso no estmago. Chegamos ao elevador no momento em que algumas 
pessoas desciam. Quando as portas se fecharam, parecia que estvamos em um tmulo. 
As portas do elevador se abriram no terceiro andar, e Savannah seguiu pelo corredor comigo a 


#
reboque. Ela parou diante de um quarto que estava com a porta aberta e virou-se para mim. 
"Acho que devo entrar primeiro", disse ela. "Voce pode esperar aqui?" 
"Claro." 
Ela demonstrou gratido e virou-se em seguida. Deu um longo suspiro antes de entrar na sala. " Oi 
querido", a ouvi dizer com a voz animada. "Voc est bem?" 


No ouvi mais do que isso nos dois minutos seguintes. Fiquei no corredor, absorvendo o mesmo 
ambiente estril e impessoal que conhecera enquanto acompanhava meu pai. O ar cheirava a 
desinfetante genrico, e v um auxiliar de enfermagem empurrar um carrinho com comida para 
dentro de um quarto. Na metade do corredor, notei um grupo de enfermeiras atrs de um balco. 
Atrs da porta da frente, algum vomitava. 
"Tudo bem", disse Savannah, colocando a cabea para fora. Por baixo da aparncia corajosa, eu 
ainda notava sua tristeza. "Pode entrar. Disse para ele esperar uma surpresa." 
Eu a segui, me preparando para o pior. Tim estava sentado na cama com um cateter ligado a seu 
brao. Parecia exausto, e sua pele estava translcida de to plida. Ele havia emagrecido ainda mais 
do que meu pai, e quando o vi, meu nico pensamento era que ele estava morrendo. S a bondade 
em seus olhos no fora afetadas. Do outro lado da sala havia um jovem no final da adolescncia, 
talvez com vinte anos, balanando a cabea de um lado para o outro, e soube imediatamente que era 
Alan. O quarto estava repleto de flores: dezenas de buqus e cartes espalhados por todas as 
mesas.Savannah sentou na cama ao lado do marido e pegou sua mo. 
"Oi, Tim", eu disse.
Ele parecia cansado demais para sorrir, mas conseguiu mesmo assim. "Oi, John.  bom ver voc de 
novo." 
"Voc tambm", disse. "Como voc est?" 
Assim que falei, percebi como soava ridculo. Tim devia estar acostumado, pois no hesitou. 
"Estou bem", disse. "Estou me sentindo melhor agora." 
Concordei. ALan continuou a balanar a cabea. Fiquei olhando para ele e me sentindo um intruso 
em eventos que gostaria de poder ter evitado. 
"Este  meu irmo, Alan" ele disse. 
"Oi, Alan." 


Como Alan no respondeu, Tim susurrou: "Ei, Alan. Tudo bem. Ele no  mdico.  um amigo. V 
dizer ol." 
Levou alguns segundos, mas Alan finalmente se levantou da cadeira. Ele caminhou com dificuldade 
pelo quarto e, apesar de no me olhar nos olhos, estendeu a mo. "Oi, eu sou o Alan", disse com a 
voz surpreendentemente monocrdica. 
"Prazer em conhec-lo", respondi, apertando sua mo. Era flcida. Ele chacoalhou uma vez, depois 
soltou e voltou ao seu lugar. 
"H uma cadeira se voc quiser sentar", disse Tim. 
Atravessei o quarto e me sentei. Antes que pudesse falar, Tim respondeu  pergunta em minha 
cabea. 
"Melanoma" , disse ele. " Caso voc esteja se perguntando." 
"Mas voc vai ficar bem, certo?" 
Alan balanou a cabea ainda mais rpido e comeou a bater suas coxas. Savannah se virou. Eu j 
sabia a resposta e desejei no ter feito a pergunta. 
"Isso  o que os mdicos acham", Tim repondeu. "estou em boas mos". Sabia que a resposta era 
mais para Alan que para mim, e Alan comeou a se acalmar. 
Tim fechou os olhos e os abriu novamente, tentando reunir foras. "Estou contente de ver que voc 
voltou inteiro", disse ele. "Rezei por voc o tempo todo que voc esteve no Iraque." 
"Obrigado", disse eu. 
"O que voc tem feito?Ainda no exrcito, suponho." 
Ele indicou meu corte de cabelo, e eu passei a mo no cabelo. " Sim. Parece que estou virando um 


#
dos soldados que se alistam pela vida toda." 
"Bom", disse ele. " O Exrcito precisa de pessoas como voc." 
No disse nada. A cena me pareceu surreal, era como ver a si mesmo em um sonho. Tim virou para 
Savannah. "Querida, voc leva o Alan para pegar um refrigerante? Ele no bebeu nada desde cedo. 
E, se voc puder, talvez consiga convenc-lo a comer." 
"Claro", disse ela. Savannah beijou-o na testa e levantou-se da cama. Ela parou na porta. "Vamos, 
Alan. Vamos pegar algo para beber, ok?" 


Para mim, parecia que Alan processava as palavras lentamente. Finalmente, ele se levantou e seguiu 
Savannah, ela colocou a mo nas costas dele a caminho do corredor. Quando os dois saram, Tim 
me encarou novamente. 
Isso tudo  realmente muito difcil para Alan. Ele no est aceitando bem. 
E como poderia? 
Mas no se engane com o gato de ele balanar a cabea. No tem nada a ver com autismo ou
inteligncia.  mais como um tique que ele tem quando est nervoso. A mesma coisa quando ele 
comeou a bater nas coxas. Ele sabe o que est acontecendo, mas  afetado de um jeito que 
normalmente deixa os outros desconfortveis. 
Unia as mos. No me deixa desconfortvel, disse eu. Meu pai tambm tinha as dele. Ele  seu 
irmo, e  bvio que est preocupado. Faz sentido.
Tim sorriu.  gentileza sua dizer isso. Um monte de gente fica assustada. 
Eu no, disse, balanando a cabea. Sei que posso com ele. 
Extraordinariamente, ele riu, mas isso exigiu um grande esforo. 
Tenho certeza que pode, disse. Alan  delicado. Provavelmente muito delicado. Ele nem mesmo 
mata moscas. 
Concordei, reconhecendo que toda aquela conversa era apenas o jeito dele de me deixar mais 
confortvel. No estava funcionando. 
Quando descobriu? 
Um ano atrs. Senti coceira em uma verruga na parte de trs da perna. Quando cocei, ela sangrou. 
Eu no me preocupei,  claro, at voltar a sangrar quando cocei de novo. Seis meses atrs, fui ao 
mdico. Foi em uma sexta-feira. Fiz a cirurgia e comecei o tratamento com interferon* na segunda 
feira. Agora estou aqui." 
"Voc ficou esse tempo todo no hostital?" 
"No. Entro e saio. Normalmente, o interferon  administrado no ambulatrio, mas eu e ele no nos 
damos muito bem. Tenho intolerncia, ento agora eles fazem aqui, para o caso de eu ficar muito 
enjoado ou me desidratar. Como aconteceu ontem." 


*INTERFERON: Protena produzida por animais usada no tratamento de cncer e de outras 
doenas. 


"Sinto muito", disse. 
"Eu tambm." 
Olhei ao redor e meus olhos pousaram sobre um porta-retratos barato na cabeceira de Tim no qual 
ele e Savannah aparecem em p abraando Alan. "Como Savannah est reagindo?", perguntei. 
"Como era de se esperar." Tim alisou uma dobra na sua ficha do hospital com a mo livre. "Ela tem 
sido tima. No s comigo, mas tambm com o rancho. Ela tem de cuidar de tudo ultimamente, mas 
nunca reclama. E sempre que est comigo, tenta ser forte. Ela vive me dizendo que tudo vai dar 
certo." Ele esboou um sorriso amarelo. "Metade do tempo, ainda acredito nela." 
Quando no respondi, ele se esforou para sentar mais reto na cama. Ele estremeceu, mas a dor 
passou, e ele voltou a si. " Savannah contou que voc jantou no rancho na noite passada." 
"Sim", disse. 
"Aposto que ela ficou contente de ver voc. Sei que ela sempre se sentiu mal por ter acabado do 
jeito que acabou, e eu tambm. Devo um pedido de desculpas a voc." 


#
"No", levantei as mos. "Est tudo bem." 
Ele sorriu irnico. "Voc s diz isso porque estou doente, e ambos sabemos disso. Se eu estivesse 
saudvel, provavelmente voc iria quebrar meu nariz de novo." 
"Talvez", admiti. Ele riu de novo, e desta vez ouvi o som da doena em sua risada. 
"Eu mereci", ele disse, alheio aos meus pensamentos. "Sei que voc pode no acreditar, mas me 
sinto mal com o que aconteceu. Sei que vocs dois realmente gostavam um do outro." 
Debrucei-me, apoiando em meus cotovelos. "O que passou, passou", disse. 
Eu no acreditei, e ele no acreditou em mim quando eu disse isso. Mas foi o suficiente para ns 
dois deixarmos isso de lado. " O que te trouxe aqui?Depois de todo esse tempo?" 
"Meu pai faleceu", eu disse. " Na semana passada." 
Apesar da doena seu rosto refletiu uma simpatia genuna. "Sinto muito, John. Sei o quanto ele 
significava para voc. Foi repentino?" 
"No final, sempre . Mas ele estava doente havia algum tempo." 


"Isso no significa que seja mais fcil." 
Fiquei me perguntando se ele se referia s a mim ou a Savannah e Alan tambm. 
"Savannah me disse que voc perdeu seus pais." 
"Acidente de carro", disse ele, forando as palavrsa. "Foi...inacreditvel. Tinhamos acabado de 
jantar com eles duas noites antes, e no memento seguinte, eu estava tomando as providncias para 
os enterros. Antes no parece real. Sempre que estou em casa, acho que vou ver minha me na 
cozinha meu pai cuidando do jardim." Ele hesitou, e eu sabia que ele estava revivendo tais imagens. 
Por fim, ele balanou a cabea."Isso aconteceu com voc? Quando estava em casa?" 
"O tempo todo." 
Ele inclinou a cabea para trs. "Parece que foram dois anos bem difceis para ns dois. O suficiente 
para nos fazer duvidar da f." 
"At mesmo voc?" 
Ele deu um sorriso indiferente. "Eu disse duvidar. No disse que minha f acabou." 
"No, no creio que acabaria." 
Ouvi a voz de uma enfermeira se aproximando. Achei que ela fosse entrar, mas ela continuou seu 
caminho para outro quarto. 
"Estou feliz que voc veio para ver Savannah", ele disse. "Sei que soa banal, considerando tudo o 
que vocs dois passaram, mas ela precisa de um amigo agora." 
Minha gasrganta estava apertada. "Sim", foi tudo que conseguiu pensar e dizer. 
Ele ficou quieto, e entendi que no diria mais nada sobre o assunto. Com o tempo, Tim pegou no 
sono e fiquei ali sentado olhando para ele, minha cabea curiosamente vazia 
*** 
"Desculpe no ter contado ontem", Savannah falou uma hora depois. Quando ela e Alan voltaram 
ao quarto e encontraram Tim dormindo, ela fez sinal para eu a seguir at a lanchonete. "Fiquei 
surpresa de ver voc, e sabia que deveria ter contado, mas todas as vezes que eu tentei, 
simplismente no consegui." 


Havia duas xcaras de ch na mesa, j que nenhum de ns tinha apetite. Savannah ergueu a xcara e 
colocou-a de volta. 
" que ontem foi um daqueles dias, sabe? Passei horas no hospital, sob os olhares piedosos das 
enfermeiras e... bem, parece que eles me matam aos pouquinhos. Sei que isso  ridculo, j que Tim 
vai superar, mas  to difcil v-lo doente. Eu odeio. Sei que preciso estar presente para apoi-lo e 
quero estar presente, mas a questo  que  sempre pior do que eu esperava. Ele ficou to mal 
depois do tratamento ontem que pensei que ele estava morrendo. Ele no parava de vomitar, e 
quando no saa mais nada, ele vomitava seco. A cada cinco ou dez minutos, ele comeava a gemer 
e se mexer na cama tentando evitar, mas no podia fazer nada. Eu o abracei e confortei, mas no sei 
nem como comear a descrever o quanto isso me deixa desamparada." Ela tirou o sach de ch de
dentro da gua. " assim toda vez", disse. 


#
Fiquei mexendo na asa da minha xcara. "Gostaria de saber o que dizer." 
"No h nada que voc possa dizer, eu sei. Por isso estou contando a voc. Porque sei que voc 
consegue lidar com isso. Realmente no tenho mais ningum. Nenhum dos meus amigos pode 
entender o que estou passando. Minha me e meu pai tm sido timos, mas...Sei que faro qualquer 
coisa que eu pedir, esto sempre se oferecendo para ajudar, e mame traz comida para ns. Mastoda vez que aparece, ela est uma pilha de nervos, esto sempre  beira 
do choro.  como se ela 
morrese de medo de dizer ou fazer algo errado. Por isso, quando tenta ajudar, eu que tenho de 
apoi-la em vez do contrrio. Odeio falar isso dela, porque ela est dando o mximo,  minha me e 
eu a amo, mas queria que ela fosse mais forte, sabe?" 
Lembrando a me dela, assenti. " E o seu pai?" 

"O mesmo, mas de um jeito diferente. Ele evita o assunto. No quer falar nada a respeito. Quandoestamos juntos, conversa sobre o rancho, o meu trabalho, mas nada 
de Tim.  como se tivesse 
tentando compensar a preocupao incessante da minha me, mas nunca pergunta o que est 
acontecendo ou como eu estou suportando. Ela balanou a cabea.  E por fim h Alan. Tim  to 
bom com ele, e gosto de pensar que est ficando melhor, mas ainda... h momentos em que ele 
comea a se machucar ou quebrar as coisas, e eu acabo chorando porque no sei o que fazer. No 
me interprete mal, eu tento, mas no sou Tim, e ambos sabemos disso. 
Nos olhamos nos olhos por um momento antes de eu desviar os meus. Tomei um gole de ch, 
tentando imaginar como era a vida dela agora. 
"Tim contou o que est acontecendo? O melanoma?" 
"Um pouco", disse. " No o suficiente para saber a histria toda. Ele disse que achou uma verruga 
que estava sangrando. Ele no deu importncia por um tempo, at que foi procurar um mdico."
Ela assentiu. " uma dessas coisas loucas, no? Quero dizer, se Tim tomasse muito sol, talvez eu 
entendesse. Mas foi na parte de trs da perna. Voc o conhece, consegue imagin-lo de bermuda? 
Ele quase nunca usa shorts, mesmo na praia, e sempre enchia todo mundo para passar protetor solar. 
Ele no bebe, no fuma,  cuidadoso com o que come. Mas, por algum motivo, teve um melanoma. 
Eles cortaram a rea em volta da verruga e, por causa do tamanho, retiraram dezoito glnglios 
linfticos. Dos dezoito, um deu positivo para melanoma. Ele comeou o interferon, que  o 
tratamento padro e dura um ano inteiro, e tentamos ficar otimistas. Mas depois as coisas 
comearam a dar errado. Primeiro com o interferon, depois ele teve celulite na inciso junto  
virilha algumas semanas aps a cirurgia." 
Quando franzi a tesra, ela se deteve. 

"Desculpe. Estou to acostumada a falar com mdicos estes dias. Celulite  uma infeco da pele, e 
a de Tim foi muito grave. Ele passou dez dias na unidade de terapia internsiva por causa disso. 
Pensei que iria perd-lo, mas ele  um lutador, sabe?Ele sarou e continuou o tratamento.Porm, no 
ms passado encontramos leses cancergenas perto do local do melanoma original. Isso, claro, 
significava outra rodada de cirurgia, e pior ainda, significava que o interferon provavelmente no 
estava funcionando to bem quanto devia. Ento ele fez uma tomografia PET e uma ressonncia 
magntica, e eles encontraram algumas clulas cancergenas no pulmo." 
Ela olhou para a xcara de ch. Eu estava sem palavras, e me sentia exausto. Ficamos em silncio 
por um longo tempo. 
"Sinto muito", finalmente sussurei. 
Minhas palavras a despertaram. "No vou desistir", ela disse, sua voz comeando oscilar. "Ele  um 
homem to bom. Ele  doce, paciente, e eu o amo muito. No  junto. No faz dois anos que 
estamos casados." 
Ela olhou para mim e respirou fundo algumas vezes, tentando recuperar a compostura. 
"Ele precisa sair daqui. Deste hospital. A nica coisa que eles fazem aqui  o interferon, e, como eu 
disse, no esta funcionando como deveria. Ele precisa ir para algum lugar como o MD Anderson 
ou Mayo Clinic ou o Johns Hopkins. H pesquisas de ponta em andamento nesses lugares. Se o 
inteferon no est funcionando, pode haver outra droga para adicionar- eles esto sempre fazendo 

#
combinaes, mesmo experimentais. Esto fazendo bioquimioterapia e testes clnicos. MD Anderso 
deve comear a testar uma vacina novembro- no para preveno, como a maioria das vacinas, mas 
para tratamento-, e os dados preliminares tem mostrado bons resultados. Eu quero que ele faa parte 
dessa pesquisa." 
"Ento v", eu insisti. 
Ela deu uma risada curta. "No  assim to fcil." 
"Por qu? Parece bastante simples para mim. Assim que ele sair daqui, vocs entram no carro e 
vo." 


Nosso seguro no pagar por isso, disse ela. Pelo menos no agora. Ele est recebendo o 
tratamento padro. E, acredite se quiser, a companhia de seguros tem sido bastante sensvel at 
agora. Eles pagaram todas as internaes, todos os interferon, e todos os extras sem problemas. Eles 
at designaram uma assistente social para mim, e ela  simptica  nossa situao. Mas no h nada 
que ela possa fazer, pois o mdico acha que  melhor darmos o interferon por mais tempo. 
Nenhuma companhia de seguros do mundo vai pagar por tratamentos experimentais. E nenhuma 
seguradora aceita pagar tratamentos fora do padro, especialmente em outros Estados e quando no 
h certeza de que vo funcionar. 
Processe-os se for preciso. 
John, nossa seguradora no pestanejou para pagar todos os custos de UTI e internaes extras, e a 
verdade  que Tim est recebendo o tratamento adequado. A questo , no posso provar que Tim 
ficar melhor em outro lugar, recebendo tratamentos alternativos. Acho que poderia ajud-lo, tenho 
esperana de que iria ajud-lo, mas ningum tem certeza absoluta. Ela balanou a cabea, De 
qualquer forma, mesmo se eu levar isso  justia e a companhia de seguros acabar pagando tudo, 
isso leva tempo... exatamente o que no temos.Ela suspirou. Meu ponto em no se trata apenas de 
dinheiro,  um problema de tempo. 
De quanto voc est falando? 
Muito. E se Tim acabar no hospital com infeco e for para a UTI de novo, no consigo nem 
imaginar. Mais do que eu jamais vou conseguir pagar, com certeza. 
O que voc vai fazer? 


Arrumar dinheiro, ela disse. No tenho escolha. E a comunidade tem ajudado. To logo 
souberam sobre Tim, fizeram reportagens na televiso local e no jornal, e as pessoas da cidade 
inteira prometeram comear a recolher dinheiro. Eles abriram uma conta bancria especial e tudo. 
Meus pais ajudaram. O lugar que ns trabalhamos ajudou. Os pais de algumas crianas com quem 
trabalhamos ajudaram. Ouvi dizer que ainda tem jarros com doaes em muitos estabelecimentos. 
Lembrei-me da viso do frasco ao final do balco no salo de bilhar, no dia em que cheguei a 
Lenoir. Eu tinha contribudo com dois dlares, mas de repente aquilo me pareceu completamente 
inadequado. 
Falta muito? 
No sei. Ela balanou a cabea, como se no quisesse pensar a respeito. Isso comeou h pouco 
tempo, e desde que Tim est em tratamento, eu fico aqui e no rancho. Mas estamos falando de um 
monte de dinheiro. Ela afastou a xcara de ch e abriu um sorriso triste.  Nem sei porque estou 
contando a voc. Quer dizer, no posso garantir que nenhum desses lugares ir ajud-lo. S sei dizer 
que, se ele ficar, no vai sobreviver. Isso tambm pode acontecer nos outros lugares, mas pelo 
menos h uma chance... e agora, isso  tudo que tenho. 
Ela parou, incapaz de continuar, olhar perdido sobre a mesa manchada. 
Voc quer saber o que  louco?, ela perguntou afinal. Voc  o nico para quem contei tudo 
isso.No sei como, sei que  a nica pessoa que pode vir a entender o que estou passando, sem eu 
precisar escolher as palavras.Ela ergueu a xcara e abaixou-a novamente, Sei que no  justo, 
considerando seu pai... 
Tudo bem, tranqilizei-a. 


#
Talvez, ela disse.  Mas tambm  egosta. Voc est tentando lidar com as prprias emoes aps 
perder seu pai, e aqui estou eu, sobrecarregando voc com as minhas, sobre algo que pode ou no 
acontecer. Ela se virou para olhar pela janela da lanchonete, mas eu sabia que ela no estava vendo 

o gramado inclinado do lado de fora. 
Ei, eu disse, pegando a mo dela. Estou falando srio. Estou contente por voc ter me contado, 
mesmo que seja s para desabar. Porque voc acha que vim aqui? Porque eu precisava encontrar 
algum que me ouvisse. 
Com o tempo, Savannah encolheu os ombros. Ento somos assim, hein?Dois guerreiros feridos  
procura de apoio. 
Isso parece muito certo. 
Ela levantou os olhos e encarou os meus.  Sorte nossa, ela sussurou. 
Apesar de tudo, senti meu corao saltar. 
Sim, ecoei. Sorte nossa. 
*** 

Passamos a maior parte da tarde no quarto de Tim. Ele estava dormindo quando chegamos, acordou 
por alguns minutos e depois dormiu novamente. Alan mantinha viglia ai p da sua cama, ignorando 
minha presena e concentrado no irmo. Savannah alernou-se entre a cabeceira de Tim e cadeira ao 
meu lado. Quando ela se aproximava, falvamos da doena de Tim, de cncer de pele em geral, e 
das especificidades dos possveis tratamentos alternativos. Ela passou semanas pesquisando na 
internet e conhecia em detalhes todas as pesquisas em curso. Sua voz nunca subiu acima do 
sussurro, ela no queria que Alan ouvisse. Quando ela terminou, eu sabia mais sobre melanoma do 
que imaginava ser possvel. 
Pouco depois da hora do jantar, Savannah finalmente se levantou. Tim tinha dormido a maior parte 
da tarde, e pelo beijo de despedida que ela lhe deu, ela acreditava que ele continuaria dormindo  
noite tambm. Ela beijou-o uma segunda vez, depois pegou sua mo e indicou a porta. Samos em 
silencio. 
Direto para o carro, disse ela quando estvamos no corredor. 
Voc vai voltar? 
Amanh. Se ele acordar, no quero dar motivo para ele achar que tem que ficar acordado. Ele 
precisa descansar. 
E o Alan? 
Ele vai de bicicleta, disse ela. Ele vem de bicicleta todas as manhas e volta de bicicleta  noite. 
Ele no vai comigo, mesmo se eu pedir. Mas ele vai ficar bem. Vem fazendo a mesma coisa h 
meses. 
Poucos minutos depois, samos do estacionamento do hospital e pegamos o trnsito da noite. O cu 
estava ficando cinza escuro, e nuvens pesadas se formavam no horizonte, pressagiando o mesmo 
tipo de tempestade que se v no litoral. Savannah perdeu-se pensamentos e falou pouco. Em seu 
rosto, vi refletido o mesmo esgotamento que eu sentia. No conseguia imaginar ter que voltar 
amanh, depois de amanh e no dia seguinte, sabendo o tempo todo que havia uma possibilidade de 
ele melhorar em outro lugar. 

Quando chegamos  entrada, olhei para Savannah e notei uma lgrima escorrendo lentamente em 
seu rosto. Essa viso partiu meu corao, mas quando ela notou que eu a observava, pareceu 
surpresa de estar chorando. Decidi estacionar embaixo do salgueiro, ao lado do caminho velho. Foi 
quando as primeiras gotas de chuva comearam a bater no pra-brisa.
 medida que diminua a marcha, me perguntei de novo se seria adeus. Antes que eu pudesse 
pensar em algo para dizer, Savannah virou-se para mim. Voc est com fome?, perguntou. H 
uma tonelada de comida na geladeira. 
Algo naquele olhar me advertia que eu deveria declinar, mas acabei aceitando. Adoraria comer 
algo, disse. 

#
Estou contente, ela respondeu, com voz suave. Realmente no quero ficar sozinha hoje  noite. 
Samos do carro, a chuva aumentou. Corremos at a porta da frente, mas quando chegamos ao 
alpendre, minhas roupas estavam molhadas. Molly nos ouviu, e assim que Savannah abriu a porta, o 
cachorro me ultrapassou disparado pela cozinha na direo da sala de estar. Observando o co, 
pensei na minha chegada no dia anterior e o quanto as coisas haviam mudado no perodo em que 
ficamos separados. Era demais para processar. E como havia feito nas patrulhas no Iraque, blindeime 
para focar apenas no presente e permanecer alerta ao que poderia vir a seguir. Tem um pouco
de tudo, ela gritou a caminho da cozinha.  assim que minha me lida com isso. Cozinhando. 
Temos cozido, chili, empado de frango, porco grelhado, lasanha... Ela tirou a cabea de dentro da 
geladeira quando entrei na cozinha. Alguma coisa te parece apetitosa? 


Qualquer coisa, disse. O que voc quiser est timo. 
Notei um flash de decepo em seu rosto e imediatamente percebi que ela estava cansada de ter de 
tomar decises. Limpei a garganta. 
Lasanha parece bom. 
Tudo bem, ela disse. Vou esquentar um pouco agora. Voc est super faminto ou s com fome? 
Pensei a respeito. S com fome, eu acho. 
Salada? Posso colocar azeitonas pretas e tomate. Fica timo com molho rancheiro e croutons. 
Parece timo. 
Bom, disse ela. No vai demorar. 
Observei Savannah tirar um p de alface e tomates da gaveta inferior da geladeira. Ela lavou-os na 
torneira,cortou os tomates e a alface e jogou-os na tigela de madeira. Ento cobriu a salada com 
azeitonas e colocou-a sobre a mesa. Serviu generosas pores de lasanha em dois pratos e ps o 
primeiro no microondas. Havia uma firmeza em seus movimentos, como se as tarefas simples a 
tranqilizassem. 
Eu no sei sobre voc, mas vou querer uma taa de vinho. Ela apontou para um rack pequeno na 
bancada, perto da pia. Tenho um bom Pinot Noir. 
Vou experimentar uma taa, disse. Voc quer que eu abra? 
No, eu abro. Meu abridor  meio temperamental. 
Ela abriu o vinho e serviu dois copos. Logo ela se sentou  minha frente, nossos pratos servidos. A 
lasanha estava fumegante, e o aroma me fez lembrar como eu estava com fome. Experimentei e 
continuei a comer. 
Uau, comentei. Est muito bom. 
Est, no ?, ela concordou. Em vez de comer, porm, ela tomou um gole de vinho. Tambm  a 
favorita de Tim. Depois que casamos, ele sempre pedia para minha me fazer uma travessa. Ela 
adora cozinhar, e fica feliz quando as pessoas gostam da comida dela. 


Observei-a correr o dedo pela borda do copo. O vinho vermelho capturava a luz como a faceta de 
um rubi. 
Se voc quiser mais, tem bastante, acrescentou ela. Acredite em mim, voc estaria me fazendo 
um favor. Na maioria das vezes, a comida vai para o lixo. Sei que deveria dizer para ela fazer 
menos, mas ela no aceitaria bem.
 difcil para ela, disse. Ela sabe que voc est sofrendo. 
Eu sei. Ela tomou outro gole de vinho. 
Voc vai comer, no vai?, apontei para o prato intocado.
No estou com fome, disse ela.  sempre assim quando Tim est no hospital... Esquento alguma 
coisa, estou com vontade de comer, mas assim que coloco no prato, meu estmago vira. Ela olhou 
para o prato, disposta a experimentar, em seguida, balanou a cabea. 
Faa por mim, pedi. D uma garfada. Voc tem que comer. 
Vou ficar bem 
Parei o garfo a caminho da boca. Faa por mim, ento. No estou acostumado com pessoas me
olhando comer.  esquisito. 


#
Ok. Ela levantou o garfo, pegou um pedacinho minsculo de comida e colocou na boca.  Feliz 
agora? 
Sim, bufei. Foi exatamente o que eu quis dizer. Estou muito mais confortvel. Talvez possamos 
dividir um par de migalhas para a sobremesa. At l continue segurando o garfo e fingindo. 


Ela riu. Estou feliz por voc estar aqui. Disse. Atualmente, voc  o nico que sequer pensaria 
em falar assim comigo. 
Assim como? Honestamente? 
Sim, disse ela. Acredite ou no, p exatamente o que quis dizer. Ela largou o garfo e empurrou 


o prato de lado, ignorando meu pedido. Voc sempre foi bom. 
Eu lembro de pensar a mesma coisa sobre voc. 
Ela jogou o guardanapo sobre a mesa. Tempo bom aquele, hein? 
O jeito que ela me olhou fez o passado retornar como uma avalanche, e por um momento revivi 
cada emoo, cada esperana e cada um de nossos sonhos. Ela era de novo a moa que conheci na 
praia com a vida toda pela frente, uma vida da qual eu queria fazer parte. 
Ento, ela passou a mo pelos cabelos, e a aliana em seu dedo refletiu a luz. Baixei os olhos, 
concentrando-me no meu prato. 
Algo assim. 
Dei mais uma garfada, tentando sem sucesso apagar as imagens. Assim que engoli, ataquei a 
lasanha novamente. 
O que h de errado?, ela perguntou. Voc est irritado? 
No, menti. 
Voc est agindo como se estivesse. 
Ela era a mulher de que eu me lembrava, porm casada. Tomei um gole de vinho  um gole, 
observei, equivalia a todos os golinhos que ela tomara. Eu me recostei na cadeira. Por que estou 
aqui, Savannah? 
O que quer dizer?, disse ela. 
Isto, eu disse, indicando a cozinha ao redor. Me convidar para jantar, mesmo sem vontade de 
comer. Relembrar os velhos tempos. O que est acontecendo? 
No est acontecendo nada, ela insistiu. 
Ento o que ? Por que voc me convidou para entrar? 
Em vez de responder a pergunta, ela levantou e encheu a taa de vinho.  Acho que s preciso de 
algum para conversar, ela sussurrou. Como eu disse, no posso falar com minha me ou meu 
pai, no posso falar nem com Tim desse jeito. Ela parecia quase derrotada. Todo mundo precisa 
de algum para conversar. 
Ela estava certo, e eu sabia disso. Foi a razo pela qual vim para Lenoir. 
Eu entendo, disse, fechando os olhos. Quando abri os olhos de novo, vi que Savannah estava me
avaliando.  s que no sei ao certo o que fazer com tudo isso. O passado. Ns. Voc casada. 
Mesmo o que est acontecendo com Tim. Nada disso faz muito sentido. 


Seu sorriso estava cheio de desgosto. E voc acha que faz sentido para mim? 
Eu no disse nada e ela colocou a taa de lado. Voc quer saber a verdade?, ela perguntou, sem 
esperar por uma resposta. S estou tentando chegar ao fim do dia com energia suficiente para 
enfrentar o dia seguinte. Ela fechou os olhos como se fosse doloroso admitir, em seguida abriu-os 
novamente. Sei o que voc ainda sente por mim, e gostaria de te dizer que desejo secretamente 
saber tudo que aconteceu com voc desde que enviei aquela carta horrvel. Mas, sendo honesta?, 
ela hesitou. No tenho certeza se quero realmente saber. S sei que quando voc apareceu ontem,
me senti... melhor. No tima, no bem, mas tambm no me senti mal.  isso. Nos ltimos seis 
meses, eu s me senti mal. Acordo todo dia nervosa, tensa, irritada, frustrada e aterrorizada com a
idia de perder o homem com quem casei.  s isso que sinto at o sol se pr, ela prosseguiu. 
Todos os dias, o dia inteiro, nos ltimos seis meses. Essa  a minha vida agora, mas a parte mais 


#
difcil  que daqui em diante s vai piorar. Agora tenho a responsabilidade adicional de tentar 
encontrar algum jeito de ajudar meu marido. De tentar encontrar um tratamento que o ajude. De 
tentar salvar a vida dele. 
Ela fez uma pausa e olhou atentamente para mim, tentando avaliar minha reao. 
Sei que havia palavras para confortar Savannah, mas como de costume, no sabia o que dizer. S 
sabia que ela ainda era a mulher por quem me apaixonei, a mulher que eu amava, mas que jamais 
poderia ter. 
Sinto muito, disse ela por fim soando cansada. No quero colocar voc em uma situao difcil. 
Ela abriu um sorriso frgil. Apenas queria que voc soubesse que estou feliz por voc estar aqui. 
Eu me concentrei nos veios da madeira da mesa, tentando manter meus sentimentos sob controle. 
Bom, disse. 


Ela perambulou em volta da mesa. Serviu mais um pouco de vinho na minha tala, embora eu s 
tivesse tomado um gole. Abro meu corao e tudo o que voc diz  Bom? 
O que voc quer que eu diga? 
Savannah virou-se e foi em direo  porta da cozinha. Que tambm est feliz por ter vindo, disse 
com a voz quase inaudvel. 
Com isso, ela saiu. No ouvi a porta da frente se abrir, ento deduzi que ela estivesse na sala. 
O comentrio me incomodara, mas no estava disposto a ir atrs dela. As coisas tinham mudado 
entre nos, e no havia modo de voltarem a ser como antes. Comi mais uma garfada de lasanha em 
teimosa desobedincia, perguntando o que ela queria de mim. Foi ela quem mandou a carta, foi ela 
quem terminou tudo. Foi ela quem se casou. Iramos fingir que nada daquilo havia acontecido? 
Terminei de comer, levei os dois pratos para a pia e os enxagei. Pela janela salpicada de chuva, vi 
meu carro e pensei que devia simplesmente sair sem olhar para trs. Seria mais fcil para ns dois 
assim. Mas quando vasculhava os bolsos em busca das chaves, congelei. Em meio ao tamborilar da 
chuva no telhado, ouvi um som proveniente da sala de estar, um som que desarmou minha raiva e 
confuso. Savannah, me dei conta, estava chorando. 
Tentei ignorar o som, mas no consegui. Peguei o vinho e entrei na sala. 
Savannah estava sentada no sof, o copo de vinho em suas mos. Ela levantou o rosto quando 
entrei. 


L fora, o vento aumentara, e a chuva caia ainda mais forte. Para alm da janela da sala, um 
relmpago brilhou, seguido pelo estrondo do trovo, longo e grave. 
Sentei ao lado dela, coloquei meu copo na mesa da centro e olhei ao redor. Em cima da lareira havia 
fotografias de Savannah e Tim no dia do casamento: uma onde eles cortavam o bolo, e outra na 
igreja. Ela estava radiante. Desejei que fosse eu a seu lado no retrato. 
Desculpe, disse ela. Sei que no devia estar chorando, mas no posso evitar.
 compreensvel, murmurei. Tem muita coisa acontecendo com voc. 
No silencio, ouvi as rajadas de chuva batendo contra as vidraas. 
Que tempestade, observei, agarrando-me s palavras para preencher o silncio tenso. 
Sim, ela disse, mal ouvindo. 
Voc acha que Alan vai ficar bem? 
Ela bateu os dedos contra o vidro. Ele no sai ate parar de chover. Ele no gosta de relmpagos. 
Mas no deve durar muito. O vento vai empurrar a tempestade para a costa. Pelo menos,  assim 
que tem sido ultimamente. Ela hesitou. Voc se lembra da tempestade que enfrentamos? Quando 
levei voc para a casa que estvamos construindo? 
Claro. 
Ainda penso naquela noite. Foi a primeira vez que disse que te amava. Eu estava me lembrando 
daquela noite outro dia. Estava sentada aqui como agora. Tim estava no hospital, Alan ficou com ele 
e, enquanto olhava a chuva, tudo voltou. A memria era to viva, parecia que tinha acabado de 
acontecer. E ento a chuva parou e sabia que era hora de alimentar os cavalos. Voltei  minha vida 
normal de novo, e de repente foi como se eu tivesse apenas imaginado tudo. Como se tivesse 


#
acontecido com outra pessoa, algum que nem conheo mais. 
Ela se inclinou para mim. O que voc mais se lembra?, ela perguntou. 
De tudo, disse eu. 


Ela olhou para mim sob seus clios. Nada se destaca? 
A tempestade l fora tornou a sala escura e ntima, e senti um arrepio de ansiedade e culpa sobre 
aonde aquilo iria parar. Eu a desejava mais do que j desejei qualquer pessoa, mas no fundo 
compreendia que Savannah no era mais minha. Senti a presena de Tim por todos os lados e sabia 
que ela estava fora de si. 
Tomei um gole de vinho, em seguida devolvi o copo  mesa. 
No. Mantive a voz firme. Nada se destaca. Mas foi por isso que voc quis que eu sempre 
olhasse para a lua, certo? Para me lembrar de tudo. 
Mas no disse que ainda saa para olhar a lua. Apesar da culpa que sentia por estar ali, me 
perguntava se ela tambm havia sado. 
Quer saber do que eu mais me lembro?, ela perguntou. 
Quando quebrei o nariz do Tim? 
No. Ela riu, depois ficou sria. Da vez que fomos  igreja. Voc se deu conta que foi a nica 
vez que vi voc usando gravata? Voc devia se arrumar com mais freqncia. Ficou muito bonito. 
Ela refletiu um pouco antes de olhar para mim novamente. 
Voc est saindo com algum?, perguntou. 
No. 
Ela assentiu. Foi o que imaginei. Seno voc teria mencionado algo.
Ela virou-se para a janela.  distncia, via-se um dos cavalos a calope na chuva. 
Eu vou ter que aliment-los daqui a pouco. Tenho certeza que eles j esto querendo saber onde 
estou. 
Eles vo ficar bem, assegurei. 
Fcil para voc dizer. Confie em mim, eles podem ficar to esquisitos quanto pessoas quando esto 
com fome. 
Deve ser difcil cuidar de tudo sozinha. 
. Mas que escolha eu tenho? Pelo menos o nosso patro foi compreensivo. Tim est afastado e 
quando ele est no hospital, eles me deixar ficar fora o tempo que for preciso. 
Ento, em tom de provocao, ela acrescentou: Assim como no Exrcito, certo? 
Oh sim. Exatamente igual. 
Ela deu uma risadinha, depois ficou sria novamente. 
Como foi no Iraque? 


Eu estava prestes a fazer o meu comentrio usual sobre a areia, mas disse:   difcil descrever. 
Savannah esperou, e alcancei meu copo de vinho, detendo-me. Mesmo com ela, no tinha certeza se 
queria entrar nesse terreno. Mas estava acontecendo algo entre ns, algo que eu desejava, mas 
tambm no desejava. Obriguei-me a olhar para a aliana de Savannah e imaginar a traio que, 
sem dvida, ela sentiria mais tarde. Fechei os olhos e comecei pela noite da invaso. 
No sei quanto tempo falei, mas foi o suficiente para a chuva passar. Com o sol ainda completando 
sua lenta descendente, brilhavam no horizonte as cores do arco-ris. Savannah reabasteceu sua taa. 
Quando terminei, estava totalmente exausto e sabia que no falaria daquilo nunca mais. 
Savannah permaneceu em silncio, fazendo apenas perguntas ocasionais para demonstrar que estava 
ouvindo a tudo que eu contei.
 diferente do que eu imaginava, ela observou. 
Sim?, perguntei. 
Quando voc passa os olhos pelas manchetes ou l as histrias na maior parte do tempo, os nomes 
de soldados e de cidades iraquianas so apenas palavras. Mas para voc,  pessoal...  real. Talvez 
real demais. 
Eu no tinha mais nada a acrescentar, e senti que ela tomava minha mo. Seu toque fez algo pular 


#
dentro de mim. 
Queria que voc no tivesse que ter passado por isso. 
Apertei a mo dela e senti a resposta na mesma intensidade. Quando ela finalmente soltou, a 
sensao do toque permaneceu e, como um velho hbito redescoberto, a vi colocar uma mecha de 
cabelo atrs da orelha. A viso me doeu por dentro.
 estranho como funciona o destino, disse, sua voz quase em um sussurro. Voc imaginou que 
sua vida iria acabar assim? 


No, eu disse. 
Nem eu, ela respondeu. Quando voc voltou para a Alemanha, sabia que ns nos casaramos um 
dia. Isso era mais certo do que qualquer coisa na minha vida. 
Olhei para meu copo enquanto ela continuava. 
Ento na sua segunda licena, tive ainda mais certeza. Especialmente depois que fizemos amor. 
No..., balancei a cabea. No v por a. 
Porqu?, ela perguntou. Voc se arrepende? 
No. No podia suportar olhar para ela. Claro que no. Mas voc est casada agora. 
Mas aconteceu, disse ela. Voc quer que eu esquea? 
No sei, disse. Talvez. 
No posso, ela disse, parecendo surpresa e magoada. Foi minha primeira vez. Nunca vou 
esquecer, e a seu prprio modo, ser sempre especial para mim. O que aconteceu entre ns foi 
lindo. 
No confiava em mim para responder, e depois de um momento, ela se recomps. Inclinando-se  
frente, ela perguntou: Quando voc descobriu que eu tinha casado com Tim, o que achou? 
Esperei para responder, escolhendo minhas palavras com cuidado. Meu primeiro pensamento foi 
que, de certa forma, fazia sentido. Ele estava apaixonado por voc h anos. Percebi assim que o 
conheci. Passei a mo sobre o rosto. Depois, me senti... em conflito. Fiquei feliz por voc ter 
escolhido algum como ele, porque ele  um cara legal, e vocs dois tm muito em comum mas 
ento eu... fiquei triste. No teramos de esperar muito. Eu teria sado do exrcito h quase dois anos 
agora. 


Ela apertou os lbios. Lamento, murmurou. 
Eu tambm. Tentei sorrir. Se voc quer minha opinio honesta, acho que voc deveria ter 
esperado por mim. 
Ela riu honestamente, e fiquei surpreendido com o olhar de saudade em seu rosto. Ela pegou a taa 
de vinho. 
Tambm estive pensando sobre isso. Onde estaramos, onde seria nossa casa, o que estaramos 
fazendo com nossas vidas. Especialmente, recentemente. Ontem  noite, depois que voc saiu, s 
conseguia pensar nisso. Sei que parece terrvel, mas, nos ltimos dois anos, tenho tentando me 
convencer que nosso amor, mesmo sendo real, nunca teria durado. Ela tinha a expresso desolada. 
Voc realmente teria se casado comigo, no ? 
Em um piscar de olhos. E ainda casaria, se eu pudesse. 
O passado de repente parecia pairar sobre ns, em sua esmagadora intensidade. 
Foi real, no foi? Sua voz tremia. Voc e eu? 
O cinza do crepsculo refletia em seus olhos enquanto ela esperava a resposta. Nos momentos que 
se seguiram, senti o peso do prognstico de Tim pairando sobre ns. Meus pensamentos 
desembestados eram mrbidos e errados e, no entanto, eles existiam. Eu me odiava s de pensar na 
vida depois de Tim, desejando afastar tais pensamentos. 
E ainda assim, no conseguia. S queria tomar Savannah em meus braos, abra-la, reconquistar 
tudo o que havamos perdido nos anos que ficamos separados. Instintivamente, comecei a inclinar-
me para ela. 
Savannah sabia o que estava por vir, mas no se afastou. No no inicio. Com meus lbios se 
aproximando dela, no entanto, ela rapidamente se virou e derramou vinho em ns dois. 


#
Ela deu um pulo, colocou a taa na mesa e puxou a blusa para longe da pele. 
Sinto muito, disse.
Tudo bem, ela disse. Vou me trocar. Tenho que colocar de molho  umas das minhas favoritas. 
Ok, disse. 


Observei-a sair da sala e atravessar o corredor. Assim que ela entrou no quarto da direita, eu 
praguejei. Balancei a cabea diante da minha prpria estupidez, ento notei o vinho na minha 
camisa. Levantei-me e entrei no corredor, procurando o banheiro. 
Girei a maaneta ao acaso, e dei de cara comigo mesmo no espelho do banheiro. Na imagem 
refletida ao fundo, vi Savannah pela porta entreaberta do quarto do outro lado do corredor. Ela 
estava sem blusa, de costas para mim, e embora eu tentasse, no consegui desviar o olhar. 
Ela deve ter sentido, pois olhos sobre os ombros na minha direo. Pensei que ela fosse fechar a 
porta de repente ou se cobrir, mas ela no o fez. Em vez disso, encarou-me nos olhos, querendo que 
eu continuasse olhando para ela. Ento, devagar, se virou. 
Ficamos ali nos olhando atravs do reflexo do espelho, s o corredor estreito nos separava. Seus 
lbios estavam entreabertos, e ela levantou um pouco o queixo; mesmo se eu vivesse mil anos, 
jamais esqueceria como ela estava deslumbrante naquele momento. No queria nada alem de 
atravessar o corredor e ir at l, sabendo que ela me desejava tanto quanto eu a desejava. Mas fiquei 
onde estava, congelado pelo pensamento de que um dia ela me odiaria pelo que ambos obviamente 
queramos. 
E Savannah, que me conhecia melhor do que ningum, baixou os olhos como se de repente tivesse 


o mesmo entendimento. Ela me deu as costas no mesmo momento em que a porta da frente abriu, e 
ouvimos um gemido alto na escurido. 
Alan... 
Eu me virei e corri para a sala de estar, Alan j tinha entrado na cozinha, e ouvi as portas dos 
armrios sendo batidas, enquanto ele gemia, quase como se estivesse morrendo. Parei, sem saber o 
que fazer. Um momento depois, Savannah passou correndo e ajeitando a blusa. 
Alan! Estou chegando!, ela gritou com a voz frentica. Vai ficar tudo bem! 
Alan continuou a gemer, e as portas a bater. 
Voc precisa de ajuda?, perguntei. 
No. Ela sacudiu a cabea. Deixa eu cuidar disso. Isso acontece algumas vezes quando ele chega 
no hospital. 
Ela correu para a cozinha, e mal pude ouvi-la falando com ele. Sua voz se perdia em meio ao 
clamor, mas tinha firmeza. Mudando um pouco de lugar, eu a vi ao lado dele, tentando acalm-lo. 
No parecia ter qualquer efeito, e senti desejo de ajudar, mas Savannah permaneceu calma. Ela 
continuou a falar com voz inalterada e colocou a mo sobre a dele, acompanhando o bater das 
portas. 
Finalmente, depois do que pareceu uma eternidade, o bate-bate ficou mais lento e rtmico; por fim 
lentamente cessou. Os gemidos de Alan seguiram o mesmo padro. A voz de Savannah estava mais 
suave, e eu no podia mais distinguir as palavras. 
Sentei no sof. Minutos depois, levantei e fui at a janela. Estava escuro, as nuvens haviam se 
dissipado e havia um redemoinho de estrelas acima das montanhas. Curioso para saber o que estava 
acontecendo, fui at um ponto da sala de estar de onde vislumbrava a cozinha. 
Savannah e Alan estavam sentados no cho, encostados nos armrios. Alan repousava a cabea no 
colo dela, que acariciava seus cabelos com ternura. Ele piscava rapidamente, como se estivesse 
ligado e precisasse ficar sempre em movimento. As lgrimas brilhavam nos olhos de Savannah, mas 
havia concentrao em seu olhar, e percebi que ela estava determinada a no demonstrar o quanto 
sofria. 
Eu o amo, ouvi Alan dizer. A voz profunda do hospital desapareceu; aquele era o apelo dolorido 
de um garotinho assustado. 
Eu sei, querido. Tambm o amo tanto. Sei que voc est com medo, e tambm estou com medo. 

#
Ouvia no tom da voz que ela falava a verdade. 
Eu o amo., disse Alan repetidamente. 
Ele vai sair do hospital em dois dias. Os mdicos esto fazendo tudo o que podem. 
Eu o amo. 


Eu sei. Eu tambm amo. Mais do que voc pode imaginar. 
Continuei a observ-los, sentindo-me um intruso, percebendo, de repente, que no pertencia quele 
ambiente. Em todo o tempo que estive l, Savannah no levantou os olhos, e me senti assombrado 
por tudo que havamos perdido. 
Apalpei meu bolso, peguei as chaves e voltei-me para a sada, sentindo as lgrimas queimando em 
meus olhos. Abri a porta, e apesar do rangido alto, sabia que Savannah no iria ouvir nada. 
Desci os degraus cambaleando, pensando se j me sentira to cansado antes. E mais tarde, dirigindo 
de volta ao hotel, ouvindo o motor do carro parado nos semforos, sabia que as pessoas na rua iriam 
ver um homem chorando, um homem cujas lagrimas pareciam no ter fim. 
*** 


Passei o resto da noite sozinho no meu quarto de hotel. L fora, ouvia estranhos passando pela porta 
carregando suas bagagens. Quando carros entravam no estacionamento, meu quarto era 
momentaneamente iluminado pelos faris que projetavam imagens fantasmagricas nas paredes. 
Pessoas em movimento, pessoas tocando a vida em frente. Deitado na cama, sentia inveja e me 
perguntava quando poderia dizer o mesmo de mim. 
Nem me incomodei em tentar dormir. Pensei sobre Tim, mas, estranhamente, em vez da figura 
esqulida do quarto do hospital via apenas o jovem que conheci na praia, um estudante arrumadinho 
de sorriso fcil para qualquer um. Pensei em meu pai e imaginei como teriam sido suas ultimas 
semanas de vida. Tentei visualizar os funcionrios ouvindo enquanto ele falava sobre moedas e 
rezei para que o diretor estivesse certo quando disse que meu pai morreu pacificamente durante o 
sono. Pensei sobre Alan e no mundo estranho habitado por sua mente. Mas, principalmente pensei 
em Savannah. Repassei tudo o que aconteceu naquele dia, e nutri-me interminavelmente do 
passado, tentando escapar do vazio que no desaparecia. 
De manha, vi o sol nascer, uma bolinha de ouro emergindo da terra. Tomei banho e coloquei os 
poucos pertences que trouxera para o quarto de volta no carro. Pedi o caf da manha na lanchonete 
do outro lado da rua, mas quando o prato fumegante foi colocado na minha frente, empurrei-o de 
lado e peguei a xcara de caf, pensando se Savannah j estava em p, alimentando os cavalos. 
Eram nove da manh quando apareci no hospital. Assinei o registro e peguei o elevador para o 
terceiro andar; percorri o mesmo corredor do dia anterior. A porta de Tim estava entreaberta, e ouvi 
a televiso. 
Ele me viu e sorriu surpreso. Oi John, disse ele, desligando a televiso. Entre. Eu estava s 
matando o tempo. 
Sentei na mesma cadeira do dia anterior, e percebi que sua cor tinha melhorado. Ele se esforou 
para sentar mais reto na cama, antes de se concentrar em mim novamente. 
O que o traz aqui to cedo? 


Estou me preparando para ir embora., disse. Tenho que pegar o avio para a Alemanha amanha. 
Voc sabe como . 
Sim, eu sei. Ele balanou a cabea. Espero sair do hospital ainda hoje. Passei muito bem a noite 
passada. 
Bom, eu disse. Estou contente por ouvir isso. 
Estudei-o, procurando sinal de desconfiana em seu olhar, qualquer noo do que quase aconteceu 
na noite anterior, mas no vi nada. 
Por que voc realmente veio aqui, John?, ele perguntou. 
No tenho certeza, confessei. Senti que precisava v-lo. E que talvez voc tambm quisesse me 
ver. 


#
Ele assentiu e virou para a janela; de seu quarto, no dava pra ver nada, exceto um grande ar 
condicionado. Quer saber o pior disso tudo? Ele no esperou a resposta. Eu me preocupo com 
Alan, disse. Eu sei o que est acontecendo comigo. Sei que as chances no so boas e que h uma 
grande probabilidade que eu no sobreviva. Posso aceitar isso. Como disse ontem, ainda tenho a 
minha f. Sei, ou pelo menos eu espero que existe algo melhor esperando por mim. E Savanaah... 
sei que ela vai ficar devastada se acontecer algo comigo. Mas sabe o que aprendi quando perdi meus 
pais? 
Que a vida no  justa? 
Sim, isso tambm. Mas tambm aprendi que  possvel seguir em frente, no importa quanto 
parea impossvel. Com o tempo, a dor... diminui. Pode no desaparecer completamente, mas
depois de um tempo no  massacrante.  o que vai acontecer com Savannah. Ela  jovem, ela  
forte, e vai conseguir superar. Mas Alan... no sei o que vai acontecer com ele. Quem vai cuidar 
dele? Onde ele vai viver? 
Savannah vai cuidar dele. 


Eu sei que ela faria isso. Mas  justo com ela? Esperar que ela carregue essa responsabilidade? 
No importa se  justo. Ela no vai deixar que nada acontea a ele. 
Como? Ela vai ter de trabalhar, quem vai cuidar de Alan ento? Alm disso, ele ainda  jovem. 
Tem apenas dezenove anos. Esperar que ela cuide dele nos prximos cinqenta anos? Para mim 
fcil. Ele  meu irmo. Mas Savannah..., ele balanou a cabea. Ela  jovem e bonita.  justo 
esperar que ela no se case de novo? 
Do que voc est falando? 
Ser que seu novo marido estar disposto a cuidar de Alan? 
Fiquei em silncio, ele ergueu as sobrancelhas. Voc estaria?, acrescentou. 
Abri a boca para responder, mas as palavras no saram. Seu rosto se tranqilizou.
 o que penso deitado aqui. Quer dizer, quando no estou passando mal. Na verdade, penso em um 
monte de coisas. Inclusive voc. 
Eu? 
Voc ainda a ama, no ? 
Mantive a expesso serena, mas mesmo ele leu meu rosto. Tudo bem, disse. J sei. Sempre 
soube. Ele pareceu quase melanclico. Ainda lembro o rosto de Savannah na primeira vez que ela 
falou sobre voc. Nunca tinha visto ela daquele jeito Fiquei feliz por ela, porque alguma coisa me 
fez confiar em voc imediatamente. Ela sentiu muito a sua falta no primeiro ano que voc ficou 
longe. Foi como se o corao dela se despedaasse um pouquinho todo dia. Ela s pensava em voc. 
Ento descobriu que voc no ia voltar, acabamos em Lenoir e meus pais morreram... Ele no 
terminou. Voc sempre soube que eu tambm esta apaixonado por ela, no ? 
Assenti. 


Acho que sim. Ele limpou a garganta. Eu a amava desde os doze anos. Mas s queria que ela 
fosse feliz. E, gradualmente, ela tambm se apaixonou por mim. 
Por que voc est me contando isso? 
Porque, disse ele, No foi igual. Sei que ela me ama, mas ela nunca me amou do jeito que ama 
voc. Nunca teve uma paixo ardente por mim, mas estvamos levando uma vida boa junto. Ela 
ficou to feliz quando comeamos o rancho... e fiquei muito feliz de poder fazer algo assim para 
ela. Estvamos felizes. Ento fiquei doente, mas ela est sempre aqui, cuidando de mim como eu 
cuidaria dela se fosse o contrrio. 


Ele parou em seguida, se esforando para encontrar as palavras certas, e notei o tormento em sua 
expresso. 
Ontem, quando voc entrou, vi o jeito que ela olhava para voc e entendi que ela ainda te ama. 
Mais do que isso, entendi que ela sempre vai te amar. Fiquei com corao partido, mas sabe de uma 
coisa? Ainda estou apaixonado por ela, e s quero que ela seja feliz na vida. Quero isso mais do que 


#
tudo.  tudo que eu sempre quis para ela. 
Minha garanta estava to seca que eu mal conseguia falar.  O que voc est dizendo? 
Estou dizendo para voc no esquecer Savannah, se acontecer alguma coisa comigo. E prometa 
que vai ador-la para sempre, assim como eu. 
Tim... 
No diga nada, John. Ele ergueu a mo, tanto para me calar quanto para se despedir. Basta 
lembrar o que eu disse, ok? 
Quando ele se virou, entendi que a conversa tinha acabado. 
Ento caminhei calmamente para fora do quarto, fechando a porta atrs de mim. 
*** 


Fora do hospital, apertei os olhos diante do sol forte da manh. Ouvi pssaros cantando nas arvores, 
mas embora os procurasse, eles ficaram escondidos de mim. 
O estacionamento estava cheio. Aqui e ali, havia pessoas caminhando para a entrada ou voltando 
para os carros. Todos pareciam to cansados quanto eu, como se o otimismo demonstrado aos entes 
querido no hospital desaparecesse assim que estivessem sozinhos. Sei que sempre  possvel haver 
milagres, no importa o quanto a pessoa esteja doente, e as mulheres na maternidade estavam 
alegres com seus recm-nascidos nos braos, mas a maioria dos visitantes, assim como eu, saa do 
hospital aos cacos. 
Sentei em um bando em frente ao hospital, perguntando por que tinha ido at ali, arrependido. 
Repasse minha conversa com Tim diversas vezes e a imagem de sua angstia fez-me fechar os 
olhos. Pela primeira vez em anos, meu amor por Savannah pareceu... errado. O amor deve trazer 
alegria, deve conceder paz, mas aqui e agora s provocava dor. Para Tim, para Savannah, at para 
mim. Eu no viera tentar seduzir Savannah ou arruinar um casamento... ou vim? No tinha certeza 
se eu era to nobre como imaginava, e tal constatao me fez sentir vazio como uma lata de tinta 
enferrujada. 
Tirei a foto de Savannah de minha carteira. Estaca amassada e gasta. Enquanto olhava aquele rosto, 
fiquei imaginando o que o prximo ano traria. No sabia se Tim iria viver ou morrer, e nem queria 
pensar nisso. Sabia que, no importa o que acontecesse, a relao entre mim e Savannah jamais 
seria a mesma do passado. Ns nos conhecemos em um momento livre de preocupaes e cheio de 
promessas; em seu lugar agora havia as duras lies do mundo real. 


Esfreguei as tmporas, impressionado com o pensamento de que Tim intuiu o que quase aconteceu 
entre mim e Savannah na noite anterior, que talvez ele at esperasse por isso. As palavras dele 
deixaram isso bem claro, assim como o pedido para que eu prometesse am-la com a mesma 
devoo que ele. Entendi exatamente o que ele sugeriu que eu fizesse se ele morresse, mas de 
algum modo, sua permisso me fez sentir ainda pior. 
Finalmente me levantei e comecei a caminhar lentamente para o carro. No sabia ao certo para onde 
ir, a no ser que precisava me afastar o mximo possvel do hospital. Precisava sair de Lenoir, 
apenas para ter uma chance de pensar. Enfiei as mos nos bolsos e pincei minhas chaves. 
Somente quando cheguei perto do meu carro, notei a caminhonete de Savannah estacionada ali ao 
lado. Savanaah estava sentada no banco do motorista e , quando me viu chegar, abriu a porta e saiu 
do carro. Ela esperou por mim, alisando a blusa enquanto me aproximava. 
Parei a poucos metros de distncia. 
John, ela disse, Voc saiu sem se despedir na noite passada. 
Eu sei. 
Ela assentiu ligeiramente. Ns dois compreendemos o motivo. 
Como voc sabia que eu estava aqui? 
Eu no sabia, disse ela. Passei no hotel e me disseram que voc fechou a conta. Quando cheguei 
aqui, vi seu carro e decidi esperar. Voc falou com Tim? 
Sim. Ele est bem melhor. Acha que vai sair do hospital ainda hoje. 
Essa noticia  boa, ela disse. Apontou para o meu carro. Voc est saindo da cidade? 


#
Tenho de voltar. Minha licena est acabando. 
Ela cruzou os braos. Voc iria se despedir? 
No sei, admiti. No tinha pensado to longe. 
Vi um flash de mgoa e decepo em seu rosto. O que voc e Tim conversaram? 
Olhei para o hospital por cima do ombro e depois de novo para ela. Voc deve fazer essa pergunta 
para ele. 


Ela crispou os lbios, seu corpo endureceu. Ento isso  adeus? 
Ouvi uma buzina na rua em frente e uma fila de carros parar de repente. O motorista de um Toyota 
vermelho manobrava para a outra pista, fazendo o mximo para contornar o trfego. Enquanto 
observava, percebi que estava imobilizado e que ela merecia uma resposta. 
Sim, disse, virando lentamente para ela. Acho que . 
Os ns brancos dos dedos se destacavam contra seus braos. Posso escrever para voc? 
Eu me esforcei para no desviar o olhar, desejando mais uma vez que nosso destino tivesse sido 
diferente. No tenho certeza se  uma boa idia. 
No entendo. 
Sim, voc entende, disse. Voc  casada com Tim, no comigo. Deixei as palavras assentarem, 
enquanto reunia foras para continuar a falar. Ele  um bom homem, Savannah. Um homem 
melhor do que eu, isso  certo, e estou feliz que voc tenha se casado com ele. Por mais que te ame, 
no estou disposto a romper um casamento por causa disso. E, no fundo, acho que voc tambm 
no. Mesmo que voc me ame, voc o ama tambm. Demorei um pouco para perceber isso, mas 
agora tenho certeza. 
No mencionei o futuro incerto de Tim, e vi os olhos dela comeando a encher de lgrimas. 
Ser que vamos nos ver de novo? 
No sei. As palavras queimaram na minha garganta. Mas espero que no. 
Como voc pode dizer isso?, ela perguntou com a voz vacilante. 
Porque significa que Tim vai ficar bem. E tenho a sensao de que tudo vai acabar como deveria. 
Voc no pode dizer isso! Voc no pode prometer isso! 
No, disse. Eu no posso. 
Ento porque  que tem que acabar agora? Desse jeito? 
Uma lagrima escorreu em seu rosto, e apesar de saber que deveria simplesmente ir embora, dei um 
passo na direo dela. Cheguei perto e enxuguei a lagrima gentilmente. Nos olhos dela, vi medo e 
tristeza, raiva e traio. Mas acima de tudo, vi uma suplica para eu mudar de idia. 
Engoli a seco. 


Voc  casada com Tim, e seu marido precisa de voc. Todos vocs. No h espao para mim, e 
ambos sabemos que no deveria haver. 
Mais lagrimas comearam a correr pelo seu rosto, e senti meus olhos encherem de gua. Inclinei-
me, beijei Savannah suavemente nos lbios e a abracei com firmeza. 
Eu te amo, Savannah, e sempre vou te amar, murmurei. Voc  a melhor coisa que j me 
aconteceu. Voc foi minha melhor amiga e minha amante, e no me arrependo de um s momento. 
Voc fez eu me sentir vivo de novo, e acima de tudo, voc me deu meu pai. Nunca vou me esquecer 
disso. Voc sempre ser a melhor parte de mim. Sinto que tenha de ser assim, mas tenho que partir, 
e voc tem que ver seu marido. 
Enquanto eu falava, ela soluava convulsivamente, e continuei a abra-la por um longo tempo. 
Quando finalmente nos separamos, percebi que fora nosso ultimo abrao. Me afastei, olhando nos 
olhos de Savannah. 
Eu tambm te amo, John, ela disse. 
Adeus. Acenei. 
E com isso, ela limpou o rosto e comeou a caminhar em direo ao hospital. 
*** 


#
Dizer adeus foi a coisa mais difcil que j fiz. Parte de mim queria dar meia volta, correr para o 
hospital e dizer que eu estaria sempre ao lado dela, contar a ela o que Tim havia me dito. Mas no o 
fiz. 
Na sada da cidade, parei em uma pequena loja de convenincia. Precisava de gasolina e enchi o 
tanque; comprei uma garrafa de gua. No balco, eu vi o pote colocado pelo proprietrio para 
arrecadar dinheiro para Tim, e fiquei olhando. Estava cheio de moedas e notas de dlar; no rtulo, 
havia os dados de uma conta em um banco local. Pedi para trocar algumas notas por moedas de 
vinte e cinco centavos e o heme atrs do balco me atendeu. 
Estava entorpecido no caminho de volta para o carro. Abri a porta e comecei a vasculhar os 
documentos que o advogado me entregara, procurando tambm por um lpis. Achei o que precisava 
e fui at o telefone pblico. Ficava perto da estrada, em meio ao barulho dos carros. Liguei para o 
servio de informaes e tive que apertar o telefone contra a orelha para ouvir a voz 
computadorizada me dar o nmero solicitado. Rabisquei em uma folha dos documentos e desliguei. 
Coloquei algumas moedas no aparelho, e fiz uma chamada interurbana. Ouvi outra voz eletrnica 
pedindo mais dinheiro. Coloquei mais moedas. Em breve, ouvi o telefone chamar. 
Quando foi atendido, disse quem eu era e perguntei se o homem se lembrava de mim. 
Claro que sim, John. Como vai? 
Bem, obrigado. Meu pai faleceu. 
Houve uma pequena pausa. Sinto muito em ouvir isso, disse ele. Voc est bem? 
No sei, disse. 
Posso fazer alguma coisa por voc? 
Fechei os olhos, pensando em Savannah e Tim e esperando que, de algum modo, meu pai me 
perdoasse pelo que estava prestes a fazer. Sim, disse ao negociante de moedas. Na verdade, voc 
pode sim. Quero vender a coleo de moedas do meu pai, e preciso do dinheiro o mais rpido 
possvel. 

#
Eplogo 

Qual o real significado do verdadeiro amor? 
Penso de novo sobre isso sentado na encosta observando Savannah entre os cavalos. Por um 
momento, retorno  noite em que apareci no rancho para encontr-la... mas essa visita, um ano atrs, 
parece mais e mais como um sonho. 
Vendi as moedas por menos do que valiam, e pea por pea. Sabia que os restos da coleo de meu 
pai seriam distribudos entre pessoas que nunca se preocupariam com elas tanto quanto ele. No fim, 
salvei apenas o nquel cabea de bfalo, porque simplesmente no suportei abrir mao dele. Alm dafoto,  tudo que sobrou do meu pai, e sempre carrego comigo.  um 
talism da sorte, que traz 
consigo todas as lembranas do meu pai; vez ou outra tiro do bolso e olho para ele. Passo os dedos 
pela embalagem plstica onde guardo a moeda e em um instante vejo meu pai lendo a Greysheet em 
seu escritrio ou sinto cheio de bacon fritando na cozinha. Descobri que ela me faz sorrir, e por um 
momento, sinto que no estou mais sozinho. 
Mas estou, e parte de mim sabe que sempre estarei. Detenho-me nesse pensamento enquanto 
procuro as figuras de Savannah e Tim ao longe, voltando para casa de mos dadas; a forma que se 
tocam demonstra o afeto genuno que sentem um pelo outro. Eles formam um belo casal, devo 
admitir. Tim chama Alan, que se junta a eles, e os trs vo para dentro. Imagino por um momento 
sobre os detalhes de sua vida cotidiana, mas estou plenamente ciente de que no  da minha conta. 
Ouvi dizer, no entanto, que Tim no esta mais fazendo tratamento e muitas pessoas na cidade 
esperam que ele se recupere. 

Soube pelo advogado da cidade que contratei na ultima visita a Lenoir. Entrei no escritrio com um 
cheque e pedi que ele depositasse na conta aberta para financiar o tratamento de Tim. Eu conhecia 
os privilgios da relao advogado-cliente, e sabia que ele no diria nada a ningum na cidade. Era 
importante no deixar Savannah saber o que eu tinha feito. Em qualquer casamento, s h espao 
para duas pessoas. 
Entretanto, pedi ao advogado para me manter informado, e falei diversas vezes com ele no ano 
passado enquanto eu estava na Alemanha. Ele contou sobre quando contatou Savannah para dizer 
que um cliente queria fazer uma doao annima e ser informado sobre o progresso de Tim. Ela 
desabou e caiu no choro quando ele disse a ela a quantia. Contou que, uma semana depois, ela levou 
Tim ao MD Anderson e ficou sabendo que ele era o candidato ideal para a vacina experimental que 

o instituto comearia a testar em novembro. Contou que, antes de comear o tratamento 
experimental, Tim fez bioquimioterapia e terapias auxiliares, e que os mdicos estavam 
esperanosos de que isso mataria as clulas cancergenas concentradas nos pulmes. Dois meses 
atrs, o advogado me ligou para contar que o tratamento tinha sido um sucesso, mais que os 
mdicos esperavam, e agora Tim estava tecnicamente em remisso. 
Isso no garantia que ele iria viver at uma idade avanada, mas garantia uma chance de lutar, e isso 
 tudo que eu desejava para ambos. Queria que eles fossem felizes. Queria que ela fosse feliz. E, 
pelo o que eu tinha testemunhado hoje, eles eram. Vim porque precisava saber se tinha tomado a 
deciso certa ao vender as moedas por causa do tratamento de Tim; se tinha feito bem em nunca 
mais entrar em contato com ela. E, dali de cima, soube que a resposta era sim. 
Vendi a coleo porque finalmente compreendi o que o verdadeiro amor realmente significa. Tim 
havia me dito, e me mostrado, que o amor significava pensar mais na felicidade da outra pessoa do 
que na prpria, no importa quo dolorosa seja sua escolha. Sa do quarto de hospital de Tim 
sabendo que ele estava certo. Mas fazer a coisa certa no foi fcil. Hoje em dia, levo a vida sentindo 
que falta algo, que preciso de algum modo tornar minha vida completa. Sei que meu sentimento por 
Savannah nunca mudar, e sempre terei dvidas sobre a escolha que fiz. 
E s vezes me pergunto se Savannah sente o mesmo. O que, naturalmente, explica o outro motivo 
pelo qual vim a Lenoir. 
*** 

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Olho para o rancho quando a noite cai.  a primeira noite de lua cheia e, para mim, as lembranas 
sempre viro. Sempre vm. Prendo a respirao quando a lua comea sua lenta ascenso sobre as 
montanhas, o brilho leitoso contornando o horizonte. As rvores se tornam prata lquida, e embora 
eu deseje mergulhar nas memrias agridoces, viro-me para observar o rancho novamente. 
Durante muito tempo, espero em vo. A lua continua sua lenta trajetria pelo cu. Uma a uma, as 
luzes da casa se apagam. Concentro-me ansiosamente na porta da frente, esperando pelo impossvel. 
Sei que ela no vai aparecer, mas no consigo me forar a ir embora. Inspiro lentamente, na 
esperana de cham-la para fora. E quando finalmente, a vejo sair de casa, sinto um formigamento 
estranho na coluna, algo que nunca tinha experimentado antes. Ela para na escada, e ento se vira 
parecendo olhar na minha direo. Congelo sem motivo, sei que  impossvel ela me ver. De onde 
estou, observo Savannah fechar a porta silenciosamente atrs de si. Ela desce lentamente os degraus 
e vaga pelo jardim. 
Ela para e depois cruza os braos, olhando para trs, para se certificar que ningum a seguiu. 
Finalmente, parece relaxar. Ento, sinto como se estivesse presenciando um milagre, como, bem 
devagar, ela ergue o rosto para a lua. Eu a vejo sorver a imagem da lua cheia, inundada pelas 
memrias libertas, no desejando nada alm de faz-la saber que estou aqui. No entanto, fico onde 
estou e tambm olho para a lua. Por um breve instante,  como se estivssemos juntos de novo. 

FIM! 

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